nathymaki Nathy Maki

Shouto se encontrava em uma situação desesperadora por não saber como presentear Izuku no Dia dos Namorados. Devia comprar rosas? Chocolates? Ou quem sabe um action figure do All Might em tamanho real? Nenhuma das opções, entretanto, parecia ser suficiente para expressar a imensidão do sentimento que preenchia o seu peito quando estava ao lado dele. O que Shouto ainda não sabia ainda, era que o presente perfeito não tinha preço. [História criada para o Desafio #amordecinema do Inkspired] Capa por @nicansade <3


Fanfiction Anime/Mangá Impróprio para crianças menores de 13 anos.

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Capítulo Único

Como um aspirante a herói profissional, Todoroki Shouto podia se orgulhar em dizer que existiam poucas coisas no mundo capazes de assustá-lo.

Entretanto, no presente momento, olhando para a vitrine intimidadora e coberta por um número sem igual de corações vermelhos e cupidos flutuantes da loja de uma grande franquia, ele sentiu um arrepio irracional lhe subir pela coluna e atingir os pelos dos seus braços, deixando-os eriçados. Uma gota de suor escorreu pelo pescoço e ele deslocou o peso do corpo de um pé para o outro, o único gesto visível que evidenciava o seu desconforto, enquanto a mente compilava uma lista das opções que vinha considerando nas duas últimas semanas.

Internamente, Shouto amaldiçoou o Dia dos Namorados por ousar dar as caras tão cedo, quando ele ainda não estava preparado devidamente para a sua chegada, quando a pergunta “ O que eu devo comprar?” continuava sem resposta.

Nada havia mudado desde a última vez que ele tinha consultado aquela lista e isso o deixava mais e mais frustrado a cada minuto que passava. Supostamente, os amigos comentavam que Shouto era bom em tomar decisões. Ele estava irritado consigo mesmo por descobrir que o fato não era uma verdade absoluta. Ao menos, quando não se tratavam de decisões em momentos de vida ou morte cruciais, como por exemplo: escolher um presente. Aquilo devia ser fácil, uma brincadeira de criança até, mas Todoroki continuava ali parado de modo nada suspeito e com o olhar fixo na vitrine sem decidir o que deveria comprar.

Havia muita pressão e expectativas envolvidas. Bem, verdade seja dita que boa parte das expectativas emanava dele. Midoriya Izuku não fazia ideia do conflito interno do namorado, muito menos do quanto essa questão em particular vinha tomando o seu sono nos últimos dias em especial. Não, ele se mantinha alheio às dúvidas que enchiam a cabeça de Shouto, tão duais quanto as cores de seus cabelos.

A questão era: o que deveria dar de presente para Midoriya?

Shouto precisava de um presente, é claro, além dos chocolates tradicionais e já esperados, mas ele não queria que fosse qualquer presente. Não, queria encontrar O presente. A coisa especial que faria os olhos de Midoriya se arregalarem e o rubor que tanto apreciava correr livre pelas bochechas sardentas. Shouto quase podia visualizar o brilho entusiasmado dos olhos e ouvir a voz empolgada divagando em um rio rápido e constante de considerações sobre a enormidade do seu gesto. Era isso que ele desejava e o motivo pelo qual seus pensamentos se reviravam sem rumo como um náufrago preso em um mar revolto.

No entanto, encontrar o símbolo perfeito estava se provando uma tarefa complicada. Distraidamente, Shouto se perguntava o porquê disso. Sua lista de exigências nem era tão longa assim: tudo o que estava pedindo é que o objeto de alguma forma refletisse a importância que a presença de Izuku ao seu lado tinha para si e a enormidade do sentimento que o tomava de súbito ao se dar por conta de que cada um daqueles sorrisos largo e verdadeiros eram direcionados a si, que ele tinha permissão para tocá-lo quando desejava. E suas mãos coçavam o tempo inteiro para que o fizesse, a mente enumerando pretextos ridículos e absurdos para isso: afastar um fio rebelde de sua testa, retirar um caroço de arroz de suas bochechas, cobrir a mão dele com a sua enquanto eles estudavam, fazendo tudo parecer um incidente ocasional, e acariciar as linhas de pele mais claras que formavam a cicatriz no dorso de sua mão direita. Izuku não era alguém frágil e, ainda assim, Shouto vivia constantemente com medo que um toque seu pudesse de algum modo quebrá-lo, como se ao fazê-lo, tivesse a capacidade de estilhaçar a ilusão bem executada que constituía o fato de eles estarem namorando a sério desde o início do semestre. Ninguém poderia culpá-lo por almejar encontrar o presente perfeito. Era tudo o que ele desejava, apenas isso. Nem mesmo era um pedido tão grande quanto a paz mundial. Então por que estava se mostrando uma tarefa tão difícil?

Por mais duro que fosse admitir, Shouto estava com sérios problemas.

Como se pressentisse o seu estado de paralisia indecisa, o telefone esquecido no bolso do casaco começou a tocar. Shouto nem mesmo precisou conferir a tela para ter certeza sobre quem estava ligando. Uraraka Ochako tinha um sexto sentido excepcional quando se tratava de bancar a cupido entre os colegas de sala e sempre parecia saber quando algum deles estava com problemas.

— Vou adivinhar — a voz dela o saudou ao atender, alta e animada. Ele podia até mesmo imaginá-la com um sorriso vencedor nos lábios e uma expressão superior enquanto falava. —, você ainda nem entrou na loja.

— Sabe — disse ele, segurando um suspiro. —, se essa coisa de heroína não funcionar, talvez devesse considerar a carreira de vidente. Ao que me parece, você tem um potencial latente escondido.

— Ou talvez eu só conheça você muito bem — ela provocou.

— Por favor, não me lembre disso. — Shouto deixou escapar uma careta.

Alguns anos antes, alguém fazer tal afirmação sobre sua pessoa teria parecido um enorme e inequívoco engano. O número de pessoas que o conheciam tão intimamente não passava de quatro, e uma delas estava morta há muito tempo. Não pela primeira vez ele se pegou pensando na guinada inesperada em sua vida após aquela luta durante o Festival Escolar. Com uma determinação inabalável e dedos quebrados, Izuku destruiu a barreira fria que o mantinha afastado do mundo e adentrou o seu interior frio e solitário com palavras marcantes e sorrisos luminosos, trazendo consigo o calor de uma amizade verdadeira. Era sempre um instante surpreendente quando Shouto se dava conta de que tinha amigos com os quais contar agora, pessoas além de seus irmãos com quem rir e compartilhar momentos únicos e especiais, o apoio firme e silencioso de sua mãe há tanto tempo perdido e, acima de tudo, o sentimento quente e seguro de que Izuku estaria lá para ele quando precisasse, seus sorrisos verdadeiros responsáveis por fazer seu coração se agitar como as asas de um beija-flor.

Foram necessários mais do que alguns incêndios acidentais para ele perceber que a sensação e o mínimo vislumbre de Midoriya em seu campo de visão estavam intrinsecamente conectados. Depois disso, uma exasperada Momo (encarregada de fabricar os extintores e impedir que o dormitório pegasse fogo por completo) bateu à sua porta e jogou em seu colo a verdade que era inexperiente demais para enxergar: ele estava apaixonado por Izuku. E mesmo agora, um ano depois, ainda não conseguia acreditar que o seu sentimento havia sido correspondido.

Talvez por isso encontrar o presente perfeito fosse tão importante. Shouto sentia que tinha algo a provar, um gesto que eliminasse as dúvidas de uma vez por todas e demonstrasse que ele merecia estar com Izuku, que o amava e faria tudo ao seu alcance para aquela relação funcionar indefinidamente. E que aqueles sentimentos não eram só uma reação absurda e inocente à primeira pessoa que olhou para ele e o enxergou, enxergou de verdade. Porque era assim que se sentia quando fitava aqueles olhos verdes brilhantes por mais do que alguns segundos, como se tivesse o coração aberto em uma mesa, claro e exposto para ele apreciar e compreender. Em sua curta experiência, Shouto tinha certeza absoluta de que nunca havia sentido isso antes por ninguém.

Uraraka pigarreou e o som o trouxe de volta para o momento presente, fazendo-o perceber que havia perdido uma pergunta.

— O quê? — indagou, piscando para afastar as divagações.

A garota suspirou pacientemente.

— Eu perguntei se você já decidiu o que comprar, mas, levando em conta o seu nível de distração, temo que isso já responde à minha pergunta. Sinceramente, Todoroki, não é tão difícil assim. Sabe que o Deku ficaria feliz até mesmo com uma pedra, desde que viesse de você.

— Eu não vou dar uma pedra a ele.

— Eu não disse para fazer isso — Ochako resmungou. — Apenas, sei lá, compre uma cueca de edição limitada do All Might e peça para ver ele desfilar usando apenas ela, ou algo do tipo. Você sabe que ele adora essas coisas exclusivas para fãs. Por que não juntar o útil ao agradável, então?

— Você não está ajudando em nada. — Porém, não faria mal algum considerar a ideia. Com uma inspiração profunda, ele adicionou mais uma opção à sua lista mental.

— O que eu quero dizer é: não se concentre demais nessa coisa de encontrar o presente perfeito. O Dia dos Namorados não existe para se presentear, e sim para celebrar coisas muito mais importantes que não têm preço.

— Vou tentar — respondeu, um pouco incerto sobre o que ela queria dizer. Quando se tratava de amor, Shouto ainda era muito inocente para compreender suas nuances.

— Muito bem. — Ochako pareceu achar suas palavras satisfatórias e considerou sua missão ali concluída. — Boa sorte e me mantenha informada do progresso!

Ela desligou antes que Shouto pudesse se despedir. Balançando a cabeça, ele devolveu o celular ao bolso e ergueu a cabeça novamente para fitar a vitrine da loja e os corredores iluminados e agitados em seu interior. Um presente que não tinha preço. Ochako só podia não estar batendo bem da cabeça. Isso ou era o seu espírito econômico falando mais alto. Sabendo que não tinha motivos para se preocupar com dinheiro, ele deu o primeiro passo necessário para adentrar a loja. Já que estava ali, não lhe custava nada avaliar suas opções. Talvez uma inspiração súbita o atingisse enquanto vagava pelas fileiras e mais fileiras de opções. Endireitando a postura e puxando o cachecol para mais perto do queixo, Shouto avançou antes que pudesse mudar de ideia.

A primeira coisa que ele percebeu foi que o pensamento era muito mais simples do que a realidade. Uraraka não estava brincando quando lhe disse que naquela loja ele encontraria até mesmo o que não estivesse procurando. Receando evidenciar ainda mais a sua indecisão em contraste com o foco absoluto que era possível observar nos rostos dos demais clientes, Shouto pegou um carrinho e começou a empilhar produtos aleatórios e coisas que sabia ser a cara de Izuku: um caderno novo para suas extensas análises, uma caneca com os dizeres “Herói #1”, um par de meias com estampa de coelhinho...

O celular vibrou em seu bolso com uma frequência que o deixou aturdido. Ele o pegou, curioso, e sentiu uma dor de cabeça se formar ao perceber que Ochako havia criado um grupo separado com os demais colegas e todos agora estavam enviando suas próprias sugestões para presentear Izuku, cada uma mais absurda do que a anterior. Depois de banir Mineta por imagens que ele esperava nunca ver de novo, Shouto selecionou as boas ideias e somou-as às suas, decidindo por fim que, se não conseguia escolher algo por si só, então levaria todas as opções e deixaria Midoriya definir a sua favorita. Parecia um plano tão bom quanto qualquer outro que tinha pensado até então.

A atendente observou de olhos arregalados a quantidade de itens em seu carrinho quando se aproximou do caixa para fazer o pagamento e apenas passou um por um com uma eficiência que deixava claro o seu desejo de perguntar quem seria a pessoa sortuda que iria receber tudo aquilo ou pelo que o garoto de olhos heterocromáticos e expressão desinteressada estava se desculpando. Ela achou melhor não comentar nada e resignou-se a perguntar:

— Crédito ou débito?

Ele puxou o cartão da carteira e observou sua cor prateada com uma sensação de satisfação, abrindo o seu primeiro sorriso verdadeiro naquele dia ao responder:

— Crédito.

O pai que lutasse para pagar as contas, não era problema de Shouto.

Enquanto aguardava que os presentes fossem devidamente embalados, o aparelho em seu bolso anunciou a chegada de mais notificações. Shouto puxou o celular novamente, já revirando os olhos mentalmente enquanto se preparava para descobrir o que Uraraka havia aprontado daquela vez, quando seu olhar congelou na tela, encarando aturdido a única nova mensagem que havia chegado de Midoriya: uma localização. Um arrepio gelado escorreu por sua coluna como o toque de um mau agouro que se anunciava, sombrio e fatal, no horizonte. Ele teve o vislumbre de uma noite no ano anterior quando a cidade de Hosu ardia em chamas e gritos enchiam o ar, a noite em que Shouto recebeu aquela mesma mensagem e correu com nada além do próprio instinto a lhe alertar de que algo estava errado. Foi nessa noite que ele encontrou um Izuku ferido em combate direto com o autoproclamado Assassino de Heróis Stain, protegendo Iida e um outro herói profissional, sem se importar com a própria segurança. Foi a primeira noite que ele havia usado suas chamas para salvar alguém. A luta toda não devia ter durado mais do que 15 minutos, mas, apesar disso, havia sido longa o suficiente para ficar gravada em sua memória pelo resto de seus dias.

Todos os outros pensamentos desapareceram de sua mente e um zunido agudo encheu seus ouvidos. A respiração travou no peito com o medo repentino e esmagador que pressionava seu coração, levando o sangue a disparar uma torrente de adrenalina nas veias. Seus pensamentos dispararam para alcançar o corpo que já estava em ação. Antes que desse por conta, já estava correndo, deixando a loja e abandonado todas as coisas compradas no caixa onde a atendente o olhava boquiaberta. Não houve tempo para emitir qualquer explicação, Shouto esqueceu tudo sobre o Dia dos Namorados e o presente perfeito, esqueceu que ele era apenas um estudante e não tinha uma licença para agir como os demais colegas, e apenas correu o mais rápido que podia, um único desejo ardendo como uma fogueira avivada em seu peito: por favor, que eu não chegue tarde demais. Por favor, que eu não chegue tarde demais. Por favor, que eu não chegue tarde demais...

*

Encontrar o lugar foi a parte fácil.

Ele soube que havia chegado ao dar de cara com o intenso fluxo de pessoas correndo da direção a qual ele tentava alcançar. Para sua sorte, o cruzamento indicado na mensagem se localizava próximo à loja que ele havia escolhido para suas compras. Shouto desviou com agilidade dos pedestres, agradecendo silenciosamente por todos aqueles anos de treinamento extenuante, e virou a esquina que o separava de seu destino.

Daquela distância, ele já podia imaginar sobre o que se tratava a situação e o conhecimento não serviu de nada para aplacar os seus nervos agitados. A secura tomou conta de sua boca e uma onda de calor varreu sua pele enquanto fitava o imenso tornado de chamas erguido no meio da rua que girava intensamente, ameaçando espalhar caos e destruição para os edifícios mais próximos. Carros em chamas estavam lá para provar que o que quer que fosse aquilo, estava longe de ser um evento seguro e estável. As labaredas rodopiavam em um ciclo de cores dançantes, vorazes e infinitas, dobrando e alimentando-se de si mesmas e do que quer que estivesse próximo como um dragão ancestral furioso e faminto. Seria um belo espetáculo se não fosse o caos de pessoas feridas gritando e, é claro, todos os danos causados à cidade.

Trincando os dentes, Shouto pisou com o pé direito no asfalto que começava a borbulhar com o calor emitido e ergueu uma parede de gelo, empurrando as pessoas próximas para uma distância segura e cobrindo as entradas dos estabelecimentos de forma a impedir que o fogo os invadisse. Seus olhos se moviam em uma busca frenética por cabelos verdes e sardas estreladas, o medo e a preocupação agindo com âncoras em seu peito.

Onde diabos Midoriya havia se enfiado?

A resposta para essa pergunta, é claro, se encontrava no único lugar que ele esperava não estar: no olho do furacão. Shouto ouviu a voz de Izuku gritar algo ininteligível e o gelo cobriu sua pele, externando a paralisia que sentia se espalhar por seus membros. Com um giro do pulso, ele avivou as próprias chamas e as usou para equilibrar o frio enregelante que o estava impedindo de fazer o que havia ido fazer ali. Salvar Izuku. E, para isso, Shouto precisava se concentrar. Com a voz recuperando a firmeza, ele instruiu os demais civis:

— Fiquem todos atrás do gelo. Quem puder andar, ajude a carregar as pessoas feridas para fora da linha de risco. Quando todos houverem passado, eu vou selar o quarteirão, peço que liguem para a emergência e fiquem calmos, os heróis já estão a caminho.

Funcionou. Parte do pânico desordenado nos olhos deles se dissolveu em uma determinação focada e logo as últimas pessoas na área atravessaram o espaço que ele havia aberto na parede de gelo. Apesar de tudo em seu interior gritar para que corresse logo em direção ao local onde Izuku estava, Shouto sabia que o namorado não gostaria que ele abandonasse aquelas pessoas ali em uma corrida desesperada para o encontrar. Então Todoroki fez o máximo que podia, já ouvindo ao longe as sirenes que indicavam a chegada dos bombeiros e, certamente, de alguns heróis profissionais que haviam atendido ao seu comunicado.

Porém, antes que ele pudesse selar o quarteirão como havia dito que faria, o último homem a atravessar sua barreira estendeu as mãos e segurou as bordas do seu casaco destruído com uma intensidade desconcertante, forçando Shouto a desviar o olhar do fenômeno.

— Não é culpa de um vilão se é isso que está se perguntando. Foi apenas um garotinho que perdeu o controle de sua individualidade — ele disse, com os olhos escuros impossivelmente tristes. — Se aquele jovem herói não tivesse pulado na minha frente e me tirado do caminho, eu não estaria aqui agora para lhe dizer isso. Então, por favor, garanta que ele fique bem.

Shouto assentiu e ajudou-o a chegar ao outro lado, antes de respirar fundo e puxar até a última gota de poder que tinha, concentrando-se para moldá-la em uma cúpula, ao invés de deixar o gelo sair como a ponta de um iceberg do mesmo modo que fizera durante o Festival Escolar. Ele não queria causar mais destruição às estruturas dos prédios, afinal, ainda havia pessoas lá dentro. O domo exigiu todo o seu foco e logo a luz do sol não mais o atingia, bloqueada por uma parede de gelo sólida a qual, segundo os seus cálculos, não resistiria por muito tempo contra o poder descontrolado que eram aquelas chamas.

Todoroki exalou uma longa baforada de frio concentrado e voltou seus olhos para o tornado que ainda rodopiava em sua canção de chamas e destruição. A voz de Izuku voltou a lhe atingir e ele soube que estava na hora. Ele precisava entrar e descobrir o que estava realmente acontecendo. Conhecendo Midoriya como conhecia, o fato dele ser o primeiro a pular sobre uma criança cuja individualidade estava descontrolada não o surpreendia em nada. Pelo contrário, era a cara do namorado. Sempre se metendo em problemas para os quais não havia sido chamado. Era um dos detalhes de sua personalidade que mais amava. A essência que o tornava um verdadeiro herói.

Criando uma espécie de cobertura ao redor do corpo com o próprio fogo, Shouto endireitou a postura, livrando-se do casaco e do cachecol chamuscado, esperando que aquilo fosse o suficiente. Precisava ser o suficiente porque não havia tempo para hesitar. Era tudo ou nada. Ele pensou mais uma vez em Izuku, em sua bravura desmedida, e então caminhou em direção às chamas.

O calor o envolveu como o sopro cálido de uma fogueira em uma noite de inverno. Por um instante, Shouto temeu que sua proteção não tivesse sido o suficiente quando o fogo abandonou a amenidade e se tornou uma onda intensa e sufocante. Para o seu alívio, a sensação foi rápida, e logo ele se encontrava do lado de dentro do furacão com as labaredas formando paredes à sua volta. Seu olhar recaiu sobre a figura pequena encolhida ao redor dos próprios joelhos, os braços vermelhos e queimados dos quais as chamas ainda se derramavam, formando um círculo feroz e protetor à sua volta. Do outro lado, com as mãos estendidas em súplica, estava Izuku com parte do uniforme chamuscado e um fio de sangue escorrendo da têmpora.

— Midoriya! — gritou, o alívio fazendo seus joelhos tremerem.

Izuku voltou os olhos em sua direção ao ouvi-lo chamar, e, por um segundo, Shouto pôde ver a felicidade dilatar suas pupilas e preencher o verde com pura gratidão. Ele estava bem, estava vivo e bem. Ao menos, o máximo que se podia estar em uma situação como aquela. Um segundo olhar mais atento lhe mostrou que Midoriya se encontrava agachado diante o corpo desfalecido de uma mulher de cabelos loiros, protegendo-a do fogo com explosões de ar criadas por suas luvas.

— Shouto! Eu estou bem. O garotinho, Lucca, precisa de ajuda! Converse com ele e faça-o entender que está tudo bem, que ele não fez por mal.

Shouto engoliu em seco. Midoriya queria que ele conversasse com a criança? Todoroki sabia que não era a melhor pessoa para fazer um discurso convincente em uma situação delicada como aquela. Ele não fazia ideia do que dizer para ajudar. Então o garotinho ergueu a cabeça, os olhos marejados por grossas lágrimas, parte da bochecha apresentando uma queimadura grave, e seu olhar recaiu sobre a mulher desmaiada. Ele tinha os mesmos cabelos loiros que ela. Um soluço deixou os lábios dele e as chamas se agitaram com mais intensidade. Em um instante de súbita compreensão, Shouto juntou as peças do quebra-cabeças, entendendo finalmente o que havia acontecido ali e o porquê de Midoriya tê-lo chamado. O garoto havia queimado a própria mãe, um espelho inverso do seu passado que, até recentemente, só alimentava mais raiva e ódio que ardiam em seu interior. Midoriya queria que Shouto salvasse o garoto de si mesmo.

Engolindo a apreensão que se instalou em sua garganta, Shouto avançou, um passo de cada vez, até que sua aproximação houvesse chamado a atenção dele e os olhos escuros emergissem novamente do seu esconderijo. Ele percebeu o exato momento em que o garoto fitou o seu rosto e viu nele a cicatriz impossível de se disfarçar que o marcava como uma vítima e um igual.

— Não se aproxime! — ele gritou, o fogo reagindo a sua agitação. Shouto desviou das labaredas que avançaram em sua direção e estendeu a mão esquerda a frente, acendendo uma chama gentil que dançou em sua palma, pequena e controlada, como um dia seu irmão Touya fizera consigo para provar o mesmo argumento.

— Está tudo bem — disse, adotando o tom mais tranquilo que conseguiu evocar. — Vê? O fogo não pode me machucar. Eu sou como você. Temos o mesmo poder e a mesma culpa por usá-lo.

— Foi a sua individualidade que queimou o seu rosto? — o garotinho perguntou, a voz trêmula e entrecortada pelos soluços.

— Não — Shouto negou. Um peso caiu em seu estômago e a culpa deixou um gosto amargo em sua boca. Ele tocou o tecido cicatricial antes de continuar: — Ganhei isso da minha mãe. Foi um acidente, é claro, mas por muitos anos acreditei que a culpa de tudo havia sido minha por ter esse poder que mais feria do que ajudava as pessoas.

— E foi culpa sua?

O menino fungou, parecendo prestes a cair no choro novamente. Não pela primeira vez Shouto perguntou se o que estava fazendo era mesmo o jeito correto de se lidar com aquela situação. Não que a resposta a esse questionamento fosse ser útil agora, uma vez iniciadas as palavras, ele não podia mais modificar a direção na qual elas seguiam.

— Não, não foi. Eu era uma criança como você, não entendia o que estava acontecendo nem mesmo o porquê. Mas então, um dia tudo mudou. Foi quando eu conheci um herói atrapalhado e corajoso que me fez enxergar que, apesar de tudo, o poder era meu e estava em minhas mãos decidir o que fazer com ele. Depois daquele dia eu aceitei a minha individualidade e procurei a minha mãe que se desculpou por tudo que havia acontecido. Ela não me culpava por nada, do mesmo modo que a sua não vai te culpar. Tudo o que ela quer é a sua segurança e a sua felicidade. O que aconteceu aqui foi um acidente, não foi culpa sua. E agora o mesmo herói que me salvou de mim mesmo está aqui para salvar você. O que me diz? Acha que pode deixar ele te ajudar?

Lucca seguiu seu olhar até Midoriya, o desejo de acreditar estampado em seu rosto. Olhos enormes e chorosos emergiram do emaranhado de membros apertados e o garotinho encontrou o olhar de Midoriya que sorriu para ele com suavidade.

— Vai ficar tudo bem — Izuku disse com toda a certeza que podia se reunir em um momento como aquele. E, nem mesmo por um segundo, Shouto deixou de acreditar que suas palavras eram verdadeiras. — Nós estamos aqui para ajudar você e a sua mãe. Ela vai ficar bem, vocês dois vão ficar bem, confie em mim. Não tenha medo, eu vou ajudar você. Nós dois vamos.

— Você… você promete?

Izuku assentiu com a mesma seriedade solene que já o vira usar antes com Eri.

— Prometo, palavra de herói. — A confusão desesperada diminuiu aos poucos, embora as lágrimas continuassem a cair por suas bochechas, deixando trilhas que eram secas quase instantaneamente pelo calor das chamas que ainda circulavam ao seu redor. Izuku caminhou vagarosamente até o centro onde o garoto se encontrava, o tempo inteiro mantendo um sorriso tranquilo e uma mão estendida. Shouto assumiu a posição dele, protegendo a mãe do garoto ainda desacordada, e sentiu que o tornado começava a enfraquecer. — Então, Lucca, o que acha de segurar a minha mão e sair daqui agora? Prometo que ajudaremos a sua mãe assim que você estiver seguro.

O garotinho assentiu e também estendeu a mão. Os dedos deles se tocaram e então as chamas desvaneceram com a facilidade de um fósforo apagado pela brisa. No segundo seguinte, Lucca caiu desmaiado nos braços de Izuku, corpo e mente exaustos pelo uso prolongado da individualidade. Os sons retornaram aos poucos, como se eles houvesse acabado de emergir de um mergulho profundo no oceano, e não demorou até que um aglomerado de entidades, entre eles policiais, bombeiros e heróis os cercassem assim que Shouto retirou a barreira de gelo. Eles responderam as perguntas feitas, Izuku, porém, se recusou a se afastar de Lucca e sua mãe, restando para eles a função de escoltá-los até o hospital.

Durante todo o caminho na ambulância sacolejante, Midoriya não soltou a mão do garoto em momento algum, do mesmo modo que Shouto não soltou a dele. Foram longas horas desde o desembarque até a caminhada inquieta em frente às portas que levavam ao corredor das salas de cirurgia. Midoriya ficou parado apenas o suficiente para que um dos médicos cuidasse dos seus ferimentos e o tempo inteiro Shouto permaneceu ao seu lado, um pilar sólido de apoio e certeza. Aizawa e um dos heróis profissionais que haviam estado no local apareceram para agradecer por suas ações e também repreendê-los pela irresponsabilidade impensada que haviam feito. De novo. Ambos prometeram que aquilo não voltaria a se repetir, mas Shouto sabia que era uma promessa vã. Midoriya continuaria correndo em direção ao perigo por aqueles que necessitavam e Shouto continuaria o seguindo sem se importar com as consequências.

Finalmente, depois do que pareceram ser horas intermináveis, eles foram dispensados e Izuku recebeu uma autorização especial para visitar Lucca e sua mãe, que enfim haviam sido transferidos para um quarto comum. Shouto o seguiu, seus dedos tocando a base da coluna dele em um suporte silencioso. Midoriya não entrou, apenas observou da janela o ambiente imaculado e os seus dois novos habitantes, deitados lado a lado, ainda sem sinais de que iriam acordar, mas, ainda assim, vivos e a salvo.

— Você realmente não precisava ter vindo, sabe — ele disse, a mão pressionada contra o vidro, os olhos presos na forma pequena deitada imóvel no leito muito branco.

Shouto franziu a testa sem compreender.

— Você me chamou, por que eu não iria?

Izuku sorriu e estendeu a mão livre para que Shouto a segurasse.

— É exatamente o que eu quero dizer. — Uma pausa e então ele acrescentou suavemente: — Obrigada. Por aparecer hoje e pela vez anterior também.

Shouto o puxou contra si e pressionou os lábios de forma leve e terna em sua testa, afastando-se apenas o suficiente para dizer:

— Vamos tentar não transformar isso em um hábito, certo?

Midoriya riu.

— Você me conhece, Shouto, sempre agindo por impulso e me metendo onde não devo. — Ele balançou a cabeça com pesar. — Não posso prometer nada.

— Eu já devia esperar — suspirou e o abraçou com mais firmeza por um instante, antes de soltá-lo e perguntar de forma branda: — O que aconteceu?

— Se eu disser que meu corpo agiu sozinho você acreditaria em mim? — ele sorriu de forma fraca e exausta, o tom guardando uma pontada de familiaridade como se ele já houvesse dito aquilo muitas vezes antes.

— Midoriya, eu acreditaria em você até mesmo se me dissesse que a Lua é feita de queijo.

O sorriso dele aumentou, pouco, mas o suficiente para Shouto respirar mais tranquilo. Ele balançou a cabeça, antes de continuar:

— A verdade é que ele me lembrou você.

— Por que ele tem problemas de interação social e não consegue entender metáforas?

Uma risada. Shouto não conseguiu impedir o próprio sorriso em resposta.

— Porque ele estava com medo da própria individualidade e com raiva de si mesmo por ter machucado a pessoa que mais amava na vida.

O sorriso morreu em seus lábios e ele baixou o olhar para os seus dedos entrelaçados.

— Oh.

— É, oh. — Midoriya suspirou, passando a mão livre pelos cachos verdes e deixando-os ainda mais bagunçados enquanto as palavras saíam sua boca em uma torrente veloz e irrefreável que, a essa altura, Shouto já conhecia bem. — Eu apenas pensei que, de algum modo, se eu o ajudasse, poderia te ajudar também. Não faz nenhum sentido, eu sei. Você não é mais criança e o passado não pode ser alterado tanto quanto o futuro não pode ser previsto, mas eu apenas queria ter a oportunidade de tentar, fazer algo, qualquer coisa, ajudar

Shouto puxou suas mãos até que as palmas tocassem a pele bronzeada do rosto, os dedos envolvendo as bochechas macias e sardentas, enquanto girava a cabeça dele para encontrar o seu olhar.

— Midoriya… não, Izuku. Acredite ou não, mas você já ajudou — disse com firmeza. — Você mudou tudo desde o instante em que me encarou naquela arena e decidiu que me faria perceber o quanto eu estava equivocado em minha visão simplista e rancorosa do mundo. Você me salvou, Izuku, do mesmo jeito que salvou esse garoto hoje. E, acredite quando digo, que esse gesto nunca vai ser esquecido por nenhum de nós dois, nem por ninguém que vier a resgatar no futuro. É como você mesmo disse: não podemos mudar o passado, mas o futuro, ah, esse nós podemos assegurar para que seja mais próspero. E, permanecendo ao seu lado, eu sei que não poderia desejar nada melhor.

Houve um instante de silêncio em que Shouto pensou na possibilidade de ter dito algo errado. Mas então Izuku piscou, afastando as lágrimas súbitas que insistiam em encher seus olhos e sorriu, um sorriso mais sincero e que retirou um peso de suas costas.

— Eu poderia dizer o mesmo de você, Shouto.

Os batimentos dispararam, soando alto e forte em seus ouvidos. Shouto precisou de todo o seu autocontrole para não empurrar Izuku contra aquela parede e o beijar com um desejo que podia muito bem incendiar todo o hospital. Pigarreando para afastar as imagens subitamente muito claras em sua mente, puxou o namorado com delicadeza em direção a saída.

— Venha, vamos voltar para o dormitório. Tenho certeza de que eles vão ficar bem e Aizawa-sensei nos avisará quando Lucca acordar.

Sem demonstrar resistência, Midoriya o seguiu.

*

O retorno ao dormitório se provou tão caótico quanto qualquer incidente público. Somente após muita insistência de Iida foi que todos os colegas cessaram as perguntas e os deixaram livres para encontrar o caminho para os próprios quartos onde poderiam se livrar dos vestígios daquele dia. Só quando estava embaixo do chuveiro, com a água quente relaxando os músculos tensos de suas costas, foi que Todoroki percebeu que, no fim, ele não tinha presente algum para Izuku. Com uma pontada de decepção, ele se perguntou se isso não era uma espécie de castigo carmático do universo pela sua incapacidade de decidir algo. Não que a essa hora pudesse mudar alguma coisa. Portanto, tudo o que restava fazer era encontrar Midoriya e se desculpar por não ter um presente para lhe dar.

Shouto saiu do banho, colocou roupas limpas e desceu para o espaço comum onde encontrou Midoriya na cozinha, mudando o peso de um pé para o outro enquanto mexia algo em uma panela. Os cachos esverdeados ainda estavam úmidos e uma mancha disforme de uma queimadura não totalmente curada se destacava em seu ombro, no exato ponto em que a camiseta não cobria o suficiente. Shouto sentiu a própria cicatriz arder em resposta. Curvando a cabeça em direção à ele, beijou o ponto onde a pele se avermelhava com um cuidado ímpar.

Midoriya se virou com o gesto, as mãos se erguendo para as suas bochechas, o dedão resvalando suavemente na marca em seu olho esquerdo. Todoroki ergueu os olhos para capturar o verde ameno dos dele e soube, no fundo do seu âmago, que Izuku compreendia exatamente o que ele estava pensando. Nenhuma palavra foi necessária entre eles e o peso do momento, do entendimento explícito na tênue mudança do verde mais claro para o escuro, o fez pigarrear, um dos dedos ainda percorrendo os contornos da queimadura ganha naquele dia em mais um ato de heroísmo. A Shouto parecia que Izuku colecionava cicatrizes como pessoas comuns faziam com medalhas.

— Dói? — perguntou baixinho, não querendo estragar o clima.

Midoriya balançou a cabeça, apenas um leve movimento, mas Shouto sabia por experiência própria que queimaduras demoravam dias até que a dor amenizasse o suficiente para se tornar administrável. Ele tinha a ciência que aquela negativa fora dita apenas para o tranquilizar. Beijou novamente o local e então o ponto exato no pescoço que o fazia se encolher, sentindo uma onda de satisfação ao ver as bochechas dele ganharem uma onda de cor.

— Eu devia prender você por ser criminosamente fofo — murmurou em seu ouvido, os braços passando pela cintura dele e o trazendo para mais perto em um abraço necessitado.

Midoriya fez uma careta que, por mais que tentasse, não demonstrava irritação verdadeira e brandiu a colher em sua direção, fazendo Shouto rir e se afastar alguns passos. O cheiro picante chegou ao seu nariz e o estômago roncou em resposta, somente agora percebendo que não havia comido nada o dia inteiro desde o café da manhã.

— Até onde eu sei, ser fofo não é um crime.

Shouto apoiou o cotovelo no balcão e descansou a bochecha na palma aberta, apreciando os gestos familiares enquanto Midoriya preparava curry para os dois.

— Isso é porque eles ainda não conhecem você. Quando isso acontecer, as leis irão mudar radicalmente.

Funcionou. Ele riu, o rosto quente e despreocupado, a tensão se esvaindo dos ombros onde ficara alocada durante as últimas horas desde o incidente. Shouto se sentiu imediatamente mais relaxado. Ele sabia que Izuku tinha o hábito de se culpar demais por consequências que muitas vezes não eram reflexos diretos de suas ações. Ele se importava em excesso, era bom demais para o mundo. Era um traço de sua personalidade que Shouto tanto admirava quanto se preocupava.

— Aqui, isso é para você — Midoriya disse, deslizando uma embalagem azul pela superfície, enquanto abaixava a cabeça para esconder o rubor que ardia em seu rosto. — Sei que não foi um dia como tínhamos imaginado e isso não é muito, mas espero que goste. Feliz Dia dos Namorados, Shouto. — Sem saber o que dizer, Todoroki aceitou o pacote e o abriu, encontrando uma embalagem recheada de trufas e um cartão dourado que lhe convidava para um jantar reservado em seu restaurante preferido de soba. — Eu pensei que você gostaria de levar sua mãe lá. — ele acrescentou. — Ela até mesmo já concordou com a ideia.

Shouto sorriu, tocado com a atenção dele, e contornou o balcão de modo que pudesse tê-lo em seus braços mais uma vez, agora, sem se importar com os protestos abafados de que o curry iria queimar.

— Às vezes eu penso que não mereço alguém como você. — Seus dedos acariciaram as bochechas dele, traçando suavemente linhas interligando as sardas tão adoráveis em sua pele. — Quero dizer, como alguém como eu conseguiu manter uma pessoa tão boa, altruísta e heróica ao meu lado por tanto tempo? Devo ter gastado toda a minha boa sorte encontrando você, alguém tão bom e maravilhoso, quente e ensolarado.

Midoriya riu.

— Eu sempre quis ser chamado de ensolarado. É o sonho de todo jovem rapaz.

Shouto revirou os olhos com a brincadeira, mas mesmo assim continuou sorrindo.

— Eu estou falando sério — disse. — Você aquece o coração de qualquer um que esteja por perto e o meu costumava ser o mais frio de todos. Espero que saiba que, hoje, eu sou quem eu sou por causa de você. E embora eu ache que preciso de você mais do que você precisa de mim, não há um dia sequer que eu me arrependa de te amar.

Midoriya estendeu o dedo e o pressionou contra seus lábios, impedindo-o de continuar.

— Eu acho que você é perfeito, Todoroki Shouto, e amo cada parte sua. Não me importa quantas falhas você diga que tem ou o quanto ache que não merece ser feliz, para mim, você é como a concretização de um sonho, real e perfeito.

Todoroki pressionou seus lábios nos dele, uma, duas, três vezes, apenas um toque suave e doce como o momento pedia. Quando as bocas se separaram, ele lembrou de que ainda havia algo para confessar.

— Sinto muito por não ter nada para te dar. — Shouto engoliu em seco, a decepção se alojando fundo em seu peito. No fim, ele nem mesmo fora capaz de cumprir essa simples tarefa. — Eu até procurei um presente, mas nada parecia ser suficientemente bom…

Midoriya riu suavemente e balançou a cabeça daquele mesmo modo que sempre fazia quando sabia de algo que Shouto ainda não tinha conhecimento.

— Só a sua companhia é presente o suficiente para mim, Shouto — ele disse, as bochechas ganhando o tom avermelhado responsável por causar aquela sensação efervescente em seu estômago e a onda de energia nervosa em seus dedos que não desejavam fazer nada além de tocá-lo.

— Eu te amo, Midoriya Izuku. Hoje, agora e sempre vou amar — murmurou, inclinando-se para obedecer ao seu desejo e beijá-lo com o ímpeto que vinha fantasiando o dia todo.

A campainha tocou interrompendo o momento perfeito e Shouto tentou esconder a frustração por ter sido impedido pela segunda vez naquele dia, quando não queria nada além de pressionar Izuku contra o balcão para beijá-lo até fazê-lo esquecer o próprio nome. Não era pedir demais, era? Midoriya riu de sua expressão contrariada e depositou um beijo rápido em sua bochecha, desligando o fogo da panela antes de sair para atender quem quer que fosse.

— Todoroki Shouto? — a voz na porta perguntou de um modo hesitante.

Midoriya franziu a testa e virou para observar o namorado que, só naquele instante, percebeu o que todas aquelas caixas poderiam significar. Como um perfeito idiota, Shouto não se lembrava de ter preenchido o seu endereço durante a finalização da compra para o envio de alguns itens que não estavam em estoque no momento.

— Ah… Eu tinha esquecido disso.

Ele caminhou até a porta e assinou o recibo de entrega, recebendo uma enorme e pesada caixa a qual empurrou para Izuku antes que perdesse a coragem, a mão coçando o pescoço e os olhos grudados nos próprios pés.

— Acho que isso significa que eu consegui comprar algo para você. Um presente para o Dia dos Namorados…

Midoriya riu incrédulo.

— Shouto, aqui tem muito mais do que um presente!

— Eu sei. Hm, é que eu não tinha certeza sobre o que escolher, então peguei todos. Exceto a estátua em tamanho real do All Might, o fabricador disse que era impossível ficar pronta até o fim do dia de hoje, então se alguém aparecer aqui para entregar uma estátua, bom, você já sabe o motivo...

Ele não conseguiu concluir a frase, pois Midoriya já havia largado a caixa e o puxado contra si com tanta força e vontade que Shouto não podia ter prazer melhor do que responder na mesma medida. Seus lábios se moveram em perfeita sincronia e o corpo de Shouto se dissolveu em sensações. As mãos de Izuku em sua cintura o puxavam para mais e mais perto como se não fosse possível aproximar-se o bastante. Seu pé tropeçou em uma das pelúcias que havia escorregado para fora e logo os dois caíram sobre o presente, rindo, e continuaram com os beijos, os corpos se enlaçando, movidos pelos toques ávidos e urgentes com o fervor que só duas pessoas apaixonadas podem ter.

Sufocados por uma avalanche de bichinhos de pelúcia, os braços de Izuku bem firmes ao redor do seu pescoço, Todoroki Shouto enfim percebeu que Uraraka estava certa e todos aqueles presentes caros não haviam sido necessários. O presente perfeito, de fato, não custava nada e valia ainda mais do que qualquer outro objeto que o cartão de crédito de seu pai pudesse comprar.

O amor era o presente mais incomensurável que poderia oferecer, a certeza de que não importava o quanto as coisas em suas vidas mudasse, eles sempre estariam ali um para o outro.

No fundo, era o melhor presente que Izuku podia desejar.

16 de Junho de 2021 às 18:24 8 Denunciar Insira Seguir história
9
Fim

Conheça o autor

Nathy Maki Fanfiqueira sem controle cujos plots sempre acabam maiores do que o planejado. De romances recheados de fofura a histórias repletas dor e sofrimento ou mesmo aventuras fantásticas, aqui temos um pouco de tudo. Sintam-se à vontade para ler! Eterna participante da Igreja do Sagrado Tododeku <3

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Aridan Interestelar Aridan Interestelar
sortuda fui eu de achar essa lindeza nos destaques 😳 tu escreve muito bem, moça
June 21, 2021, 23:58
Ursula Lieselotte SanDaniels Ursula Lieselotte SanDaniels
Olá! Boa noite. A história é maravilhosa! É envolvente e muitíssimo boa
June 19, 2021, 22:50
Inkspired Brasil Inkspired Brasil
Olá, Nathy Maki! Primeiramente, gostaríamos de agradecer a sua participação no #amordecinema! Ter vocês, autores, nos apoiando com suas histórias incríveis e participando ativamente deste desafio nos deixou realmente felizes. Se o intuito de Incomensurável era de preencher nossos corações de amor e alegria, saiba que conseguiu. Desde a sinopse, esperamos algo arrebatador e cheio de surpresas, e sua história não nos decepcionou em momento algum. Sabe o que é mais surpreendente? Enquanto líamos, percebíamos o quão coerente e interligado seu conto ficou com a história original de Boku no Hero Academia, a ponto de pensarmos que ele poderia facilmente ser lido como se fizesse parte da obra original. Até mesmo alguns dos acontecimentos mais importantes da obra original foram reaproveitados por você e inseridos com perfeição na trama da sua fanfic. E, olha, é em momentos assim que nos orgulhamos de sermos fanfiqueiras! Sobre o tema, é impossível negar o quão ficamos surpresa com a forma que você trouxe o que pedimos na sua história, a ideia foi simplesmente genial e nós ficamos muito felizes por ver que a ideia foi muito bem usufruída e de uma forma inesperada. Foi uma emoção nos juntarmos a essa caçada ao presente perfeito! E, claro, não podemos deixar de falar sobre a ambientação geral da sua história. Como já comentamos no comecinho, tudo ficou bastante coerente com a história original, o que deu um poder imenso à sua história, pois imaginá-la como real dentro do mundo de BNHA foi muito fácil. Além disso, também adoramos o fato de você ter exposto os cenários através da visão do personagem, o que nos ajudou bastante a compreender a movimentação dele na história. E o mais legal é que as descrições são bem levinhas e fluidas, permitindo uma leitura mais rápida e sutil, principalmente quando a cena de ação chega. E por falar nisso, que cena de ação, minha amiga! Enquanto líamos, não foi difícil imaginar o Deku metido naquela situação. Bem a cara do nosso garoto tentar ajudar sempre que necessário, não é mesmo! E, pra completar, não podemos deixar de falar o quanto associamos o que aconteceu com o incidente do Assassino de Heróis e também com a vez em que Deku se jogou sem pensar para tentar salvar Katsuki. Ou seja, você simplesmente nos fez arrepiar, pois, enquanto líamos a cena de salvamento, lembravámos de outras duas cenas épicas do anime e, claro, o plus ultra: também tivemos, junto do Shoto, vislumbres da vida difícil dele. Você brincou com nossos corações, autora! Também gostaríamos de parabenizá-la pela boa gramática e ortografia da sua história, pois, graças a isso, nos vimos deslizando pelas palavras. Encontramos alguns erros, mas que, se comparado ao tamanho da história, são insignificantes. Parabéns por ter se empenhado também nesse ponto tão importante para uma narrativa. No mais, agradecemos muito por ter tirado um tempo para embarcar nessa aventura e esperamos de coração que tenha sido uma experiência boa para você! Obrigada pela sua participação, foi muito bom poder contar com você neste desafio e esperamos poder vê-la em outros. Os resultados serão divulgados em breve nas nossas mídias sociais. Fique de olho e boa sorte!
June 19, 2021, 14:15
Luana Borges Luana Borges
Oso apaixonada nesse casal... Aí tô chorando de emoção, que Fanfic linda meu Deus 😍❤️ Oto apaixonada demais... Tua escrita é muito tooop
June 18, 2021, 17:05
Isís Marchetti Isís Marchetti
Olá, primeiramente gostaria de agradecer pela participação no desafio, e em segundo, agradecer por essa historia fantástica que você proporcionou a mim. Simplesmente maravilhosa!
June 17, 2021, 14:48
Artemísia Jackson Artemísia Jackson
EU NÃO AGUENTO MAIS SAIR DAS SUAS FICS CHORANDO TODA VEZ QUE EU LEIO, COMO TU CONSEGUE SER TÃO FOFA E PERFEITA E MARAVILHOSA E TOCAR O CORAÇÃO DA GENTE TÃO PROFUNDAMENTE????? Eu sempre brinco sozinha
June 16, 2021, 21:57

  • Artemísia Jackson Artemísia Jackson
    Eu mesma me cortei aqui na empolgação e apertei o enter, mas estava dizendo que eu mesma sempre brinco sozinha que só quem me faz gostar de romances açucarados assim são as fanfics. Se eu fosse ser mais específica, diria que só tu pra realmente me fazer espocar de amor desse jeito. Eu sempre fico besta com sua capacidade de descrição de cenários, sua capacidade de prender as pessoas no teu enredo e fazer a gente se apaixonar pelo seu trabalho. É como se você fosse a versão ensolarada do mundo real, uma pessoa que só tendo essa alma pura pra causar essa gama de sentimentos na gente. Aí eu sou muito boiola por ti, pela sua escrita e é isso, aceite meu amor <3 Obrigada por essa divindade magnífica (que com certeza merece vencer o desafio). June 16, 2021, 22:03
Karimy Lubarino Karimy Lubarino
Eu tô com um sorriso tão grande no rosto e com lágrimas nos olhos. Quero te apertar. Obrigada por essa história linda e por participar. Tem pouco tempo que tô assistindo Bnha e na verdade nem torço pra nenhum casal em específico, eu só tô amando cada um dos personagens individualmente mesmo. A primeira história do anime que leio depois de ter começado a assistir? Esta. E meu coração não poderia ficar mais feliz por isso. Eu adorei o fato de você ter colocado elementos reais da trama na sua história e de ter resgatado coisas que fazem de Banha o que realmente é, como quando falou sobre o Mineta mandando imagens inapropriadas (imaginei real ele fazendo isso) e quando colocou Uraraka como uma incentivadora. Enfim, fico feliz que tenha conseguido participar e espero que tenha aproveitado o desafio 💖.
June 16, 2021, 21:07
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