andresa2013 Andressa Alves

SINOPSE. Drama 2020. Baseada em história real. Alice é uma garota meiga, doce e feliz, que tinha como principal objetivo encontrar um grande amor e viver o seu próprio faz de conta. Alice vive aos cuidados de sua família conservadora. Até que um dia, por uma distração do destino, ela conhece Klaus, o seu vizinho. Klaus é um garoto de cabelos castanhos, lábios carnudos, possui um sorriso fácil e abusado, e que, sem planejar, acaba mudando todos os planos da loira, por quem acaba se encantando. Mas Alice tem muitas barreiras como o caso de sua família conservadora, e Klaus é um rapaz solto e precisa aprender a superar as suas próprias dificuldades, onde compromisso não é o seu maior objetivo, apesar de que quando ele conhecer Alice, ele passará a ter uma outra visão diferente sobre ter um relacionamentos . Alice e Klaus vão viver sensações que nunca imaginaram viver, mas irão enfrentar diversos conflitos, proibições e etc... Vão constatar muito rápido que o amor de ambos não se encaixa em seus caminhos.


Drama Todo o público.

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Capitulo 1- Domingo de Sol

Título provisório: Entre a serpente e a estrela

Roteirista: Andressa Alves

Adaptação: Gláucio Imada Tamura.



Capítulo 1

Domingo de sol. No termômetro, altas temperaturas. Bem como dissera a meteorologista no derradeiro jornal. A praia de Santos nunca estivera tão apinhada de gente. Gente de todo o tipo; banhistas, ambulantes, salva-vidas com olhos de águia. E entre elas, bem no meio daquele furdunço todo de gente, Alice. Aliás, Alice e seu sorvetinho de morango derretendo-se debaixo dos raios solares que, atravessando o guarda-sol colorido sob o qual se abrigava junto à mãe, ressaltavam ainda mais a beleza da menininha de olhos verdes, com o loiro dos seus cabelos esvoaçando-se livremente ao vento. A garotinha tinha 08 anos. Apenas 08 anos. No entanto, era como se tivesse mais. Uns 10 ou 11 pelo menos, pelos anos de sofrimentos que passou junto ao pai. Agora, falecido pai. Por isso, ela amadureceu cedo, e já sabia diferenciar, pelo menos assim a mãe sempre a ensinou; a importância de se ouvir o coração. Em todas as circunstâncias. Sempre.

— Mamãe, por que temos que morar com a vovó e a tia Aline?

O falecido pai, ou, infeliz falecido pai, infelizmente não as deixou em feliz situação. Dívidas e mais dívidas. Durante sua vida, ele sempre contraiu muito disso. Sem medo. Achava-se imortal e, que tudo poderia ser pago depois. Mas o depois foi um câncer avassalador que acabou corroendo o que de mais importante ele tinha em vida; o tempo que ainda lhe restava com a jovem mulher e a linda filha. E seu arrependimento ficou mais do que provado na palavra que o moribundo sibilou antes de partir: “Perdão!”. Depois disso, espirou. A casa foi o primeiro bem que o banco tomou. Sem falar nos móveis e aquelas quinquilharias diversas tão necessárias ao bem viver. Pelo menos lhes sobraram as roupas do corpo.

— Vamos ficar bem, — Disse Luana, a mãe. Depois ela fincou o olhar no horizonte das ondas que quebravam aos pés de inúmeros banhistas postos de pé na areia. — Vovó Rosa não vê a hora de te ver. Saindo daqui, Alice, vamos direto para a casa dela.

Mas não ainda, ou, ainda não, pois ainda restavam horas antes de um belo entardecer nas areias da praia; os ventos errantes do litoral soprando, o sol escaldante queimando suas peles, novas experiências despontando promessas no horizonte daquelas águas tão azuis e geladas. Naquele momento, Luana sentiu-se feliz. Depois este sentimento passou ao relembrar-se que somado às dificuldades vividas no momento, teria muito mais daquilo ao ter que se adaptar a casa da mãe, dona Rosa. Aliás, da mãe e de Aline, a irmã mais velha que nunca se casou, e ainda morava debaixo do mesmo teto. Alice também cresceria sob o mesmo teto, que ela, Luana, vivera até antes de se casar. Agora, lembranças antigas povoavam sua mente, mas ela deixou para sofrê-las depois, pois do que restava daquela linda tarde ensolarada na praia de Santos, com a filha se esbaldando em brincadeiras com outras crianças, Luana continuou desfrutando a brisa suave que passeava seu rosto, às vezes balançando a aba do seu chapéu, estremecendo o minúsculo biquíni verde musgo, expondo boa parte do seu belo corpo.

— Mamãe, eu tô com fome. — Disse Alice ao se aproximar. Seu nariz estava borrado com a areia molhada. — Ainda tem daquele sanduíche que a senhora fez?

— Senta aqui, filha, que a mamãe já vai pegar. De repente, a poucos metros delas, passaram-se um grupo de rapazes, e um deles, o mais sarado, sussurrou um elogio dito aos colegas, logo após ter levantado os óculos escuros em direção a Luana: — Nossa, que mamãe mais linda!

Ao ouvir a cantada, o coração de Luana estremeceu. E muito. Não conseguiu altear mais o olhar. O vento do litoral passeou suave por ali fazendo as folhas das palmeiras esvoaçarem, e um bando de gaivotas decolou das areias, grasnando a poucos metros acima do guarda-sol. E enquanto picotava o sanduíche em pedaços miúdos, pequenos o suficiente parar dar à filha, a mãe sussurrou algo que pareceu ser: — Parece que ainda estou viva, né?

— O que disse mamãe? — Perguntou Alice. Mas Alice não ouviu a mãe responder de volta, apenas testemunhou o rosto dela corar-se e um sorriso brotar tímido, relutante no cantinho dos lábios. Afinal, sua mãe lembrou-se que ainda estava viva! Pelo menos foi isso que os sinais lhe provaram naquele domingo de sol; a piscadela do pipoqueiro, o assobio do motorista de ônibus, e aqueles rapazes que, após o último episódio, retornaram duas ou três vezes fingindo comprar água de côco.

***

Foi apenas um cisco. Um pequeno e miserável cisco no olho de Alice para desencadear o que, desde que Luana fora morar na casa da mãe, dona Rosa, se tornara costumeiro suceder entre ela e Aline, a irmã: rixas diversas, oriundas de discussões relacionadas à melhor forma de criar Alice, já com 10 anos. Os moradores da Rua Tina de Morais, habituados a pouca movimentação de carros circulando na rua, aliada ao sossego do canto dos pássaros que, aos finais de tarde, se aglomeravam nas árvores, ora e outra eram sobressaltados por gritos emanando até seus quintais. Inferno de rotina. A casa das mulheres ásperas. Bom, pelo menos era esta a fama que circulava na vizinhança.

— FOI APENAS UM CISCO, ALINE! — Exclamou Luana, com o aspirador ainda posto na mão. A cesta de lixo estava sobre o sofá, enquanto pequenas partículas de poeiras espiralavam a sala de estar.

— SUA IRRESPONSÁVEL! NÃO SABE FAZER FAXINA NÃO, LUANA?! — Vociferou Aline. Em seguida acolheu a afilhada em seus braços. Alice, com o rosto para o alto, dava piscadas frenéticas, lutando para livrar-se do cisco — A ALICE ESTÁ SENTADA NO SOFÁ! QUE MERDA DE MÃE É VOCÊ, HEIN?!

Só dona Rosa para intervir. Às vezes, ela deixava pra lá. Por que esse negócio de ficar construindo paz, ainda que temporária, entre as irmãs que se enfrentavam desde pequenas, já não era tarefa para uma idosa de 80 anos. Pelo menos não mais. Agora a prioridade era a Alice. Não as filhas marmanjas. Às vezes, para remediar o que não tinha remédio, dona Rosa lançava uma palavra de ordem aqui, ou, um olhar torto pra acolá, só para não dizerem que perdera sua autoridade de matriarca que sempre teve. No fundo, ainda que, trocando a posição das palavras, o conselho que a velha lhes dava era sempre o mesmo, ou seja, enquanto Aline estivesse na sala, Luana que tratasse de arrumar algo que fazer na cozinha. E vice e versa. Pois agora, a prioridade era Alice. E era nos braços murchos da velha vó, dona Rosa, que a netinha se recolhia ao testemunhar os tumultos dentro de casa; vozerios, panelas e pratos, e outras coisas, de preferência quebráveis, jogadas ao chão. Tudo por causa de Alice. Sempre. Mas Alice também não se importava. Desde que o amor da vovó; provado nos doces que ganhava às escondidas da tia Aline, não parassem de fluir constantemente até sua barriguinha de criança tão mimada, no final, por todas elas.

— ME DEIXE EM PAZ, GAROTA! POR QUE VOCÊ NÃO ARRUMA LOGO UM NAMORADO, ALINE?! — Provocou Luana.

No fundo, ao falar aquilo, Luana chafurdou a ferida da irmã na sua forma mais profana. Aline era obesa. Tinha um enorme problema com a balança. Para ser mais exato; 98 quilos de um problema gorduroso que insistia permanecer grudado ao seu corpo. Os médicos disseram que era a genética. Aline só queria alguém que pudesse amar.

— Que ódio... — Foi o que Aline vociferou antes de subir as escadas rumo ao seu quarto. Lágrimas vertiam do seu rosto gorducho e foram se acumular nos tecidos do travesseiro, que a princípio era branco, agora, amarelados de tanto vê-la chorar.

— Desculpe... — sussurrou Aline. Mas já era tarde. No mínimo umas duas semanas sem se falarem. Sorte dos vizinhos. Sorte da dona Rosa. Bom, pelo menos até as duas voltarem a se relacionar.

***

Após a morte de Adalberto, o marido de Luana, nos dois anos que se seguiram morando na casa de dona Rosa, a mãe de Alice não perdeu tempo. Voltou a estudar, se relacionar, fazer academia e, meses depois iniciou um estágio. Neste período já não dependia tanto da mãe, nem das migalhas que Aline, a irmã, às vezes lhe dava para presentar Alice como um presente em seu nome. A partir daí foi um pulo até se tornar secretária, já que estava fazendo curso pra isso. A beleza ajudou, é verdade. Como um empurrão. Mas nem tanto quando precisou comprar um meio de transporte; uma moto, já que o carro era financeiramente inviável. Mas agora, olhando para ela, já divorciada dos ares daquela sua antiga viuvez, claramente qualquer um perceberia que Luana já não era a mesma pessoa. De fato não era. O batom vermelho na boca, as roupas que vestia; os perfumes que usava, e a segurança que emanava na voz sempre doce, principalmente ao direcionar diálogos aprofundados com Alice, a filha.

— Mamãe, como é que os bebês veem ao mundo? — Perguntou Alice. A família havia acabado de jantar. Aline, a tia, arregalou os olhos, dona Rosa emudeceu. E enquanto a sobremesa era servida; doces presenteados diretamente de parentes da chácara de Atibaia, Luana atreveu-se a quebrar o tabu. Olhou para Alice e falou a verdade. Curto e grosso. Aline, a tia, arregalou novamente os olhos. Dona Rosa, a vó, fingiu que não era com ela. Por fim, o que ouviram Alice dizer depois disso foi um: “que nojo!”. Seguido por gargalhadas da mãe. Frenéticas gargalhadas.

— Alice só tem 10 anos, Luana. Como é que tu tens coragem de ficar falando essas coisas pra ela? — Quando Aline a confrontou, dona Rosa e Alice nem estavam mais por perto. Tinham subido para dormir. Enquanto enxugava os pratos, Luana só respondeu: “Mana, vê se cuida da sua vida!” e o alvoroço que se seguiu forçou a velha a sair do descanso. Menos Alice que continuou em profundo sono.

— Por que fica falando essas barbaridades para sua filha? — Aline disse empoderada, a voz firme. Luana pensou em responder: “Vê se arruma um namorado e sai do meu pé!”, mas ela não disse. Recordou-se que necessitava da irmã para buscar a filha na escola. Mas depois de ouvi-la dizer, como sábio conselho: “Seja um mãe melhor para Alice. Ela merece...” Luana não aguentou. Explodiu. Falou barbaridades embasadas até em seu sobrepeso. Depois de pratos quebrados, ofensas ácidas arremessadas para ambos os lados, finalmente os cachorros pararam de latir.

— Desculpa... — sussurrou Luana. Mas a verdade é que os vizinhos não eram surdos, ela estava cansada de ter que esconder seu rosto no dia seguinte. Aline nem teve o trabalho de responder. Despediu-se de dona Rosa, e subiu. Subiu rápido, escondendo o rosto. Os pratos que ainda faltava lavar, fora os cacos que deveriam ser recolhidos do chão, Aline depositou-os na conta da irmã. Luana que terminasse o serviço. Foi sua forma de aceitar suas desculpas. Depois foi amarelar ainda mais o travesseiro, afinal, ela só queria alguém para amar. Só isso. E ninguém naquela casa conseguia compreender este fato.

— Mamãe, a Aline me tira do sério. A senhora não vê? — disse Aline, agachada, recolhendo o que ainda restava dos copos quebrados debaixo do tampo da mesa.

— Vejo — respondeu dona Rosa — mas você precisa entender que a forma como você encara a vida, é totalmente oposta ao da sua irmã.

— Oposta?! — exclamou Luana — Nós duas recebemos a mesma criação. Ela que é uma tapada! Dona Rosa torceu o nariz. Depois, abaixando-se para ajudá-la, lhe disse baixinho, como se estivesse envergonhada do que iria dizer: — Você é pra frente com essas coisas, sabe... E a forma que lida com Alice, tão liberal, às vezes pega a gente de surpresa. Ainda não nos acostumamos com as coisas que diz a ela.

Só o que Luana disse foi: — Eu sou direta mamãe, não sou como a Aline que fica contornando as coisas. Prefiro falar logo a verdade. E antes que dona Rosa burilasse qualquer coisa para argumentar, Luana encerrou a questão: — Desculpe mamãe, mas amanhã cedo temos reunião na empresa. Depois de dar um beijo na bochecha murcha da velha, Luana subiu as escadas, um pouco pensativa. Dona Rosa permaneceu estancada na cozinha; as mãos sustentando o velho queixo, remoendo antigas lembranças, enquanto coçava a cabeça inundada de cabelos brancos.

Em seguida, o caminhão de lixo passou. Os cachorros, como de costume, voltaram a latir. Um vento suave bagunçou as cortinas da sala, mas dona Rosa permaneceu sentada em silêncio. E como o sono da velha não retornava, ou seja, não dava o ar de sua necessária graça, dona Rosa logo tratou de ligar o fogão e colocar a chaleira pra esquentar. “Só um chá de camomila para aliviar essa tensão” — Pensou. Depois de pronto, tomou-o bem quente. Na verdade, depois disso ela repetiu uma, duas, três vezes a mesma dose. E tão logo seus beiços murchos esfriaram, o covarde do sono voltou; a princípio arredio, tímido, molestando os olhos a partir das pálpebras, depois a abateu de vez pelo cansaço. Ao perceber este fato, a velha não perdeu tempo; arrastou a cadeira, apagou a luz da cozinha, e subiu as escadas como se estivesse patinando.

***

Eurico e Viana – Advogados Associados. Bom, este era o nome da empresa que Luana, por dois anos consecutivos já trabalhava como secretária. O escritório de advocacia localizava-se no centro da cidade de São Paulo e, como Luana já não dependia tanto do metrô, sempre que podia, ela chegava mais cedo no escritório; para organizar as papeladas, adiantar algum serviço do dia anterior, ou mesmo para ficar de bobeira, tomando cafezinho enquanto conhecia os clientes madrugadores, e a turma de recém- advogados. Que delícia! Quando Alice estava prestes de completar 11 anos de idade, ela conheceu o Rogério. Antes dele foram dois ou três caras, que ela namorou. Às escondidas namorou. Mas ninguém foi tão importante como Rogério em sua vida, a ponto de Luana querer leva-lo pra casa para conhecer a mãe, a irmã e a filha. Rogério só tinha um problema. Rogério não gostava de trabalhar. Como cliente da empresa, ele havia chegado ali por conta de um problema de pagamento realizado, em que a operadora de cartão de crédito da mãe, cobrou-a duas vezes pela mesma fatura. Salgada fatura. Ele permanecia com crédito na praça. O problema era o da mãe que continuava bloqueado. Mas como Rogério ainda dependia deles, habitava com eles, e comia da mesma comida, ficar ouvindo as reclamações dos pais o dia inteiro, todo o dia, era um tipo de desaforo que lhe tirava o bom humor. Não poderia ficar assim, pois também, em contrapartida, ceifava as oportunidades que tinha de cochilar aos finais de tarde. E que tardes!

— Amor, é hoje, não esquece. Já avisei o pessoal lá de casa que você vai para jantar. — Disse Luana, ao pé do telefone. Seu chefe já tinha avisado que era para desligar. Luana fingiu não ouvir: — Então, eu quero oficializar o nosso namoro, amor. Vai ser tão bom...

— Por mim, a gente espera mais um tempo. — Rogério disse.

— Para com essa bobeira amor... Por favor...

— Não consegui aquele trabalho que havia comentado com você. — ele argumentou — E se sua mãe, ou sua irmã me perguntarem o que faço da vida? O que vou dizer a elas? Já basta eu ter de pegar dinheiro emprestado com você...

— Dinheiro não é tudo, — Luana disse — tenho experiência com essas coisas. Vai por mim...

— Tá, e sua filha?

— O que tem a Alice?

Depois de pigarrear, dar dois ou três suspiros no bocal do telefone, Rogério disse: — E se ela não gostar de mim?

Luana caiu em gargalhadas. Frenéticas gargalhadas. Seu chefe pediu novamente para ela desligar o telefone. Luana fingiu novamente não ouvir: — É com ela que está preocupado?! E como o silêncio de Rogério confirmou sua última pergunta, ela apaziguou-o ao revelar: — Alice vai adorar você, seu bobo! Eu já falei pra ela o quanto você é bom na cozinha. Quer fazer um teste? Fala que sabe fazer bolo de chocolate que você vai testemunhar o sorriso mais lindo do mundo...

Mais relaxado ao ouvir, só restou a Rogério perguntar: — Tá bom, e a sua irmã? Você já me disse que não se dão bem...

— Não esquenta com a Aline. Qualquer coisa eu dou um chega pra lá nela. Mais alguma coisa?!

Na hora marcada, tudo certo. A campainha tocou. Duas vezes foi a buzinada. Na porta, Rogério aguardava Luana, ele segurava um buquê de flores nas mãos. Mas as flores não eram para Luana que ainda não havia terminado de se arrumar. As flores eram para a dona da casa que, ao recebê-las, alargou um belo sorriso enquanto abria-lhe a porta.

— Boa noite! — disse Rogério — A senhora deve de ser a mãe da Luana. Muito prazer! Eu sou o Rogério.

— Vamos entrar meu rapaz! — disse dona Rosa que, naquela noite, estava vestindo uma manta indiana, comprada exclusivamente para conhecer o namorado, que a filha tanto cansou de se gabar.

Ao entrar na residência, Rogério se impressionou com o ar requintado no interior do ambiente. Sem falar na arquitetura antiga englobando as características exteriores do imóvel imponente, quando comparado aos outros ao redor. O sobrado resistia às tendências à medida que os anos adentravam, permanecendo com aquele seu charme nostálgico de coisas velhas, valiosas, históricas.

Depois de Rogério dizer: “Que lugar magnífico!” foi que a Dona Rosa revelou: — Foi meu falecido marido, o Godofredo, (que Deus o tenha!), que construiu este sobrado meu rapaz! Com as próprias mãos, — a velha repetiu. Depois de coçar o nariz, ela ficou olhando para o alto, como se procurasse telhas de aranhas impregnadas no teto. Depois de sair daquele seu transe particular, e como Rogério não disse mais nada, só a encarando de perfil, ela tornou a lhe dizer: — Godofredo não era de brincadeira, meu rapaz, ele construiu este sobrado sozinho; desde a fundação, alvenaria, madeiramento e os acabamentos finais. Eu me recordo, como se fosse hoje, as inúmeras brigas que tivemos na escolha dos materiais. As cerâmicas principalmente. Depois de dizer isto, a velha deu uma gaitada, ria sozinha, como que recordando alguma situação em específico.

Embasbacado, a Rogério só restou dizer: — Sozinho?! Ele está de parabéns! (Que Deus o tenha!). Mas a velha continuou a narrar mais feitos do falecido marido. Rogério, com os olhos saltados, sinceramente estava interessado no início, pelo menos até encontrar com o olhar de Luana, a namorada, que vinha descendo as escadas, deslumbrante em seu vestidinho preto colado. Era como se ela dissesse: “Isso tudo é pra você!”. Mas a velha ainda demandava atenção — É claro que ele teve ajuda, meu rapaz... — dona Rosa voltou a falar — Você achou que ele fez tudo sozinho?! Sério?

— Mas foi à senhora mesma que acabou de dizer isso... — Rogério riu ao respondê-la, mas não retirou o olhar de Luana. Ao pé das escadas, Aline apareceu tímida, as mãos cruzadas em torno da barriga. Ela deu um sorriso, e veio se aproximando por trás de Luana.

— Fez tudo sozinho é maneira de dizer, né? — Na voz da velha, havia meio que um tom de sarcasmo. — Mas é claro que eu também ajudei. — Ela disse. Rogério abriu a boca ao ouvir. Em seguida, Dona Rosa caiu em gostosas gargalhadas. Mas ao se afastar dele, dando espaço para Luana e Aline o cumprimentar, o rabo de olho da velha nutria um sorriso maroto no cantinho da boca. Em parte, era conversa fiada.

O sobrado era composto por dois pavimentos. No térreo; sala de estar, cozinha, uma dependência para empregados, banheiro social, despensa e área de serviço conjugada com a área dos fundos. Sem contar o jardim frontal, ricamente florido, aglomerando mudas carregadas de flores de cores diversas, essencialmente para cultivar ao sol da manhã. Na parte de cima da residência; o hall integrando as escadas, mais dois e três quartos, sendo que a suíte principal, localizada nos fundos do imóvel, tinha a vantagem de gozar da belíssima varanda de 50 metros quadrados, sendo 25 % cobertos por telha. O espaço da varanda, em boa parte ornamentada por plantas variadas, era o orgulho de dona Rosa: “Minhas plantinhas ficam mais lindas ao por do sol”. Gabava-se.

De cara, todas elas gostaram de Rogério. Bom, todas, com exceção de Alice que ainda não tinha terminado de banhar-se. Mas depois de vestir o vestido florido preferido, ela logo apareceu e o cumprimentou; posicionada atrás da mãe, já era possível perceber que Alice também gostara de Rogério, afinal, não cansava de encará-lo com um sorriso envergonhado, mas gentil, revelando a banguela no frontal da boca miúda.

Conversa vai, conversa vem, tudo certo. O relógio posicionado no alto da sala tic taqueou 20h e o jantar já estava sendo servido. Sorte de Rogério que estava morrendo de fome. Aline, dona Rosa e Alice estavam tranquilas, só estavam ansiosas por conhecê-lo, de forma que foram conduzindo Rogério até a mesa da cozinha.

— Sente-se aqui amor... — disse Luana. Depois ela puxou a cadeira pra pertinho de onde ele iria se sentar. Aline ficou de escanteio, recuada com o prato na mão. Alice cutucava um pacote de bolacha, mas depois foi repreendida pela dona Rosa. “Assim você não janta minha filha!” Ela sussurrou no ouvido da neta. Depois a conduziu para se sentar.

Ao posicionar-se em um lado da cabeceira da mesa, dona Rosa pediu que Rogério ficasse à vontade, se servisse. Sem rodeios. Aline, sem esperar por Luana, tratou logo de entregar-lhe os talheres. Depois de um: “Muito obrigado!” Rogério se serviu. Bom, ele estava com fome, de forma que isso ficou provado na montanha que acabou por quase ocultar seu rosto redondo. Mas Rogério nem ligou. Ele era o convidado. Viera pra isso mesmo.

Sobre a mesa, comidas variadas. E para beber, refrigerante, suco, e um pouco de álcool; vinho para ser mais exato, já que dona Rosa gostava de bebericar quanto tinha visita. Enquanto os talheres molestavam os pratos, a bomba veio de Aline. Rogério não esperava pela pergunta tão cedo. Bom, não foi por mal, afinal, Aline nem sabia que Rogério não trabalhava. Assim, ela perguntou inocentemente, como que jogando conversa fora:

— Faz o que da vida Rogério?

Rogério engasgou na hora, e foi Luana que correu para socorrê-lo. Enquanto ele vertia o copo de água, garganta abaixo, Luana antecipou-se a responder a pergunta:

— O Rogério... Bom, ele... Como Luana logo percebeu que também não tinha resposta pronta; voltou a encher o copo com água, mas desta vez foi ela quem verteu o líquido, garganta adentro. Rogério fingia tirar algo da boca. Ganhava tempo. Ele sussurrou algo como: “Parece que foi um espinho...” Mas dona Rosa, confusa com a situação, logo o corrigiu: “Espinho?! Bom, não fizemos este tipo de prato...”. E quando tudo parecia ir por água abaixo, Alice levantou-se e pegou o pacote de biscoitos posto em um dos compartimentos da fruteira. Aline, que até então estava tranquila, apenas rodeando o olhar, ficou chateada ao vê-la levantar-se da mesa. Ela cobrou de Luana:

— Vai deixar a Alice se empanturrar de bolacha?

Era o gongo que Rogério esperava. Luana, de certa forma, também comemorou. E como era necessário prolongar aquele momento tão favorável ao casal, afinal era a noite de Rogério, deixou que a própria tia arrancasse o pacote de bolacha da sobrinha.

— Não é por mal, Alice, por favor, volta pra mesa...

Daí o que se conversou durante o jantar, só tinha haver com assuntos relacionados à pequena Alice; assuntos da escola principalmente. Rogério, depois disso, ficou até mais relaxado. Calmo. Até reclinou as costas na cadeira para ouvir tudo que Aline dizia. Mantinha olhos interessados na conversa. Luana ficou satisfeita ao vê-lo agir assim. “Pode ser um bom marido...” Ela pensou. Só que em seguida, irritou-se ao ouvir a irmã criticar o único colégio que ela conseguia pagar.

— O Colégio Alberto Menezes não é tão ruim assim... — disse Luana, os olhos faiscavam para Aline. Rogério não percebeu o que estava rolando entre as duas, e por isso, levantando-se da mesa, logo pediu para ir ao banheiro. Comera demais. O estômago pedia arrego. Depois que Rogério desapareceu no corredor, acompanhado de dona Rosa clicando os interruptores de luz, Aline baforou respingos de gasolina em Luana. Provocou:

— Você, como mãe de Alice, já deve saber que ela anda muito mal em matemática... Depois de dizer isto, Aline, com o rosto lambido, ficou a dar colheradas no pote de sorvete. Quebrou a dieta de meses, mas não expressou nenhum remorso naquela sua atitude.

— Aline, — Luana disse com a voz rangendo — por favor, não é hora pra isso... Depois a gente conversa.

Mas Aline fingiu não ouvir. Ainda abraçava o pacote de biscoitos que tomara de Alice. Depois, ela colocou o pacote sobre a mesa e, ao abri-lo, ofereceu um biscoito a Alice que já tinha terminado de jantar. Com um biscoito pendendo na boca ela tornou a questioná-la. Farinhas voavam sobre os pratos — Os professores de lá não valem nada, Luana... Como tem coragem de deixar sua filha estudar lá? Outra coisa, sempre que vou buscá-la, topo com trombadinhas. Eles ficam rodeando a gente.

Luana já ia retrucar, mas logo Rogério apareceu no corredor e ela achou melhor mudar o rumo da conversa. Dona Rosa sentou-se e colocou Alice no colo, a pequena estava bocejando de tanto cansaço. Rogério começou a se servir do sorvete. Lento e calmo. Vagarosamente enchendo até a orla da boca do copo, lambendo o que se pregava aos dedos. Depois disto, repetiu uma, duas vezes pelo menos. Ao fazê-lo, a impressão era a de um esfomeado. Mas Rogério nem ligou. Ele era o convidado. Viera pra isso mesmo.

24 de Julho de 2021 às 19:37 0 Denunciar Insira Seguir história
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