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A agonia é quase ininterrupta. Aquele balançar nauseante de querer colocar algo pra fora, mas estou vazia, de alimento. Mal nutrida a ponto de engolir os textos gordurosos de pessoas que nem finalizam um parágrafo descente e sinto uma fome absurda. O desespero é grande, percebo que o que quer esteja dentro de mim precisa sair imediatamente. Morrerei disso? Acredito que não, mas ultimamente não tenho acreditado em muita coisa mesmo. Agonia, de novo, coloco o dedo na garganta e caem algumas letras, pouquíssimo sentido, que pobreza de espírito tenho dentro de mim. Que tal se fosse mais produtiva? Continuo envergada, mas ao que parece o que está preso ali dentro não pode passar pela garganta. É grande demais, pesado como uma criança, um feto rodeado pelas expectativas de um futuro brilhante, é isto, expectativa demais, preciso de uma parteira. Quando tomo consciência das proporções sinto aquela coisa revirando, se construindo, ganhando forma talvez e o sentimento agora é angústia por não saber o que é.​

Nojo de mim por ter permitido uma coisa adentrar meu organismo e se prender nas minhasentranhas enquanto cresce e se alimenta, vergonhoso. Nossa! Isso com certeza é uma contração, a coisa vai sair, masnovamente só o que sai de mim são uns parágrafos meio apelativos, "me leia", eles parecem dizer. Mas quem leriaum período tão entediante. Estou muito chateada, o material que estou consumindo não adianta de nada, tudo semvitaminas, muito diferente das obras que eu costumava saborear na varanda. Outra contração. "Uma parteira,urgente", consigo gritar. E lá se vem o tinteiro às pressas, "mais rápido". As folhas logo atrás, atrapalhadas. Malchegam e a coisa nasce, não tão gloriosa como uma criança, mas tão emocionante quanto. Aqui está meu textoescrito depois de quase uma década adormecida.​

Valéria Costa

30 de Julho de 2021 às 18:20 0 Denunciar Insira Seguir história
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Conheça o autor

Valéria Costa Adoro a vida e toda sua composição. Amate de literatura e qualquer coisa que possa ser leitura. Estudante de Letras apaixonada pela arte de lecionar. Observadora das estrelas, precursora da liberdade e fã de café (muito café mesmo).

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