miarossi Mia Rossi

Após chegar numa cidade nova, Diego Ferreira percebe um curioso e estranho fato: absolutamente todos aqui parecem conhecê-lo. Então, desesperado para descobrir mais, uma bizarra informação chega aos seus ouvidos: ele é exatamente idêntico a um aluno desaparecido - Andrei Ribeiro. Mas como isso seria possível? E o que houve com Andrei, afinal?


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O SEGREDO

CAPÍTULO ÚNICO: O SEGREDO

Mudar de cidade é sempre uma transição difícil. Eu sabia que seria assim quando cheguei, sabia que meu último ano com certeza não acabaria da forma como eu um dia imaginara. E poderia ser? Num ambiente completamente diferente?

É claro que, inicialmente, eu tentei ser positivo. Me arrumei para o primeiro dia, vesti uma calça jeans boa e até tratei de passar um pouco de perfume.

Mas ninguém me preparou para o pesadelo que me aguardava.

Quando passei pelos portões da escola, segurando firme na alça da mochila, me deparei com vários olhares em cima de mim. As pessoas não disfarçavam, como se não houvesse nada demais em encarar uma pessoa nova como se ela fosse um fantasma. No começo eu até tentei evitar, me concentrando apenas nos imensos corredores da escola ao caminhar.

Porém, num determinado momento, as coisas ficaram estranhas.

Eu tinha acabado de sair da recepção, onde a secretária me encarou vezes demais e perguntou meu nome vezes demais, quando uma garota loura arregalou os olhos ao se deparar comigo. Ela parou de andar, o tênis fazendo um barulhinho estranho ao derrapar contra o chão.

Andrei? — disse ela baixinho, a voz numa mistura de exclamação e surpresa. Seus olhos-castanhos fixaram-se em mim com uma profundidade excepcional, e eu até poderia achar fofo se não fosse pela estranheza da situação.

Parei de andar, retribuindo seu olhar seriamente. A garota recuou alguns passos, engolindo em seco várias vezes conforme seu olhar assustado passeava por mim desesperadamente. Parecia não acreditar no que via.

— Eu... posso ajudar? — me forcei a perguntar, soando bem mais formal do que pretendia.

Por sorte minhas palavras pareceram despertá-la, pois a garota piscou para mim antes de dizer rispidamente:

— É você o aluno novo?

Nossa. Não sabia que as notícias se espalhavam tão rápido assim por aqui.

— Sim, hum, sou eu. — Pigarreei, intimidado pelo jeito que a garota me encarava.

Ela ajeitou a postura, parecendo se controlar o máximo possível para permanecer plena, e sumiu da minha frente sem dizer mais uma palavra. Fiquei confuso, perdido, curioso, mas resolvi ir logo caçar minha sala de aula antes que eu arrumasse mais problemas.

Bom, mas para a minha total infelicidade, meus problemas ali estavam apenas começando.

* * *

Eu estava na penúltima aula do dia quando tudo aconteceu.

O professor falava, animado com o assunto complexo que resolveu iniciar logo em nosso primeiro dia, e os alunos cochichavam e murmuravam ao meu redor. Muitos me olhavam quando pensavam que eu estava distraído, coisa que eu tive de me acostumar uma hora ou outra.

Por que todos estavam agindo assim? O que diabos estava acontecendo que os fazia me tratar como se eu fosse um fantasma voltado dos mortos?

Soltei um suspiro frustado, batucando meu lápis na mesa enquanto ouvia o terceiro discurso do dia sobre as fórmulas que iríamos rever para o vestibular. Me sentia mais aliviado depois de ter ido ao banheiro cinco vezes conferir se havia algo de errado com minha aparência ou minha roupa, ainda que os olhares parecessem ser sempre dirigidos ao meu rosto mesmo.

Então, finalmente, o início do que seria minha salvação e minha perdição surgiu: um garoto magrelo, curvado, com óculos de grau enormes e uma aparência de nerd me cutucou da carteira ao lado da minha. Ele tinha uma expressão ansiosa no rosto, meio agitada, ainda que parecesse gentil. Como se quisesse me ajudar com algo.

— Você é o aluno novo, né? — sussurrou ele, se inclinando para frente. — Prazer, eu sou o Victor. Fiquei sabendo sobre o seu caso assim que cheguei. Você animou a escola toda hoje.

Victor soltou uma risada fraca, ainda que eu tenha ficado ainda mais perdido. Animei a escola? De que merda esse garoto tava falando?

— Você... não sabe? — continuou ele, abaixando mais o tom de voz, ao ver minha expressão. — Sobre o Andrei?

Franzi a testa, me preparando pra dizer que não quando ele puxou o celular do bolso e começou a digitar algo conforme ajeitava seu óculos no rosto. Então Victor empurrou o aparelho na minha direção, e me abaixei mais na cadeira pra ler a tela sem que o professor notasse.

Era uma reportagem. Pela data da publicação, já fazia um tempo que tinha sido postada.

"ANDREI RIBEIRO: O CASO QUE CHOCOU GUARIÚNA

Na manhã desta segunda-feira, o desaparecimento do jovem Andrei foi levado à polícia após quarenta e oito horas sem notícias. De acordo com Sandra, mãe biológica do garoto, ele andava estranho antes de desaparecer; parecendo perturbado e agitado nos dias em que se antecederam. Por enquanto não há pistas, embora a família e a cidade permaneçam otimistas quanto a uma boa notícia."

Desci a tela após ler o texto, procurando alguma ligação entre o garoto desaparecido e eu. Esta, felizmente, não demorou a surgir: pois logo abaixo da reportagem havia uma enorme foto em preto e branco dele.

Meu coração gelou.

Não. Não. Quais as chances de algo assim estar realmente acontecendo?

A foto claramente não era minha, pois eu jamais havia usado jaqueta de couro ou deixado a barba e o bigode crescer. O garoto, Andrei, não sorria para a câmera, ainda que parecesse tranquilo ao colocar as mãos no bolso da calça e se apoiar no muro de algum lugar.

Porém, mesmo com as diferenças, aquele rosto era o meu. Todas as feições, todos os detalhes, todas as mínimas expressões. Era eu. Era o meu rosto.

O quão macabro seria um garoto desaparecido parecer ser o meu irmão-gêmeo perdido? Pois não acredito que nenhuma sósia tenha uma semelhança dessas; a não ser num filme bizarro de Hollywood.

— Puta merda — eu sussurrei, quente de nervoso, enquanto observava a foto de novo e de novo e lia a reportagem de novo e de novo.

— Pois é! — Victor riu ao meu lado. — Não é estranho? Vocês são, tipo, idênticos. Jurava que Andrei tinha voltado quando te vi no intervalo.

Passei o resto da aula relendo aquela reportagem. Não sei se o garoto se importou da posse que eu adquiri do celular dele, mas precisava ler e reler aquilo o máximo de vezes possível.

— Obrigado por ter me avisado — eu falei, tenso, assim que joguei a mochila sobre o ombro e me preparei pra sair da sala. A maioria dos alunos já tinha ido embora, todos me olhando pelo menos umas três vezes antes de partirem. O engraçado é que ninguém tinha coragem de me falar nada na cara; exceto o Victor. Eu não sabia qual era a dele, mas agradecia-o por isso.

— Tudo bem — respondeu Victor, relaxado, enquanto fechava uma maleta estranha após se levantar. Será que ele usava isso como mochila? — Eu percebi que você não devia conhecer a história dele. Não foi muito divulgada na época.

— Por que não? — Me aproximei mais, segurando firme na alça da mochila. Eu precisava do máximo de informações possíveis sobre essa situação bizarra.

Victor deu de ombros, tranquilo, embora seu olhar estivesse triste quando ele encarou um ponto vazio.

— A história não tinha muitos detalhes, então não chamou tanto a atenção da tv. A família do Andrei era pequena, eles se mudaram pra cá pouco tempo antes do desaparecimento. Ninguém tinha visto muito ele naqueles últimos dias. — Seu tom de voz estava ainda mais baixo quando Victor terminou. Ele segurou nos cantos da maleta, como se procurasse por apoio, e me olhou. Parecia bem mais aflito agora. — Eu não sei o que tudo isso significa, mas é bem estranho. Você sabe. Uma história não precisa ter detalhes assustadores pra ser assustadora.

O encarei, sem disfarçar minha desconfiança e a óbvia análise que eu fazia com o olhar. O que ele queria dizer com aquilo?

— Se eu fosse você, já estaria pesquisando sobre essa coincidência — continuou Victor, parecendo bem sério. — Isso se for mesmo uma coincidência, né.

Quando ele me deu um sorriso com os lábios fechados e puxou a maleta ridícula pela mão, eu ainda processava suas palavras.

E quando cheguei em casa, pouco tempo depois, eu enfim comecei a trabalhar.

* * *

"...embora as buscas tenham sido encerradas dois meses depois, a família e amigos insistiam que algo estava errado. Mas a polícia, cansada daquela investigação fracassada, não dera a devida atenção ao discurso."

Me debrucei sobre a escrivaninha, cansado, enquanto fitava a tela do computador. Era meia noite e meia, o que significava que eu passei o dia todo tentando saber mais sobre o garoto igual a mim.

E tudo o que eu descobri? Nada. Ele simplesmente sumiu do mapa e todo mundo resolveu seguir a vida.

Impressionante.

Desci mais a tela, recostando-me na cadeira e levando a mão ao pescoço. Estava até com torcicolo. A notícia já havia acabado, e tudo que eu via na tela agora eram outras semelhantes; como o caso de Vanessa Velásquez, a adolescente que foi encontrada morta em Guarapuava alguns anos atrás.

Será que esse tal de Andrei também morreu? Pois normalmente era essa a resposta pra esse tipo de coisa.

Estava quase dormindo sentado quando meu celular vibrou. Peguei o aparelho, meio zonzo, e me forcei a enxergar a mensagem que brilhava na tela.

Todo o sono foi extinguido de mim imediatamente.

Olá, Diego. Eu tenho as respostas de que precisa. Podemos nos encontrar? É importante.

Franzi a testa, relendo a mensagem várias e várias vezes, então comecei a olhar ao redor pela escuridão do quarto; procurando alguma pista de que alguém estivesse me espionando. Como aquela pessoa sabia meu nome? E como conseguira meu número?

Engoli em seco, tentando ao máximo não me sentir assustado, e respondi o tal anônimo com os dedos tremendo.

Nos encontrar? Como assim? Quem é você?

A próxima mensagem veio quase no mesmo instante.

Sou todas as respostas que você procura.

* * *

Não consegui me concentrar em absolutamente nenhuma aula. Minha mente só focava no desaparecimento do garoto igual em mim, uma semelhança que parecia aumentar a cada vez que eu olhava a foto do jornal, e na mensagem estranha que recebi na madrugada de ontem.

Tudo aquilo era estranho. Eu sabia que meu pai já morara aqui na infância, e que apenas hoje — três meses depois de sua morte — minha mãe resolveu voltar à cidade natal dele como uma forma de reconexão.

Mas eu jamais pisei aqui. Jamais soube dessa notícia estranha de um garoto igual a mim que com certeza deve ter sido exibida em algum noticiário. Jamais soube que passaria por essa situação bizarra algum dia.

Finalmente, poucos segundos depois, o sinal da última aula disparou pela escola. O professor mal teve tempo de gritar as últimas instruções conforme os alunos se levantavam, jogando as mochilas sobre os ombros e marchando para fora. Alguns me olhavam. Agora já me acostumei, embora fosse surpreendentemente chato ser ignorado por todos.

Eles pareciam ter medo de mim. Até a garota loura, que pensou que eu fosse aquele garoto por um momento no primeiro dia de aula, sequer se aproximou mais. Ainda que de vez em quando eu a pegasse me olhando; como se, de uma certa forma, minha visão a confortasse.

A mensagem do estranho ainda me perturbava quando saí da classe, andando o mais rápido possível pelo pátio numa tentativa de fugir dos olhares das pessoas. Me sentia mal vendo-as conversar entre si, compartilhando fofocas sobre o estranho idêntico ao garoto desaparecido enquanto aproveitavam suas vidas confortáveis.

Eles só não sabiam do quanto era assustador para mim.

Eu havia acabado de sair da escola, virando num bairro, quando parei abruptamente ao ver uma pessoa zanzando por ali. Um calor estranho atingiu meu corpo, meus sentidos parecendo ter ficado repentinamente em alerta. Corra, dizia algo dentro de mim. Corra agora.

Mas meus pés continuaram grudados ao chão conforme ele se aproximava.

Não era ele. Era eu. Era o meu rosto, a minha imagem.

Eu não precisava perguntar para saber que aquele era o garoto desaparecido. Andrei Ribeiro, que jamais fora encontrado, estava agora exatamente na minha frente.

E ele caminhava até mim.

Recuei, observando-o me encarar seriamente. Não parecia se divertir com a situação, embora também não se mostrasse exatamente assustado.

— Você — eu arquejei, o peso da mochila nas costas parecendo dez vezes pior agora.

Andrei não sorriu, apenas continuou caminhando até que estivesse a um palmo de distância de mim. Me senti como se olhasse num espelho. O bairro estava vazio, parecendo deserto, até, e as casinhas juntas e antigas ao nosso redor não exibiam um único ruído.

Ninguém apareceria pra ver aquela coisa bizarra? Como nunca encontraram o garoto se ele estava aqui agora, zanzando pela cidade?

— Eu sei que isso tudo deve ser estranho pra você — disse ele, a respiração ofegante, conforme me analisava de modo preocupado. — Mas você precisa entender as coisas, Diego. Precisa entender pra acabar com esse ciclo.

A voz dele ficara repentinamente desesperada quando terminou. Permaneci retribuindo seu olhar, sem demonstrar nada, conforme deslizava a mão disfarçadamente para o bolso da calça. Eu precisava ligar pra polícia. Precisava avisar que o garoto desaparecido estava aqui.

— Então, por favor, entenda — continuou Andrei, olhando apressado ao redor antes de se virar para mim novamente. — Eu sou você, Diego. E você sou eu. Somos pessoas diferentes e somos a mesma pessoa. Você precisa me escutar. Precisa entender antes que seja tarde demais.

Engoli em seco, minha mão finalmente tocando o aparelho no fundo do bolso. De que merda esse garoto estava falando? Ele devia ser louco. Com certeza ele era louco. Isso explicaria muita coisa.

— Você... sou eu? — eu repeti, arqueando a testa, como se quisesse que ele explicasse melhor. Eu precisava ganhar tempo. — O que isso significa?

Andrei suspirou, olhando ao redor de novo pra garantir que estávamos sozinhos. Quando voltou a falar, sua voz estava bem mais baixa do que da última vez.

— É algo grande. Muito maior do que você pode imaginar. Precisamos trabalhar em conjunto, Diego. Por favor. Você precisa confiar em mim.

Aproveitei o momento em que ele olhou para trás e retirei o celular do bolso. O mantive atrás de mim enquanto digitava aqueles números tão complicados agora que eu não podia vê-los. Um. Nove. Zero.

Cliquei em chamar, torcendo pra que tivesse digitado os botões certos ao pôr no viva-voz, e cruzei os braços para trás do corpo. Andrei olhava para os lados o tempo todo, mas quando olhou para mim novamente, tive certeza de que algo sério iria acontecer.

Eu podia estar correndo perigo.

— Vem comigo. Se vier comigo, tudo vai dar certo.

— Como é? — Comecei a recuar de perto dele antes que notasse meus próprios passos, franzindo a testa o máximo que eu era capaz. — Que merda você tá falando?

— Qual é, Diego! — exclamou ele, passando a mão pela cabeça conforme bufava; claramente impaciente. — Você precisa me entender!

Eu já ouvia os ruídos da linha telefônica, então decidi agir rápido com algo que eu sabia que faria os policiais virem correndo atrás de mim.

Eu torcia pra que eles rastreassem rápido um celular.

— Você é o Andrei! Andrei Ribeiro! Quer mesmo que eu acredite nas palavras de um garoto desaparecido que surge na minha frente do nada? Eu nem te conheço!

Isso é o que você pensa! — rugiu ele, marchando para perto de mim novamente com um desespero nítido. — Você precisa entender, Diego! Senão vai tudo se repetir!

Recuei mais quando ele tocou em meu braço, assustado, conforme Andrei olhava ao redor em garantia de que ninguém estava ali.

— Vem comigo, merda! É o único jeito!

Ele já estava começando a me puxar pelo braço quando uma sirene de polícia irrompeu pelo ambiente. Quase fomos atropelados quando um carro passou por nós, freando abruptamente. As portas se abriram, com milhares de policiais descendo e se acumulando em nossa volta.

— Eles são iguais — murmurou um.

— Qual deles é o Andrei? — cochichou outro.

Engoli em seco, esfregando meu braço agora livre do aperto de Andrei conforme ele me encarava com raiva. Mas... mas também algo a mais. Talvez medo? Surpresa? Não conseguia identificar todas as coisas que passavam pelo rosto de minha cópia.

— Fiquem parados! — gritou um dos policiais, a voz firme. — Coloquem as mãos atrás da cabeça. Agora!

Obedeci, vendo Andrei fazer o mesmo, enquanto ele olhava de um policial para o outro com desespero. Agonia. Medo.

— Tá acontecendo de novo — o ouvi murmurar. — Tá tudo acontecendo de novo...

Tentei me concentrar em suas palavras, mas senti as mãos fortes de alguém me puxarem para trás em direção ao veículo de polícia. Deixei que eu fosse espremido no banco de trás, uma estranha sensação de dejá-vu atingindo minha mente subitamente. O carro... a situação... as sirenes.... por que tudo isso soava tão familiar?

Está acontecendo de novo. As palavras não abandonaram minha mente até que eu chegasse na delegacia, fosse empurrado para fora do carro e sentisse as algemas apertarem meus pulsos ao ser guiado para o interior do edifício.

Só então eu percebi. Era eu. Eles estavam levando a mim no lugar de Andrei.

— Não, não... — eu comecei a murmurar, olhando ao redor em busca de qualquer pista de que isso não estivesse acontecendo. Muitas pessoas passavam por mim. Muitas luzes. Muitas vozes. Onde eu estava sendo levado?

— Encontramos o Andrei — anunciou o homem que empurrava minhas costas. — Ele ameaçou um garoto.

— Será que ele é louco? — disse uma voz esganiçada de mulher entre a distância. — Por isso estava desaparecido?

Eu não estava desaparecido. Eu não era o Andrei! Como raios foram me confundir com o outro garoto?

— Eu não sou ele — ofeguei, cansado, enquanto tentava continuar caminhando. — Eu sou... sou Diego...

Mas ninguém me ouviu, e fui jogado até uma cadeira onde libertaram minhas algemas. Me debrucei sobre a mesa, a cabeça já doendo com o tanto de sensações estranhas que eu sentia naquele local.

Está acontecendo de novo.

Por que eu sentia isso? Essa sensação tão familiar? Esse sentimento de que algo realmente estava se repetindo?

Drei! — gritou alguém, e me virei no exato instante em que aquela garota loura do colégio se jogava na cadeira ao meu lado, me puxando para um abraço rápido e impaciente. — Você tá vivo! Você voltou! Senti tantas saudades...

Eu queria dizer que não era eu, queria dizer que eu não entendia nada daquela situação, mas a garota começou a chorar e me abraçar, e logo em seguida mais pessoas chegaram, deixando minha visão turva e confusa conforme eu tentava dizer que não era eu e tentava me afastar deles e tentava e tentava e não dava certo.

Está acontecendo de novo.

— E-eu preciso de um ar... — murmurei, me afastando das milhares de mãos que me tocavam. — Por favor... preciso de um ar....

Me afastei mais, deixando a salinha de polícia e marchando pelos corredores. Policiais passavam por mim, outras pessoas, muitas inclusive gritando e sussurrando aquele nome. Andrei.... onde ele estava? Por que estava me fazendo passar por aquilo?

Eu quase não aguentava de enxaqueca quando me apoiei num corrimão, descendo as escadas para o mundo lá fora. Não notei quando um carro veio em minha direção, ofuscando minha visão e fazendo algo estranho ocorrer com o mundo ao meu redor.

Então eu parei. Fiquei apenas parado, vendo o dia que tinha se tornado noite repentinamente. As pessoas corriam de um lado para o outro, faixas de polícia marcando o território onde meu corpo jazia. Alguém gritava.

— Você não pode fugir desse ciclo — disse, por fim, uma voz grave atrás de mim. — Escolheu isso para si enquanto tentava evitar o inevitável.

Observei meu corpo inerte por mais uns instantes antes de me virar para a voz. Era um homem, utilizando um terno preto. Estava parado há poucos metros de distância de mim.

— Eu preciso concertar isso — eu afirmei, cerrando os punhos. — Não posso morrer no nome dele. Não posso morrer como o Andrei.

O homem arqueou a testa, me observando com seriedade.

— Tem certeza?

Confirmei com a cabeça. Eu não me importava com o fato de que não havia entendido a lição, não me importava com o fato de que ele permitiria aquilo apenas para que eu entendesse que não havia volta.

Eu apenas aceitei.

E então, quando o dia finalmente voltou a ser claro e as notícias de DESAPARECIDO se concretizaram novamente, eu puxei meu celular do bolso e digitei uma mensagem para o meu próprio número. Não sabia se daria certo, se eu receberia, mas precisava ao menos tentar.

Olá, Diego. Eu tenho as respostas de que precisa. Podemos nos encontrar? É importante.

Respirei fundo, nervoso, e caminhei para o mesmo lugar onde havia visto Andrei pela primeira e última vez.

Talvez eu estivesse cometendo um erro. Sabia disso, sabia que talvez entrasse em um ciclo do qual eu jamais escaparia. Talvez aquele homem tivesse razão.

Talvez.

FIM

12 de Junho de 2021 às 21:32 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Mia Rossi Olá. ✨ se chegou até aqui, bem, fico muito feliz. Acabei de cair de paraquedas nesta plataforma e não entendo nadinha, mas, se é um universo sobre escrita, então eu com certeza estou dentro. Espero que possa encontrar meu lugar aqui. Até logo...

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