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Sonhos I


Estou a observar o lado de fora através da janela do quarto. Visto daqui, tudo me parece tão distante e meu reflexo assemelha-se a um espectro de um fantasma. O firmamento, em prantos, e suas lágrimas a morrer numa pilha de corpos fluidos e cristalinos, preenchendo as ruelas e os gramados e dando vida às relvas, aos prados e às massas plangentes de água. As nébulas a se verter em nuvens cujos raios são paulatinamente lançados sobre as mentes humanas numa intensidade ascendente. Os ventos a dominar toda extensão do ar e, do jeito como está, eles dificilmente podem ser impedidos de rasgar o mundo em pedaços. Entretanto, subitamente, um breu assenhora-se de minha visão e, na mesma velocidade, a turba úmida se torna serena.

Nesses últimos dias choveu demasiado, apesar de já estar próximo o período de estiagem. Não creio ser de fato ruim essa época úmida, pelo contrário, acho esse tempo bom, calmo, sereno e excelente para dormir e, mesmo diante de tempestades como esta, o período posterior sempre me cativa. Em via de regra, quando é inverno, o calor torna difíceis minhas noites: durmo pouco e não consigo descansar o suficiente. Ironicamente, a região onde eu moro tem essa particularidade durante o ano: ao verão tem-se frio e ao inverno o contrário.

Após esse período de distração, como todo dia, eu ligo o computador, ouço algumas músicas e espero o tempo ser perdido enquanto vejo coisas inúteis a fim de preencher o vazio deixado pela liberdade. E sim, ainda moro na casa de minha geratriz. Inclusive ela me diz para eu trabalhar, afinal já sou adulto e não é muito maturo da minha parte ficar nas asas dela para sempre. Mas enfim, não estou com muita motivação ultimamente nem para levantar da cama e nem para concluir minhas incumbências da universidade.

Além do mais, o desemprego tem estado em alta durante esse período de crise e não tem havido política pública alguma para as pessoas como eu, que estão entrando no mercado de trabalho, exceto a precarização e o completo salve-se quem puder. É certo que minha geração viverá pior que a dos meus pais e sobreviveremos com o mínimo para reproduzirmos nossa miséria. Trabalhar não é impossível, qualquer pessoa tem capacidade para tornar-se forçar motriz do processo de acumulação alheio. Desfrutar e orgulhar-se de sua obra, por outro lado, trata-se de uma assimetria de poder perpetuada por um aparato público pouco disposto às necessidades do povo comum.

A culpa dessa situação a qual suporto é em grande parte minha, pois até mesmo amigos que estão tão perdidos como eu, estão a realizar seus sonhos - ao menos gostaria de crer que seja assim. Mas quem se importa com esses pensamentos infantis? Não há motivos para ficar me comparando com ninguém. Sim! Eu assumo a responsabilidade, porém não sou o único culpado.

Às vezes, quando estou para baixo, pergunto-me o que seria a nossa realidade além de uma mera coincidência incontrolável de promiscuidade entre volúpias e angústias lúgubres ? Não está escrito no universo que eu deveria dar certo, nem que eu deveria existir, muito menos que eu deveria ser o personagem principal desse mundo - um herói. Também não tenho sonhos nem desejos sobre o que eu hei de ser no futuro. Na real, nunca cogitei bem a respeito e acredito que no final isso não importa. Afinal não sou suficientemente mendaz para edificar uma ilusão tão artificial em relação à vida.

O destino de todo ser vivente é a vala somente, e tudo o que conquistamos nesse mundo só tem valor enquanto existirmos como seres de ímpeto a buscar sobretudo satisfazer nossa vontade insaciável e imortal. Depois de mortos estaremos livres como uma pedra jogada dentro de um rio, cujo destino está nas mãos das correntes. Por isso, digo ser a vida apenas uma contingência trágica cantada por um certo flautista de chifres. Eu, por outro lado, sou apenas um taciturno loquaz perenemente preso no tempo. Mas, ó Vida, tu és Revolução dos corpos, imobilismo metamórfico, pulsão decadente, Dédalo a alcançar os raios do Sol, ἀρχή: a origem, o princípio, a basileia e fonte de todo poder. Imperas a tudo. Dás sentido às coisas sem sentido. Tu, a soberana de minha existência.

Há muita sabedoria escondida nas palavras vulgares de nossa língua, cujo vetérrimo sentido fora obliterado numa ressignificação pervertida. Por exemplo, o verbo "poder", em sua mais íntima essência, significa "ser capaz de existir" ou no original "potis esse". Não se engane quanto a minha visão de mundo, acho nossa vida bastante fugaz, não dá para aproveitá-la bem, principalmente se considerarmos se passar nossa existência numa realidade material, cujo sistema social nos provoca infinitos desejos e objetivos desnecessários. Diferente de outros que se jogam no puro prazer, eu prefiro apreciar as coisas desúteis ao invés de buscar meu valor na produtividade incessante que nos deixa tão cansados.

A TV da sala estava ligada e comecei a ouvir à distância o que parecia ser uma missa cujo pastor de forma extremamente estarrecedora gritava: “Senhor! É com muita tristeza no coração que suplico pela tua misericórdia. Curai as pessoas que estão neste momento implorando pela vida e implorando tua misericórdia. Meu Deus, pedimos perdão pelos pecados cometidos e pela blasfêmia contra o Espírito Santo. Vem com teu Espírito de cura e libertação. Volvei teu olhar sobre a humanidade, nós precisamos de Ti. Que o mundo reconheça que só o Senhor é Deus de poder e glória. Oremos em nome do Senhor Jesus Cristo, amém!”

Não havia ninguém e pensei comigo mesmo: “que perda de tempo e de eletricidade”. Apesar de não ser religioso, acabei vendo por alguns instantes só para me certificar se realmente havia algo para mim nessas mensagens de salvação. Ainda não estou convencido da existência de um Deus, pelo menos não de um que seja bondoso. Para mim, talvez todas as coisas tenham sido criadas para satisfazer o tédio de um ser que em seu poder infinito, enfastiou-se de si mesmo e, por buscar afastar seus pensamentos de si, colocou sua energia em torno de algo exterior. Em uma frase resumida, a vida do ser perfeito seria "ignore-te a ti mesmo". Bom… eu nunca saberei a verdade. Digo a vós se existirdes vossa única maldição: " fastígio perpétuo padece vossa alma, litígio eterno transborda da palma, pergunto assim se viveis sem calma, fadados ao nada seguindo com trauma."

Enquanto tinha esses pensamentos, a luz acabou e a chuva, que agora há pouco era apenas uma garoa, tornou-se novamente agressiva e trovejante. Resolvi tirar um cochilo para ver se o tempo passava mais rápido. Ainda que eu tivesse muitas coisas a serem feitas, como lavar os pratos ou terminar o trabalho do curso que estava fazendo, resolvi gastar minha vida num sono ameno. Enquanto Morfeu, irmão da morte, soprava suas areias em meus olhos, tive uma visão de um mundo diferente, onde eu estava menos cansado e satisfeito com as coisas que eu realizava.

Nele veio uma mulher pálida acobertada por um capuz branco e fulgurante. Seu brilho era tamanho que não pude enxergar direito o rosto. Porém, seu corpo era esbelto como se fosse uma criatura divina. Seu vulto demonstrava simultaneamente tristeza e alegria e, com sua voz doce e tenra, ela disse-me estas palavras: uma flor entregue à pessoa amada é uma genitália amputada, que talvez jamais poderá fecundar e que por fim morrerá, havendo tido apenas a esperança de se tornar fruto.

Depois dessa fala ela desvaneceu como se fosse apenas uma neblina - um devaneio que nunca houvesse acontecido. Ainda nessa mesma realidade onírica, veio outra personalidade ainda mais curiosa. Era um homem velho de barba branca, meio careca e um pouco obeso. Ele estava resmungando para si mesmo à distância a seguinte frase: “você não é a resposta para minha tristeza ou para minhas frustrações- um objeto com o qual terei a felicidade eterna. Você não é o sol da minha vida, no qual eu orbito e vice-versa. Não adianta eu querer coisas impossíveis do outro. Eu vivo minha vida e se meu caminho se converge ao seu é por pura coincidência.” Ele parecia ser um eremita, mas não consegui adivinhar quem ele poderia ser, talvez fosse alguém apaixonado.

Por fim, veio um anjo na forma de uma criança bem serena e bela, o que é estranho, esses mensageiros normalmente têm aparência repulsiva e incompreensível. De qualquer forma, ela carregava uma flor enquanto voava pelos céus azuis. De repente, tudo ficou cinza, e a imagem outrora bela, tornou-se abjeta. Não consigo descrever o vulto daquele ser: o que pude observar era apenas fogo. Ele veio até mim, enquanto eu estava sendo cegado pela sua luz intensa e disse: “o tempo demanda seu fim”. Assustado com essas palavras me despertei.

Havia sido um sonho bem estranho deveras enigmático. Uma mulher, um ermitão e um anjo dizendo coisas sobre o tempo e o amor, acho muito pesado para um simples cochilo. Depois de acordado, senti sede e aproveitei para fazer um lanche completo: afinal nem havia comido ainda nesta tarde. Enquanto preparava minha refeição, as palavras que foram proferidas por tais personagens reverberavam em minha cabeça.

Ó sono, tu és tão acolhedor. Sinto saudades de ti, do teu abraço acolhedor e da leveza como tu me levara à extinção momentânea desse meu espírito atormentado.


20 de Junho de 2021 às 14:22 0 Denunciar Insira Seguir história
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