asheviere Marianna Ramalho

Ao contrário de toda a sua família, espalhados pelo continente em aventuras dignas de canções, Asra Tsarin tinha a vida que desejava bem ali, na fazenda de sua família. O simples, o rotineiro, ainda que o trabalho fosse duro. Mas sempre há aqueles que olham para pessoas pacíficas como presas e pensam que o mundo pertence aos fortes. Porém, o povo de Yhriam era resistente feito os cedros das florestas e as rochas das montanhas. Sua força era sua terra, e cada pessoa daquela terra a defenderia com paixão. [Two-shot / 2 capítulos] [Pertence ao universo de Desarranjado, O Que Dizem de Nós, O Senhor das Florestas, A Rainha das Bruxas e o Príncipe Condenado, O Ano da Crisálida e Ciclos]


Conto Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#Tsarin #asra #MSD #songfic #Mother's-Savage-Daughter #desarranjado #fazenda #fantasia #família #romance #drama
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A Filha Selvagem

Eu não sou de olhar para o passado.

Eu sou de guardar as mágoas tão fundo que elas passam a existir como parte de mim, mas as memórias, elas eu faço questão de ignorar. Como um baú velho no canto da sala onde guardo tudo o que desejo nunca mais olhar, mas ele permanece ali, ocupando espaço.

Eu olho para o agora. Para o vapor escapando da chaleira, para a massa que afunda sob minhas mãos e para a farinha sujando a mesa. Penso na cerca quebrada do estábulo que não tive tempo de consertar, mesmo garantindo a Elred que resolveria isso enquanto ele estivesse no campo, e em como cada noite que os cavalos precisam passar nas terras do Sr. Armory nos custavam um dinheiro precioso. Penso nas roupas que deveria ter lavado e que só consegui fazer a metade, porque a granja também precisava de cuidados. Penso na cadeira da sala e em como gostaria de passar o dia, esse mais do que os outros, aconchegada nela perto da lareira.

Eu olho para o futuro. Penso na colheita que se aproxima. Foi um ano bom, então talvez precisemos contratar alguma ajuda. Penso na árvore velha que precisamos cortar antes do inverno piorar, pois não sobreviverá a outra tempestade. Elred estava animado para pôr as mãos nela, mesmo que eu dissesse que a madeira não serviria para nada que ele pudesse montar. Penso na visita da minha tia e na celebração de um casamento que eu já aguardava ansiosamente há meses. Penso na fumaça distante nas terras invadidas à leste, e em como, pela bondade divina, ainda não haviam nos alcançado.

É uma vida adorável que ocupa cada segundo do meu ser.

Eu não me envergonho do trabalho e da rotina. Não me envergonho do simples, e não existe jeito mais fácil de me fazer sorrir do que o cansaço ao cair da noite, e da satisfação de saber que o trabalho nos garantiu mais um dia, mais um mês, mais um ano. Não é uma rotina leve, verdade, mas eu nunca temi o peso. Gosto de me deitar já pensando nos planos do dia seguinte, e de levantar antes do sol desafiando-o a limitar as horas do meu dia. Gosto de ter o café da manhã pronto ao amanhecer e comê-lo às pressas com Elred, entre sorrisos ainda um pouco sonolentos. Fazemos um banquete de apenas pão e ovos, e alguns pedaços de bolo porque ontem tive vontade de fazer. Ele faz elogios ao meu cabelo que ainda não penteei e eu finjo que o vejo em trajes elegantes em vez da camiseta velha e rasgada na manga que ele usa para dormir. Preciso lembrar de costurá-la depois. Ele sempre tenta sozinho, mas os pontos ficam frouxos. Um beijo rápido nos separa, ambos temos dias cheios. Ele não levou o machado. Deve ter esquecido da árvore assim como eu esqueci da cerca do estábulo. Ele deve ter ido consertá-la para que eu não me preocupe com isso, então preciso encontrar alguma outra coisa para me preocupar.

É uma das suas diversões, não é?” ele brincou, quando ainda não nos conhecíamos há mais do que um mês e ele já tinha me ouvido reclamar de um milhão de coisas e pessoas, mas nenhuma vez me ouviu pedir ajuda. Naquela época, havia mais pessoas em casa, e menos silêncio. Nunca pensei sobre isso, pois eu gosto do silêncio, sempre gostei, e não sou de pensar no passado. Eu olho para o agora e para o futuro.

Então, enquanto saio ao pomar com uma cesta vazia, me pergunto: “Por que agora vejo o passado em todo o lugar?

Minha linda fazenda está cheia de ecos agora. A maioria são boas lembranças, e as poucas ruins talvez não sejam tão ruins quanto eu me lembro, apenas birras infantis e mágoas adolescentes. Consigo me ver perfeitamente aos 7 anos, de pé nas vigas da cerca enquanto meu pai tratava do gado. Aos 8, me escondendo atrás das pilhas de feno no celeiro porque não queria ajudar nas tarefas de casa, essas eu deixava sempre sobre os ombros da minha irmã, Kasja. Aos 9, quando meu pai me colocava na cela do cavalo e ia guiando pelas rédeas até o lago, e aos 10, quando minha mãe me deixou aprender a usar um arco. Mesmo olhar para a árvore velha na frente de casa me lembra de todas as vezes que a escalei com minha irmã, das vezes em que caí e das vezes em que alcancei seus galhos mais altos e tive a mais bela vista do anoitecer colorindo as montanhas de Yaz, e sinto um aperto no peito ao pensar que o destino dela será o aço de um machado.

Com uma cesta meio cheia pelas maçãs, me perco em uma memória distante.

Uma briga, uma raiva, uma discussão cujo motivo eu já nem lembrava mais. Uma entre dezenas que surgiram quando fiquei mais velha, e algo aconteceu entre mim e minha mãe. Confesso que não sei o quê. Meu gênio não batia com o dela, o que era um pouco irônico, qualquer um diria que nós duas éramos muito parecidas. Talvez por isso mesmo não nos aguentássemos, bastava uma estar em um dia ruim para que uma nuvem tempestuosa baixasse em nossa casa.

Um suspiro desapontado me escapa. Talvez eu não consiga vender as maçãs, algumas das frutas estão bichadas.

O que mesmo tinha causado aquela briga do passado? Algo a ver com um tecido tingido errado ou uma torta queimada por desatenção?

Será que você sequer teve um motivo aquela vez, mãe?”

Não era raro discussões começarem do nada, uma fagulha invisível. Às vezes era o modo como eu falava, admito que me faltava um pouco de respeito nessa questão. Às vezes era minha desobediência, minha recusa em perder meus dias trancada em casa como ela, e hoje, veja só, estou em seu lugar. Hoje não acho tão ruim quanto parecia, mas meu eu criança preferia o ar livre e os animais. Às vezes eram minhas saídas sem aviso, voltando bem depois do anoitecer, com terra na barra do vestido e vestígios da relva no cabelo. E ela já estava tão irritada que sequer falava comigo, apenas apontava para mim e dizia para meu pai: “Eu desisto, essa menina é uma selvagem!”

Eu não era a filha preferida, mas Kasja já não vivia mais com a gente.

E você insistiu tanto para que ela não partisse…

Talvez por isso mesmo ela quis tanto ir embora. Kasja era o que minha mãe fez dela. Perfeita, comportada, comedida. O sonho de qualquer garoto da aldeia, uma excelente futura mãe de família. Não acredito que nunca tenha percebido as dicas que ela dava, às vezes em que arriscava contrariá-la, mas logo disfarçava com uma brincadeira inocente, sem querer decepcionar. Minha mãe tanto desejou manter a família junta, mas que coisa estranha.

A filha selvagem foi a filha que ficou.”

O passado, o passado… Acho que sei porque ele volta agora. Retornando para casa com a cesta de frutas, vejo as carroças ao longe, afastando-se. Crianças e idosos na maior parte, pois a região não estava mais tão segura quanto costumava ser. Não com a fumaça distante das terras degradadas ameaçando nossa paz. Um homem parado na porteira conversa com Elred novamente. Aquele rosto é novo, mas reconheço a faixa vermelha no pulso como uma farda improvisada. Desvio meu caminho e vou até eles.

— Nós já dissemos que não vamos sair – interrompo a conversa.

— Asra – Elred sorri, estendendo a mão como para me introduzir. – Talvez a gente não precise sair. Ele me disse que a aldeia está planejando resistir, combater aqueles criminosos.

O rapaz explica sobre os ataques dos invasores às fazendas distantes, cada vez mais perto da aldeia e de nós. Saqueadores, destruindo e roubando tudo o que encontram no caminho, deixando para trás os mortos e as plantações queimadas, a fumaça agourenta que tenho visto todos os dias, ciente do que significava, mas torcendo que nunca chegasse até mim. A presente ameaça pairando, indicando o perigo futuro. É o que me faz olhar o passado, temendo que todas aquelas memórias boas e ruins sirvam apenas de alimento para as chamas.

Então o rapaz diz sobre o plano da aldeia.

Yhriam não era um reino consolidado como os outros. Era fragmentado, surgido das várias tribos da região, numerosas, mas sem união, então pouco podíamos esperar do rei. O Lorde da região era mais confiável, já que as terras eram do interesse dele, mas conhecíamos sua fama, ele não sacrificaria seus soldados por gente como nós, não até que fosse prejudicado diretamente.

Como tudo do povo yhriano, resolveríamos por nós mesmos.

E isso sempre me agradou.

— Não está mesmo pensando nisso, Asra! – Elred exclamou, quando voltamos para casa. Diferente dele, eu não dei resposta alguma ao rapaz. O convite foi direcionado a Elred, não a mim, mas eu sabia que não recusariam uma pessoa a mais. Mesmo sem confirmar na hora, Elred me conhecia o bastante para reconhecer aquele olhar.

— Eu vou me oferecer para a defesa. Está decidido.

Ele balançou a cabeça, aterrorizado com a ideia.

— Você não pode!

— Por quê? – questiono, calma e intransigente. Ainda não entramos em uma discussão, mas sinto que estamos perto. – Você vai, não vai?

— É diferente, Asra. Você não sabe lutar.

— E você sabe, por acaso? Você não é um soldado, Elred, é um fazendeiro. Espadas não são enxadas.

— Eles vão nos treinar. São alguns velhos soldados que estão organizando a defesa, dizem que ele trabalhou para o Lorde.

— Vão me treinar também. Parte da defesa será de arqueiros, e eu já sei atirar. Aprendi quando criança.

— Você não pratica há quanto tempo?

— Eu pego o jeito de novo. Tudo que você diz tem uma solução perfeitamente simples, é só pensar um pouco.

— Não.

Silêncio. Percebo que cruzamos uma linha, talvez pelo meu cinismo disfarçado, talvez por essa última fala de Elred, como se ele tivesse o poder de encerrar o assunto. Qualquer que fosse a razão, cruzamos uma linha.

— E por que não?

Sei que já não soo mais tão calma, mas no tom imperativo dele sinto um desafio. Será que depois de todos esses anos ele ainda não percebeu? Minha mãe tinha razão. Eu sou a filha selvagem, que não sabe ouvir não. A filha selvagem, a filha que ficou, mas ficar não é esperar sozinha, colocando a responsabilidade pela minha vida e meu futuro nas mãos de outra pessoa.

— “Por que não?” Será que você não entende, Asra? Eu não quero você lá.

— E você acha que eu quero você lá? É claro que não! Mas você precisa, nós precisamos, quem puder lutar, deve lutar. Nós todos precisamos proteger a nossa terra.

— Eu não ligo para a terra! Você é minha família, Asra, proteger você é meu dever.

— E defender minha terra é meu direito. E eu juro, Elred, jamais o perdoarei se tentar tirar isso de mim. Garanto para você. Nós ainda não nos casamos. Essa é minha fazenda, e se tentar me impedir de defendê-la, eu garanto para você que a minha casa jamais será sua casa, e meus filhos jamais serão seus filhos.

Dessa vez o silêncio vem dele. Sempre fui de me estressar fácil e dizer coisas exageradas, mas vejo nos olhos dele que ele sentiu a seriedade em minhas palavras. Aquele silêncio foi desconfortável, pois vinha de uma discussão em que todas as saídas pareciam ruins. Por isso, Elred cedeu. Ele sempre cedia primeiro.

— Precisa falar assim? Você é dramática como uma atriz.

Ele não se aproximou, detestava brigar por qualquer motivo. Então vou até ele, tocando seu rosto de leve, um sorriso calmo o espera quando levanta os olhos para mim. Vejo que tudo o que ele mais quer no momento é que eu volte atrás, pois assim ele poderia ir sem se preocupar comigo. Essa preocupação é seu maior medo, corroendo feito ácido seu coração desde o momento que soube o que eu queria. Ele não percebe que estaria jogando essa preocupação para mim? Como se eu pudesse deixá-lo partir sem saber se voltaria a vê-lo.

Elred anseia para que eu volte atrás. Mas não é assim que funciona.

— Eu entendo o que você sente, Elred. Você tem medo de perder sua única família, e eu tenho esse medo também. Acho que nenhum de nós conseguiria ficar para trás.

22 de Junho de 2021 às 00:43 6 Denunciar Insira Seguir história
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Gustavo Machado Gustavo Machado
Torcendo pela Asra!
June 22, 2021, 00:55

Gustavo Machado Gustavo Machado
Estou curioso para saber qual é a personalidade de Kasja.
June 22, 2021, 00:53

  • Marianna Ramalho Marianna Ramalho
    Infelizmente, a Kasja não chega a aparecer nessa história, nenhum dos parentes da Asra aparece, só por lembranças. June 23, 2021, 13:55
Gustavo Machado Gustavo Machado
Sinto melancolia no início da história. Um "pomar de ecos", é uma pena!
June 22, 2021, 00:52

  • Marianna Ramalho Marianna Ramalho
    Asra está mesmo bem melancólica esses dias. É o que faz um futuro incerto para quem sempre teve aquela vida estável :( June 23, 2021, 13:53
~

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