u16228522741622852274 Déborah S. Carvalho

ATENÇÃO: CONTÉM GATILHOS (DEPRESSÃO , VIOLÊNCIA E SUICÍDIO) Eu sou o cara comum. O homem das 9 às 5. O Sr. Rotina. Um dia, fui correr no parque, e aí... ela apareceu. Tinha um rosto de boneca, uns olhos perdidos e um sorriso que não era. Ela disse com toda a honestidade: "Quero morrer". Quando dei por mim, estávamos correndo juntos, todos os dias. O tipo de corrida que nos afeta de longe quando acontece com gente de longe, mas que nos atropela e nos quebra em mil pedaços quando acontece com quem a gente ama.


Romance Romance adulto jovem Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#boymeetsgirl #amor #psicológico #depressão #drama
5
1.1mil VISUALIZAÇÕES
Em progresso - Novo capítulo Toda semana
tempo de leitura
AA Compartilhar

Senhor Rotina: Conhecendo a Garota Mistério

1


Hoje acordei com os pés suados. Mal abria os olhos e já os sentia pegajosos, gelando, capturando o frio da manhã. Num movimento a muito tornado uma segunda natureza, chuto a coberta para o mais longe possível do corpo e, ao deparar-me com os pés enroscados nela, atino para o motivo do suor.


Dormi de pés cobertos. Odeio quando isso acontece.


Nunca tentei descobrir significados profundos em tal hábito, no entanto, permanece o fato de que para que eu tenha uma boa noite de sono é necessário que os pés durmam do lado de fora do cobertor. Primeiramente, não consigo dormir em amarras. Pés cobertos só vão até onde o tecido da coberta permite. Qualquer movimento noturno envolve os pés em algum momento, e já me foi dito que eu remexo muito durante o sono. Uma vez, um amigo declarou que eu posso lutar kung fu enquanto durmo, mas isso não passa de típica hipérbole da época infantil.


Termino as primeiríssimas atividades da manhã com preguiçosos alongamentos. Tem sensação melhor do que ouvir o corpo inteiro estalando para todos os lados? É como tirar a ferrugem do sono de forma instantânea. Melhor ainda é ver o sol pela fresta da janela e constar que é bem cedo. Rosa, azul, cinza, algum amarelo... Cor de início de dia, como se o próprio céu estivesse com a coberta enrolada nos pés, teimando para não acordar numa hora dessas.


Acordar e levantar é só a primeira parte da batalha, que vai terminar com uma corrida no parque logo, logo. A hora do café, essa sim, é decisiva. Nossa cafeteira, aliás, já está vivendo de hora extra, como costuma dizer meu pai. Parece mais uma velha senhora, cansada da vida e com problemas de pulmão, de tão vagarosa e barulhenta. É tão antiga que eu nem lembro quando a compramos. Sei que um dia ela estava lá, no lugar de outra ainda mais usada. Toda santa manhã a cafeteira prepara nosso precioso elixir. Ponho a água, o pó, aperto o botão desbotado de “ligar”, e rapidamente sou cumprimentado pelo resfolegar cansado da anciã. Tenho para mim que a coitada pifa ainda esse ano. É um jogo de espera. Sei que minha mãe só vai comprar outra quando a atual der o último suspiro.


2


_ Bom dia, seu Agnaldo.

_ Bom dia, Bolt.


Seu Agnaldo, o porteiro do prédio, já está conosco faz um tempo. Até hoje, existem três coisas fundamentais que aprendi sobre o homem nesses encontros diários e velozes.


Número um: Seu Agnaldo fala muito das filhas. Muito. Entre as trigêmeas e as reclamações decorrentes das notícias de seu onipresente jornal, não sobra muita coisa em seu repertório de conversas. Nunca parei exatamente para bater um papo com ele, exceto no dia em que o elevador quebrou e eu não tive coragem nem amor para me fazer subir quatorze andares. Naquela ocasião, descobri a existência das trigêmeas e o nível de superproteção que seu Agnaldo estava sempre disposto a galgar.


Número dois: Seu Agnaldo tem um olho de vidro. Não entendo este fato como fundamentalmente relevante, mas está aí.


Número três: Seu Agnaldo nasceu incapacitado para os nomes. Ele nunca lembra o nome de nenhum morador do prédio ou visitas frequentes, sempre se dirigindo à maioria deles por pronomes de tratamento. No caso específico dos moradores, ele vai substituindo nomes pelos números dos apartamentos.


_ Ah, a menina do 102 perguntou que horas você estaria em casa, Bolt. _ Foi o recado passado uma semana dessas. Honestamente, acho incrível esse sistema dele. Mais honestamente ainda, até me sinto especial pelo apelido. Pouquíssimos aqui no prédio têm um. De fato, não venho da Jamaica, não sou atleta de nível olímpico, nunca nem ganhei um concurso de soletração na escola.


Mal abro o portão do prédio, ponho-me a correr. Eis a beleza das manhãs de sábado: ruas virtualmente vazias, facilitando o caminho até o parque, lugar onde boa parte dos seus frequentadores se exercita. Eu nunca tive um método para fazer algo tão simples quanto correr por aí, por isso já começo assim que saio de casa. No primeiro trote, sinto um aperto no peito do pé direito. Dou de ombros. Afinal de contas, eu sou corredor, eu sou Bolt.


3


Algumas pessoas dizem que sou teimoso feito uma mula. É claro que eu vou discordar delas para sempre, mas a verdade é que se eu tivesse parado na primeira volta, eu não estaria com tanta dor!


Com a camisa grudada no peito e o suor escorrendo em gotas espessas salgando os supercílios e os olhos, sinto que é hora de amaldiçoar meu momento de bravura olímpica tão ridiculamente inspirado. Derrotado, vou para o chão. Tudo o que eu preciso agora é esquecer a corrida e arrancar o maldito tênis. Lá vou eu, afrouxando o cadarço sem muito sucesso, pois o calçado está tão apertado quanto minha paciência.


_ Darwin estava certo. Cruzes!


Eu acho interessante como o universo parece sempre conspirar a nosso desfavor em dadas ocasiões. Numa corrida de sábado atípica, neste parque quase vazio, apareceu alguém para assistir de camarote minha risível performance.


_ Deixa eu te ajudar!


De onde brotou esta criatura? Há quanto tempo ela está atrás de mim? Será que ela chegou primeiro e eu não vi? Observo ela manusear os cadarços dos tênis, com paciência. Ela tem mãos rápidas e precisas. Mal comecei a notar a luz do sol refletindo sobre uma curva particular de cacho de cabelo castanho, sinto o pé desalojando-se daquilo que, por hoje, vou chamar de armadilha mortal. Livre, enfim! Meu pé está inchado, rosa, e latejando.


_ Será algum nervo? _ indago. Nunca entendi nada dessas coisas. Apenas sei que os leigos da anatomia e ciências afins falam “nervo” toda vez que não sabem a causa de uma dor desta natureza. Eu sou o rei dos leigos.


_ Tem a ver com a circulação. Você deve estar sofrendo algum estresse ou possui um estilo de vida nada saudável. _ Anuncia a boa samaritana de forma robótica.


Circulação? Sempre achei que os problemas nesse departamento fossem exclusivos do pessoal que morava na casa dos quarenta ou nos números superiores. Eu nem fiz trinta ainda. Talvez minha usual falta de disposição no espírito esteja me envelhecendo antes da hora. Por um instante, considero aumentar o número de flexões diárias e largar a cerveja. A ideia se dissipa da mente como nuvem, em velocidade constrangedoramente espetacular.


_ Você passou por este trecho umas três vezes. Deveria ter parado na primeira _ ela diz. Concordo, e já tenho minha resposta. Ela realmente chegou aqui antes.


_ Só tenho boas ideias depois das emergências _ afirmo bravamente massageando os dedos dos pés, concentrando meus esforços naquela vala entre o dedão e o seguinte.


Claramente não sei o que estou fazendo e, pela cara da boa samaritana, já posso largar a esperança de que ela não descubra. Ela rola seus olhos castanhos e suspira cansada, como se tivesse corrido as quase quatro voltas em meu lugar. De repente, vejo as mesmas mãozinhas rápidas trabalhando de novo, agora sem a barreira do calçado.


_ Você é profissional?


_ Li sobre essa massagem em algum lugar.


Sua resposta é simultaneamente concisa e evasiva, extremamente insatisfatória.


_ Então, você é um desses tipos de gênio? Eu jamais aprenderia algo assim só de ler.


_ Eu li mais de uma vez.


Não considero esse novo fato como causa provável de tal habilidade, mas não replico.


_ Terminei _ anunciou tão inesperadamente quanto havia começado a massagear.


A dor diminuiu um pouco, porém o pé continua vermelho e volumoso, portanto calçar o tênis e ir embora não será a ideia mais brilhante, especialmente com meu histórico de péssimas decisões da manhã.


_ Você precisa colocar os pés para cima _ ela aconselha _ O ideal seria uns travesseiros duros, mas...


Reticente, ela segura meu pé dolorido e o deposita sobre uma interessante construção, cujo alicerce é o meu próprio par de tênis sustentando o que aparenta ser o livro mais grosso que já vi ao vivo. Só com isso é possível desfrutar de uma onda de alívio.


Ela vai parar do meu lado, imitando a minha posição - antebraços ancorados na grama e o rosto levemente inclinado em direção ao sol. Percebo que os cachos são mais compridos do que havia pensado ao vê-los jogados por sobre a camisa velha de banda de rock. Além do tecido preto surrado e do logotipo da banda parcialmente descascado, fica perceptível que a roupa é alguns números menor, subindo acima do umbigo, alargando a faixa branca do abdômen e tomando distância de uma calça folgada de tecido com cara de pijama. O rosto absurdamente pálido, marcado de olheiras profundas, denuncia uma beleza escondida. Moça feliz essa que não liga para as aparências. Provavelmente é isso que estou achando bonito nela. Infelizmente, pressinto que essa beleza está incompleta, como um quebra-cabeça sem a última peça. O que falta? Ainda desconheço...


_ Ei, não tem problema eu pisar no seu livro?


Livro preto enorme de aspecto medieval.


_ Relaxa! Já decorei todos os rituais satânicos descritos nele.


O tom de voz é de alguém que afirmou que vai chover mais tarde, mas o conteúdo é absurdo demais para ser tão verídico. Lacônica, irônica... Ela tem senso de humor, mas não o rosto de alguém que acabou de contar uma boa piada.


_ Se você não me rogar uma praga por ter pisado no seu livro, acho que vou ficar bem.


Fico esperando que ela esboce uma reação. Os olhos se encolheram num quase piscar, fisgados pelo anzol do meu humor igualmente sarcástico. Para meu azar, não passou disso. O que seria uma conversa morreu minutos após o nascimento; o silêncio que sobra não é aquele gostoso que paira no ar com suavidade, mas da espécie densa que provoca secura na garganta.


_ Eu já te vi aqui antes _ ela solta, brusca como soluço que sacode o peito.


_ De vez em quando, vejo você passar.


Como é que eu nunca te vi aqui antes? Tenho para mim que todas as linhas da minha face se reuniram para denunciar meu embaraço.


_ Não se culpe _ ela tenta harmonizar, ainda que em seu timbre desinteressado _ Eu sou invisível assim mesmo.


Essa menina só abre a boca para dizer coisas estranhas.


_ E tem mais... Como você ia reparar em mim se sempre passa correndo? Para falar a verdade, tenho certa inveja de você. _ Além de abrir a boca para falar coisa com coisa, o simples fato de que ela, de repente, desatou a falar já é um espanto em si. Não pergunto nada. Sei que ela vai elaborar.


_ Correr, sabe, sempre olhando adiante, não se importando com o que fica lá atrás... É sempre bom fugir.


_ Fugir... _ recito, e a palavra rola como uma pedra pesada para fora da língua. Eu começo a suspeitar que ela não esteja falando do esporte “corrida”.


Até então, minhas observações sobre a beleza da moça haviam estado muito na superfície. Eu finalmente entendo o que está faltando em seu rosto de quebra-cabeça. Ela não consegue sorrir. Seu olhar, da mesma forma, é profundo, perdido e desesperançado.


Sem perceber, meus pés suados me conduziram a um verdadeiro campo minado. Algo me diz que essa garota tem sérios problemas. Não que eu seja especialista em ler pessoas. O caso é que a dor, não essa dor de “nervo” ou “circulação”, está estampada no rosto dela. Basta congelar a atenção por um instante e tudo fica brutalmente visível. Ela nem parece fazer questão de esconder; pelo contrário, em algum nível, parece querer mostrar, ainda que cheia de vergonha. Pinte um SOS na testa, menina.


_ Eu corro há muitos anos. Estou correndo agora mesmo. _ Ela diz, de repente – Você não vê, mas, eu corro muito mais do que você.


_ Ah... _ É o meu máximo de coerência, quando uma pergunta chega crepitando em minha cabeça e eu não a passo pelo filtro do bom senso em tempo, o que gera um disparo:


_ O que acontece se você parar de correr?


_ Eu morro.


_ Então, continua correndo – sugiro. Simples, não?


_ Hoje você foi meu parceiro de corrida.


Jurava que essa daí corria solo.


_ Não diga.


_ Talvez, eu tenha energia para correr amanhã por causa de hoje.


O rumo da conversa me carrega até uma nova indagação, e um novo disparo.


_ Você sempre corre acompanhada?


_ Às vezes, sim, às vezes, não. É mais recomendável acompanhada, mas, eu me sinto mal quando meus parceiros de corrida se cansam ou se machucam por minha causa. Nessas horas eu volto a correr sozinha. Não é tão eficaz, mas é melhor assim.


_ Entendo _ Será que entendo, mesmo? Por um lado, sei exatamente do que ela está falando. O verbo “morrer” ficou claríssimo. Por outro lado, é impossível me colocar no lugar dela.


_ É por isso que sento aqui. Se bem que há uns dias atrás os outros atletas sofreram uma lesão muito grave, então acho que vou ter que correr alguns quilômetros a mais para restaurar a ordem natural.


_ A lesão, por acaso, diz respeito a essa faixa no seu pulso?


É óbvio que notei o adorno; azul, vermelho e branco, distribuídos nas indiscutíveis faixas da bandeira da Inglaterra. Havia reparado no momento em que olhara para as roupas. Entretanto, somente agora a bandeira passou a ganhar um significado diverso.


_ Quebrei esse espelho do banheiro de casa e guardei um caquinho comigo de lembrança. Ninguém me viu guardando... Coloquei debaixo do travesseiro, dormi com ele, sonhei com ele. No terceiro dia...


Nem precisou dizer. Já entendi tudo.


_ Você quase interrompeu a corrida. _ Se tivesse sido bem-sucedida em seu intento, nós não estaríamos aqui tendo essa conversa, que já extrapolou os limites da bizarrice. Ela se restringe a acenar positivamente com a cabeça, retraindo os ombros e a espinha. É o máximo de constrangimento que irá pôr para fora. Seu rosto pálido nunca admitiria a entrada de qualquer rubor.


_ Mas, não interrompi! – Ela exclama de um jeitinho bastante infantil, mas bastante sincero _ Já pode baixar o pé.


Coisa fascinante. Nesse papo todo de atletismo, esqueci-me do pé. Ela não demora em pegar o livro e eu me vejo quase hipnotizado com a maneira reverente com a qual ela toca o volume, acariciando a capa preta de couro envelhecido, desprovida de qualquer grafia. Ela senta em posição de lótus, com o livro no colo.


_ Vai me ensinar algum ritual ainda hoje? _ Volto a fazer troça com o máximo de esforço, pois a minha mente, desde agora a pouco, deu a inventar o som de cacos de espelho se espatifando no chão; uma estridência do tipo que dá frio na espinha e peso na boca do estômago.


_ Não posso ensinar, desculpe, pois nunca aprendi. É só uma coisa que sei fazer.


Abro o livro, enfim, e de pronto um enorme girassol faz as saudações. Sempre me considerei uma pessoa sem um pingo de sensibilidade para algo tão complicado quanto a arte, mas lá está ela, flor solitária gerada de traços honestos e sombras melindrosas. Muitas cores pintadas em preto e branco.


_ Uma coisa que você sabe fazer... – ecoo em perplexidade, olhando de canto para a modéstia da artista ao meu lado. Tenho que dizer: essa garota nunca desaponta nas surpresas.


_ Você já desenhou todas as folhas? _ Ela dá de ombros no que interpreto ser um convite à descoberta. O tomo tem mais de mil folhas, sem sombra de dúvida.


A segunda página, também em preto e branco, é completamente diferente da antecessora. Não há flores no meio do maravilhoso caos urbano; prédios, lojas, sinais de trânsito. Um belíssimo retrato do movimento, exceto pelo detalhe de que ela não desenhou sequer um cidadão para dar vida à selva de concreto. Nem mesmo a moto no canto direito inferior de uma rua, claramente correndo no trânsito, tem um condutor em cima.


O terceiro é um retrato do vocalista da mesma banda cujo logotipo adorna sua camisa descascada. Ele possui olhos decididamente bravos, num estilo realista que impressiona. O próximo é de uma senhora frágil, deixando-se levar pela cadeira de balanço em uma varanda um tanto quanto destruída. Um corvo muito negro e brilhante se destaca sobre o telhado da casa. Tenho dúvida se o velho golden retriever, acomodado aos pés da anciã, está mesmo dormindo.


Um bolo vai se formando na minha garganta; apesar da perfeição artística, há algo de substancialmente perturbador nos desenhos. Dou prosseguimento à aventura, já na expectativa de que os desenhos se mostrariam cada vez mais lúgubres e irrequietos. Qual não foi minha surpresa ao te conhecer, página cinco, adornada com um urso panda.


Fitei imediatamente o rosto dela, e posso jurar que os seus lábios se esticaram em direção aos dois cantos da face. Não se trata de um sorriso próprio, mas ao menos ficou claro, rapidamente, que nem todos os desenhos são estranhos, ou, talvez, sejam inadequados em meio aos desenhos fantasmagóricos, dividindo o mesmo livro. Ademais, a variedade é impressionante: objetos, natureza, notas musicais aprisionadas em uma gaiola, crianças pulando corda; tudo de tudo, sempre em preto e branco e o que há entremeios.


Um serviço funerário na página cinquenta me presenteia com um arrepio de pelos da nuca. Não ouso perguntar a história por trás de tal quadro. Uma casinha feita de lego na página setenta. Surreal! Legos são Legos, pois são coloridos. Passar o recado do lego sem as cores demanda uma qualidade estratosférica de talento. Por que alguém tão habilidosa se perdeu entre a corrida e o caquinho? Dói só de tentar entender. Suspiro chateado na página oitenta e três. Ei-lo aqui: o espelho quebrado. Os cacos estão quase todos no lugar, exceto por um que se perdeu e que ela provavelmente achou.


_ É você. _ Ela sorri com as palavras, mas não com o rosto.


Estou boquiaberto com o que veio na próxima página. Há pouco menos de uma hora atrás eu desconhecia sua existência e agora figuro em seu livro de desenhos.


_ Quando...? _ Balbucio. As palavras ainda me escapam.


_ Hoje, ué, embora eu já devesse ter feito há tempos atrás.


Realmente, dá para notar, é de hoje o desenho. Além dos traços simples e impensados, é só reparar a expressão de dor no rosto representado na folha. Um retrato da minha teimosia.


_ Você está triste? – Que pergunta absurda a dela! _ Não é para ficar, não. Correr dói, mas eu sempre aprendo algo novo.


Sei lá se ela está sendo sincera. Algo me diz que ela quer apenas me consolar depois de ter soltado tantas bombas em cima de mim.


_ Você não tem medo? _ A indignação toma conta e as vogais finais se partem no meio. O ardor veio subindo dos pulmões à laringe e eu desafino de raiva. Não é raiva dela, de jeito nenhum! É raiva de seja lá o que a atormenta.


_ Claro que tenho. Não sou um robô. _ Ela esclarece, franzindo o cenho, e inchando os lábios numa pintura de inocência que não está nem aqui nem ali. A contradição entre seus modos e suas palavras, e sua honestidade tão maravilhosamente não elaborada, me acertam com a força de um soco na mandíbula. O nocaute puxa uma gargalhada de mim. Como me conter? Essa menina, além de tudo, é hilária! Os olhos fixados nos meus não entendem a piada. O sorriso ainda é um sonho distante, quiçá impossível. Ela não se importa.


_ Deixa eu te contar uma coisa... _ Lá vem ela deslizando mais para cá, lábios triscando minha orelha, de um jeito conspirador, causa arrepios.


_ A corrida tira tanto de você que, quando chega aquela câimbra... Sabe, aquela câimbra... A dor invade de um jeito tão rápido e violento que o medo sai pela porta dos fundos... Sem o medo... a gente pode fazer qualquer coisa, especialmente desistir da corrida.


Hoje conheci uma suicida em potencial, temerosa da morte. Quais são as chances?


_ Ainda bem que você é uma atleta profissional, não uma iniciante.

Por mais que eu tente consolá-la, tudo soa extremamente mal pensado, mal feito, mal-acabado. Não sei que mérito há em ser a melhor nesse tipo de corrida.


_ Vou desenhar seus pés suados da próxima vez.


Por que passei a me importar tanto com uma estranha? Por que estou me fazendo uma pergunta tão óbvia? É lógico que a resposta está na mórbida corrida. Vai saber quantas pessoas estão por aí “juntando caquinhos” e ninguém se dá conta? Quando eles aparecem nas notas de rodapé do jornal ou nos boatos pelas mesas de bar, nunca passam disso; um amontoado de frases, uns minutos, nada mais do que uns minutos, de conversa; no máximo um minuto de silêncio antes do futebol, e um velório lotado, se o corredor ou corredora tratar-se de uma celebridade. Até que, um dia, por um aparente capricho das estrelas, você ouve um deles se esgoelando bem na sua frente, ainda que seus clamores tenham a forma de desenhos em preto e branco. Só queria ter o poder de fazê-la não desistir.


_ Sabe... Você já assistiu a alguma corrida sem linha de chegada? _ Aos meus ouvidos, parece que verbalizei um pedaço brilhante de retórica. Sei que estou longe disso. De qualquer jeito, não é de retórica o que ela necessita, é? Seus companheiros de corrida usuais, seus amigos e familiares, devem estar cansados de tanto gastarem argumentos com ela.


_ A sua... Todo santo sábado. _ Ela é esperta demais, mas eu também posso ser quando me esforço.


_ Minha linha de chegada é a Padaria San José, onde paro todos os sábados para comer pão doce.


Normalmente as pessoas estranham quando falo do meu ritual. Sempre dizem que não adianta nada correr se eu vou ganhar todas as calorias gastas de volta assim que acaba o exercício. Eu acho que todos estão paranoicos e chatos por causa das malditas calorias. Ela, com seus olhos compreensivos, não só me entende como parece concordar comigo. Já te amo, menina estranha; já te amo.


Por um segundo, cogito convidá-la para dividir um pão doce comigo. Por que não desfrutar do primeiro lugar de todos os sábados em sua companhia? No entanto, o convite morre na garganta antes que eu possa torná-lo real. Minha insistência na corrida, indo na contramão, sobrevive.


_ Viu só? Toda corrida tem sua linha de chegada! _ Não consigo evitar o sorriso preguiçoso de canto de boca quando ela resolve me assaltar com toda a sua ingenuidade.


_ Até a minha? _ Perguntou com uma vozinha subitamente baixa, tímida. O brilho que surge em seus olhos é novo, mas volátil; ainda não conhecia. Tão surpreendente, causa uma onda de estranheza. Dois sentimentos me puxam pelos braços com se eu estivesse no centro de um cabo-de-guerra: admiração e frustração. O que expulsou o brilho dos seus olhos, menina?


_ A sua é apenas a mais longa de todas, mas, tenho certeza que também vai ter uma linha de chegada. Do contrário, não seria uma corrida, seria?


_ Pode ser... _ O livro é fechado com um ruído seco e final. Ela não olha para mim, mas digere o que foi dito, enquanto seu dedo indicador traça círculos lentos na capa de couro.


_ Sério? _ Ela tenta me dissuadir.


Algo tão simples, tão ridiculamente otimista nunca deve ter passado por sua cabeça antes e, na possibilidade de ter passado, provavelmente foi removido cirurgicamente pela morbidez de seus pensamentos.


_ Eu não brincaria com isso. _ Minha resposta a todos os questionamentos é a firmeza. Quero ter fé, por nós dois, de que eu estou certo. Não pode haver espaço para dúvida aqui. E, agora, talvez, eu esteja escorregando um pouco na lama da desonestidade. Como posso garantir uma coisa dessas? Não a conheço direito. Da próxima vez que ela tiver um acesso de tristeza profunda e namorar os cacos do espelho, ela vai sentir que foi traída. Mas violentá-la com o que realmente estou pensando, ou seja, a verdade, tirar dela essa chama de esperança, essa chance de correr mais um dia rumo a uma suposta linha de chegada, não configura uma traição ainda maior? _ Eu não brincaria com isso, Bolt.


Bolt... Juro de pés juntos que o apelido chegou sem pedir licença. Seu Agnaldo, saia da minha cabeça!


_ O homem mais rápido do mundo? _ Ela pergunta com justificável estranheza.


_ Isso porque ele ainda não te conheceu.


Então, como um encanto desfeito, acontece. Um riso mal abafado sacoleja seu frágil esqueleto, e sequestra toda e qualquer reação de mim. Ela congela, tensa da cabeça aos pés, ciente da raridade de tal acontecimento. O fato de tratarmos algo tão banal quanto uma risadinha como um acontecimento já prova que é, de fato, um acontecimento, dos grandes. Eu que, em todo esse tempo, havia gastado palavras e empatia tentando dar qualquer espécie de refúgio para ela e, finalmente, tirei água de pedra sem me dar conta.


Qual foi a última vez, me pergunto, que você sentiu o borbulhar da felicidade no peito, ainda que pelos motivos mais idiotas? Faz muito tempo, imagino, se você até esqueceu o que fazer com isso.


4


Assim como foi mais cedo, eu voltei a cometer erros. Primeiro, esqueci de comer meu pão doce. O segundo erro foi achar que seria capaz de voltar para casa a pé. É lógico que inchou e doeu de novo! A vontade de voltar ao parque e ficar com a moça estranha, com Bolt... Eu nem perguntei o nome dela!


O par de tênis pendurado nos ombros, as meias largadas em uma lixeira há umas ruas atrás, finalmente chego em casa; a fachada do prédio incrivelmente envelhecida, incrivelmente carente de uma boa pintura. Logo noto algo na paisagem que não havia deixado aqui ao sair para a corrida: um carro de polícia e uma modesta multidão formando um círculo em torno de não sei o quê. Já que nunca fui do tipo que para no caminho por qualquer comoção, vou direto para a portaria, e há algo de errado com o Seu Agnaldo. Por algum motivo, ele não dá ares de pronto a jogar apelidos no ar. Creio que a multidão lá fora guarda a resposta deste enigma. Rosto branco de papel, o porteiro informa.


_ Ela se jogou do terraço… Eu... Eu estava... Aqui aproveitando a manhã e... Ela...


Ele aperta os olhos e retrai o corpo como se estivesse ainda agora ouvindo o desconcertante baque do corpo que cai e choca-se contra o asfalto. Espero jamais saber com exatidão como é. Ela caiu... Do terraço de vinte andares. Agora vejo cachos castanhos pegando o vento da queda. A calça de pijama enchendo-se de ar, membros superiores e inferiores finos e de borracha, deixando-se levar ao destino final.


Espera. Seu Agnaldo acabou de dizer que quem se jogou do teto era uma “ela”. A pessoa, ou o que foi uma pessoa, estirada no asfalto é uma “ela”.


_ Era a menina do 102...


Deve ser a primeira vez que vejo Seu Agnaldo triste por não lembrar o nome de alguém. A combinação de “menina” com “102” se converteu em fissura de átomos para me acertar em cheio um soco violento, nuclear, na barriga, que me fez perder o ar. Minha mente torna-se, prontamente, em terra arrasada pela magnitude desta bomba. A menina do 102, aquela do recado de semanas atrás, é uma conhecida, ou, ao menos, suficientemente conhecida. Seu nome é Marjorie e cursamos quase todo o ginásio, juntos. Brincávamos de polícia e ladrão quando crianças, usando as escadas do prédio; com muita energia, subíamos e descíamos por vinte andares sem nunca cansar. Depois do Ensino Médio não nos falávamos muito, é verdade, mas nunca perdemos o contato totalmente. Não o bastante para eu esquecer que Marjorie nunca punha ketchup na pizza, nunca comia os M&M’s amarelos e nunca assistiu Star Wars, não porque não gostasse, apenas devido a uma bizarra falta de oportunidade. Fim de corrida para você, sem direito à linha de chegada. Como podem existir pessoas que facilmente saem do mundo assim?!

É como se a vida tivesse um botão vermelho enorme, escrito “ejetar”.

Seja por meio de cacos ou de trovões, Bolt, não aperte esse botão.

5 de Junho de 2021 às 00:53 4 Denunciar Insira Seguir história
2
Leia o próximo capítulo Sr. Rotina: Chorão

Comente algo

Publique!
Fabiana Souza Fabiana Souza
Lembro de ter lido esse início na versão anterior e ter gostado muito dos diálogos e da personalidade dos dois, mas não lembrava de muitos detalhes. São temas muito sensíveis, mas você trabalhou muito bem! Fiquei curiosa sobre a banda estampada na camiseta. "Diga-me a banda que anda nas suas camisetas e eu te direi quem és", hahahaha! Quero mais, Déborah! Cadê?
June 11, 2021, 04:07

  • Déborah S. Carvalho Déborah S. Carvalho
    Aeh, prima, aprendendo a usar a plataforma e descobrindo agora onde estavam os comentários. O lance da banda é real! xD Tem que vestir a camisa! Obrigada pelo carinho. ^.^ 2 weeks ago
Jhonny Marllon Jhonny Marllon
Capítulo maravilhoso! Estou ansioso pelos próximos.
June 06, 2021, 21:10

~

Você está gostando da leitura?

Ei! Ainda faltam 5 capítulos restantes nesta história.
Para continuar lendo, por favor, faça login ou cadastre-se. É grátis!

Histórias relacionadas