arnaldo-zampieri Arnaldo Zampieri brunadonde Bruna Dondé

Esses diários se renovam enquanto eu vou ficando velho. Paradoxo incrível. Estou mais perto do fim e ele vai se enchendo de vida. Vivendo dos meus registros. Registrando a minha vida. Muitos não acreditam que já fui mulher, pato, gato, astronauta e presidente. Eu poderia ter sido o Batman, mas minhas noites estavam ocupadas. Então pra cada memória eu fiz um texto, que divido aqui, semana após semana. Eu sou, eu fui, eu vou...


Conto Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#contos
7
4.7mil VISUALIZAÇÕES
Completa
tempo de leitura
AA Compartilhar

Preconceito. (Zampieri)

Eu já fui padeiro. Nessa época morei em uma cidade onde predominava o sangue italiano, e um cara rico em melanina como eu tinha grandes problemas de adaptação. Era difícil fazer amigos naquela terra.


Já tinha meus 25 anos quando atendi pela primeira vez a Cristina. Ela tinha 19 anos, professora de matemática que ensinava equações e a fórmula de Bhaskara numa escola pública que ficava em frente à padaria.

- Me dá 5 pães, moço - comandava ela.

- Prontinho, embalados com todo carinho.

- Quanto é?

- Nada. Você pediu que eu desse, estou dando. É presente. Presentinho pra você.

- Ah moço, deixa de coisa - ela me pediu sem vontade.

- Deixar de coisa, como? - eu acrescentei já olhando com pecado - Eu quero é começar...

De inicio a professora levava na brincadeira. Tentei daqui, busquei de lá, procurei, insisti, joguei indiretas hoje, cedi mais uns pãezinhos amanhã, convidei agora, insisti depois, propus uma, propus duas, um dia...deu certo!


Marcamos um passeio à tarde. Estendemos até a tardezinha, que entrou à noite, que terminou depois do café da manhã. Que um mês depois foi um misto de risos e lágrimas. Ela estava grávida. Um deleite de histórias para aquela cidade preconceituosa. Uma tragédia para aquela família também cheia de preconceitos.


Conheci o pai de Cristina no 4° mês de gravidez. Ele me visitou na padaria, numa segunda de manhã, com uma bolsa marrom de couro que carregava a tiracolo.

- Negrinho, dentro dessa bolsa tem o seu salário de 2 anos. É um presente de despedida. Amanhã você vai embora pra nunca mais voltar, se ficar, até quarta eu te mato.


Ele saiu, deixou a bolsa e hoje eu estou aqui escrevendo essa história.

21 de Junho de 2021 às 23:50 9 Denunciar Insira Seguir história
7
Leia o próximo capítulo Comodidade. (Dondé)

Comente algo

Publique!
Karimy Lubarino Karimy Lubarino
Essa história rilhou dentro de mim de uma forma difícil de explicar. Eu adorei a maneira como a narração saltitou enquanto eu li, como se fossem as batidas do coração dele enquanto contava como foi tudo. E no final foi como se as batidas simplesmente tivessem cessado. Acho que de qualquer forma ele perdeu a vida depois daquela bolsa.

  • Arnaldo Zampieri Arnaldo Zampieri
    Demorei pra escrever uma resposta. Esse texto mexe comigo. Fico feliz demais que tenha te impactado também. =) 2 weeks ago
Julian de Sousa Julian de Sousa
Tão pequeno e afiado. Ótimo conto.
June 27, 2021, 03:32

  • Arnaldo Zampieri Arnaldo Zampieri
    Julian, obrigado pelo comentário! Espero que siga acompanhando =) June 28, 2021, 12:18
Max Rocha Max Rocha
Chocante, e infelizmente verossímil. Parece que estamos sempre retrocedendo.
June 23, 2021, 20:02

  • Arnaldo Zampieri Arnaldo Zampieri
    Obrigado pelo comentário Max! E infelizmente sim, retrocedendo, mas não desistimos June 28, 2021, 12:12
Gustavo Machado Gustavo Machado
Diga "não" ao preconceito!
June 22, 2021, 00:48
Gustavo Machado Gustavo Machado
Muito legal a parte do "dar o pão".
June 22, 2021, 00:46

~

Você está gostando da leitura?

Ei! Ainda faltam 27 capítulos restantes nesta história.
Para continuar lendo, por favor, faça login ou cadastre-se. É grátis!