eduardo-lemos1623796313 Eduardo Lemos

A vida é cheia de altos e baixos. Os melhores momentos podem desandar e se transformarem nos mais terríveis pesadelos. Esta história é um complemento para minha obra principal (ainda incompleta).


Suspense/Mistério Todo o público.

#sobrevivência #amnésia #tristeza #tragédia #descritivo #reviravolta #ilha #371 #loucura #relato
Conto
2
1.7mil VISUALIZAÇÕES
Completa
tempo de leitura
AA Compartilhar

O dia de hoje foi produtivo. Pela manhã, coletei frutas e cacei caranguejos no lamaçal próximo. Acabei de terminar alguns reparos no meu abrigo, com a expectativa de que não desmorone imediatamente na próxima chuva, como tem acontecido. A maré trouxe retalhos do que acredito ter sido um vestido caro. O tecido macio e de boa qualidade servirá de matéria prima para minha cama improvisada.

Estou acampado perto da praia. A areia cristalina e o mar límpido fazem da minha vista uma paisagem excepcional. A vegetação frondejante, além de adicionar novas cores à paleta diversa, umidifica o ambiente, propiciando o cenário ideal para que a natureza se desenvolva. Com os pés na água salgada, avisto um morro no centro de tudo, norteando-me como um próximo objetivo a conquistar, a fim de ter um panorama mais amplo da geografia local. Ao percorrer a margem, o horizonte se estende até onde minha visão embaçada permite.

Decidi que seria mais prudente montar uma habitação fixa, visto que a distância até a colina aparenta ser significativa. Usufruindo dos cipós e folhas largas dessa vasta flora, construí meu acampamento com uma habilidade que não sei descrever. Foi puramente instintivo, quase como se já tivesse o conhecimento necessário. Rotineiramente, pus-me a coletar lenha para fogueiras, água do mar para dessalinização e a explorar os arredores. Para a minha infelicidade, várias inconveniências surgiram ao longo da minha preparação.

O clima deste lugar me pune, efervescente durante o dia e congelante durante a noite. Com o peitoral de fora e uma calça social surrada como proteção, sou vítima dessa bipolaridade climática. As fogueiras que faço me são privadas pelo vento gélido, possante e violento. O frescor causado pelos banhos é imediatamente evaporado ao triscar no solo durante o dia escaldante. As nuvens me fazem o favor de deixar o Sol no seu maior esplendor, sem nenhuma interferência, cozinhando-me sem pena alguma.

Durante minhas explorações, não identifiquei uma fonte de água potável ou comida mais estável, dependendo de frutas espaçadas ao longo de muitos metros para sobreviver. Cheguei a encontrar um pequeno brejo próximo, recheado de caranguejos, um milagre neste clima. Conformado, aventurei-me em abater essa fonte de vitaminas e selênio, mesmo que de maneira desajeitada e com extrema dificuldade, posto que os ferimentos das minhas mãos ainda não se curaram completamente. Arrisquei, sem obter sucesso, em fazer um filtro improvisado para consumir a água misturada com o barro, já que estou enjoado do gosto da oriunda do mar, após remover o sal.

Incapaz de degustar a água insalubre do lamaçal sem vomitar, minha pele está desidratada, com rachaduras envolvendo minhas articulações. Além dos trapos que são minhas roupas, carrego uma lança que eu mesmo confeccionei. Amarrei com cipó uma lasca de pedra na madeira mais resistente que encontrei. Com minha arma improvisada, saio mata adentro. Depois de mais dois dias de investigação, encontrei pequenas poças de lama, lar de alguns anfíbios. Os sapos e pererecas que ali residiam pulavam muito, desincentivando-me a continuar naquela empreitada.

Meus cabelos, secos e quebradiços, estão começando a cair, devido aos maus tratos e uma provável calvície disparada pela idade avançada. Minha barba longa acentua tanto minha idade que já não me lembro qual é. A cada dia que passa, sinto perder mais recordações de quem eu era e como vim parar nesta ilha. Minhas habilidades inatas em sobrevivência e conhecimento da natureza me fazem crer que eu era cientista ou militar. Desbravar qualquer coisa além disso dá-me calafrios. Um frio na espinha indescritível. Uma tsunami de pânico que transforma minha mente em uma imensidão sem fim de branco, sem nenhum interesse em colorir essa cena. Um encontro com a morte soa mais interessante, de tão ansioso que fico ao conceber a ideia de tentar lembrar da minha vida. Morrer agora parece mais palatável. Estou vivendo na inércia para sobreviver por quantos dias aguentar, na esperança vazia que alguma espécie de resgate virá.

Passaram-se cinco dias desde a minha memória mais distante, acordando no meio da praia com a cabeça asseada. Eu acordei no inferno e senti como se, por alguma razão louca, tivesse acabado de sair de outro, ainda mais desesperador e traumatizante.

Decidi explorar outro pedaço da ilha, visto que na região onde estou começaram a escassear os alimentos. Não me preocupo em fechar meu esconderijo, dado que não parecem existir outros animais nas redondezas, além das aves que sobrevoam o local. De lança nas mãos e uma coragem artificial, ouso distanciar-me de verdade do meu novo lar. Sempre atento a qualquer eventualidade, seguro-a com firmeza, pronto para arriscar minha vida.

Ouço insetos nas proximidades, junto ao balançar das copas das árvores devido ao vento. Caminhei a tarde inteira em linha reta, rumo ao desconhecido, lutando contra o terreno inclinado. O Sol já se punha quando me deparo com o fim dos troncos e só o céu preenchendo o espaço entre a vegetação. Havia chegado em uma das extremidades do que descobri ser uma pequena ilha. De início, foco em olhar além da beirada. Cair daquele precipício e as pedras ao fundo iriam te despedaçar; seus pedaços, levados pelo mar. Porém, levantando meu rosto, vislumbro a imagem do início da noite.

Pude presenciar o típico momento cinematográfico: a estrela dando lugar a um corpo refletor de sua luz. Junto daquelas poucas nuvens e a água azul refletindo a luz lunar, o cenário costurou minha boca, emudecendo-me. Se a morte viesse ao meu encontro naquele instante, eu teria apenas um pedido: se junte a mim para apreciar essa pintura moldada pela mãe de todos e todas. Seria ceifado satisfeito.

Depois de alguns segundos apreciando aquela obra-prima, minha visão foca em uma pedra, fincada no solo, mais à direita, porém ainda próxima da beirada. Ao analisar aquela rocha com cuidado, algo em mim despertou. Como se fosse um estalar de dedos, minha pressão caiu, meu coração disparou e um fluxo de ansiedade interminável tomou conta do meu ser. Minha respiração, agora ofegante, junto de alguns tremeliques, começaram a florescer a semente do pânico que aquela pedra havia plantado.

Lapsos de memórias começaram a percorrer minhas sinapses. Uma série de flashes rápidos. Estou recebendo uma quantidade imensa de informação, empenhando-me para assimilar tudo em pouco tempo. Sinto o cérebro latejando, querendo sair desesperadamente dessa overdose informacional. Os quadros, que antes transitavam rapidamente, diminuíram sua velocidade. Em uma dessas imagens, enxergo a mim mesmo de jaleco, barba feita e óculos. Minha expressão de felicidade estava tão distante do meu presente, que indago se o humano em questão é mesmo eu.

Mais fragmentos adicionados, e a tela foi preenchida por uma mulher. Estava ao meu lado. Linda. Seus cabelos castanhos eram ondulados e perfeitos. Seus olhos claros me desorientam dentro da minha própria mente. Seu sorriso, intocável, emana uma felicidade genuína. Seus contornos lembravam-me das histórias de Afrodite. Parecíamos ser um casal. Mas a peça final, a mais impactante de todas, veio logo em seguida. Acolhido no conforto dos braços dessa mulher, um bebê dormia. Por seu tamanho, tinha poucos meses de vida.

Ao completar essa lembrança, minha cabeça começou a zunir. Um grito estridente se iniciou. Atordoado, perco o equilíbrio e me sento no chão, criando distância da beirada. Com as mãos na cabeça e de olhos fechados, suplico para o universo pelo fim daquele tormento. No entanto, aquela sinfonia dissonante trouxe-me um sentimento nostálgico. Uma sensação de conquista compartilhada, que traz responsabilidade. Os berros incessantes doem em minha alma. Devagar, as lembranças das noites de sono em claro, dando-lhe conforto para atravessar as cólicas intensas, tornaram-se claras. Assim como a minha sanidade, as dúvidas se esvaíram:

— E-esse… esse é o meu filho…

Constatado que aquela era a minha família, um sentimento avassalador percorreu-me as entranhas. As memórias estavam voltando, aos poucos. Tomado pelo medo e pela ansiedade, pego a lança e corro floresta adentro, rumo ao meu refúgio, desinteressado em tudo durante a corrida. O que me importa é chegar o mais rápido possível a um lugar seguro. Embora já tenha transitado calmamente pela floresta diversas vezes, um medo e insegurança inexplicáveis tornaram-se crescentes.

Com mais sinapses se conectando, recordo que estávamos em um cruzeiro. Havia convidado minha família, incluindo esposa e filho, para que se orgulhasse de mim, da minha participação no projeto ali exposto e dos meus feitos. O mesmo peso das minhas conquistas, elucidado naquele evento, transforma-se em forças astronômicas que me puxam para um buraco negro de culpa e angústia.

— Caros colegas, estamos aqui reunidos para comemorar que a expedição espacial Becard foi um sucesso. Com a viagem finalizada, a captura de vários espécimes Cythul feita e o retorno realizado em segurança, estamos prontos para seguir para a próxima etapa! — disse o apresentador.

O salão estava cheio. Pessoas de alta classe, sentadas, apreciavam seus jantares dispendiosos enquanto ouviam mais um objetivo completado da nossa nação. A corrida intergaláctica que nosso general havia implantado acabava de subir de nível. Eu estava no palco, ao lado dos meus colegas cientistas de renome. Através das escotilhas, notava-se que uma garoa se iniciava lá fora.

— E aqui estão os responsáveis por isso! Uma salva de palmas! — concluiu ele.

Os aplausos não cessavam. Sentia-me importante, uma peça fundamental para meus compatriotas e meus familiares. De pé, assistia meus pais aplaudirem, junto da minha esposa, majestosa com o vestido que presenteei. Ela ensinava meu filho de poucos meses a bater palmas. Minha vida de cientista estava feita. Não teríamos problemas financeiros para o resto de nossas vidas. Poderia transpor qualquer dificuldade monetária, proporcionando ao meu filho uma vida digna e confortável.

No meio da sessão de aplausos, porém, as luzes se apagaram e o silêncio envolveu tudo. Os seguranças das portas do salão alertaram-se e começaram a chegar outros, posicionando-se nas saídas. O apresentador, após ouvir as instruções pelo comunicador, disse a todos:

— Por favor, acalmem-se, foi apenas uma falha técnica na iluminação. Logo, logo estaremos de volta. — Ao terminar sua frase, uma explosão no convés superior aconteceu, balançando toda a carcaça. Além de disparar as luzes vermelhas de emergência, foi o gatilho para que o caos se tornasse preponderante e consumisse a mente dos passageiros. A desordem passou a ser nosso maestro.

Sem perder mais tempo, avancei até a minha família, dizendo-lhes que estava tudo bem e que nossos guardiões cuidariam disso; afinal, tinham sido treinados para qualquer ameaça. A série de danos continuou, outras explosões sucederam, engatilhando um caos ainda mais desgovernado na tripulação. Minutos depois, ouvi de um dos guardas:

— Parece que são os Knights of Hope! Aqueles rebeldes malditos! Nos avisaram que querem chegar nos espécimes no convés inferior. Estão alocando todo mundo pra lá. Vamos tirar essas pessoas daqui!

Dito isso, abriram todas as portas do recinto. Outra explosão aconteceu, dessa vez, bem mais próxima. A tentativa de conduzir as pessoas em ordem se viu inútil. O desespero disseminado tomou as rédeas e todos saíram em uma avalanche violenta. Por serem convidados de um cientista, minha família estava hospedada do lado oposto aos tripulantes comuns. Seguíamos caminho para nossos quartos, ao som dos gritos do meu filho, quando nos deparamos com o meu pior pesadelo.

Neste instante, meu fluxo de lembranças se interrompe, pois tropeço em uma das raízes em minha corrida, caindo de rosto numa mistura de lama e folhas. Ao reinado do silêncio noturno, o mesmo barulho que ouvi naquele fatídico dia ecoa: um grunhido forte, tão horripilante, que me arrepia da pele aos ossos. Ainda mais desesperado, retorno ao meu trajeto, lembrando-me de sua aparência: após possuírem um portador, seu corpo gelatinoso e negro cobria em principal a parte posterior, com a cabeça da vítima transformada em uma mandíbula animalesca, visceral, capaz de despedaçar quaisquer fisionomias. Saía fumaça daquele ser.

Segurando meu pai e minha esposa pelos pulsos, iniciei nossa fuga, enquanto a besta nos seguia, aproximando-se com sua velocidade incrível. Nesse momento, estranhei a calma da minha esposa, diante da situação vigente. Estava nervosa, mas nada muito fora do normal, contrastando comigo, uma verdadeira pilha de nervos.

Distraído, não percebi que nosso perseguidor havia puxado minha mãe. Meu pai, com o objetivo de salvá-la, ficou para trás. Frente aos meus olhos, aquela gosma dividiu-se, possuindo os dois como portadores. Os mesmos efeitos se repetiram. Os responsáveis pela minha criação e sucesso transformaram-se no meu objeto de estudo dos últimos dois anos: representações materializadas do demônio.

Lágrimas escorrendo pelo semblante, agarrei ainda mais forte minha esposa, aumentando o passo da nossa fuga. Ao cruzar um dos corredores, avistei dois dos malditos, rondando ao lado do nosso quarto. Capuzes brancos com vestimentas coloridas com cores que jamais vou esquecer de tanto ódio acumulado.

Tomando cuidado para não ser percebido, ouvi uma voz feminina:

— Como que você vai explicar para o Magnus que ele explodiu tudo? Não era para capturarmos quem infectamos ontem durante a reunião dos cientistas? — indagava, enquanto aparentava arrombar a porta de nossos aposentos.

— Por isso estamos aqui, para recuperar esses infectados. O caos já foi, depois você argumenta com o Magnus que foi tudo culpa do Knox. — respondeu o segundo, com um timbre masculino.

Sem compreender do que falavam, resolvi dar meia volta e encontrar outro caminho, agora sentido aos botes salva-vidas para fugir com a última família que me resta. O choro do meu filho, contudo, avolumou nesse mesmo instante e chamou a atenção dos dois, que agora nos perseguiam. Para minha sorte, aqueles demônios encapuzados não nos alcançariam antes de chegarmos ao destino. A confusão que deveria estar lá fora certamente seria problemática o suficiente para que pudéssemos escapar.

Olhei para trás e avistei um deles sacar uma lâmina dos punhos, por debaixo das mangas longas. Enquanto pensava em algo, ouvi o barulho de um metal cortando o ar. Dado que ninguém mostrou sinais de danos, presumi que erraram o arremesso e comemorei internamente. Nossa perseguição terminou ao sairmos dos corredores principais e finalmente chegarmos na parte exterior da embarcação, onde guardas se moviam para todos os lugares. Uma chuva forte completava o ambiente apocalíptico. O mar, com o intuito de solucionar a teoria malthusiana, queria engolir tudo com suas ondas mortais. Vários guardiões passavam por ali; suas armaduras, arranhadas ou explodidas, transmitiam a dificuldade em conter o problema. Nem mesmo os trajes avançados assustavam o grupo revoltoso. Aquilo só aumentou minha vontade de fugir o mais rápido possível.

Mostrei minha identificação e recebi permissão para furar fila e possuir um bote único, para nós três. Depois de certificar que minha esposa e filho estavam bem, confirmei que podiam nos descer. Durante a descida, várias pessoas pulavam do cruzeiro, pela falta de botes para todos. Quando estávamos perto do mar, a zona detentora da fonte energética eclodiu, soltando-nos de forma abrupta no mar aberto.

Prontamente, liguei o motor e tentei nos distanciar dali, focado em nos disassociar daquele sonho transformado em pesadelo. Apesar da necessidade de manter-me atento à nossa frente, preocupado para não virarmos o veículo, consegui avistar outras explosões no cruzeiro, que só resistiu às chamas graças à chuva. Uma fumaça densa e espessa saía de diversos lugares. Avistei, antes de virarmos e sermos engolidos pelo mar, um encapuzado negro dentre os demais, correndo pela proa. Antes da água encobrir meus olhos, visualizei algo reluzindo na nuca da minha amada mulher.

Quando acordei, a primeira coisa que fiz foi cuspir quilos de areia para fora. O gosto salgado estava forte. Ao longo da travessia pelo mar impetuoso, perdi a camiseta e os sapatos, restando apenas minha calça. Parecia que meu labirinto fora levado pelas águas salinas, tamanha era a dificuldade de me manter em pé. De tanto rolar na areia, arranhões avermelhados enfeitavam meu corpo. Rebobinando o passado, apercebi-me da lavagem sentimental que sofri. O perigo se mostrava distante e a ordem voltava a reinar.

Olhei para os arredores, e avistei minha esposa ajoelhada, seus cabelos cobriam-lhe o rosto. Ao me aproximar, notei que chorava, segurando nosso filho silencioso nos braços. Meu instinto paterno foi mais forte do que eu: arranquei-o dos braços dela e iniciei os tratamentos de primeiros socorros, um dos ensinamentos que obtive durante o alistamento.

— Vamos filho… você consegue sobreviver a isso… vamos… — tremelicando minha voz a cada fala, perdendo de vez a esperança.

Em poucos minutos, incontáveis lágrimas escorriam no meu rosto. Minha cabeça parou de computar tudo. A tristeza me consumia. Contentava-me em acordar e ver minha esposa reclamando que estava gritando demais na cama, e que tinha acordado nosso menino novamente. Abracei minha esposa e enlutamo-nos ali, um consolando o outro pela nossa perda imensurável.

Essa culpa, que me revirou do avesso acima, reflete-se no agora. Perdi o meu filho em um evento sobre as minhas conquistas. Minha fortaleza de felicidade e triunfo, esmigalhada por essa tragédia, revelou-me um imperador solitário. Em meu trono de pó, consigo agora refletir a razão que tanto me afastava do meu passado. O desfecho, entretanto, está além do que a minha cavalaria de ânimo suporta. Líder deste reino agoniante, carregarei as conclusões desta guerra interna, sejam quais forem.

Depois desses momentos memoráveis, peguei meu filho nos braços e apertei a mão da minha esposa. Disse que deveríamos procurar alguma civilização. Seguimos durante o anoitecer em uma direção aleatória em meio à mata densa. Aquela subida parecia infindável. Ao avistar uma beirada para um precipício alto, paramos. Uma queda dali seria uma viagem única, em que o destino seria uma aventura aos rochedos da encosta, que culminavam nos corais expostos do mar. Seu guia seria a nossa velha conhecida, de roupas negras e foice nas mãos.

Aquela vista fenomenal do anoitecer me convenceu que seriam ali os nossos últimos momentos como uma família. Com o coração partido, e mente completamente trincada, decidi que enterraria o meu filho. Encontrei uma rocha em meio à mata, e usei as mãos de instrumento para cavar a cova da minha paternidade. Com cuidado para não o manchar do sangue que escorria das minhas mãos, coloquei-o no buraco, ainda enrolado em seus cobertores preferidos. Devagar, coloquei a terra de volta. Senti que qualquer resquício de felicidade que me restava foi enterrado junto. A pedra fincada simbolizava a lápide do meu espírito.

Minha esposa, comovida e com o rosto rosado de tanto chorar, ajoelhou-se e abaixou a cabeça, pronta para rezar por nosso menino e desejar-lhe a salvação por Deus. Entretanto, quando seu cabelo exibiu sua nuca, notei algo diferente. Abaixo das raízes do cabelo, uma lâmina estava fincada até a metade entre seu pescoço e ombro. Era a arma de um dos malditos. Nenhum sangue aparentava ter escorrido; invés disso, no lugar do contato da lâmina e a pele, uma gosma negra residia e alastrava-se por seu pescoço.

Naquele momento eu devo ter perdido toda a cor que me sobrava. “Não era para capturarmos quem infectamos ontem durante a reunião dos cientistas?”. Aquele diálogo começou a ecoar em minha mente. Eu precisava dar fim a esse pesadelo. Precisava ver o final desse túnel interminável. Chamei minha esposa, esperando-a se virar. A segurei pelos ombros e disse:

— Amor… me desculpe… mas eu sou fraco. — Lágrimas jorravam incessantemente. Com os olhos fechados e querendo dar cabo da minha vida ali mesmo, eu a empurrei. Sua expressão de terror solidificou o que nossas hipóteses em laboratório já suspeitavam: o medo é o gatilho. Logo sua cabeça foi rodeada de braços negros oriundos do pescoço, ocultando-lhe o rosto e construindo aquela mandibúla que tanto me assusta.

Terminada essa última memória, finalmente chego ao meu abrigo. Acendo a fogueira e me sento, observando o paraíso noturno composto pelo mar e pelos astros. Começo a ouvir passos a caminhar pela areia. A entidade, que antes caminhava calmamente e sem pressa, vira-se para mim. A parte superior, quase totalmente consumida, exala muita fumaça. As pernas sensuais que a criatura usa para se locomover são reconhecíveis. Afinal, apaixonei-me carnalmente por elas quando jovem.

A urgência instintiva tomou conta e ela exibe a mandíbula, sorrindo. Ao perceber que corre em minha direção, fecho os olhos e estendo os braços. Não poderia recusar nosso abraço de adeus. O defunto da musa que jurei amar até meus últimos suspiros quer me presentear. Rezo somente para que minha cria esteja do lado do Senhor. Para mim, o inferno junto da minha amada é mais que suficiente.

15 de Junho de 2021 às 22:46 1 Denunciar Insira Seguir história
1
Fim

Conheça o autor

Comente algo

Publique!
𝑻𝒓𝒂𝒔𝒉 𝒇𝒐𝒓 𝒎𝒂𝒓𝒚 𝑻𝒓𝒂𝒔𝒉 𝒇𝒐𝒓 𝒎𝒂𝒓𝒚
Parabéns Du, pela história incrível!
June 15, 2021, 23:23
~