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Ótimo — resmungou baixinho uma Cecília encolhida sob a marquise do prédio de vidro.

Ela suspirou, enfim aceitando que havia esquecido o guarda-chuva, justo no dia em que o jornal errara a previsão do tempo. Nada de sol, apenas um temporal violento que tomava o horizonte e ameaçava engoli-la da cabeça aos pés. Um borrão de transeuntes com suas próprias proteções sobre a cabeça, num vai e vem constante e interminável, ocupava o segundo plano.

Cecília desejou poder se teletransportar de volta para seu apartamento, onde Peixe estaria lhe esperando, enrolado sobre o sofá. Mas enquanto não ganhasse superpoderes, ela estava presa no meio da Avenida Paulista, em uma quinta-feira à tarde. Sem guarda-chuva. Talvez se corresse, conseguisse chegar ao Metrô, mas estaria superlotado, pensou antes de estremecer com um calafrio. Não podia continuar ao relento, parada e esperando. Mas também não havia onde ficar por, pelo que ela presumiu durar, horas. Trocando o peso de perna, Cecília parou de morder a unha enquanto o entendimento se assentava. Não longe dali, talvez algumas centenas de metros, havia o Misto e Café, onde ela poderia ficar quantas horas quisesse, contanto que consumisse. Não que fosse muito diferente dos outros lugares, mas ela gostava do Misto e Café. Era aconchegante, embora tão vazio quanto uma cafeteria excêntrica no centro de São Paulo: ou seja, nem um pouco, mas perto da estação, o que era um trunfo valioso.

Cecília fechou os braços ao redor de si. O vento gélido empurrava as gotas finas de chuva em sua direção e sua bota já estava quase encharcada para continuar parada ali. Era ir ou ir. Tirou o casaco cinza e o esticou sobre a cabeça. Então, assim que a corrida de pedestres cessou, ela deu o primeiro para fora da marquise. A chuva atingiu ela com mais força do que esperava, e não demorou para que o casaco pesasse. Ela sentia cada gota de água em sua pele, e piscava rapidamente para afastá-las dos olhos. Em alguns segundos, Cecília já estava na faixa de pedestre e em mais poucos minutos, sob a cobertura do café, tremendo de frio, e ensopada em lugares que ela mesma não tinha certeza. Olhando pela grande vidraça retangular e embaçada da frente, ela sentiu alívio ao ver que não estava tão lotado quanto esperava. E, por mais que o barulho da cidade a despertasse normalmente, ela desejou ouvi-lo em outro momento – quando estivesse seca, de preferência. Inquieta para que a chuva se reduzisse a ser apenas um som, Cecília se descobriu e balançou, meio apertou o casaco. Depois de passar rapidamente as mãos pelos cabelos e pelo rosto, ela empurrou a porta.

Diferente do que as pessoas pensavam, nem todos os cafés chiques tinham sinos sobre as portas, e o Misto e Café não era diferente. Contudo, diferente dos outros cafés, eles tinham uma atmosfera única, que quase se assemelhava a entrar em outro plano da realidade. Em um minuto, a chuva havia ficado do lado de fora, atrás das portas duplas, e se ela não estivesse molhada, poderia jurar que nem sequer saíra dali. E poderia também ficar por horas ali dentro, sem se importar com o que acontecia do lado de fora.

Mas, quando um trovão retumbou do lado de fora, fazendo seu corpo pular no lugar e seu coração contra o peito, Cecília sabia que iria ficar horas no café.

As paredes marrom-claras se estendiam até o fundo, onde um grande balcão branco ficava, com lousas e painéis de LED de menus e prateleiras de produtos atrás, na única de tom mais escuro. Até lá, havia dezenas de mesas dispostas de cada lado, margeando o corredor que dava nos fundos, para as mesas e sofás. Infelizmente, para sua sorte – ou azar –, dizer que o Misto e Café não estava lotado significava dizer que todas as mesas estavam cheias, mas que não havia uma fila de espera pela próxima a desocupar. E mais ainda para seu azar, todos ali pareciam ter a mesma ideia que ela: se refugiar no estabelecimento até a chuva passar.

Conforme a agitação ia passando, Cecília sentia o frio se instalando por dentro, sob a pele, do tipo que precisaria de algo diferente de um casaco. Andando pelo corredor central, ela ia alternando o olhar com o canto dos olhos entre as mesas, procurando algum lugar livre, ou perto de ser desocupado. Ela arregalou os olhos levemente e uma gota de esperança borbulhou quando viu que uma das mesas mais escondidas ao fundo, perto da parede, tinha uma cadeira livre e nem sequer continuou olhando para ver quem era a pessoa com quem teria de compartilhar a mesa. Ela se apressou logo até o balcão, e parou em frente ao caixa.

— Boa tarde, — cumprimentou o garoto atrás da máquina. — O que vai ser?

Cecília olhou de relance para o menu atrás dele. Ela não tinha certeza do que queria, mas também não tinha muito tempo até que outra pessoa entrasse e reivindicasse o assento.

— Um café com leite, — disse e acrescentou com um sorriso fraco, — mais café do que leite, por favor. — O garoto rabiscou algo num papel.

— Algo mais?

— Por enquanto, não. — Ele lhe entregou um retângulo de madeira decorado em branco. A comanda.

— Nome?

— Cecília, — respondeu antes de virar-se e encontrar a mesa de novo.

Com passos não tão curtos, ela parou ao lado, tirando um segundo para olhar para o homem sentado à esquerda. Cabelos pretos. Ele ainda não tinha notado a presença dela. — Com licença, — ele virou a cabeça e ela deu de cara com dois olhos verdes. Cecília sentiu o nó se formando em sua mente, embaralhando as palavras. — Essa cadeira está ocupada? — Ela se sentiu como se tivesse novamente quinze anos.

— Não, pode pegar. — A voz dele também era bonita, e Cecília logo ponderou se não estaria encontrando um temporal no café também.

— Na verdade, queria saber se podemos dividir a mesa, — esclareceu. — Não irei incomodá-lo, só quero esperar a chuva passar.

Ele piscou algumas vezes para ela, que se segurava para não desviar o próprio olhar para qualquer outro ponto. Seus ombros caíram, antecipando a derrota que ela sabia estar vindo quando a boca dele se abriu.

— Claro.

Era agora Cecília quem piscava sem reação, antes de se recompor e tomar o lugar à frente dele.

— Obrigada.

Um silêncio assentou-se como um edifício entre eles, ou talvez não, e ela estivesse começando a se arrepender de ter escolhido logo aquele lugar para esperar. Ela estava no coração de São Paulo, deveria haver outros cafés parecidos, e ela só não tinha encontrado ainda. Outros onde ela não teria que dividir a mesa com alguém que continuava puxando seu olhar. Cecília poderia dizer que era a curiosidade pelo livro que arrastava seus olhos de volta, e não ele, mas seria mentira de qualquer forma. No entanto, mesmo assim ela dizia para si mesma que era pelo livro. Então toda vez ela desviava para a capa, tentando pegar um lampejo do nome.

Por que o café estava demorando tanto?

Ela cruzou os braços sobre o peito, tentando se manter aquecida. Mas os calafrios continuavam percorrendo sua coluna, e ela quase saltou da cadeira quando ouviu seu nome sendo chamado pelo garoto do balcão, feliz por uma chance de sair de perto daquela presença que a circulava como gavinhas parasitas.

Ela agradeceu e voltou para a mesa, apoiando o pires. Do outro lado, a no máximo um metro de distância, Cecília viu quando ele desviou os olhos da página para a xícara, dando uma risada baixinha para si mesmo, e franziu o rosto.

— Ei! Por que está rindo do meu café? — Ela falou, não brava, mas curiosa.

— Não estou rindo, — retrucou, com um sorriso de canto, e sem desviar o rosto do livro dessa vez.

Mas que...

— Estava, sim. O que tem de errado com café com leite? — Ela fechou os dedos em torno da xícara quente, sentindo suas mãos voltando à temperatura normal.

— Nada, — ele fechou o livro, deixando-o de canto. Cecília não olhou para a capa para saber o nome, nem mesmo desviou o rosto dele. — Mas desde que sentou, está tremendo de frio, e pediu um café com leite, né.

— Sim, e daí?

— Não vai esquentar.

Cecília quase quis perguntar o que iria, então, mas mordeu a língua, apertando a mão em torno da cerâmica. Ela deu um gole longo na bebida, e se segurou para não deixar a decepção mostrar em seu rosto por perceber que realmente, não estava quente e que ainda sentia frio.

— Viu? Estava quente, — mentiu. Mas ele não precisava saber disso. Embora vê-lo arquear a sobrancelha esquerda lhe dizia que ele sabia. Ela pousou a xícara de novo no pires.

— Não, não está, — retrucou e ela se viu por vencida. Por outro lado, ela ficou aliviada em ver o silêncio desagradável e rígido se dissipando.

— É, não está, não. — Ele riu suavemente e estendeu a mão.

— Daniel.

— Cecília, — respondeu, aceitando a mão e balançando levemente. Era bom dar um nome à figura.

— Então, por que estava na chuva? — Daniel perguntou, e ela fez uma careta, instintivamente passando os dedos pelos fios ondulados e castanhos embaraçados.

— Estava tão óbvio assim? Esqueci meu guarda-chuva, achei que ia fazer sol, mas claramente estava errada, — Cecília explicou, olhando de relance para a tempestade que se desenrolava como o roteiro de um filme do outro lado das quatro paredes.

— Eu mesmo esqueci o meu, mas por sorte estava aqui em frente mesmo, e tô aqui desde que começou a chover, né.

— Então está se escondendo, também?

— Não estou me escondendo, estou apenas, — ele gesticulou vagamente no ar, procurando uma palavra que soasse melhor. — Esperando.

Cecília riu, se esquecendo do café com leite, agora mais frio do que morno.

— Ah sim, acredito. — Zombou, e quando a conversa ameaçou terminar, ela percebeu que não queria dar fim ainda a ela. — Que horas são agora? — Também tinha esquecido o relógio, e era possível que seu celular estivesse descarregando.

— Quinze pras cinco, — respondeu, um pouco rápido demais.

Ela franziu o rosto. — O metrô deve estar lotado, ainda mais com a chuva.

— Acho que está presa aqui, então.

— Também vai pegar o metrô? — Ele assentiu, e ela continuou, — qual linha?

— Verde, é a mais perto, né. — Um trovão rompeu o som, e um raio clareou o céu. — Pelo visto, vamos ficar aqui.

Cecília suspirou. O que não daria para ter escolhido ficar em casa. Ela estava começando a ficar preocupada com seu gato, Peixe, que chiava para qualquer um que se aproximasse, mas que também tinha medo de tempestades como aquela.

— Quanto tempo acha que vai ficar assim? — O gato devia estar encolhido debaixo de alguma mesa àquela hora. Daniel pareceu ponderar.

— Mais umas duas horas, talvez, né? Difícil dizer, mas não parece que vai parar tão cedo, não. — Ela estremeceu mais uma vez de frio, e baixou o olhar para a bebida há muito esquecida, e que provavelmente estava fria.

— Com licença, — ela levantou a cabeça num sobressalto, mas Daniel não falava com ela, e sim com um dos atendentes que passava por ali, com um bloquinho em mãos. — Dois expressos e uma cesta de pão-de-queijo, por favor, — pediu antes que ela pudesse protestar.

Ele voltou a olhar para uma Cecília com a cara fechada.

— O que? Já é a quinta vez que você treme desde que sentou, além disso, estou com fome, — respondeu, dando de ombros.

E enquanto esperavam pela comida, Daniel e Cecília conversavam de tudo – e mais um pouco –, evitando que a conversa caísse na monotonia. Como ela havia ido parar na Paulista? Ela trabalhava ali. Que coincidência, porque ele também. Que número? 874. Ele, do outro lado da rua, no 645, e em quase sete anos, nenhum deles havia cruzado caminhos até então. Podia parecer até destino, daqueles que a gente vê sem seriado de televisão. Pode, mesmo, né. O café e o pão-de-queijo chegaram, finalmente, quentinhos. Agora Cecília podia pendurar o casaco úmido na cadeira, e fazer companhia ao livro esquecido.

Daniel perguntava, Cecília respondia. Cecília perguntava, Daniel respondia.

Eles riam e zombavam como se fossem dois conhecidos de velha data, cujos caminhos se cruzaram em um dia qualquer de chuva. Mas São Paulo podia ser assim mesmo, nem quilômetros deixavam de fazer parecer que a cidade era uma cidade pequena, e bastava somente um café para interligá-los e fazê-los esquecer da chuva, e do relógio, e dos compromissos.

Cecília deu o último gole no café, virando a cabeça para trás, e segurando a risada para não espirrar tudo.

A sensação de alívio e harmonia era quase anestésica dentro da brisa do silêncio.

Mas como São Paulo era São Paulo, tudo se movia, tudo ia e tudo passava, como o temporal.

— Acho que a chuva parou, né? – Disse, mais uma afirmação do que uma pergunta. Daniel assentiu. E Cecília se sentiu um pouco mal por precisar ir embora. — Bom, preciso ir embora, Peixe deve ter feito um caos.

— Acho que vou indo também, mas em vez de Peixe, tenho o Thor. — Eles riram. — Vai pegar a Brigadeiro, mesmo?

— Vou, tá aqui do lado, né.

— Vamos juntos então.

Cecília ponderou por um momento. Era só um trem, e a conversa não precisava acabar ali. Ela concordou, e depois de dividirem a conta, eles saíram pela porta, parando sob o toldo para encarar as gotas do chuvisco que havia restado. Tirando o próprio casaco, Daniel segurou-o estendido sobre eles, dando de ombros quando ela ergueu uma sobrancelha para ele, embora um sorriso brincasse no canto de seus lábios, os quais Cecília se pegou encarando um segundo depois.

— É maior.

Dando um passo para além da cobertura, eles se encolheram e correram até a porta da estação, até a porta do trem. E ele nem mesmo percebeu que um sorriso similar, mais aberto, havia coberto seus próprios lábios.

Era quinta-feira, e parara de chover.

9 de Junho de 2021 às 00:37 8 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

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Gustavo Machado Gustavo Machado
Terá continuação?
June 15, 2021, 22:03

  • Ana Ferreira Ana Ferreira
    naoo, infelizmente não planejei nenhuma continuação :( June 20, 2021, 03:16
Gustavo Machado Gustavo Machado
Achei legal a forma como contextualizou a chuva em toda a história. Parabéns!
June 15, 2021, 22:03

  • Ana Ferreira Ana Ferreira
    obrigada!! :) seu comentário foi muito importante msm pra mim June 20, 2021, 03:16
Gustavo Machado Gustavo Machado
O gato chama-se "Peixe"? Legal kkkk
June 15, 2021, 22:01

Gustavo Machado Gustavo Machado
Haja chuva hehe
June 15, 2021, 21:57

  • Ana Ferreira Ana Ferreira
    hahahah sim, mas são paulo as vezes é isso mesmo, começa que não para e quando vc acha que parou, só tá pegando fôlego pra continuar June 20, 2021, 03:15
~