affonso Afonso Luiz Pereira

Coletânea de 4 pequenos contos com temas variados e insólitos: Terror, Ficção Científica, Amores estranhos, Mitologia Grega, Almas Penadas.


Conto Todo o público.

#almas-penadas #mitologia-grega #amizade #amor #Insólitos #ficção-científica #terror
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AQUI SE FAZ, AQUI SE PAGA!

Vivia no limbo, andando pelas estradas desertas à noite. Recusava-se a ir embora daqueles limites ermos, pois habituara-se àquela vida errante de atrair homens. Suas atitudes não tinham a intenção, mas tornara-se uma lenda, uma espécie de sereia do asfalto. Não havia canto, não obstante o convite sedutor no olhar convencia os motoristas para os erros fatais na condução dos veículos, mesmo contra a vontade deles.



Apresentava-se numa figura de mulher magnífica, trajando um espetacular vestido branco que lhe salientava as curvas voluptuosas, sedutora em decote generoso, de seios fartos, de sapatos levados à mão, parecendo vir de algum baile nas redondezas a caminho de casa. Andava sempre em passos vagarosos, desprotegida, encantadora, linda... e, sem que os imprevidentes soubessem, inevitavelmente letal!


O cemitério onde fora enterrada não ficava muito longe de suas caminhadas noturnas. Sempre voltava para descansar no túmulo quando os primeiros raios de sol começavam a despontar por sobre a rodovia. Não gostava de ficar longe de onde morrera porque retirava do lugar a fúria necessária para não se condoer de suas vítimas.


Detestava lembrar. Fora espancada, estuprada, esfaqueada e abandonada por seu algoz para morrer dentro do mar de capim alto que margeava a autoestrada, escondida dos faróis dos carros naquela noite terrível. Arrastara-se penosamente trilhando em sangue o matagal seco até o acostamento para pedir ajuda, mas não obtivera um gesto de clemência. Julgavam-na como parte de um plano de marginais para assaltá-los. Todos covardes! Desapiedados. Nojentos!


Seu desagravo cruel não tinha apenas a morte dos motoristas covardes da noite. A filha morta tomava parte nos sonhos da mãe. Dava-lhe provas do porquê estar sendo tão impiedosa. Quando ouviu o motor cansado daquele velho Ford vindo vagarosamente na estrada, soube, mesmo passados todos aqueles anos: tinha finalmente vencido.


O carro parou no acostamento, a senhora saiu do veículo, passando na frente dos faróis penetrantes da neblina forte da madrugada. Ao longe, quem passasse por ali, poderia ouvir o eco das músicas do baile de onde a velha, toda arrumada no seu melhor traje de noite, viera.


— Você venceu minha filha. Sim, você venceu! Não aguento mais isso – reclamou a mãe para si mesma em voz alta porque, embora não pudesse ver, sabia que ela estava ali bem perto.


A senhora foi até a porta do carona, abriu-a com a cara fechada de raiva. Puxou pela gola da camisa o marido bêbado, sonolento. Ele tentou se desvencilhar, surpreendido até, no entanto, a mulher estava decidida. Forçou-o a ficar de joelhos à beira da estrada.


— Diabo, mulher, o que... você... está fazendo. Eu não tô com vontade de mijar, criatura de Deus! – balbuciou o velho com a vós empastada, vacilante das bebidas do baile.


Antes do bêbado se levantar, a velha firmou a mão esquerda nos seus cabelos brancos, no topo da cabeça, e puxou para a claridade uma enorme faca de cozinha. Num único e decidido golpe, ela cortou a garganta do marido. Ele não chegou a gritar, caindo à frente. Depois de limpar bem a lâmina da faca no vestido, jogou-a no mar de capim


A mãe voltou para o volante do carro e, antes de partir, gritou para a escuridão. Justificou-se aos berros para o negrume da noite em palavras agoniadas de aflição dirigidas para o local em que a moça fora assassinada.


— Pronto, minha filha. Você está satisfeita agora? Deixe estes inocentes das estradas em paz e vá embora pra sempre. Acabou! Minha filha, acabou!


Assim, depois de olhar com desprezo para o padrasto esvaindo-se em sangue aos seus pés, obedeceu satisfeita. Naquela noite, a temida mulher de branco não se encaminhou para o túmulo ou abordou outro incauto na rodovia. Naquela noite, ela buscou o seu caminho para longe daqueles ermos com um sorriso pleno de vingança no rosto.


Aqui se faz, aqui se paga!



fim

19 de Junho de 2021 às 04:52 5 Denunciar Insira Seguir história
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 Silva Silva
A mulher de branco, uma lenda recorrente nas estradas e escrita aqui com maestria. O background sobre ela foi brutal, justificando suas ações, até que ao final temos o acerto de contas contra o seu algoz. Parabéns Afonso!
August 11, 2021, 16:01
Luana Borges Luana Borges
Arrepiou demais Mano do céu, muito top esse conto!
August 03, 2021, 23:42
Gêiser K.S Gêiser K.S
Muito bom!😁
June 29, 2021, 10:53
Max Rocha Max Rocha
Fala Afonso. Aqui um mergulho no macabro. A lenda da mulher de branco, ou algo assim. Almas cuja carcaça corporal encontrou um fim violento, permanecem aprisionadas à dimensão terrena, local de assuntos inacabados ou mal resolvidos. Assustador e libertário. Imaginemos o tormento da mãe da falecida, que entrega a própria existência num ato final de violência a favor da filha errante... Quem já não sentiu um arrepio ao cruzar estradas noturnas, e avistar um crucifixo em noite chuvosa? Muito bom começo...
June 19, 2021, 18:55
O Marceneiro O Marceneiro
Essa estória eu conheço e vale a pena acompanhar. Uma lenda reescrita com maestria!
June 19, 2021, 12:09
~

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