autorajamille Jamille Sousa

Isadora cresceu na província leste e desde criança não entende porque o governo segrega os habitantes pela crença. Mas, sempre esteve ciente de que, quando completasse dezesseis anos, precisaria decidir se continuaria com sua família cristã. Ou abandonaria sua fé em busca de luxo e conforto, que sempre foram escassos para os moradores da leste. Cansada de vivenciar tanto sofrimento e preconceito por ser moradora da província. Isadora tomou a decisão de abandonar a fé de seus pais e seguir por caminhos tortuosos, que a levarão a confrontar o verdadeiro propósito de Deus para sua vida.


Ficção científica Todo o público.

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Em progresso - Novo capítulo Todas as Terças-feiras
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Introdução

No país em que vivo, somos divididos pela crença: cristãos, ateus e agnósticos.

Deixe-me explicar melhor como funciona, existem três províncias: Norte, sul e leste — ninguém fala da oeste, pouco se sabe de lá, somos informados na escola apenas de que tal província não mais existe — e somos totalmente proibidos de cruzar a fronteira que nos separam.

Temos um governo que controla tudo e todos, segregando-nos pelo tipo da nossa fé, ou a falta dela, podemos assim dizer. Desde que me entendo por gente, aprendi que não posso migrar para qualquer uma das outras duas províncias. A não ser que cumpra o ritual de passagem, que acontece quando completamos dezesseis anos. A cerimônia consiste em decidir se continuaremos na província que nascemos e crescemos, ou faremos a mudança.

Daqui dois dias acontece meu ritual e eu já decidi o que fazer, irei para a província dos agnósticos. Sim, abandonarei minha família, meus amigos e minha fé em prol de uma vida melhor. Por que estou fazendo isso? A resposta é simples, não aguento mais. Em nossa província todos os recursos são limitados, não temos muito para falar a verdade. O pouco que dispomos foi conseguido com suor e trabalho duro. Enquanto os outros vivem com abundância, livre de preconceitos e sofrimentos. Nós, moradores da província leste, somos maltratados e preteridos, a não ser que abandonemos nossa fé, e é o que estou prestes a fazer.

A mudança é irreversível e, uma vez que migrei de província, não poderei voltar atrás.

Desde pequenos, aprendemos nas escolas o que acontece em cada província. Isso garante que nenhum desavisado migre das províncias oeste e norte para a leste. Sim, acredito eu, que seja uma forma segura de garantir que cada um fique no seu quadrado.

Nós da província leste somos os que mais migramos para as outras. E, como vivemos precariamente, quase sem nenhuma ajuda governamental, ninguém sente-se muito tentado a abandonar o conforto em prol de sua fé.

Claro, como o governo não pode nos matar a míngua, vez ou outra recebemos suprimentos e provisão, que não chega nem perto do que as outras províncias recebem todos os meses.

Pois é, nós somos o opróbrio, a raça que está quase se extinguindo. Já que, como ninguém migra para cá e a maioria do nosso povo, assim que completa dezesseis anos, logo abandona esse lugar. Não é difícil imaginar que, com o tempo, os cristãos serão praticamente extintos.

E, apesar dessa sentença pairando sobre a cabeça de todos nós, ninguém aqui da província leste ousa reclamar.Pelo menos não os que permaneceram após a cerimônia, o que são no geral idosos e adultos. A maioria dos jovens da última década se foram. Os que ficam se quer podem mudar de ideia, a nossa única chance de fulga daqui é aos dezesseis anos, depois disso, já era meu amigo.

Considerando a nossa situação crítica e desumana, não seria estranho se os residentes daqui murmurassem. Contudo, na realidade, o que sempre ouço frente a falta de ítens básicos para a sobrevivência de qualquer ser humano é: Deus está no controle de todas as coisas. É só o que dizem, enquanto nossas barrigas roncam de fome e sede ou enquanto nossos corpos tremem de frio. Pior, precisamos permanecer calados, frente aos castigos que somos infringidos quase sempre pelos líderes da nossa província. E, ainda mais, ao assistirmos nossas crianças morrendo de desnutrição e doenças ridículas. Que poderiam facilmente serem curadas se o governo se importasse verdadeiramente conosco. O que não é o caso.

Mas, tudo o que imagino eu guardo para mim. Não gosto nem de pensar o que me aconteceria, se meus pensamentos sobre o governo querer nos exterminar aos poucos, caísse nos ouvidos do imperador do país. Na certa eu sofreria um castigo bem pior dos que já sofri até hoje. Tudo isso é por baixo dos panos, ninguém pode saber que nosso povo está largado aqui para morrer e muito menos que eles pregam nas escolas o quanto viver na província leste é horrível. Pada garantir que ninguém migre para cá.

Assim sendo, nosso povo vive acreditando que Deus está olhando por nós e que o governo faz o que pode para nos ajudar. Piada.

Há quem diga que antes era muito diferente, que vivíamos todos juntos na provínciaoeste, apesar de nossas crenças. Porém, quando o número de cristãos passou a superar o de ateus e até agnósticos, o governo decidiu agir. Separando-nos e segregando-nos conforme a nossa fé.

Foi a partir desse momento que nosso sofrimento começou; por isso, ninguém pode me julgar por querer buscar um futuro melhor. Ninguém pode me julgar por querer abandonar a província leste, para viver com os agnósticos e obter certo nível de conforto. Pois, todos os moradores que migram daqui, recebem uma espécie de mesada para suprir as necessidades. É como uma recompensa para quem traí a fé em busca de um futuro melhor.

Se eu me sinto culpada? Absolutamente não.

Eu cansei de sofrer.

11 de Julho de 2021 às 17:42 0 Denunciar Insira Seguir história
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Conheça o autor

Jamille Sousa Leitora e escritora.

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