juliandesousa Julian de Sousa

Faço aqui ― e deixo explícito ― um tributo direto à obra de Eça de Queirós, "O Primo Basílio", texto que me influenciou e estimulou a este novo olhar. É, portanto, num Brasil inculto de matas virgens e oitocentista que Luísa desperta para o pesadelo: está nua, longe de casa, numa terra grosseira e desconhecida. No embalo destes seus medos, ela encontra um índio que promete devolvê-la para a civilização...


Conto Todo o público.

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[Capítulo único]

Quimera — ou episódio selvagem para"O PrimoBasílio"



À luz primeira da manhã, quando despertava a floresta, os seus seres e os seus sons, na cuia das folhas do tajá faiscavam uns restos de orvalho da chuva que caíra toda a noite. E uma frescura de ventos por ali corria, uma cortina de névoa pairava. Logo galgava ao trono celestial o sol, e fazia amainar aquele princípio de manhã friorenta ― a sua luz coada na peneira das árvores vindo cá ao chão úmido deitar os filetes luminosos.


É neste cenário, o de uma mata virginal no seio de uma terra inculta, que ressonava docemente uma rapariga. Mais branca não se havia visto ainda naquelas paragens. Dormia um sono profundo sob o chilro das aves, o bocejo das matas, estirada no fofo tapete de folhagens ali ao pé dos troncos.


A cabecinha mimosa, a repousava sobre um braço, o penteado desmanchado e as abinhas do nariz a dilatarem levemente junto ao busto nas oscilações da respiração. Vestia-se, aliás, da própria pele: a cintura magra de ancas ossudas, os seus pelos de mulher, as pernas assim esticadas a compor um panorama de nudez abandonada às ladroagens da brisa, aos dedos da luz, preguiçosa e real feito a pintura dum Boldini!


Nisso, ali em redor e acima, dialogavam entre si os micos-leões, ariscos e eriçados, a deixar o oco dos troncos; passava em redor a espreita-la um desconfiado casal de cotias; desciam ao chão, esvoaçando as folhas ainda úmidas, pardais, bem-te-vis, arapongas e juritis, a beliscar dela os dedinhos dos pés, numa novidade contagiante que logo se fez dispersar.


Nesse instante, impregnou o ar um odor inconfundível: vinha o jaguar. Dissipava-se tão logo a excitação em redor ― embiocavam-se pelas tocas, embrenhavam-se pelos igarapés, empoleiravam-se lá no alto dos biribás, davam ala à entrada do majestoso felino.


Logo assomou ele dentre as folhagens, em passos cautos, esturrando. Veio farejar esta donzela adormecida que já conhecemos. Abocanhou-lhe o pé, fê-la saltar num grito estrídulo que tão depressa misturou-se ao guinchar dos macacos, ao bramido da própria fera, num arroubo de terror geral que fez estremecer aquele pedaço da selva. Calou-se da patada que lhe veio rasgar as carnes do rostinho mimoso, seguida da treva.


Quando a nossa rapariga reabriu os olhos, faltava-lhe o ar às narinas: nadava no meio das negras águas de um rio, a noite feita, soberana sobre a mata silenciosa.


A custo, alcançou a margem, desabando no lodo, nua em pelo, eriçada, arquejando. Nada se via em torno. Ouviu aterrada os jacarés-açus deslizando para a sua segurança aquosa, esperando, espreitando. Os insetos em sinfonia. Fugira depressa pela escuridão erma.


Mas então, para onde iria? E onde se fora meter, Santo Deus?


Sobre a noite rutilava uma lua tímida; e foi mirando-a um instante que viu Jorge. Ah, o Jorge. E lembrou-se daquela sua meiguice. E que era feito de Jorge que nunca retornava do Alentejo? E veio-lhe ainda, numa lassidão de brasa, o espectro de Basílio, o seu sorriso licencioso e as manhãs esticadas no Paraíso. Mas onde estava? Onde, afinal? Em redor, fechada num negrume denso, os silêncios da selva lhe furtavam a resposta.


O dia seguinte encontrara-a cá quase morta, despida na mesma nudez, mas sem mais na compleição a sedução e languidez com que outrora a encontramos a dormir ― de olhos abertos ao máximo enfocava o vazio, abraçada a si mesma numa caturrice mecânica. Como fora dar ali? Que lugar era ali?


E lembrou-se da patada! Santo Deus! Levou as mãos ao rosto, trêmula, a tatear-se; um alívio! Não passara de ilusão o encontro com aquele monstro pavoroso; e o pé, ainda branco e mimoso, com veiazinhas azuis ― não passara de ilusão! Mal se havia ela refeito desta torpe reminiscência, ouviu cortar o ar um sibilo sinistro. Virou-se aterrada, pudica, cobrindo-se das mãos; avistou um jovem índio brandindo o arco.


― Oh! ― empalideceu ela. ― Oh, Deus! Estai longe! Estai longe, diabo!


Mas o mancebo, que decerto não a compreendia, e que decerto também a achava menos perigosa que qualquer outro filho daquela selva, manteve fria indiferença àquele terror ingênuo. Caminhou calmamente para o alvo que abatera, uma jiboia, e, recuperando a seta desferida, tomou da serpente, a jogou pelo ombro e só então deteve com atenção os olhos nesta nossa rapariga, ainda a suspirar lá o seu medo.


Tinha ele a estatura alta e a pele dum bronze luminoso; os cabelos, os tinha negríssimos com olhos de cor igual. O corpo parrudo cobria-se apenas de pinturas em jenipapo e urucum e umas fitas de couro trançado: um par nos bíceps, e outra a lhe cingir a testa. Desta última, a propósito, pendiam dois penachos de arara-vermelha, caindo para a nuca.


― Como te chamas?


Perguntou-lhe com um doce português o mancebo guerreiro. Esta nossa estrangeira corou. Santo Deus! Um selvagem assim, e falando a sua mesma língua vernácula! Um selvagem!...


Passados esses ressaibos e descobertas as identidades, em poucas horas, assombrada da solidão da selva, dos bichos, Luísa fê-lo prometer que a escoltaria à civilização, qualquer que fosse ela. Ele acedeu e retomou a marcha cortando as picadas, a cobra nos ombros, a estrangeira atrás.


Foram dar na clareira de uma taba abandonada, de ocas desmanchadas, morada de lúgubres silêncios. O guerreiro disse-lhe que residira ali em criança, que enterrara ali os pais, que ali vagueavam as suas boas almas vigilantes da antiga aldeia. Luísa estremeceu. Que ferro compartir desses sentimentos com um selvagem! Já se arrepiava toda, alvo dos insetos.


E fora entrando numa das ocas. Do alto da sua cobertura, por uma abertura circular, descia um fio de luz dando ao interior escuro uns lances de iluminação. O jovem índio, acomodando-se de cócoras, sacou o punhal que trazia na cinta e estripou a serpente. Só então Luísa notou a sombra ignorada de uma anciã que a fraca claridade revelava.


― Ah! ― rompeu ela noutro berro de terror, caindo sentada, retraindo-se. E quando reabriu os olhos, era já noite. Viu-se ao mesmo lugar em que despertara antes: o seio da mata. Desatou a correr, muito, muito, sem tino, sem porquê. Que acontecia? Onde estava, Deus? Foi deter-se ante o clarão repentino de uma fogueira; sentado ao seu lado, o jovem índio que a guiara estendia-lhe um sorriso calmo e indiferente.


Rompeu num choro histérico esta nossa estrangeira. Lembrava-lhe Basílio! O mesmo sorriso, a mesma procedência ― que horror! Chorou muito, caiu de joelhos, a fronte nas mãos, o peito a saltar, soluçar.


O índio manteve-se empedernido, impassível, à transparência de sua rudeza. Não foi em seu conforto; afagou-lhe com palavra alguma de consolo; disse-lhe simplesmente:


― Não comes?


E Luísa, que há muito se esquecera de tal coisa elementar, sentiu a própria fome: sobre a fogueira, atravessadas num espeto rudimentar, assavam as carnes de um animal; ilustravam sabores de cozinha, davam à noite da selva um aroma familiar das soirées de domingo.


E comeu! E fartou-se! Baixou-se ao selvagem, comeu com as mãos, esquecera-se do pudor, daquela etiqueta lisboeta. De que lhe serviria ali aquela etiqueta lisboeta? Fartou-se! Ouviu, ao mesmo tempo, a voz cantada do mancebo a dizer-lhe:


― Na oca, contou-me minha avó da tua sina. ― E pausando gravemente: ― Terás a vida na conta do teu logro, mulher!


Mas Luísa retrucou:


― O que é isto?


― Cobra!


Ouviu soprar a voz libertina de Basílio! A estrangeira soltou a carne para o chão, voltava-lhe tudo à garganta; a fome voltava-lhe à boca, com a força de uma torrente. Tudo para as folhas, enojada. Era cobra! Onde estava? Que raio de lugar lhe estava a torturar aqueles dias? Vomitava uma ninhada de cobras, um enxame de vespas quando brilhou uma lágrima de horror no seu pálido rostinho.


Caiu nas funduras retintas de um abismo, despertou alvoroçada na velha voltaire de Jorge. E várias vezes piscou os olhos, incrédula: em redor, ressonava a casa vazia; Juliana, no andar de cima, a cantarolar as melancolias da Carta Adorada; lá fora, um resto de tarde se debatia, um calor corria inclemente Lisboa; esquecido aberto no regaço, um romance de Alencar. Que coisa!


Levantou-se muita viva, tinha um encontro com Basílio no Paraíso, às onze. Foi-se cobrir de pó-de-arroz ao toucador, desfazer-se da imagem afogueada com que despertara do pesadelo, refazer-se Luísa, rir-se do torpe selvagem que a perseguia, aquele mesmo que sequer soubera admira-la fêmea! Que tudo não fora além de ilusão!


Foi este o dia em que tudo tresandou, o dia em que Juliana deixou de ser uma pobre de Cristo, em que Basílio deu-lhe as boas-tardes, deixou-lhe só à solidão da cama, para nos próximos capítulos Luísa ter defronte o débito a ser quitado e que por sinal já conhecemos.


FIM


24 de Junho de 2021 às 08:54 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Julian de Sousa Tom Jobim, 25. Leitor de quadrinhos de bang-bang, clássicos de língua portuguesa e tirante a contista. Jogava rúgbi por curiosidade, mas até nisso a pandemia deu jeito. Frustrado por excelência e desapegado por frustração. Desempregado também.

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