emvicente E. M. Vicente

Em Lágrimas e Sangue conheça a trajetória de dois irmãos separados durante um conflito no vilarejo servil da cidade de Elyôn, onde, ao cair da noite, criaturas nefastas emergem da escuridão em busca de sangue e carne, dominando com garras, presas e olhares hipnotizantes. Vague pelas áridas terras do continente de Val´rok, manchada por guerras passadas e brutais conflitos recentes entre o povo selvagem e sanguinolento, beluíno, e uma das grandes, dentre outras, cidades vassalas, protegida pelos nominados Homens retos. Em meio aos rumores dos fins dos tempos, acompanhe o caminho de Hayim Wilord e de sua irmã, Everyn, por uma trilha de lágrimas e sangue, cada um enfrentando os próprios desafios e lidando com forças sombrias. E, por mais que suas distintas naturezas os definam, o laço sanguíneo que os une pode ser tão ou mais forte do que as diferenças que os separam.


Fantasia Para maiores de 18 apenas.

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Um

A lua nova ascendia airosa num céu límpido daquela noite gélida, embora acompanhada de uma ou outra estrela que mais parecia saudá-la. Logo abaixo, em meio a diversas casas do vilarejo servil, uma se destacava. Não era mais luxuosa do que as suas vizinhas, porém, parecia gargalhar devido às risadas que ecoavam de dentro dela. Indo de encontro a uma pilha de madeira do lado de fora da singela construção, Wilan voltou seus olhos caramelados para o alto. O brilho do luar refletia não apenas nos telhados de madeira empoeirados das construções como também em seus olhos e face clara. Abaixando-se, deixou o caixote no chão e começou a preenchê-lo com tocos de madeira.

De repente, assustou-se e olhou para trás quando uma das risadas, que pareceu mais alta e aguda, penetrou em seus ouvidos. Respirou fundo depois do susto e deslizou a mão calejada pela barba negra e volumosa. Terminando de encher a caixa, afastou-se e caminhou de volta. Enquanto cruzando o terreiro, espantou com o pé uma das galinhas para que saísse de seu caminho. ‘’Ei, você’’, ouviu um sussurro atrás de si. Virou-se. Uma figura do tamanho de um garoto jovem e com a voz de um pré-púbere o olhava de longe, bem no centro da rua deserta, iluminada apenas pela luz da lua e por algumas lamparinas espalhadas do lado de fora por ali. Wilan franziu a testa.

A face do indivíduo que o encarava mantinha-se parcialmente enegrecida, devido a um roupão verde com capuz que ele usava, cobrindo-o desde a cabeça até às panturrilhas – o que permitia apenas identificar uma boca pequena e nariz –, porém, de alguma forma, os seus olhos pareciam emitir certo brilho distinto, era como se refletisse um ponto de luz muito forte.

— Hoje será uma noite especial — disse o estranho. — Mas não tema ou ire-se pelo que o Divino-Emanador já planejou.

— O que está dizendo? Quem é você?

O estranho deu dois passos adiante, parando próximo à cerquinha da casa.

— Precisa acontecer — disse o menino. — Por isso a luz não lhe protegerá hoje. É importante.

Wilan engoliu em seco e viu a figurazinha se virar e andar lentamente até desaparecer na escuridão da ruazinha. Ouviu mais gargalhadas. Virou-se e, antes de entrar, observou pela janela entreaberta alguns vultos vindos lá de dentro. Assim que adentrou, nem teve tempo de fazer nada, a menina correu em direção dele e se escondeu atrás de suas costas, o fazendo de escudo. O menino correu até ela e tentou acertá-la, porém, ela deixou seu ‘’escudo’’ e correu para um canto. Wilan olhou em direção do sofá, para uma mulher que sorria ao observá-los. Segurava o que parecia um boneco de madeira entalhado, um soldadinho com espada e escudo, do tamanho da palma de uma mão. Os dois jovens corriam entorno do sofá.

— Já chega — disse ela passando com toda delicadeza uma faca pequena e afiada sobre a superfície do boneco, na região da espada, tirando uma lasca e tornando-a mais fina na ponta.

Wilan foi até a lareira e deixou o caixote com lenha ao lado dela, lareira da qual a garota evitava chegar muito perto, como se tivesse medo do fogo. O garoto segurava um graveto comprido e utilizava-o como se fosse uma espada.

— Renda-se, criatura! — falou. Ele tentava acertar a garota, que fugia e se escondia pelos cantos.

Corriam pelo cômodo. E a menina emitia sons como o chiado de um felino e exibia seus dentes para o irmão, e fazia movimentos com a mão, como se quisesse atingi-lo com suas ‘’garras’’.

— Já chega! — falou a mulher com mais autoridade, deixando a faca de lado no sofá. — É hora de irem dormir.

— De novo com isso? — disse Wilan enquanto abastecia a lareira com mais alguns tocos.

— Eles adoram essas histórias — Joane soprou sobre a região onde havia feito o último entalhe, removendo os vestígios de madeira. — Não vejo mal algum.

Wilan removeu seu casaco grosso e o pendurou em um prego em um canto, caminhou até a janela e terminou de fechá-la. Enquanto isso, os dois jovens começaram a disputar a vareta.

— Eu vou ser Aleksander agora — dizia a jovem tentando puxar o graveto das mãos do irmão —, e você será a criatura.

— Não! — o irmão a impedia. — Você não pode ser ele. Solta!

Hayim puxou a vareta com força, tomando-a de sua irmã e empurrando-a para o chão. A garota fez cara de brava e se levantou, agarrou o irmão por sua blusa e grunhiu para ele. Hayim arregalou os olhos.

O homem foi até eles, pegou a vara da mão do filho e guardou-a sobre a lareira.

— Basta! — disse a mulher. — Quero os dois no quarto agora.

— Desculpe-me, mãe — disse o garoto. — Eu não quis... De verdade.

— Eu também não — completou a menina. — Sinto muito.

Joane deixou a escultura de lado, junto de outra, do mesmo tamanho, esta de uma bonequinha com um longo vestido, assim como os cabelos, tudo feito em madeira, em relevo, e chamou ambos para perto dela, estes que obedeceram e se aproximaram. A mulher, ainda sentada, tocou a face de cada um com as mãos e os fitou nos olhos.

— Não quero mais vê-los brigando — disse com firmeza. — Está bem?

Eles assentiram em silêncio, ato que fez a mulher abrir um sorriso. Com isso, ela os puxou para mais perto de si e beijou cada um na testa.

— Amo vocês — ela disse. Com o polegar, alisou a bochecha de Hayim. Em seguida, fez o mesmo com a filha e também lhe acariciou os cabelos que, assim como os seus, eram loiros e encaracolados.

Após isso, Joane entregou os entalhes para os dois, que agradeceram com um sorriso. O casal de filhos seguiu para o quarto deles, passando por uma cortina dentro do mesmo cômodo. Wilan suspirou, sentou-se no sofá ao lado da mulher. E mesmo sem dizerem nada, era como se comunicassem algo apenas com o olhar.

— Ainda bem que você foi rápido desta vez, porque, se fosse como da outra vez... Ela está mudando. Você sabe.

Wilan concordou, sussurrando de volta:

— Teremos que ter mais cuidado a partir de agora, e com Hayim também. Mas sei que vai ficar tudo bem.

Após conversarem por mais alguns minutos, o casal se separou. A mulher foi para o quarto deles e o homem seguiu para o dos filhos. Aproximou-se da cama da garota, que estava virada de lado, de costas para ele e com os olhos fechados. O entalhe dela estava no chão, ao lado do leito. Wilan a encarou por algum tempo. Mordia os lábios com o punho cerrado, porém, conteve-se. Escutou uma voz atrás de si: ‘’Pai’’. Era Hayim o chamando. O homem se virou e foi até ele, que parecia estar dormindo quando entrou ali.

— O que foi, meu filho?

O garoto segurava seu entalhe entre as mãos.

— Posso lhe contar uma coisa?

— Que coisa?

— Na verdade é um pedido. Posso passar a dormir com vocês? Só por um tempo de novo?

— Mas por quê? Qual é o problema?

— Eu tenho medo dos monstros. Eles vêm a noite, não vêm?

O homem tocou a cabeça do filho e o acariciou.

— Ei. Não vou deixar nada acontecer com você; eu juro. Você e a sua mãe são deveras preciosos para mim. Então, eu não quero que tenha medo de nada, tá bom? Sei que você é um menino forte e corajoso.

— Tudo bem... Mas e Everyn?

— O que tem sua irmã?

— Não vai protegê-la também?

— É claro que sim — respondeu após uma pausa. — Vou proteger todos vocês, nem que seja com a minha vida. Agora durma, está bem?

O homem beijou a testa do filho e saiu do quarto, passou pela cortina e voltou à sala e, da sala, foi para seu próprio quarto. Sentou-se na cama, pensativo. Fechou seus olhos e respirou fundo. A lateral de sua face era banhada pela luz da lamparina no criado-mudo.

— Às vezes, penso que cometi um erro — falou Joane sentada ao lado dele. — Porém, às vezes, eu percebo que era o único jeito; o único jeito desesperado para curar nosso filho. Mas tenho medo. Talvez um dia eles venham atrás de nossa filha, para reclamá-la de volta. Sei que é isso o que acontece.

Apesar de ouvir as palavras de sua mulher, Wilan mantinha seus olhos no chão.

— Compreendo. Sabe... Eu tentei dar um fim nela em uma noite dessas, enquanto ela dormia, mas não consegui. Pensei em tantas coisas que me dessem coragem para que eu pudesse fazê-lo. Mas não consegui. Pensei na sua segurança, pensei na segurança de nosso filho, mas, mesmo assim, eu não pude.

A mulher pareceu incrédula.

— Wilan... Apesar de tudo, ela é nossa filha. Isso é abominável. Você sabe que eu a amo mesmo assim. E sei que você também a ama.

O homem virou-se para a mulher.

— Sim. Verdade. Só que parece que você a ama até mais do que o nosso próprio filho, não é? Acabou pegando um apreço maior por ela.

— Não. Isso não é verdade. O meu amor por vocês é igual. Sempre foi e sempre será. Nada mudou.

Wilan a fitou, calando-se por um par de segundos.

— Eu não sei como vamos fazer para isso dar certo — dizia enquanto removia suas botas —, mas temos que fazer. Cuidar dela é o que importa, não é? Segundo você. Ela é nossa filha.

— Sim. É tudo o que precisamos. E vamos fazer isso, juntos.

Wilan repousou sua mão na lateral da face alva de Joane, acariciando suas bochechas rosadas com o polegar.

— Certo — beijou-a na boca. — Vamos dar um jeito, juntos. Você vai ver.

***

Por mais que tentasse, Wilan não conseguia manter os olhos fechados por muito tempo. Pensamentos martelavam, minando todo seu sono. Olhou para o lado. Joane estava adormecida. Levantou-se, sentando-se na beira da cama. Encarava a estátua do gato lambendo a pata, em tamanho real, entalhado em madeira logo abaixo e ao lado da janela, no chão, quando o som alto de algo se chocando contra o teto do quarto lhe fez sobressaltar e olhar para cima imediatamente. Suas entranhas gelaram, e soube logo o que aquilo significava: São eles. O barulho foi como o de um pedregulho, mas logo deu lugar ao que pareciam ser passos sobre o teto a dois metros acima de sua cabeça. Engoliu em seco.

Sem desgrudar os olhos do teto, acordou Joane, sacudindo sua coxa com a mão esquerda. Joane gemeu e abriu os olhos azuis. O homem começou a calçar as botas rapidamente. Na penumbra do quarto, a mulher levantou parcialmente, apoiando-se na cama com o cotovelo esquerdo. Dezenas de gritos ecoavam lá fora agora, e Joane parecia muito sonolenta até para ter consciência disso.

— Que foi? — ela perguntou apertando os olhos.

— Problemas — Wilan levantou. — Não tá ouvindo? — sussurrou com o dedo indicador apontado para cima.

Joane pareceu prestar atenção, olhando para o teto, e logo deu um pulo no instante em que outro pedregulho atingiu o telhado e, em seguida, um novo som de passos se juntou ao segundo que já ouviam. O que estava lá agora caminhava sorrateiramente, fazendo a madeira ranger de um modo lento e perturbador. As pessoas estavam gritando lá fora, atrás da janela de madeira trancada. Wilan podia reconhecer os berros de seus vizinhos, além de gritos de crianças e de animais diversos. Era aterrador. Sabia que fazer silêncio nem sempre resolvia. Se eles quisessem lhe pegar, apenas o pegariam. Pegariam quem quisessem. Mas, às vezes, pareciam somente brincar com suas presas, ou não possuíam pressa nenhuma para abatê-las.

De todo modo, estava pronto. Aquela não seria a primeira vez. Perdeu um dos melhores amigos de infância em certo ataque, e isso doía em seu ser até hoje apenas por pensar, por não ter conseguido fazer nada. Apesar de tudo, não era sempre que aquilo ocorria. Por vezes um ano inteiro ou dois se passavam sem nenhum ataque, o que era motivo para dar glórias ao Divino-Emanador, literalmente, em espécies de procissões, onde o povo, junto dos monges do templo do vilarejo, guiados pelo Patrus, a autoridade espiritual desses últimos, lançavam pétalas de rosas vermelhas e brancas pelas ruas enquanto entoavam cânticos do Livro dos Cânticos ao Divino, um calhamaço assustador, de capa felpuda, feito de pelo de raposa albina.

Uma cópia de vários outros, que foram distribuídas para várias cidades e vilarejos do país, criado no reino de Sankta oficialmente, e com a primeira das versões escritas por Victorius Levi-Gládius, dito irmão mais novo de Aleksander Levi-Gládius, o Maior. Uma coletânea imensa com mais de mil páginas de poemas e versos, além de cânticos, alguns criados e entoados pelo próprio Aleksander enquanto se aventurava pelo útero das trevas em suas expedições em honra ao Emanador. Cânticos que podiam afastar o mal totalmente, como a luz afasta as sombras, literalmente. Wilan nunca fora de participar das procissões, embora Joane sempre participasse e há três anos ela havia levado Hayim pela primeira vez, enquanto ele ficava em casa com Everyn, por precaução.

Além de laçarem pétalas de rosas e cantarem, o povo, que andava sob o sol ardente – por pura opção, como se fosse um sacrifício – desde o centro do vilarejo até os portões da cidade dos senhores daquelas terras, que também participavam às vezes, lançando pétalas de cima dos muros altos e ecoando versos especiais; era de costume fazer um grande banquete para todos no centro da cidade, com tudo do bom e do melhor. Os portões se mantinham abertos para os servos que quisessem participar; e tudo era de graça até o final do dia.

Wilan, por muitas vezes, chegava a pensar que havia tido sorte todo esse tempo, não apenas por sobreviver a ataques daquelas coisas lá fora ou ao ataque do povo beluíno, que, por vezes, ceifava tantas vidas de forma tão brutal e inclemente quanto, ou mesmo achava que realmente as asas do Divino-Emanador estavam sobre ele, mesmo quando as portas e as janelas de sua casa eram violadas e precisava enfrentar literalmente a ferro e fogo todas as ameaças. E elas, as asas do Divino, vinham trajadas duma intensa luz para espantar todo o mal de seu lar.

— Pelo Divino, amor — falou a mulher já se pondo sentada na cama.

Wilan apanhou a lamparina acesa sobre o criado-mudo e, junto de Joane, que mal teve tempo de se calçar com suas sapatilhas, deixaram o quarto rapidamente e seguiram para o dos filhos, que já estavam de pé e foram de encontro aos braços dos pais. Hayim agarrou-se a Wilan e Everyn a sua mãe. Ambos pegaram apenas seus bonecos entalhados e deixaram rápido o quarto no momento em que ouviram o estrondo da segunda vez. Uma forte pancada começou a se ouvir na porta da frente, e conforme a porta era esmurrada sem clemência, as dobradiças e o trinco pulavam, dando o tom de urgência para aqueles que estavam no ventre da casa.

Hayim apertou os olhos e agarrou firme nas vestes do pai.

— Pai! — o menino berrou mediante as pancadas.

Everyn se agarrava a Joane, que a envolvia nos braços, porém a menina se mantinha observando atentamente a porta, sem nem piscar.

Wilan entregou a lamparina para Joane e correu até próximo da lareira e apanhou o machado apoiado na parede ao lado desta, que se encontrava apagada agora, apenas com algumas brasas incandescentes. O homem já sabia como lidar com aquilo, e não seria diferente desta vez. Pediu para a esposa preparar a tocha, uma espécie de protocolo que as pessoas deviam seguir nessas horas, garantido pelos próprios senhores para seus servos. A defesa dos vilarejos era feita sempre pelos soldados de prontidão, e todos eram treinados para lidar com a situação ou qualquer outra. O povo então precisaria se defender como pudesse dentro das suas casas enquanto os homens lidavam com tudo lá fora. E se utilizar de tochas sempre era uma boa estratégia.

Porém, mesmo com a ajuda dos soldados, vidas eram sempre perdidas, inclusive as destes, embora muitas também fossem salvas. Joane correu e apanhou a tocha apagada, pendurada na parede em um prego, já untada com óleo. O fósforo arcaico estava sobre o sofá. Ela o apanhou enquanto mais pancadas violentas e aterrorizantes eram dadas sem trégua. A porta já começava a apresentar ramificações de rachaduras. E passos vagavam no teto. Lá fora, além dos gritos, o som de uma trombeta era ouvido. Era a cavalaria, sabia Wilan. Ouvia o som dos cascos dos cavalos de lá para cá, e das ordens das autoridades: Atirar! Avançar! Flechas! Mais e mais berros, tudo ao mesmo tempo.

Wilan sentiu o aperto forte da mão de Hayim em seu braço.

— Calma, garoto. Papai está aqui.

O menino abriu os olhos lacrimejantes.

— Calma.

Joane aproximou a chama na ponta do graveto comprido para a tocha ao passo em que Everyn observava de olhos arregalados o gesto da mãe. Ela deu dois passos para trás, se afastando da mulher, como se já soubesse o que iria acontecer, como se aquilo a incomodasse terrivelmente. Daí veio o som como que de um sopro, (fUuuu), e a face leitosa e rosada da mulher de uns trinta anos ficara tomada pelo tom alaranjado, e que fez Everyn ir para trás mais dois passos, parar rente ao braço do sofá velho, dobrar de leve os joelhos, inclinando-se levemente para frente, como em posição de ataque, e cerrar os dentes. Sem desgrudar os olhos azuis do fogo, a jovem expôs sutilmente os dentes feito um felino acuado. Hayim a espiou.

Joane parou ao lado do marido, este que, com seu machado em uma das mãos enquanto abraçava Hayim na outra, apenas aguardou o inevitável. Mas havia algo de diferente dessa vez, e Wilan sentia isso em seus ossos, em seu fígado, tão forte quanto as pancadas que eram dadas no teto e na porta prestes a se romper. O caos reinava lá fora, relinchos e gritos, tanto de civis quando dos soldados. Um vento forte se iniciou, a janela sacudiu, e na penumbra da casa, Wilan sentiu ainda mais forte que algo não estava certo.

Ele estava sentindo medo... Mais do que nunca.

— Pai! — Hayim berrou olhando a porta.

Os soldados não estavam dando conta desta vez. Pareciam muitas coisas, mais do que de todas as outras vezes.

Boom, boom, bradavam as batidas no teto de madeira, revestido de palha.

Uma lasca de madeira se desprendeu e todos se afastaram. Wilan olhou para cima e viu, por entre a fresta aberta, um ponto de luz laranja; parecia uma pequena bola de fogo, do tamanho de uma azeitona, e olhar para tal ponto fez com que sentisse algo estranho em seu corpo, uma sensação de quem deseja se render, se entregar, mesmo contra a vontade. Era forte. O homem então moveu sua face em direção à porta no momento em que o trinco se rompeu e voou pelo chão, com tanta potência que desapareceu de vista, um pedaço da porta também se partiu.

Boom, boom, BOOM!

Mais três bradadas fizeram a porta urrar tal a um demônio com a espada sagrada cravada no coração, e logo veio abaixo feito um castelo de cartas ao vento. Joane gritou. Hayim berrou. Atrás de todos, Everyn mantinha-se estática. À porta não havia nada. Wilan observou apenas o breu da rua lá fora, mas por somente um segundo, até que o vento forte se convertera num tufão direcionado exatamente em sua direção. Todos foram lançados para longe dentro da casa, junto dos poucos móveis velhos. O sofá colidiu contra a parede da lareira. Joane bateu no chão e largou a tocha, apagada pelo vento instantaneamente, Everyn caiu de face, e Wilan sentiu uma dor aguda na coluna ao colidir com a mesma contra a quina do braço do sofá, desabando para o piso de terra batido, ainda agarrado à Hayim, porém, perdendo o machado. O vento cessou. O caos continuava lá fora. Mais um pedaço do teto se rompeu, abrindo um rombo. Uma figura esguia saltou lá de cima, pousando como uma ave negra diante deles, no centro da sala. E da porta, mais uma figura humanoide adentrou, parando a um passo atrás da outra.

Wilan se recuperava da dor maldita, enquanto Hayim observava com um par de olhos arregalados a abominação diante dele. Até que desmaiou.

— Hayim — berrou o pai chacoalhando o filho em seus braços. — Hayim!


3 de Julho de 2021 às 13:27 0 Denunciar Insira Seguir história
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