fuyukahideki Adrielle Victória

Quando o irmão de Uchiha Sasuke, Itachi — líder de uma das maiores gangues de Konoha, a Akatsuki —, lhe pede um favor para fazer uma entrega de entorpecentes, o jovem Uchiha é pego em uma emboscada da polícia. Enquanto Sasuke vive sua monótona vida de detento, o governo de Konoha decide fazer algo para que os presos não percam completamente o contato com o mundo externo; e dessa ideia surge o "Escreve para um prisioneiro". Acreditando ser algo bobo, ainda assim, Sasuke se inscreve no programa de correspondências, apenas para descobrir que sua estadia dentro da prisão pode ser salva com cartas e um ursinho de pelúcia.


Fanfiction Anime/Mangá Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#fluffly #yaoi #sasunaru
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Cartas para um prisioneiro

Naquela fatídica noite, tudo parecia ter desmoronado. Uchiha Sasuke sentiu como se o mundo tivesse desabado em suas costas.


Tudo começou quando seu irmão mais velho, Uchiha Itachi — líder de uma das maiores gangues da capital de Konoha, a Akatsuki —, lhe pediu um favor. Mesmo que Sasuke já tivesse deixado claro que não queria fazer parte daquele submundo, com seu coração mole para a família, o Uchiha mais novo cedeu ao pedido.

À tardinha já caía e não havia sol para aquecer quem anda pelas ruas àquela hora, afinal, a temperatura foi amena durante todo o dia. Sasuke se sente nervoso, ainda que seu irmão tenha sido enfático ao dizer que ele deve agir naturalmente, o jovem, de vinte e três anos, não sabe como é se comportar dessa maneira quando se está carregando quilos de drogas numa mochila em suas costas. Onde estava minha cabeça quando aceitei participar de todo esse esquema? Ele questionava a dúbia decisão que tomou com base em seus sentimentos pelos familiares.

Itachi lhe pediu que fizesse a entrega de uma encomenda para um outro grupo de gângsters, afirmando que Sasuke era a pessoa perfeita para isso. Além de se manter distante de qualquer problema com a polícia, prezando pela ficha criminal limpa, Sasuke era a personificação de um bom moço. Ele passaria despercebido em qualquer ação suspeita, já que o rostinho bonito não denuncia em nada as entranhadas raízes criminosas do irmão mais velho.

As ruas estavam cheias, àquela hora, por volta das cinco e meia da tarde, muitas pessoas voltavam de um dia cansativo de trabalho duro. Sasuke estava tentando, a todo o custo, não olhar diretamente para elas, com medo de que seus pensamentos pudessem ser lidos ou que seu nervosismo fosse percebido. E se alguém visse através de suas roupas, descobrindo, assim, a arma em sua cintura?

O destino do jovem é um hotel barato, localizado no centro da cidade. Itachi havia passado e repassado todo o roteiro que ele deveria seguir para cumprir sua missão.

— Escute bem — começou o Uchiha mais velho —, quando chegar lá, vá até a recepção e diga que alugou um quarto para passar a noite, afirme o número, é setenta e quatro. Não aceite qualquer outro, está ouvindo? — Sasuke apenas concordou com a cabeça apressadamente. — Me avise quando estiver no quarto. — O menor confirmou mais uma vez. — Na casa das seis horas, alguém vai bater em sua porta, vestindo as roupas de um zelador e para ter certeza de que é a pessoa esperada, fale a senha. Qual é a senha? — Eles dois estavam se encarando firmemente.

— Devo perguntar se ele conhece as regras — respondeu de pronto.

— Ótimo. E a resposta?

— Sei o suficiente delas para quebrá-las sem ser punido — continuou.

— Muito bem. — Itachi bebeu um pouco de vinho. — Depois que pegar a mala, não abra, está bem? Passe a noite lá e na hora de voltar para casa, venha pelo metrô.

A conversa foi repassada enquanto o moreno andava e quando notou que já estava de frente para a fachada do prédio, sua garganta engoliu um bolo de saliva com dificuldade. Mas, sem querer perder qualquer minuto além do que deveria do lado de fora, ele se adiantou para dentro.

Localizando a recepção, depressa, Sasuke já foi procurando conversa com a recepcionista, aguardando o recebimento da chave do quarto especificado em sua reserva. Sasuke se surpreendeu com o quanto sua voz estava calma, não denunciava em nada qual era o verdadeiro estado de seu interior: extremamente ansioso, agitado e completamente desesperado.

Quando finalmente recebeu a chave, ele agradeceu, seguindo para o elevador, apertando o andar de número oito para subir. No momento em que as portas estavam se fechando, alguém pediu para que fossem seguradas, xingando mentalmente, o favor foi feito, assim como um agradecimento foi lhe dito pelo estranho.

O Uchiha tinha quase certeza de que suas pernas estavam visivelmente tremendo, por isso, para disfarçar, o jovem começou a balançar o corpo, fingindo estar seguindo o embalo de algo que tocava nos fones que colocou; mas a verdade era que o celular estava desligado. As mãos do homem suavam e enfiá-las nos bolsos da calça jeans parecia a melhor maneira de mantê-las quase secas. Sua preocupação estava na possibilidade de que o senhor ao seu lado pudesse desconfiar de alguma coisa — qualquer coisa —, porém, ele sabia que tudo não passava de paranoias por estar fazendo algo legalmente incorreto.

Sasuke praticamente saltou para além dos limites do elevador quando seu andar chegou, nem sequer olhando para trás quando começou a procurar pelo seu quarto ao longo do corredor deserto. Cada número mais próximo, era uma batida de coração mais veloz em seu peito.

No momento em que os orbes escuros localizaram a numeração correta, o moreno se precipitou para dentro velozmente após abrir a porta, não conferindo os dois lados do hall antes de entrar. Ainda que a troca fosse acontecer ali dentro, ele se sentia um pouco mais seguro longe das vistas do público.

Tirando a mochila e jogando-a em qualquer canto do sofá, Sasuke nem mesmo se preocupou em olhar o que havia dentro do quarto. Logo seguiu em busca de um banheiro, na pura intenção de lavar o rosto com a água mais gelada que fosse possível.

Abrindo a porta sem qualquer delicadeza, ele foi de encontro à pia, já colocando as mãos em concha embaixo da torrente que caía, levando o líquido com urgência contra sua face.

— Que porra você pensa que está fazendo? — perguntou, encarando seu pálido reflexo no espelho. O suspiro que deixou seus pulmões foi extremamente pesado.

Voltando para o centro do quarto, Sasuke observou de maneira breve o ambiente. Nada parecia novo ali dentro, a televisão de tubo denunciava isso aos berros. A cama estava forrada com lençóis, aparentemente, limpos, assim como havia uma toalha branca dobrada perto do travesseiro.

Enquanto secava o rosto e a parte molhada da frente de seu cabelo, o Uchiha ligou o celular descartável que recebeu do irmão, lhe enviando uma mensagem de texto para avisá-lo sobre sua chegada. No relógio do visor marcava 18h17min, não demoraria muito para que tudo acabasse.

Tornando a suspirar, ele guardou o aparelho de volta no bolso, olhando feio para a mochila, fez questão de se sentar o mais longe possível dela; sentando-se, então, em uma velha poltrona de couro perto dos pés da cama. Tirando, também, a pistola da cintura, a arremessando sobre o colchão. Itachi insistiu o suficiente para que Sasuke a trouxesse, dizendo que, se caso as coisas dessem errado, ele teria como se proteger. Isso nem deveria estar acontecendo, para começo de conversa, pensou amargamente.

Sasuke não faz a mínima ideia de como seu irmão entrou nesse submundo, ninguém da sua família fala sobre o assunto, é o tabu dos Uchiha. Ainda que ele tenha suas desconfianças, nenhuma delas nunca se provou como verdade, mas também não como mentiras. Entretanto, sinceramente, quanto menos souber, melhor, é o seu principal pensamento.

O relacionamento dos dois é incrivelmente bom e, por conta disso, Itachi acabou se aproveitando para pedir o que pediu, sabendo que seu irmão não recusaria. Desde muito novo, Sasuke sempre admirou e quis ser como o mais velho, alguém que tinha valores fortes, que nunca parecia acordar de humor virado e estava sempre lá para ajudá-lo no que fosse. Como ele poderia dizer não?

Passeando os olhos pelo quarto mais uma vez, o moreno notou um frigobar, decidindo que merecia qualquer bebida que estivesse ali dentro, ele não pensou duas vezes em abrir. Encontrou alguns doces, barras de chocolate, água, além de algumas pequenas garrafas de cerveja. Sorrindo para seu nervosismo, uma das bebidas veio consigo de volta para a poltrona, porém, quando ia abrir seu lacre para usufruir do álcool e, quem sabe, relaxar um pouco, batidas vieram da porta.

O coração de Sasuke parecia querer sair de seu peito, assim como todo seu corpo ficou frio. Largando a garrafa ao seu lado, ele pegou a arma, destravou e seguiu para a entrada.

— Pois não? — perguntou ainda com a porta fechada. Não havia olho mágico, então ele não podia espiar antes de abri-la.

— Serviço de quarto — responderam.

Desfazendo a tranca e abrindo pouco da porta, Sasuke encarou a pessoa do outro lado. Um homem alto estava parado à sua frente, com seus cabelos platinados completamente arrepiados e olhos espertos, o Uchiha sentiu um arrepio correndo em sua espinha quando se encararam. Ao seu lado estava um carrinho de limpeza coberto de roupas e lençóis sujos.

— Não pedi nada — começou o jovem —, será que você não sabe das regras do hotel? — ele perguntou, tentando soar descontraído o suficiente para não parecer suspeito, tudo para caso aquela pessoa não soubesse do que se tratava.

— Sei o suficiente delas para quebrá-las sem ser punido — respondeu. Ainda que o outro estivesse usando uma máscara de limpeza, Sasuke sentia que havia um sorriso em seus lábios.

— Você quer entrar? — O outro negou com a cabeça. Concordando com a ação do homem, colocou a arma de volta nas costas, voltando para o sofá a fim de pegar a mochila. — Aqui está. — Entregou nas mãos alheias, foi nesse momento que ele percebeu que o grisalho não carregava nada. Sua testa se franziu, porém, se aquilo era um disfarce, o pagamento deveria estar no meio das coisas que estavam no carrinho.

— Está tudo aqui? — perguntou o desconhecido.

— Tudo aí.

— Ótimo. — Apoiando a mochila nos lençóis sujos, ele a abriu, conferindo o conteúdo de forma breve. — Confirmado — falou com alguém em um ponto eletrônico no seu ouvido. — Você está sozinho? — Sasuke viu quando o homem levou ambas as mãos para as costas.

— Hum, estou. — Apertou o cenho, acompanhando o movimento.

— Certo, meu jovem. Levante as mãos e coloque-as atrás da cabeça — ditou, apontando uma arma na face de Sasuke. Seus olhos escuros se arregalaram enquanto ele obedecia, sem realmente entender o que estava acontecendo. — Você está preso por tráfico de drogas. De costas, na parede — comandou, e ele obedeceu. — Vamos, abra as pernas. Tem o direito de permanecer calado ou tudo o que disser poderá ser usado contra você no tribunal. Entendeu?

Tudo passou em câmera lenta nos ouvidos e ao redor de Sasuke quando ele sentiu seu corpo começar a ser apalpado. No momento em que a arma foi encontrada no cós de sua calça, ele sabia que estava ainda mais fodido. Antes, o menor poderia até se safar com os entorpecentes, explicar que nada daquilo lhe pertencia, no entanto, o jovem não tinha qualquer autorização para ter um revólver consigo — nem mesmo em sua residência.

— Isso aqui vai te custar alguns anos a mais na cadeia — falou o policial para o Uchiha ao encontrar a pistola, suas mãos já começavam a ser algemadas, o celular descartável já havia sido retirado de seu bolso. Em questão de minutos, outros dois homens adentraram o pequeno quarto. — Tem mais alguma coisa aqui? — perguntou.

— Não, somente a mochila. Ela não é minha, é do —

— Tem certeza de que não quer dizer isso perante um advogado? — questionou.

— Kakashi — chamaram de algum lugar —, tudo limpo. — O homem olhou brevemente para Sasuke. — Nós podemos ir.

De cabeça baixa, completamente envergonhado, o Uchiha seguiu o pequeno grupo para fora do hotel e para dentro da viatura.

Pareceu um longo caminho até a delegacia, ele ainda se sentia desnorteado, além de sem realmente entender o que havia acontecido. Como deu errado? E por que logo com ele?

Quando foi deixado sozinho dentro de um cubículo na delegacia, felizmente, sem as algemas nos pulsos, Sasuke se pôs a ruminar todo o acontecimento. A culpa tinha sido dele? Fez algo suspeito? Atraiu a atenção de alguém? No entanto, qualquer pergunta que se fizesse, não tinha respostas e não sabia se aqueles que o prenderam estariam dispostos a dar, claro que não.

No momento em que a porta de metal se abriu, o jovem se assustou. Kakashi, como havia sido chamado o homem de cabelos grisalhos, adentrou a sala na companhia do outro policial que invadiu o quarto. Eles traziam algumas pastas nas mãos, uma delas foi jogada na mesa, à frente de Sasuke.

— Conhece essa pessoa, não conhece? — perguntou Kakashi. — É seu irmão, não é?

— Sim, ele é — respondeu quando olhou para a folha aberta. Nesse momento, Sasuke finalmente entendeu que se tratava de uma ficha do Itachi, na que mostraram para ele parecia haver suas principais características físicas e atribuições para identificação, porém, todo o documento tinha, pelo menos, quinze páginas.

— Ótimo, podemos partir para os outros assuntos — o outro policial disse, o Uchiha leu o nome de Umino Iruka bordado em seu peito.

— Eu não tenho direito a uma ligação? — perguntou com urgência, transitando o olhar entre os dois homens.

— Certo, você pode fazê-la.

Ele ligou para o Itachi, poderia estar sendo estupidez da parte do Uchiha fazer algo assim, porém, não havia outra pessoa para quem recorrer.

Ninguém atendeu da primeira vez. Sentindo o coração pular no peito, ele tentou novamente, para também não receber qualquer resposta. Experimentando o número de seus pais, a surpresa de não ser recebido caiu sobre seu mundo. Eles já devem estar sabendo, pensava. E isso era óbvio, afinal, Itachi tem olhos, bocas e ouvidos em toda a cidade. Nada acontece sem que esteja sabendo, principalmente sobre a prisão de seu irmão mais novo.

Sentando-se desleixado — e completamente desolado — na cadeira, o moreno deixou um suspiro sair pela sua boca, uma risada sarcástica acompanhou esse movimento.

— Filho da puta — ditou baixo, sentindo as intrusas lágrimas correndo pelas bochechas.

Durante a conversa com os policiais, Sasuke ficou sabendo que há algum tempo eles observam Itachi, calculando seus passos e esperando o momento certo de agir — além de ter um informante da equipe no meio da gangue do Uchiha. O que eles não estavam esperando era que uma pessoa de fora do círculo ativo do grupo fosse atuar como mediador nessa situação. Porém, ainda que a operação tenha sido um fracasso, eles, ao menos, conseguiram algumas poucas e boas informações, pois Sasuke contou o pouco que sabia para os dois. Com isso, houve uma garantia de que sua pena, pela posse de armamento sem autorização, seria reduzida, além das que se referem às drogas.

Mais ou menos duas horas mais tarde, um advogado entrou esbaforido pela porta da recepção, ele alegava que havia sido contratado para defender o jovem Uchiha. Sasuke somente poderia imaginar que Itachi havia lhe feito esse favor de merda. Ainda que não quisesse aceitar, ele não tinha escolha, era isso ou não ter ninguém para ajudá-lo diante da corte, sua pouca renda mensal não cobriria e os advogados do Estado não são conhecidos por suas boas vitórias no tribunal.

Passar a noite na cela da delegacia foi triste. Os eventos se repetiam toda vez que ele tentava pegar no sono, além da completa descrença por ter sido abandonado em um momento tão crítico quanto esse. Mesmo que Sasuke faça esforço para entender os motivos que levaram seu irmão a sumir, é difícil absorver a ideia com toda a sinceridade e amor que sente pelos seus familiares.

No dia em que foi transferido para o complexo penitenciário, Sasuke descobriu as delícias e horrores de ter o sobrenome Uchiha. Depois de ter seus poucos pertences tomados na entrada da prisão e um uniforme ridículo ter sido dado em suas mãos, o inferno pareceu tomar forma.

Os detentos, de alguma maneira, sabiam sobre sua chegada e ameaças já foram ouvidas logo quando o jovem começou a caminhar pelos corredores, acompanhado de um carcereiro que lhe mostraria sua cela.

O cubículo que lhe foi apresentado era escuro, pouco arejado e nada aconchegante. Sasuke nunca imaginou que um dia estaria passando por algo assim, sempre pensou que, possivelmente, seria ele a visitar Itachi numa cadeia. Diante de todos os fatos, esse era o provável futuro. No entanto, o destino gosta de brincar com as pessoas e ali estava ele, sendo alvo de uma brincadeira de mal gosto.

Observando o pequeno espaço, Sasuke notou que tinha um colega com quem dividiria o cômodo. Percebeu, pela distribuição de algumas coisas, que o desconhecido dormia na parte de baixo do beliche, por isso, ele se movimentou para colocar os pertences de higiene pessoal no fino colchão de cima.

O Uchiha ficou temeroso em conhecer a pessoa com quem iria dormir no mesmo ambiente por sabe-se lá quanto tempo. E se fosse alguém que conhece e odeia seu irmão? Ele poderia sofrer algum tipo de represália logo no primeiro dia. Seu coração estava na mão ao pensar em todas as possibilidades.

Preferindo ficar em seu canto, pelo menos, por hora, Sasuke aguardou pela chegada do anônimo, dono do beliche da cama de baixo. Coisa que não demorou muito a acontecer. Um franzino jovem de estatura média e cabelos brancos entrou pela cela destrancada, já que estava na hora do banho de sol. A testa do Uchiha se franziu ao constatar o outro.

— Oi — disse o desconhecido.

— Você é o dono das coisas na prateleira? — Havia uma prateleira de ferro soldada no meio termo entre o beliche de cima e de baixo.

— E quem pergunta? — Cruzou os braços no peito, Sasuke sentiu seus olhos se abrirem de leve. — Estou brincando, não precisa fazer essa cara! — Acabou por deixar um riso alto escapar. — Sou Suigetsu.

— Sasuke — falou simplesmente.

— Sasuke, o Sasuke? Irmão do Itachi? Uchiha? — Com um suspiro profundo, o moreno rolou os olhos e se jogou para trás, descansando a cabeça no fino travesseiro. — Ei, não me ignore! — Suigetsu estava empoleirado nas escadas da cama.

— E se eu for, que diferença isso faz para você?

— Nenhuma, na verdade. — Deu de ombros, escalando completamente os degraus e se chegando para sentar-se. — Eu não escolho lados, escolho o que me beneficia. Posso saber o motivo pelo qual está aqui? — A curiosidade era palpável em sua voz.

— Porque o meu irmão é um filho da puta. Essa é a razão — respondeu com amargura.

Hozuki Suigetsu pareceu uma pessoa agradável à primeira vista. E mostrou-se prestativo em explicar como as coisas funcionam lá dentro, mas quanto Sasuke perguntou sobre sua sentença, ele preferiu não entrar em detalhes; e o Uchiha também não insistiu.

Com o passar dos meses, sua vida lá dentro não foi um jardim de flores, como ele já imaginava. Sasuke foi forçado a aprender como unir forças — ainda que não quisesse — usando seu nome. Descobriu rapidamente que tudo era mais fácil quando se tinham algumas pessoas ditas como poderosas ao lado. No entanto, foi um pouco custoso aprender essas artimanhas. Antes que finalmente cedesse aos grupos, suas visitas à enfermaria não eram raras, assim como os envios para a solitária, já que ele não apanharia sem revidar.

Porém, aos poucos, sua sobrevivência foi sendo comprada e mantida.

Lentamente, seu paladar e estômago se acostumaram ao grude que era servido no almoço e jantar. A única refeição mais agradável, por assim dizer, era o café da manhã. Mais devagar ainda, seus músculos se acostumaram a dormir no colchão de pouca espuma, com um cobertor que malmente inibia o vento que entra pelos cinco quadrados fechados com grade perto do teto.

No dia do julgamento para descobrir sua sentença, o Uchiha achou que estava com o coração preparado, mas claro que era uma completa falácia. Ninguém está pronto para escutar que passará alguns anos privado de sua liberdade.

O Juiz achou que seria benevolente reduzir suas penalidades, não apenas pela sua ajuda sobre o Itachi — este que ninguém havia escutado falar nos últimos meses —, mas também por compreender o que houve e sua falta de ficha criminal.

A sentença de cinco anos pode não parecer muito quando se está vivendo a plena vida do lado de fora, em meio à sociedade. Mas somente nos quatro meses que passou esperando pelo dia de ir ao tribunal, Sasuke tomou completa noção do quão arrastados os dias e horas passavam.

Ainda que houvesse sido um dia terrível em sua vida, o Uchiha conseguiu aproveitar o vento fresco que batia em sua face quando saiu do carro e adentrou o grande prédio da Justiça, assim como também quão boa era a quentura do sol na pele. Até mesmo o barulho de carros e pessoas nas ruas estava sendo gostoso de se escutar. Já dentro da sala de julgamento, em alguns momentos, ele apenas se perdia nas vistas que a grande janela lateral dava para o jardim.

Tudo aquilo ficaria para trás durante um longo período.

Quando voltou do tribunal, Sasuke pediu um calendário na vendinha da prisão — onde eles tinham direito de trocar o dinheiro recebido pelos trabalhos lá feitos —, dessa forma, o Uchiha começou a marcar cada um dos dias que passaria lá dentro até sua liberdade.


Hoje ele está marcando mais uma data no calendário que foi colado ao lado de seu travesseiro. É manhã na cidade de Konoha e dentro do complexo penitenciário o horário do banho, seguido do café da manhã, não pode ser perdido.

Já devidamente acostumado com a rotina da prisão, Sasuke, após um ano e meio de reclusão, se vê um pouco mais livre atrás das grades — por mais irônico que isso possa soar. Sua relação com a maioria dos presidiários é neutra, ainda que ele mantenha seu pequeno grupo, ninguém realmente faz nada, a não ser que haja extrema necessidade. Coisa que não acontece há algum tempo.

Sendo um interno modelo, no dia de ontem, Sasuke recebeu a visita de seu advogado. O homem trazia a notícia de que seu nome havia sido citado para uma possível diminuição em sua sentença, isso se ele não causasse quaisquer problemas até o final do ano — não que algo desse tipo estivesse em seus planos. No entanto, há alguns grupos dentro da penitenciária que são especialistas em gerar advertências para aqueles que estão com possibilidade de condicional mais cedo. Sendo assim, seus dois olhos precisam estar abertos para qualquer ocorrência.

Depois de um rápido banho, quando chegou no refeitório do presídio, o Uchiha ficou sabendo que teriam mais uma das tediosas palestras que vez ou outra ocorrem. A maioria fala sobre as possibilidades de readaptação à sociedade, principalmente para os que cometeram crimes menores — como ele próprio —, e sobre a importância do aprendizado de novas habilidades enquanto estão na prisão.

As palestras são divididas por turmas, já que não há como comportar todos os internos em uma sala. Sendo assim, logo pela manhã, eles ficam sabendo quem estará na primeira leva de presentes para o começo das atividades. E para o azar de Sasuke, Suigetsu não estava na lista. Ele teria de aturar tudo sem ter com quem cochichar durante esse período.

Quando os carcereiros pediram que o grupo da primeira palestra se apresentasse, o Uchiha não fez qualquer questão de segurar a careta de insatisfação. Seguindo pelos corredores do lugar, eles chegaram até uma sala que normalmente é usada para fins recreativos e rodas de conversação relacionadas à autoajuda. Nela há um projetor, algumas cadeiras escolares e desenhos feitos pelos presos colados pelas paredes. Seria um ambiente agradável, se não estivesse localizado em uma cadeia.

O palestrante se virou para receber sua plateia, sorrindo amigavelmente quando deu as boas-vindas para todos. São sete da manhã, ninguém deveria estar feliz desse jeito, pensava o Uchiha. Mas aquele homem, com seu cabelo preto escorrido em suas costas e de pele morena, estava contente em estar ali para apresentar umas boas-novas para eles.

— Bom dia! — ditou, sua voz soando grave. — Estou feliz de estar aqui hoje com todos vocês! — Os olhos amendoados passearam sobre a sala, parando em cada um dos rostos.

Como era esperado, houve, novamente, todo o mesmo falatório que Sasuke estava cansado de escutar sobre sua saída dali a uns anos. No entanto, no meio de toda a conversa, algo ganhou sua atenção, porém, não foi por uma boa causa, mas pela tamanha estupidez da ideia.

O homem chamado Senjuu Hashirama estava apresentando a novidade que o governo de Konoha queria trazer para os prisioneiros: um site para comunicação com o mundo externo. O mais hilário de tudo isso, é que o contato ocorreria por meio de cartas. Cartas? Quem ainda usa cartas em pleno século atual? Não apenas Sasuke pensava isso, mas a maioria dos que estavam ali presentes. Obviamente não haveria maneiras piores de isso funcionar bem. Seria um fracasso na certa.

No entanto, se fossem parar para pensar de forma lógica, qualquer contato com os que estão de fora não há como acontecer por meio de alguma tecnologia — que não seja o telefone oferecido pela prisão —, já que elas podem ser utilizadas com outros fins. Estranho seria se, por acaso, eles oferecessem essa oportunidade como teste de honestidade ou qualquer coisa moralmente positiva relacionada. Mas claro que não aconteceria, são muitos riscos a se correr numa situação dessas.

Hashirama falava extremamente empolgado sobre as vantagens que esse novo programa de nome “Escreva para um prisioneiro”, traria para todos. E uma delas era o fato de que qualquer pessoa no mundo poderia enviar algo para eles. Sasuke não conseguia ver nenhuma dessas particularidades incríveis que o homem falava. Quem, em sã consciência, desejaria trocar correspondências com alguém que cometeu um crime? Onde eles estavam com a cabeça para criar algo assim?

O palestrante continuou explicando como funcionaria. Cada um dos presentes receberia um formulário contendo algumas perguntas pessoais, como nome, idade, gênero, religião, além de outros aspectos. Enquanto falava, o homem já distribuía os ditos questionários. Ele falou também que na última folha havia um bloco com pauta para que eles descrevessem seus perfis e o que buscavam do mundo afora para corresponder. Poderiam falar sobre seus gostos, anseios, planos para o futuro, o ideal seria que a pessoa do outro lado pudesse criar um visual de quem é aquele que escreve. Após todo o preenchimento, algum carcereiro faria a dispensa do papel para os responsáveis em atualizar os perfis disponíveis no banco de dados. E cada interno seria convidado para tirar uma boa foto a fim de ser usada como identificação.

Na teoria, parecia que realmente funcionaria dessa forma. Que no momento seguinte que o site fosse lançado, estaria chovendo cartas no serviço de entrega das correspondências da penitenciária.

Sasuke ficou surpreso quando percebeu que boa parte da sala parecia empolgada com a ideia. Muitos ali estavam cumprindo prisão perpétua e alguns destes foram abandonados por suas famílias, logo, qualquer contanto que possa ser feito com o mundo real precisa ser agarrado com todas as forças e membros possíveis. Ainda que Sasuke também se encontre nessa situação de abandono, não é como se ele fosse se prestar a tal papel. Parece extremamente ridículo.

O moreno não via a hora de poder sair pela porta a qual entrou. Ainda não compreendia qual era a lógica daquilo tudo, a não ser dar falsas esperanças de uma amizade por correspondência para aqueles pobres homens solitários. Para o Uchiha, soava até mesmo cruel fazer algo assim.

No final da tarde, quando foi a vez de Suigetsu, ele voltou correndo para a cela, gesticulava loucamente para dizer que estava empolgado com o que falaram. E o quanto poderia ser divertido fazer o que pretendiam.

— Você vai fazer também, não vai? — ele perguntou, um sorriso largo desenhado na boca. — Com essa sua carinha, tenho certeza de que não vão faltar garotas atrás de você! Aquelas loucas, sabe? Que curtem um criminoso, igual a música da Britney Spears. — Ele olhava para as folhas, passando os olhos pelas perguntas.

— Eu não sou criminoso. — Sasuke rolou os olhos. — E não comece a cantar — advertiu, pois sabia que a probabilidade de acontecer era enorme.

— Certo, certo. — Abanou a mão na frente do rosto. — Vou preencher agora mesmo! Quanto antes, melhor!

— Isso é besteira. Ninguém mais escreve cartas hoje em dia, tudo é na base da tecnologia. Você sabe disso, é tão jovem quanto eu.

— Para que ser tão pessimista? Pense um pouco positivo, Sasuke. — Ele se sentava em um canto do chão com um pequeno lápis entre os dedos.

— Estou sendo realista, é diferente. — Deu as costas ao outro rapaz, encarando o calendário na parede.

— Só não venha querer ler as cartas que eu receber — resmungou seu amigo. — Serão minhas — falou mais enfaticamente.

O Uchiha realmente não havia comprado a ideia, não tendo qualquer pretensão de se envolver direta ou indiretamente com o site, mas conseguiu ficar contente ao ver seu amigo empolgado com algo. Poderia, no final das contas, ser algo bom.

Dois meses mais tarde, Sasuke foi tirado do sossego do livro que lia ao ouvir os berros de felicidade de alguém, para logo descobrir que todos eles vinham de Suigetsu: sua primeira carta havia chegado. O Uchiha percebeu que havia uma grande comoção do outro lado do corredor também, aparentemente, hoje foi o dia da primeira leva de recebidos.

— Você quer ler comigo? — Ele já subia as escadas do beliche.

— Achei que não quisesse dividir, porque elas são suas — ironizou.

— Larga de ser chato. — Se ajustou ao lado do amigo.

A carta era de uma mulher com o nome de Karin. Ela falava algumas besteiras sobre ter se identificado com o perfil do Hozuki, contando também sobre sua vida de forma breve. Sasuke preferiu não se atentar a muitas coisas que ali foram ditas, o que realmente lhe chamou a atenção foi o fato de que eles não digitalizaram as cartas, ainda estavam à mão. Mas não estava em seu envelope original, claro, eles devem fazer a troca para preservar o endereço do remetente.

— O que devo responder? Eu não sei o que responder.

— Não pergunte para mim, você começou com isso. — Deu de ombros.

— Você deveria fazer um perfil, Sasuke — falou, olhando diretamente para o rosto do Uchiha. — Ainda tem o formulário, não é? Não custa nada e a expectativa é bem legal de se sentir. Não temos nada aqui dentro, sabe? E, aparentemente, existem pessoas dispostas a conversar conosco.

— Vou pensar na possibilidade — respondeu sem muito empenho.

— Apenas faça e deixe de ser rabugento! Você nem beira os trinta anos ainda.

— Desce da minha cama. — Começou a empurrar o amigo com os pés para a beira.

— Estou descendo, estou descendo. — Rolou os olhos. — Descendo para responder à minha carta! — Deu língua para o colega de cela.

No seu tempo livre do dia seguinte, o Uchiha decidiu dar mais uma olhada no questionário que recebeu de Hashirama na palestra. Procurando pelos livros que havia comprado por meio dos pedidos mensais aos quais tinha direito, ele encontrou como marcador de uma das páginas d’Eu sou a Lenda.

Aproveitando que Suigetsu estava fora — não queria que o colega o visse preenchendo nada —, ele vasculhou os lápis do amigo para encontrar um que estivesse utilizável. Sentando-se de volta em sua cama para, enfim, finalmente preencher aquelas vastas perguntas.

Sasuke estava se sentindo bobo por fazer o que estava fazendo. Pensou algumas centenas de vezes em desistir no meio do caminho, porém, sempre que deixava o papel de lado, voltava ao seu preenchimento minutos depois. Ele não sabia o que deveria esperar de uma coisa assim, parecia que estava se inscrevendo para um site de relacionamento e não de contato com detentos, para tanto que ele nem se deu ao trabalho de marcar sua sexualidade quando a questão surgiu.

Na última folha estava a pauta de seu perfil e o que ele queria apresentar para as outras pessoas. O Uchiha pensou seriamente em deixar aquela área vazia, afinal, não fazia ideia do que deveria colocar, já que nem mesmo em suas redes sociais ele preenche a biografia com muito afinco. Sasuke não fazia a mínima ideia nem por onde começar. Poderia perguntar para Suigetsu, mas também não queria fazer alarde sobre a sua decisão em participar do site. E não havia nem mesmo como dar uma espiada em outros perfis a fim de tomar alguma noção de apenas como iniciar.

Sendo assim, Sasuke parou para tentar recordar o que Karin havia dito na resposta que enviou para Suigetsu. Ela falava sobre a identificação que teve com os gostos que o jovem apresentou, isso poderia ser um ponto de partida.

E lá estava ele, começando a descrever as coisas que gostava de fazer quando estava fora daquela prisão. Falou sobre gostar de ir à praia nem que fosse apenas para observar as ondas do mar, escreveu também sobre seu gosto por filmes de terror, mas que não havia qualquer problema em assistir a um romance — principalmente se estivesse na companhia de alguém que gosta.

Empolgando-se com as ideias, Sasuke citou algumas das suas bandas favoritas, além de apontar algumas músicas que sente saudades de poder escutar à hora que quisesse. Também contou que gosta de viajar e conhecer novos lugares, concluindo que é uma das coisas que pretende fazer quando ganhar sua liberdade de volta.

Para ele, parecia que estava tudo certo. Não era o melhor que conseguiria fazer caso estivesse em uma situação mais favorável, no entanto, era o que havia chegado à sua mente para o momento, não iria se esforçar mais. Talvez fizesse uma releitura antes de entregar para quem fosse levar ao pessoal responsável, porém, por hora, era aquilo que estava ali.

E foi o que fez, no dia seguinte, leu tudo o que escreveu, reestruturando algumas coisas e acrescentando algumas outras. Procurou não pensar demais quando deu o formulário na mão de um dos carcereiros. Sasuke nem sequer avisou para Suigetsu o que tinha feito, não estava nem um pouco a fim de escutar suas reclamações sobre não o ter deixado dar uma olhada no que escreveu — o Uchiha tinha certeza de que ele daria palpite nos detalhes. E não queria ser influenciado por outrem.

No dia seguinte, Sasuke estava no banho de sol quando alguém veio chamá-lo para tirar a foto do seu perfil. Sentado em uma das salas da entrada do presídio, a mulher lhe perguntava se gostaria de mudar ou acrescentar algo na ficha, virando a tela do computador para que ele visse como tudo estava sendo feito, faltava apenas a fotografia.

— Você pode escolher uma de suas redes sociais — comentou ela.

— Posso? — respondeu, surpreso. — Ninguém disse nada sobre isso.

— Alguns detentos deixaram que a família ou amigos preenchessem seus perfis, então, você pode fazer uso de alguma foto que goste. Você tem direito a três delas.

Sasuke deu seu nome de usuário e senha para acessar sua conta no Instagram, vendo com nostalgia — apesar do sentimento de raiva e tristeza —, algumas das fotos com seus familiares e amigos. Para não se deixar submergir nesse fundo de poço que são os sentimentos ambivalentes que carrega no peito, ele correu para achar uma que estivesse ao seu agrado. Escolhendo as três mais recentes que foram postadas pouco antes de sua prisão.

Quando o seu perfil finalmente estava no ar, ele não conseguiu segurar o friozinho no estômago que sentiu. Era sobre essa expectativa que Suigetsu estava falando. Há quanto tempo não me sinto dessa maneira? Com verdadeiros sentimentos, sem estar nesse eterno limbo que vivo diariamente? Ele se questionava quando começou seu caminho de volta para o pátio, onde encontrou um Suigetsu extremamente apreensivo.

— O que foi? Recebeu uma advertência?

— Não, não é nada disso. — Franziu a testa. Realmente seus questionamentos faziam sentido, sempre que alguém é chamado pela administração é sinal de encrenca.

— Então?

— Eu me inscrevi nesse programa estúpido de cartas. — Rolou os olhos, falando entre os dentes.

— Sasuke! Por que não me disse nada?

— Porque eu não queria que agisse dessa maneira. — Rolava os orbes mais uma vez.

— O que colocou? Como escreveu? Está ansioso? Eles também te deixaram escolher uma foto de suas redes sociais?

— Uma pergunta de cada vez. — Não se segurou quando sua risada veio, seu amigo estava claramente mais empolgado do que ele.

No início da semana seguinte, uma nova remessa de cartas chegou, no meio delas estava mais uma de Karin para Suigetsu, além de mais outras duas. Porém, Sasuke ainda não havia recebido nada. Era de se esperar, afinal, a plataforma consta com todos os detentos do país, além da demora que os serviços de entrega levam para fazer a transferência das postagens. No final, apesar de esperar por algo, o Uchiha não havia colocado isso como prioridade para sua estadia lá dentro do complexo.

Foi na segunda semana que finalmente algo chegou para si. Sasuke quase não acreditou no que estava vendo. O envelope neutro no qual a carta foi colocada pela polícia parecia fruto de uma alucinação. Chegava a ser cômico os sentimentos que borbulhavam dentro do moreno, ainda que em sua face houvesse somente a expressão de descrença.

Subindo para sua cama, ele abriu o envelope. Passeando os olhos pela caligrafia de quem o escreveu, não era tão desenhada quanto a da mulher que escreveu para seu amigo, no entanto, era bastante legível e arrumada. Não era uma carta muito grande também, tomava pouco mais da metade da folha. Claro, com toda a certeza, ninguém sabe exatamente o que escrever para alguém que não conhece, baseando-se apenas no que leu em um perfil pouco detalhado como o dele.

Sem querer se demorar nessas minúcias, Sasuke se pôs a ler o que ali dizia:


Olá, Uchiha Sasuke! Tudo bem? Hum... Espero que sim, na medida do possível.

Eu não faço a mínima ideia do que escrever e ainda não tenho a menor noção de como começar essa carta, haha. Então, decidi ir pelo mais lógico, não é verdade?

Me chamo Uzumaki Naruto, tenho vinte e quatro anos, e sou médico veterinário aqui em Konoha.

Quando descobri sobre o site, fiquei bastante interessado em fazer algo a respeito. Parecia que, finalmente, o governo tomou alguma iniciativa para não os deixar tão isolados do lado de fora. Fiquei contente com a novidade.

Passei alguns bons minutos tentando me decidir para quem enviaria essa carta e no final, à base da sorte, você foi o felizardo, quer dizer... Que prepotente da minha parte! Depende muito de como você vai receber as coisas que digo, não é?

Me identifiquei bastante com algumas coisas que disse em seu perfil! Eu adoro uma das músicas que você citou, mas não irei dizer qual, quero saber se consegue adivinhar! Também gosto muito de filmes de terror, mas não sou fã de dormir sozinho depois de vê-los. Não ria, sei que é patético para alguém com a minha idade! Além de que sou uma manteiga derretida para filmes de romances, sempre assisto com um pote de sorvete nas mãos e alguns lenços ao lado.

Ah! E eu também adoro o mar, o barulho das ondas, o cheiro de sal! E sobre as viagens, eu adoraria poder fazer um cruzeiro, juntar o útil ao agradável, parece incrível, você não acha? Para quais países você gostaria de viajar quando sair daí? E para onde você já foi? Qual a melhor viagem que fez em sua vida?

Sobre o que você gostaria de saber do mundo aqui fora? Posso te contar as novidades, mesmo que elas já tenham passado algum tempo, ainda vai ser boa-nova para você.

E eu posso perguntar sobre o que você faz aí dentro? Como... Sobre como você se distrai? O que vocês fazem durante o dia? Não sei muito sobre a rotina de um presídio. E sempre acreditei que nunca saberia, haha, agora tenho a oportunidade, ainda que de forma parcialmente direta!

Você gosta de esportes? Gosta de livros? E de peças de teatro? Gosta de animais de estimação? Eu gosto muito. Dá para saber pela minha profissão, não é? Tenho um cachorro chamado Kurama. Adotei ele em uma visita até um canil, não estava nos meus planos, sabe? Mas não resisti quando ele olhou para mim e começou a balançar o bumbum.


Sasuke não percebeu que estava sorrindo enquanto lia tudo o que havia sido escrito para ele. Naruto parecia uma pessoa empolgada, já que sempre estava emendando uma pergunta no meio de suas respostas. Estava sendo realmente divertido ler cada uma das palavras, quando leu a que seu amigo havia recebido, não foi esse o sentimento que teve. No entanto, aquela ali era direcionada para si, óbvio que a sensação seria diferente.

No final, Naruto fez questão de afirmar que estava esperando uma resposta para todas as perguntas que fez. Um singelo sorriso dançou na boca do moreno, há quanto tempo eu não tenho qualquer contato com o mundo externo, que não seja o meu advogado ou os palestrantes? Ele se perguntou quando viu a assinatura do outro homem como forma de encerrar a cartinha.

O Uchiha se empolgou quando pegou o lápis e o papel que o carcereiro entregou para responder. Seu coração estava pulando no peito, ainda que ele não fizesse a menor ideia de como deveria responder, somente o fato de ter recebido alguma coisa já o deixava contente.

No momento em que colocou o lápis na pauta, ele se deu conta de que não fazia a mínima ideia de como deveria iniciar. Querido Naruto, íntimo demais. Olá, Naruto! Muito empolgado? Coçando a nuca, ele se pôs a pensar um pouco sobre como deveria fazer, se permitindo dar mais uma breve olhada na que recebeu.

Oi, Naruto! Primeiro, preciso dizer que fiquei muito contente em receber a sua carta... E dessa maneira, ele se deixou levar pelo que viesse à sua mente como resposta para as perguntas que foram feitas, e também pensando em como poderia dar margem para que novos assuntos pudessem surgir.

Pela primeira vez em muito tempo, Sasuke estava se sentindo genuinamente empolgado com alguma coisa nessa sua monótona vida de detento.

Logo quando entregou a carta de resposta para o carcereiro, o Uchiha já começou a sentir a ansiedade de receber algo de volta, mesmo sabendo que demoraria algum tempo. O que o acalentava era saber que Naruto mora na mesma cidade, isso pode acelerar o processo nos serviços de postagem e entrega.

Os dias seguintes de Sasuke foram todos baseados na espera de receber algo. Sempre que os responsáveis passavam pela frente de sua cela segurando um bolo de papéis, seu coração batia acelerado em expectativa. E quando nada lhe era entregue, ele não se sentia tão frustrado por compreender a demora e burocracia de todo o sistema. Talvez a sua carta precisasse ser avaliada por especialistas, assim como a de Naruto, para ter certeza de que eles não estavam se comunicando em códigos para bolar planos. Pode ser uma ideia extremamente fictícia, porém, nunca se sabe o quanto o pessoal encarcerado consegue ser esperto para essas coisas.

E quando o dia finalmente chegou, lá estava ele outra vez, parecendo uma criança feliz ao desembrulhar um presente antecipado de Natal; mas nesse caso, era somente a carta de alguém desconhecido guardada em um envelope sem qualquer decoração.

Ao longo da resposta, que desta vez contava com duas laudas, o Uchiha não guardou nada do sorriso que abriu desde o momento em que pegou as folhas e se pôs a ler. Enquanto lia, ficou sabendo de algumas poucas coisas da vida de Naruto e também sobre como era sua aparência. O homem disse que não parecia justo que ele estivesse ciente de como Sasuke se parecia fisicamente e o outro não tivesse, ao menos, uma pequena noção de sua fisionomia.

Sasuke fez esforço para imaginá-lo a partir da descrição: cabelos loiros e arrepiados, olhos azuis, pele bronzeada e estatura mediana. O Uchiha ficou pensando que o Uzumaki era seu oposto, tinha olhos claros, enquanto os dele são extremamente escuros, assim como seus cabelos estão distantes um do outros. Para fechar as distâncias, havia o tom de pele. Com a reclusão, Sasuke está paletas mais branco do que já foi um dia. Em sua cabeça, a construção que fez foi de alguém que mora na praia e tem cheiro de mar, falando com o sotaque de algum litoral do país. Na sua imaginação, Naruto parecia realmente bonito.

O Uzumaki pareceu ter se divertido com a resposta de Sasuke com relação ao que faz para se distrair, já que o moreno escreveu um genuíno: “porra nenhuma”. Mas logo tratou de se retratar e explicar que havia alguns meios de distração, como a biblioteca e os campeonatos de esportes que os internos organizavam por temporada. Assim como os trabalhos quase diários em algumas oficinas, para que eles tenham seus próprios dinheiros e aprendam habilidades que possam servir para o mundo fora da penitenciária.

Responder à nova carta foi empolgante e era óbvio que Suigetsu não deixaria passar a oportunidade de falar sobre isso com o amigo. Sua diversão era clara.

— Se divertindo, Sasuke? — falou, uma sobrancelha se levantando em provocação.

— Não enche.

— Posso ler? — O Uchiha não respondeu, apenas deu dois tapinhas em seu colchão para convidá-lo. — Está respondendo? — investigou depois de se acomodar, pegando a carta para passar o olho.

— Estou.

— Ele é legal?

— Parece ser uma pessoa bastante agradável. — Foi sincero na resposta.

Sasuke nunca havia passado por uma situação dessa na vida, nem mesmo quando estava do lado de fora, não costumava dar trela aos papos de estranhos que vinham em seus chats das redes sociais, por exemplo. Logo, tudo era novo, da carta ao anonimato. E por um momento ele se arrependeu por ter julgado o programa de maneira tão precipitada. No final das contas, aquilo havia trazido motivação para muitos detentos saírem de sua zona de (des)conforto em relação aos próprios sentimentos — ele estava incluso nessa conta. Poderia agradecer toda a insistência de Suigetsu também, mas não estava com saco para escutá-lo resmungar que havia avisado que era bom.


Com o final de ano chegando, Sasuke e Naruto ainda estavam no mesmo ritmo das trocas de cartas. Mesmo que no período entre o Natal e a virada, os envios não aconteçam, eles se despediram antes que isso acontecesse, com a promessa do Uzumaki de que voltaria a enviar suas correspondências assim que tudo normalizasse para ambos os lados.

Algo como amizade já havia se estabelecido entre os dois, por mais que ao longo dos meses Sasuke houvesse recebido cartas de mais algumas outras pessoas — principalmente mulheres, como Suigetsu havia apontado no começo —, a troca mais interessante e satisfatória sempre acontecia com Naruto. Suas respostas para essas outras nunca eram imediatas e muito menos tão empolgadas quanto para o Uzumaki.

Nessa pequena trajetória, Sasuke já havia recebido, inclusive, uma foto do cachorro de Naruto; um pequeno Lulu da Pomerânia. Eles já haviam conversado também sobre como aconteceu a prisão do moreno, Naruto soava indignado quando Sasuke leu sua resposta e isso, de alguma maneira, aqueceu seu coração. Ele não estava querendo se fazer de vítima ou qualquer coisa para amolecer o outro, apenas sentiu-se confortável o suficiente para falar sobre o que aconteceu.

E quando parava para pensar sobre esse conforto que sentia, sempre caía na mesma pergunta: ele não poderia ter sentimentos por alguém que mal conhecia, poderia? Nunca havia visto seu rosto nem sequer escutado o tom de sua voz. No entanto, o Uchiha sabia muito bem reconhecer a ânsia que se apresentava cada vez que recebia algo vindo do loiro e também quando enviava suas respostas. Estava gostando dele, isso já estava claro para si, por mais que tentasse negar veementemente, fazendo de conta que sentia apreço pela amizade — e não que isso estivesse fora da roda da verdade.

O pior de toda essa situação era não ter a mínima coragem de falar com o outro sobre o que estava sentindo. Não apenas pelo receio da rejeição, mas principalmente por sua condição. Quem se deixaria levar pelo sentimento de gostar de um prisioneiro? É loucura somente pensar na existência desta possibilidade. Naruto é uma pessoa com moral e costumes muito bons, aparentemente, com toda a certeza não permitiria que algo assim viesse a acontecer. Logo, Sasuke continuava satisfeito em ter sua amizade, mantendo a frequente troca de cartas. Quem sabe um dia, quando estiver do lado de fora, ele não tome um chá de atitude para dizer sobre tudo, pensando em deixar claro que não espera qualquer retribuição.

No dia trinta e um de dezembro houve uma pequena festa para comemorar a virada do ano. Em fevereiro deste ano que se abre, o Uchiha estará completando dois anos de reclusão, com mais três para cumprir, ele precisa admitir que pelas expectativas de receber suas correspondências, não notou o quão depressa os últimos meses do ano acabou por passar. Se prosseguirem dessa maneira, sua saída poderá chegar um pouco mais depressa do que o esperado — além da sua possibilidade de condicional.

Na primeira semana do mês de janeiro, Sasuke aguardou ansioso pelo dia em que o carcereiro faria suas distribuições. E ele não se decepcionou ao receber a carta de Naruto em meio a algumas outras. Estava ansioso para saber como havia sido a passagem de ano do loiro.

Com a transição do primeiro mês do ano para o próximo, o Uchiha passou a sentir-se incrivelmente agitado. E Suigetsu não deixou passar essa agitação despercebida, chamando o colega de cela para conversar em um dos banhos de sol durante a semana. Sasuke ainda não havia dito uma palavra sequer sobre como estava se sentindo por Naruto desde há algum tempo, seu amigo não pensaria que é uma coisa estranha para acontecer?

— E por que não conta? Você está esperando a resposta da última carta, não é? Pelo menos você não vai precisar encarar a rejeição cara a cara. — Ele deu de ombros.

— Sinceramente, o meu medo não é a rejeição, é que o Naruto pare de me corresponder.

— Isso sempre será uma possibilidade. Independente dos seus sentimentos. — Seus olhos estavam ligados no jogo de basquete que acontecia na quadra à frente. —Vai que ele gosta de você também — falou, dessa vez, desviando os olhos para o rosto do Uchiha.

— Tomarei uma decisão até a carta chegar.

E assim ele fez. Meditou dia e noite sobre os prós e contras de finalmente se declarar para aquele estranho, que já não era mais tão estranho assim. Não quando os dois já haviam trocado tantas confidências, principalmente sobre o quão difícil é a vida dentro da prisão. Sasuke revelou coisas sobre seus primeiros meses aqui dentro, as quais sempre acreditou que não teria qualquer coragem de falar para ninguém, nem sequer passou pela sua cabeça o fato de que as pessoas responsáveis pelos envios também estariam lendo.

O Uchiha não fazia ideia de como colocar seus sentimentos em pauta, fez isso pouquíssimas vezes em sua vida e nenhuma delas havia sido dessa maneira. Sendo assim, respondeu tudo o que Naruto comentou e deixou o final em aberto, pensando em como iria expor tudo o que vem sentindo.

Com toda a certeza seria mais fácil em uma conversa frente a frente, ainda que a vergonha por estar em sua posição tomaria toda a sua coragem. E foi com o triplo de esforço que não esperava fazer, que ele finalmente começou sua declaração. Procurou não ser muito romântico, afirmando — vezes demais — que não estava esperando que o outro retribuísse. Sasuke apenas queria tirar aquele aperto de seu peito ao falar o que sentia. Deixou claro, também, que entenderia se o outro nem mesmo quisesse responder ao que foi dito. Ou preferisse deixar de respondê-lo.

A coragem foi pouca e o nervosismo muito quando finalmente colocou a carta para envio. Pela primeira vez, dentro desse período no qual eles vêm se correspondendo, Sasuke esperava que a resposta não viesse tão cedo. Queria digerir primeiro o que havia feito e só então, ler o que haveria de ser sua sentença — coisa que nem mesmo sabia se iria acontecer. Quem sabe Naruto não decidiria simplesmente deixar de mão? Fingir que nada havia acontecido.

A cada novo amanhecer era uma nova ansiedade que o moreno sentia, um misto de expectativa e pavor o acometiam a cada vez que os carcereiros passavam pelos corredores às suas vistas. E quando sua hora finalmente chegou, parecia que seu coração iria saltar pela boca a qualquer momento.

— E então, o que ele respondeu? — Suigetsu perguntou quando estavam jantando.

— Não sei, não li ainda.

— Qual é, Sasuke, isso não é hora de amarelar. O pior já foi feito, que é enviar. — E ele tinha plena razão, porém, o Uchiha não estava preparado para saber o que havia dentro do envelope. — Você precisa fazer isso antes que o pessoal apague as luzes.

— Você parece mais curioso do que eu.

— Claro, preciso saber se irei precisar te consolar ou não. Um coração partido é sempre um coração partido.

— E um vai se foder é sempre dito com a boca cheia — ditou com força.

— Você é um insensível, Sasuke. — Rolou os olhos.

Quando voltaram para a cela, o moreno finalmente tomou coragem para arrancar o band-aid, se policiando para não pular direto para a resposta do que queria saber. Assim, ele leu com calma todas as novidades que Naruto tinha para lhe contar. O peito dele se aliviou pelo assunto estar caminhando normalmente, ao mesmo tempo em que pensou se aquilo não era a maneira do outro dizer que não sentia a mesma coisa. Porém, procurando não sofrer por antecipação, seus olhos continuaram a vagar pelas palavras.


E é isso! Eu estou realmente contente por como tudo se resolveu! Eu detesto mal-entendidos.

Hum, Sasuke, sobre os seus sentimentos. Não sei realmente como colocar isso em palavras e preciso dizer que admiro a sua coragem por falar tudo. Principalmente porque nunca nos vimos nem nada. Quero dizer... Eu conheço sua fisionomia, o modo como escreve, mas nunca ouvi sua voz ou senti seu cheiro, por exemplo.

Mas, acima de tudo, estou aliviado. Por um momento pensei que estava ficando louco ao perceber que estava gostando de você além da conta. Eu tentei procurar meios de dizer isso, porém, sempre acabei por desistir, pensando que seria egoísmo demais da minha parte jogar esses sentimentos em seu colo. Afinal, você tem coisas maiores com o que se preocupar, não é?

Acredito que tudo seria mais fácil se estivéssemos frente a frente. Queria poder ouvir de sua boca tudo o que me escreveu. E você teria de lidar com as minhas lágrimas, haha. Mas elas seriam felizes, está bem?

Posso voltar a dormir tranquilo agora que sei o que sente. E sabendo que não estou sozinho, porque eu gosto de você.


— Ele gosta de você também, não é? — Suigetsu o trouxe de volta para a realidade.

— Como?

— Estou falando com você há alguns minutos e esse sorriso entranhado em sua boca fala por si só.

Sasuke rolou os olhos, mas não evitou continuar a sorrir.

Ele foi dormir feliz e tranquilo pela confirmação que teve. Parecia que um enorme peso havia sido retirado de suas costas. E mesmo que estivesse eufórico com isso, o Uchiha preferiu responder apenas no dia seguinte.

Com os sentimentos esclarecidos, as trocas de mensagens pareciam mais calorosas, Naruto passou a responder com um coração ao final de cada carta, e Sasuke não deixou de adotar a mesma atitude. Ele estava se sentindo um bobo apaixonado, mas o sentimento não era ruim nem mesmo há quilômetros de distância. Muito pelo contrário, havia dado um gás para a sua vivência atrás das grades.

Dessa forma, em março, ele recebeu uma surpresa boa na primeira carta do mês. Naruto perguntava se não poderia começar a se comunicar por ligações, já que Sasuke outrora comentou sobre os telefones com fichas que eles têm direito dentro do presídio. Seu coração bateu forte ao ler aquelas palavras, com o número de telefone logo nas últimas linhas — ele nem mesmo sabia que isso era permitido. E com isso, o Uchiha decidiu não responder, ligaria para o loiro no dia seguinte, no final da tarde, que é quando os telefones estão mais livres e ele conseguirá mais tempo para se manter na linha, mesmo que haja limite para a duração da chamada.

Sasuke praticamente não dormiu, a ansiedade dominava todo o seu corpo apenas por pensar em finalmente escutar a voz da pessoa com quem vem se correspondendo há vários e vários meses, além de ser o homem por quem passou a nutrir sentimentos românticos. Seu estômago gelou somente pela noção da atitude e da coragem que precisaria ter para fazê-lo.

E quando ficou de frente para o telefone, com a carta em mãos para ver o número, ele quase amarelou. Quase. Seu desejo de ouvir o outro foi mais forte do que a covardia que queria dominá-lo.

Sasuke escutou a voz eletrônica questionando ao Naruto se ele gostaria de aceitar uma ligação da prisão estadual de Konoha. Com as mãos e pernas tremendo, um bip soou antes que ele escutasse:

— Alô? Sasuke?

Oi — falou, e foi tudo o que conseguiu por um momento.

Uau, é você mesmo? — Ele parecia surpreso.

— Sou eu mesmo — rindo, conseguiu relaxar um pouco. — Como você está?

Agora? Estou em choque! — Sua risada foi gostosa. — Estou chegando em casa. Você me ligou quando eu estava saindo do elevador, acredita? Eu poderia ter batido o carro caso recebesse a ligação no trânsito. — Sasuke absorveu o timbre da voz do Uzumaki, pensando o quanto deveria ser bom ouvi-lo pessoalmente, sem os ruídos que uma linha telefônica proporciona.

— Como foi o trabalho?

Foi ótimo!

A conversa se desenrolou como se eles se conhecessem há anos e a ligação fosse uma coisa corriqueira. Essa noção aliviou o peso na alma de Sasuke, que estava temeroso sobre ser algo tímido e com pouco assunto.

O Uchiha não notou o tempo passar e acabou assustando-se quando o primeiro aviso sobre o tempo estar se esgotando soou. Parecia um pecado desligar, no entanto, não queria que fosse cortado no meio do que falavam.

— Naru — chamou.

O que foi?

O meu tempo está acabando. Me desculpe, mas preciso desligar.

Ah... Tudo bem, não precisa se desculpar.

Posso dizer uma coisa?

Claro. — Sasuke sentiu a expectativa que havia na curiosidade.

— Eu — ele se aproximou um pouco mais do fone, parece que estava fazendo uma confidência —, eu adorei ouvir sua voz — sussurrou.

Digo o mesmo. — Houve um momento de silêncio confortável. — Você vai me ligar outra vez, não vai?

Vou.

Toda semana, nesse horário?

Toda semana, nesse horário — repetiu para confirmar.

Mal posso esperar pela semana que vem.

Faço de suas palavras as minhas. — Mais um aviso soou para o Uchiha. — Boa noite, Naru.

Boa noite, Sasuke.

Ele realmente teve uma noite incrivelmente boa, com um sorriso bobo plantado em sua face, Suigetsu não precisou questionar para saber que aquilo era obra de Naruto.

As conversas ao telefone eram sempre muito divertidas e não demorou nada para que a quantidade de chamadas aumentasse de número. Passando de uma vez para duas, logo para três e se fosse depender dos dois apaixonados, eles ficariam muito mais do que a hora que era permitida para o Uchiha. Mas cada segundo era mais do que bem aproveitado por ambos.

E no começo do meio do mês de abril, Sasuke se pegou fazendo algo que não esperava, não estando dentro de uma penitenciária, muito menos com alguém que nunca viu a face.

— Uzumaki Naruto — chamou.

O que aconteceu? — Seu tom era alarmado.

— Você quer namorar comigo?

Como?

Quer namorar comigo? — perguntou outra vez.

Tem... Tem certeza do que está perguntando?

Gosto de você, Naru. Por que não teria?

Gosto de você também. E isso não se faz! Não posso abraçar você, não posso te beijar! Não posso, ah! — Um grito foi dado longe do aparelho. — Lógico que quero namorar com você, Sasuke.

— Eu já estava ficando preocupado. — Os dois acabaram rindo.

— Você só me pegou de surpresa! Como queria que eu reagisse? Primeiro me chama pelo nome completo, para logo em seguida fazer uma pergunta dessas, você ainda me mata!

— Não morra antes que eu possa te ver.

Olha! Então, por favor, colabore, meu bem! Ou isso, ou não teremos essa chance. Está bem?

Meu bem. Naruto já havia o chamado de outros apelidos carinhosos ao longo das conversas, mas agora, com a confirmação de seu relacionamento, soou tão gostoso aos seus ouvidos, que ele não pôde deixar de sorrir.


No mês de junho, com a proximidade do dia dos namorados, Sasuke queria fazer algo para agradar seu parceiro. No entanto, por estar onde está, havia diversos impasses que não permitiam que isso acontecesse. Sendo assim, sua melhor arma era usar da criatividade.

Pedindo algumas folhas de papel extras, ele fez um desenho — da melhor maneira que conseguia com as ferramentas que tinha — de como imaginava que o loiro era. Por mais simples que pudesse parecer, era o que conseguia fazer para o outro. E duas semanas antes do dia doze, ele escreveu uma carta reafirmando todos os seus sentimentos e confessando mais uma vez o quão bom foi ter aceitado o conselho de seu amigo para que um perfil fosse criado no site.

Sasuke não esperou por resposta via carta, afinal, eles conversariam por telefone até o dia em que ele recebesse o enviado e nos posteriores a ele.

E no dia de comemorar, a conversa que tiveram foi extremamente agradável, cheia de romance e planos que somente poderiam ser cumpridos quando Sasuke estivesse em liberdade.

O que você quer de aniversário? — Naruto perguntou.

— O que eu quero? — repetiu. — Quero te ver. — Não precisou pensar muito para decidir.

Me ver? E como posso fazer isso?

Uma visita?

Ah, mas é claro! Está bem! Irei te visitar em seu aniversário!

Naruto não havia comentado sobre o fato de que também enviou um presente de Dia dos Namorados para Sasuke. Presente este que só chegou nas mãos do dono uma semana depois da data comemorativa: era um urso de pelúcia. Estava com alguns buracos em suas patas, assim como nas costas e cabeça. Porém, o Uchiha conseguiu compreender o motivo, o pessoal da fiscalização fez o que tinha de fazer, mas não se deram ao trabalho de nem mesmo costurar aquilo que abriram.

Seu peito se aqueceu ao ver o ursinho marrom que segurava um coração. Ainda que estivesse com algumas espumas brancas para fora, era um presente dado na mais pura intenção. Havia um leve odor vindo dele, o que fez o Uchiha pensar que deveria ser do perfume do Uzumaki, mas estava fraco pelo tempo que passou nas mãos da vistoria.

Pensando sobre o que poderia fazer a respeito dos rasgos, Sasuke decidiu ingressar no curso menos popular da cadeia masculina: o de corte e costura. Daria um jeito nas imperfeições que foram criadas, deixando-o da melhor maneira que poderia conseguir.

E assim ele fez, trocou seu emprego na biblioteca por um na área de alfaiataria. Onde os presidiários auxiliavam no corte e costura de calças jeans, principalmente. Pegando a prática de como funcionava a máquina semiprofissional, ele perguntou ao responsável pela ala se poderia fazer uso pessoal de uma delas após seu expediente. Com a confirmação, logo no dia seguinte, lá estava ele, passando mais ou menos duas horas a mais do que deveria para restaurar os buracos no urso que ganhou. O responsável pela ala, Maito Gai, se sensibilizando da situação, também se sentou para auxiliar e facilitar o uso das linhas.

O resultado não foi perfeito, as orelhas estavam um pouco desalinhadas, assim como as patinhas pareciam tortas, no entanto, ele estava feliz com o que conseguiu fazer. Voltando para a cela, Sasuke não se importou com os olhares furtivos e cochichos que recebia por conta do presente infantil que carregava. Seu namorado o havia enviado, aquilo era sua única fonte de ligação com o mundo fora das barras de ferro, não seriam algumas fofocas que lhe tirariam esse prazer.

O urso repousava ao lado de seu travesseiro, fazendo par com a foto de Kurama e o calendário, que já tinha algumas datas destacadas como comemorativas. O Uchiha jamais imaginou que isso também aconteceria. Seu aniversário estava com um grande círculo preto feito à lápis, seria o dia em que finalmente olharia Naruto nos olhos. Ainda que fosse através do grosso vidro que divide os internos das visitas. Com o tempo, eles poderiam passar para as visitas nas mesas e cadeiras da outra ala.

Sasuke encarava o urso todos os dias até pegar no sono, às vezes segurava as patas gordinhas, às vezes mexia em seu focinho duro ou acariciava o coração vermelho e felpudo. Mas independente do que fizesse, sempre havia um singelo sorriso em seus lábios. Suigetsu estava achando tudo adorável, porém, obviamente, não se atreveu a comentar sobre seu pensamento com o outro.

A entrada do seu mês de aniversário, fez com que sua barriga entrasse em estado de refrigeração constante. A expectativa para que fizesse mais um ano de vida nunca foi tão grande em seu coração. Finalmente conheceria Naruto.

As semanas passaram depressa e quando seu dia chegou, ele estava mais nervoso do que jamais lembra-se de estar na vida. Suas pernas pareciam não querer obedecer, assim como as mãos suavam e estavam extremamente frias. Quando Suigetsu começou a frase “Relaxa, cara”, o olhar assassino que Sasuke lhe enviou o fez calar-se na mesma hora, sabia que o amigo realmente gostava do Uzumaki, e aquele momento estava sendo mais do que especial.

Quando o carcereiro veio chamá-lo para ir até o local de encontro, o Uchiha pegou o ursinho para levá-lo consigo. Parou na porta de sua cela para ser revistado e seguiu o caminho pensando em como seria finalmente encarar os olhos azuis do namorado pela primeira vez, além de ouvir sua voz um pouco mais realista do que vem escutando nesses últimos meses.

Suas algemas foram retiradas na entrada, pelo menos, os seguranças daquela área tinham a decência de fazer antes de abrir a porta, não deixando que quem estivesse do outro lado visse aquelas coisas em seus pulsos. Sasuke foi avisado que quem esperava por ele estava no último cubículo; apenas o primeiro e o segundo estavam ocupados. Havia uma lacuna de quatro até o que Naruto se encontrava, eles teriam um pouco de privacidade em suas conversas.

Respirando profundamente, ele caminhou numa postura de quem estava confiante até a cadeira.

Naruto abriu um largo sorriso quando viu a silhueta de Sasuke aparecendo por trás do vidro resistente. Ele falou algo, porém, não havia como ouvir, rindo, o Uchiha indicou o telefone para que ele usasse.

Oi! Meu Deus! Estamos realmente aqui! — Sua voz e expressão eram ambas empolgadas. — E você trouxe o ursinho que eu te dei!

Oi — sussurrou, ainda estava bobo com o quão bonito Naruto é pessoalmente. — Eu achei que seria legal trazê-lo comigo. Está um pouco remendado.

Aconteceu alguma coisa?

Bem, não podemos dizer que o pessoal que faz as vistorias são os mais cuidadosos. Precisei costurar algumas áreas.

Eu sinto muito.

Não, não sinta. Eu estou feliz com ele. — Seu sorriso foi sincero enquanto acariciava as orelhas do urso.

Feliz aniversário, Sasuke — Naruto falou, colocando a mão no vidro.

— Obrigado por vir — respondeu, apoiando a mão onde a do outro estava.

Tudo estava indo muito bem nos meses posteriores, isso até que o primeiro encontro que não havia uma placa de vidro temperado os dividindo foi marcado.

Sasuke estava sentado no chão de sua cela, o ursinho de pelúcia ao seu lado, afinal, era sua companhia favorita desde que o recebeu. Ele sempre esteve em todos os encontros com Naruto, sendo testemunha do quão inocente era o sentimento de um pelo outro.

O Uchiha não teve muito tempo para compreender o que aconteceu, em um momento estava sentado, relendo as primeiras cartas que recebeu e no outro já sentia uma violenta dor em sua boca.

— Segurem ele — alguém disse.

— O que —

— Cala a boca! — Um soco foi desferido em seu estômago o fazendo perder o ar. — Nós não temos o filho da puta do seu irmão, mas temos você! — ditou Kabuto, ele sempre esteve rondando Sasuke desde os seus primeiros dias. E foi quem mais o infernizou durante esses períodos.

— O que aconteceu? — Sua voz saiu em meio a buscas desesperadas por oxigênio.

— O que aconteceu, ele pergunta. Aconteceu que o filho da puta do seu irmão matou o Orochimaru, isso é suficiente para você? — gritava. — Ponham ele de joelhos. Com um chute nas costas de cada joelho, ele não teve muito o que fazer ao sentir suas forças nas pernas se esvaírem de vez.

Sasuke viu os olhos do homem de pé passeando pela cela. Ele pausou demoradamente no calendário e na foto do cachorro. Para logo em seguida descer para o chão, localizando o urso.

— Você anda para cima e para baixo com isso, não é? — Kabuto havia abaixado para pegar a pelúcia. Mexendo no macacão, Sasuke viu quando ele tirou de um dos bolsos uma pequena faca feita com escova de dente e lâmina de barbear.

— Não, Kabuto, por favor — falou enquanto tentava se levantar, sabia o que o outro pretendia fazer com aquilo.

— O quê? Não pode? — Olhava para o Uchiha com um sádico sorriso nos lábios. — Não pode porque foi presente do seu namoradinho? É isso?

Sasuke assistiu impotente enquanto o urso era aberto com a pequena lâmina. As lágrimas que escorriam de seus olhos não se comparavam ao sentimento que apertava seu peito com força.

Quando o carcereiro finalmente apareceu, ele teve seus braços liberados. O jovem não pensou muito bem quando agarrou Kabuto por trás e bateu em seu rosto com os punhos cerrados. Com toda a confusão, sua última lembrança foi um grito de um dos seguranças e a sensação horrorosa que a arma de choque causou em seu corpo.

Claro que ele foi parar na solitária por isso. Mas sua maior preocupação não era essa. Seu pensamento estava focado apenas em saber qual fim teria tido o presente que recebeu. Não estava se importando com a dor em sua mandíbula nem mesmo com o quanto sua costela latejava pelos grampos da eletricidade — até mesmo a ideia de que Itachi fez algo não lhe despertou interesse. Ele só queria saber sobre o ursinho, mas não tinha para quem perguntar. E não tinha como avisar para Naruto que não poderia encontrá-lo pessoalmente na data marcada.

De todos os seus dias de cão na prisão, este estava sendo o pior de todos eles.

Cada vez que alguém vinha depositar sua comida na porta de aço, Sasuke se precipitava para perguntar sobre o urso. Perguntava pela manhã, tornava a repetir à tarde e também na última refeição, porém, claro que não obtinha respostas. Passou quinze dias perguntando e sendo ignorado todas as vezes.

No dia em que finalmente saiu, suas pernas andaram depressa para a cela. Procurando pelo urso destroçado por aquele lugar, não achou nem vestígios de suas espumas. Por isso, voltou-se para procurar por Suigetsu, era sua última esperança.

— Finalmente você saiu, Sasuke — falou o menor.

— O meu urso, onde está?

— Eu guardei. — Desviou o olhar para os cantos. — Vem, vou te dar. — Eles foram até o local onde Suigetsu trabalha, na biblioteca. De baixo do balcão, o jovem tirou um saco plástico. — Sinto muito, não parece tanto com um urso agora.

— Obrigado. — Suigetsu sentiu a sinceridade em sua voz e apenas acenou uma confirmação.

Sasuke saiu da biblioteca direto para a sala de corte e costura. Não estava preparado para ver o estrago que havia sido feito, porém, ele precisava dar um jeito, não importando se o bichinho ficaria com uma perna ou orelha a menos.

Quando abriu o saco, tudo estava uma bagunça. Realmente não se parecia nada com o que já foi uma hora. Mas ele não desistiu, separou as peças peludas de um lado e as espumas.

— Você quer um pouco de pano? — falou Gai. — Pode ajudar a remendar as partes que a pelagem não suprir.

— Por favor.

Seus dias da semana até o próximo encontro com Naruto, caso ele aparecesse, foram todos na sala da alfaiataria. Gai o estava ajudando no que podia, pois se compadeceu do que houve e do carinho que o jovem tinha pelo urso.

Mais do que uma semana mais tarde, algo como um urso de pelúcia voltou a viver. Sua barriga era composta de pedaços de jeans, assim como algumas partes de suas costas e pernas. Um dos olhos havia sido substituído por um botão preto. A única coisa inteira era o coração.

Sasuke não resistiu a um abraço na pelúcia reconstruída, mesmo sabendo que poderia estar sendo ridículo diante do homem que o ajudava, este que apenas afagou suas costas num gesto silencioso de carinho.

A espera pelo dia em que veria Naruto terminou na tarde seguinte. Seu coração batia forte, principalmente porque os machucados ainda não saíram de seu rosto por completo, e eles voltaram para a estaca de não ser permitido encontros além da placa de vidro.

— Oi — falou baixo.

Sasuke — chamou em tom urgente. — O que houve? Conta pra mim. Ei, olha pra mim. Eles me disseram que você estava na solitária.

Eu estava, me envolvi em uma briga.

O que houve? Converse comigo, por favor.

Meu irmão fez alguma merda aí do lado de fora. E eles me pegaram desprevenidos. — Suspirou. — Não me importei quando fizeram comigo, mas Kabuto sabia o quão importante para mim era o urso. Me desculpe, Naru, eu tentei reformá-lo, mas precisei usar panos, porque a pelagem não estica —

Sasuke, olha pra mim, droga! — chamou mais alto, o moreno o encarou com o olhar triste. — Você está bem? — Sua mão estava pousada no vidro.

— Estou bem agora. — Colocou a mão na do namorado.

Eu fiquei tão preocupado. — Seus olhos estavam marejados, a voz embargava.

No colo de Sasuke, o urso remendado assistia tudo, tornando a gravar o quão puro era o que acontecia.

A primeira vez que eles se viram sem a placa de vidro, foi como se um novo mundo houvesse se aberto. Finalmente estavam a escutar a voz um do outro sem que fosse por meio de algo. Sasuke precisou conter imensamente a vontade de segurar as mãos do namorado, não muito diferente da força que fazia o Uzumaki.

— Eu fui revistado antes de entrar, que coisa boba — Naruto resmungava.

— Para eles, segurança nunca é demais.

— Eu vou te dar um novo urso, amor — comentou o loiro, olhando para o bichinho que se sentava nas pernas de Sasuke.

— Não vai, não. — Franzia a testa. — Esse aqui tem muita história para contar. — Ele acariciou entre as orelhas da pelúcia. — Não quero um novo, não ainda.

— Apenas me prometa que não vai brigar por ele outra vez.

— Não vou garantir absolutamente nada. — Deu de ombros, Naruto rolou os olhos. — Foi o seu primeiro presente, meu bem. É a única coisa para a qual posso olhar todos os dias e lembrar de você. É o meu pedaço de liberdade.

— Bobo. — Suas bochechas estavam vermelhas e um sorrisinho simples dançava em sua boca.

O desejo de um toque na mão, de um abraço e um beijo prevalecerá até que Sasuke esteja com os pés fora do complexo. Por compaixão, sua condicional não será reavaliada, já que os carcereiros se compadeceram dos motivos que levaram o Uchiha a atacar Kabuto, sendo assim, o ato de violência não foi parar em sua ficha, mesmo com sua passagem pela solitária.

As visitas presenciais acontecem sempre que possível, nos outros dias eles mantém contato por telefone, com Naruto avisando caso não possa comparecer nas datas marcadas. Porém, ele sempre dá um jeito de não acontecer absolutamente nada que acabe por impedi-lo de ver o namorado.

As datas no calendário de Sasuke estavam sendo riscadas com afinco dia após dia. Dias especiais, como o aniversário de Naruto, vieram e passaram como num piscar de olhos. Da mesma maneira que o primeiro aniversário de namoro também chegou, a sentença do Uchiha diminuía.

Todos os dias de visita eles eram três: Sasuke, Naruto e o ursinho. Em um dia que ele não secou a tempo do encontro, até mesmo o carcereiro questionou onde estava a pelúcia. O bichinho acabou virando o xodó dos que estavam por lá, mas ninguém gostava dele mais do que o próprio Uchiha. Não com todo o significado que ele depositou no simples presente desde que recebeu.

O Dia dos Namorados do novo ano, felizmente, caiu em um dia de visita. O coração de ambos não poderia estar mais acelerado, principalmente o de Sasuke, que ficou sabendo, quando tirava as algemas, que poderia segurar as mãos do outro. Seu olhar de incredulidade, assim como a surpresa em sua voz ao questionar se era verdade, foi motivo de um riso do segurança.

— Apenas não apronte nada e vai ficar tudo bem — respondeu.

Sentando-se na mesa, Sasuke pôs as duas mãos sobre ela, esperando que Naruto as cobrisse com suas próprias. A sensação foi indescritível para ambos. Estavam se sentindo pela primeira vez após mais de um ano. O Uchiha levou suas mãos nos lábios, beijando cada uma delas e os nós dos dedos também, descansando a mão macia em sua bochecha, um sorriso feliz estava colado em sua boca. O Uzumaki ria com felicidade genuína pelo ato do outro.

E o ursinho de pelúcia, mais uma vez, contemplava a nova descoberta. Sendo testemunha de um novo acontecimento entre os dois apaixonados.

Quando Sasuke foi convidado para o tribunal, para que soubesse sobre a sua condicional, ele não estava preparado para o que iria escutar lá, assim como não estava da primeira vez. E mesmo quando soube que sua soltura mais cedo foi aprovada, a incredulidade ainda gritava em seus ouvidos. Ele sairia no ano seguinte, quando completasse seu quarto ano de reclusão.

Sua empolgação era palpável quando encontrou com Naruto, o homem sabia que o namorado estava para ir até a Justiça saber dos resultados. E ficou tão contente quanto o próprio Sasuke ao saber da novidade.

Restavam apenas mais alguns meses até que ele saísse.

Eles não se encontraram nem no Natal nem no Ano Novo, mas ainda mantiveram contato pelo telefone nesses dois momentos. E quando voltaram a se ver, no começo de janeiro, Naruto se entristeceu ao contar que não poderia estar presente quando Sasuke saísse.

— Vou precisar viajar — disse, sua voz soava baixa. — A minha mãe faz aniversário de casamento e quer dar uma festa.

— Tudo bem, meu amor — falou com sinceridade, claro que gostaria de ter a presença do menor nesse momento, mas sua família também é importante. — Irei para um hotel até que eu consiga voltar para casa. Aproveite a sua viagem.

— Eu vou trazer roupas novas para que use quando sair! — disse contente.

A contagem regressiva no calendário estava mais fervorosa do que nunca, principalmente quando o dia primeiro de fevereiro chegou.

— Bem que você poderia deixar o ursinho para mim, vou ficar solitário sem você.

— Posso deixar qualquer outra coisa, exceto isso. — Ele balançou o urso.

— Estou brincando — ria.

— Venho visitá-lo, sabe disso.

— Vou cobrar essa sua visita. Não sei como, mas irei — ditou, fingindo estar bravo.

— Não precisa. Cumprirei minha promessa. — Cedeu a um abraço pedido de forma muda pelo outro.

As despedidas foram tristes, mas necessárias. Usando as roupas que Naruto comprou, Sasuke já conseguia se sentir uma pessoa livre, ainda que não estivesse com os pés do lado de fora das barras de ferro.

Pegando os seus poucos pertences na entrada, aqueles que foram deixados quando entrou, ele os guardou dentro de uma simples mochila que foi cedida pelo governo, mas um dos objetos não entrou ali: o urso.

A pelúcia seguiu com ele para os portões e para além dele também. Parando na rua, Sasuke inspirou fundo com os olhos fechados. Sentiu a brisa bater em seu rosto, assim como o calor que o sol proporciona àquela hora da manhã. Seu coração batia rápido, cantando com leveza dentro de seu peito.

— Liberdade — sussurrou. — Estamos do lado de fora. — Ele apertou o ursinho nos braços.

— Sasuke! — A voz o chamou ao seu lado.

Um sorriso simples brotou nos lábios do moreno. Caminhando com longos e apressados passos, ele alcançou Naruto. Não pensou nem mesmo uma vez sequer antes de segurar o rosto alheio e beijá-lo com carinho.

Naruto se permitiu ser abraçado, abraçando na mesma intensidade. Matando a vontade que durou três longos e intermináveis anos. Para Sasuke, tudo parecia perfeito, desde o modo como Naruto se colocava dentro de seus braços, o sabor de seus lábios e até o perfume que exala.

— Você não deveria estar viajando? — sussurrou, acariciando as bochechas alheias.

— Achou mesmo que eu perderia um momento tão importante como esse? — Um sorriso travesso dançava em sua boca.

— Obrigado. — Beijou a testa alheia.

— Vamos, vocês dois. — Ele tomou o ursinho nas mãos, olhando bem para ele. — Ah, se você pudesse falar — comentou enquanto caminhavam para o carro do loiro.

— Você não iria querer saber das coisas horríveis que ele viu e viveu.

— Então, compartilhe comigo, Sasuke — falou, estava sério. O moreno apenas assentiu.

Quando entraram no automóvel, Naruto colocou o urso no banco dos fundos, exatamente no centro entre os da frente. Ao lado da pelúcia maltratada, havia um novo, idêntico ao que aquele reformado já foi.

Sasuke o encarou por uns momentos, pensando que nem mesmo quando o recebeu pela primeira vez ele estava imaculado. Por alguns minutos, o moreno se deixou levar pela aparência do que esteve consigo durante todos esses anos. Com pedaços de jeans pelo corpo, um olho de botão, pernas e orelhas tortas.

O ursinho sem nome parecia com ele. Remendado, costurado e reconstruído. E ao seu lado estava Naruto. Alguém que parecia intocado pela maldade do mundo; quando o carro acelerou, Sasuke viu seu urso quebrado recostando no inteiro. Um sorriso brotou em seus lábios outra vez. Porque era exatamente como na vida real.

Ele havia feito o mesmo: se apoiou em Naruto para continuar vivendo e tendo esperanças para viver do lado de fora.

— Obrigado — falou.

— O que foi?

— Nada, apenas obrigado — repetiu, inclinado para selar a bochecha do loiro.

E assim, o horizonte da estrada, das ruas e da vida, começaria a se abrir diante de Sasuke junto de seu maltrapilho e vivido, ursinho de pelúcia, que novamente estava sendo testemunha do futuro que se apresentava para os namorados.

20 de Junho de 2021 às 02:13 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Adrielle Victória Algumas das histórias estão exclusivamente no Spirit, sintam-se à vontade para dar uma olhada (°◡°♡) Fuyuka Hideki

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