3
1.2mil VISUALIZAÇÕES
Completa
tempo de leitura
AA Compartilhar

Capítulo 1


Acordei, não espera, eu não acordei, na verdade não consegui dormir ou eu dormi? Meus pensamentos estão confusos e desorganizados e eu odeio isso, sinto que eu tenho o mesmo cérebro de uma ameba, ou seja, NENHUM!

O médico prescreveu uma nova combinação de remédios e no momento eu não me considero bem o bastante para interagir, mas interajo, pela necessidade de me conectar e não me sentir sozinha. É assim que pessoas com esquizofrenia se sentem na maior parte do tempo: sozinhas.

Meu cérebro é como um mundo excluído que só eu posso entrar, a tentativa de escrever sobre o que eu sinto é mais para deixar as pessoas entrarem, só que não dá certo. Elas estão no máximo na janela.

O cheiro do café me incomoda desde que troquei a nova medicação, me deixa enojada, então evito até olhar para a pote de café em pó e abro a geladeira pra pegar a única cafeína que tem um gosto aceitável: coca cola. Eu juro que amava café antes de tudo isso, já fui a viciada que tomava sete xícaras por dia, hoje só a ideia de tomar um líquido já me causa náuseas. Meus pensamentos confusos me lembram que nos últimos três dias eu tomei no máximo 600 ml de água, será que escovei os dentes? Banho lembro que tomei.

Não me importo em ler as notícias do dia, porque com as notícias eu me importo, na verdade se eu retirar quinze minutos do meu dia para ler as notícias acabo tendo uma crise de ansiedade fortíssima, não posso ter crises todos os dias então eu sei o que o twitter me conta. Me perdoe se for egoísmo mas eu preciso ser funcional, preciso trabalhar e estudar, saber o mínimo foi recomendação da minha psicóloga. E, acredite, sabendo o mínimo eu já estou em pânico. Sim, eu só não estou em uma internação por um coquetel de cinco medicamentos, muita terapia e suporte emocional, porque só de pensar no que o mundo está passando nesse momento eu tenho vontade de deitar na minha cama, em posição fetal e fingir que eu ainda estou no útero pra não ter que pensar no que as pessoas estão passando.

Olhei o twitter de pessoas de ambos polos políticos e vi como sempre a briguinha escrota de quem no fundo nem se importa com o povo, sim, me julguem, eu não acredito em políticos.

Tinha que checar meus e-mails e senti um cansaço súbito quando me dei conta que provavelmente teria umas 50 mensagens para responder:

Mabel, Mabel, Mabel

Todo mundo sempre queria alguma coisa. Respondi o mais rápido possível e acabei esquecendo se usei as normas sociais de linguagem adequadas, ou seja, na interpretação de outra pessoa existem grandes chances de eu ter sido escrota. Me preocupei por um momento, o que seria motivo de crise no passado hoje se tornou um passo para a autoaceitação, peguei um medicamento SOS da bolsa e botei embaixo da língua, as coisas sempre se acalmam com essa gostosura. Tem dias que eu consigo enfrentar as crises bem, porém tem dias em que parece que uma caixa de medicamentos SOS, prescritos especialmente para crises, não é o suficiente. Essa é minha última caixa, o médico cortou a medicação por efeitos futuros. Não quero pensar em como vai ser minha vida sem ele e odeio admitir isso, me tornei a pessoa que recorre a remédios para não sofrer. Eu sei que algum dia isso vai melhorar, eu só não vejo esse dia chegar.


Mabel escreve em seu blog

Eu recebi empatia, sim, o que eu menos imaginava, pessoas que eu nem conhecia me apoiaram. Diante delas os preconceituosos não tem tanta voz. Li em um livro de ciência social sobre a coragem, que é definida pela autora como o ato de ser sincero consigo mesmo. Ser sincera comigo mesma tirou um peso dos meus ombros, de repente eu não era mais o modelo de perfeição social que as pessoas de minha comunidade religiosa diziam que eu era, eu era só a Mabel, cheia de falhas e ansiando ser vista.

Não tenho mais pretensão de ser aceita, não por todos é claro, até porque todos temos haters, presenciais ou na rede. Existem pessoas que não me olharam mais desde que descobriram meu diagnóstico, nem ao menos um oi eu recebi. Algumas delas eu sinto a piedade quando me veem e isso me enfurece. EU ODEIO SER VISTA COMO A VÍTIMA.

E aí me perguntaram sobre pessoas com esquizofrenia terem empatia. Uma pergunta básica é feita de forma respeitosa, que mostra o quão pouco as pessoas sabem sobre minha patologia. Mas é claro que eu tenho empatia, eu não sou um robô!

Só que eu não sinto como as outras pessoas sentem, às vezes eu não vejo sentido no porque eu deveria sentir o que elas sentem e às vezes meu pensamento está muito confuso para perceber o que eu deveria sentir ou até mesmo o que eu estou sentindo.

Só que eu preciso ter uma ligação afetiva com a pessoa para entender o que ela está sentindo e entender meus próprios sentimentos. Porque na maioria das vezes não consigo interpretar nem meus sinais físicos, essa semana mesmo passei duas horas em uma crise de ansiedade que acabou sendo fome pois tinha esquecido de comer por mais de 18 horas.

Eu nem sei como expressar meus sentimentos, sempre ofereço meu apoio emocional às pessoas passando por momentos difíceis só que, antes: eu não sempre sei o que dizer mas sou boa em ouvir. Às vezes ter alguém que as ouça é tudo o que as pessoas precisam.

Me dói não poder ajudar as pessoas, já deixei de comprar coisas que eu queria muito para ajudar pessoas que precisavam. Pode ser meus últimos dez reais se eu vejo alguma instituição precisando eu dou. Sou muito ligada a animais e até recentemente seguia muitas ONGs no instagram, precisei dar unfollow em todas elas, a cada pedido de ajuda eu tinha uma crise de ansiedade por não poder ajudar. Eu não saio muito, principalmente no isolamento social (não que eu saísse antes, eu adoro ficar trancada no quarto), mas sempre que eu estou em algum lugar público e passa perto de mim um animal de rua, se eu não tiver como alimentar eu passo o resto de dia mal e pensando nele. Eu acho um pouco mal-humorado dizer que eu prefiro pessoas a animais, mas desde criança é essa a minha realidade, principalmente porque eles não estão presos a regras sociais idiotas e nunca me julgam se eu tenho uma crise na frente deles. Minha lista de apoio tem o primeiro lugar empatado: parte da família – animais de estimação – amigos. E ao longo das postagens vou falar muitás vezes sobre eles.

Não tenho muitos amigos até porque meu conceito de amigo é mais profundo do que “uma pessoa que eu converso”. Eu costumo fazer piada dizendo que meus amigos sabem todos os meus podres. Sim, eu posso insinuar que às vezes, acho a esquizofrenia uma desgraça, mas não, você não pode me achar uma coitada. Considero amigo, a pessoa que eu tenho liberdade o suficiente para contar fatos pouco conhecidos sobre mim, sabendo que a pessoa vai me ouvir sem me julgar. Quando eu sinto o julgamento geralmente me afasto delas, principalmente das pessoas que acham que eu não devo falar dos meus transtornos na internet, que é exposição. Escuta só, existem pouquíssimas fontes sobre experiências escritas de pessoas com esquizofrenias disponíveis no país. Se as pessoas se esconderem por medo do tabu, cada vez mais seremos considerados loucos perigosos que devem estar à margem da sociedade. Então queridos “amigos” eu não vou deixar de falar se as minhas experiências podem ajudar, como já me disseram que ajuda.

Muitas vezes eu deixo a pessoa pensar que é minha amiga, porque ela se sente melhor assim, mas sem ligação afetiva ela é considerada por mim uma mera conhecida. Só que eu não sou aquela amiga do abraço, das demonstrações de amor eterno, eu sou só a amiga e só digo para as pessoas que considero amigas que eu gosto delas e elas são importantes pra mim. Devo dizer que tenho mais amigos virtuais que presenciais, o que não faz diferença, todos tem a mesma importância para mim.

O engraçado é que eu sinto uma ligação com pessoas que eu nunca falei, geralmente porque elas não tem medo de ser sinceras com quem elas são diante das pessoas, pelo menos é assim que as vejo. O que eu vou dizer vai ser uma coisa chocante para as pessoas que sabem quem eu sou mas não são minhas amigas, eu tenho a personalidade extrovertida, quando tenho condições de ser eu mesma. Sou uma cruza de um labrador, dócil e bobão, com um chihuahua fofo porém levemente irritado.

Eu sinto, só não sinto como as outras pessoas, mais pelo embotamento afetivo que é uma das características da esquizofrenia, a dificuldade de expressar emoções ou sentimentos.

Eu me sinto observada, julgada e em extremo perigo. Imagine como é passar todos os dias de sua vida alerta, pensando que a qualquer momento eu posso morrer. Até bem pouco tempo eu não passava em uma avenida que um caminhão pudesse passar, pois tinha alucinações dele caindo sobre mim e sinceramente, morrer esmagada é um jeito bem estúpido e sem sorte de morrer.

Meu cérebro funciona quase na velocidade das informações na internet, e eu acabo não conseguindo reter o que é importante e odeio isso. Me faz pensar que se eu não consigo completar simples tarefas eu não conseguirei nada na vida e outra vez volto a frisar eu prefiro morrer que ser um peso para outra pessoa.

Eu tenho medo de não conseguir ser independente financeiramente, não poder ter uma família, ser um peso para meus pais para sempre, não conseguir estar em sociedade ou adotar meus filhos.

Apesar de todos os desafios que eu passo eu tenho certeza que serei uma boa esposa e uma boa mãe, desde que eu encontre alguém com paciência o suficiente para me entender, o que eu vou confessar não será muito fácil, mas talvez eu encontre. Isso em minha vida é um grande talvez.

Talvez eu tenha escrito alguns dos posts, no auge de uma crise de vergonha e culpa, mas eu peço que não me julguem, porque foram os julgamentos que eu recebo que geraram isso no meu cérebro. Mesmo que você não me entenda, me diga que está tudo bem sentir o que eu sinto, isso é a empatia que eu espero receber.

Me abrir no instagram e falar sobre meus desafios mentais talvez tenha sido a coisa mais difícil e corajosa que eu já fiz, e a cada post eu preciso coragem para falar o que eu sinto ou o que eu estou pensando. Quando eu descobri que isso ajuda as pessoas tudo se tornou mais fácil.

Minha melhor amiga me disse que eu preciso trabalhar neste projeto pois vai ajudar muita gente a entender o cérebro de alguém com esquizofrenia, e do fundo do meu coração, se uma pessoa tentar desconstruir o preconceito e praticar a empatia, eu já sinto que minha missão foi cumprida. A todos que me acompanham por aqui meu muito obrigada.

20 de Julho de 2021 às 15:43 0 Denunciar Insira Seguir história
1
Leia o próximo capítulo Capítulo 2

Comente algo

Publique!
Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a dizer alguma coisa!
~

Você está gostando da leitura?

Ei! Ainda faltam 12 capítulos restantes nesta história.
Para continuar lendo, por favor, faça login ou cadastre-se. É grátis!

Histórias relacionadas