tsvetokkamelii Letícia Silva

Porque Deus criou o homem à sua imagem e semelhança e, assim, eles, os mortais de carne e osso, fizeram. E do pomo da ignorância, da heresia e da ganância surgiu Eva, o primeiro protótipo de máquina perfeita, e, assim como os humanos, ela comeu do fruto do amor, do livre-arbítrio e do pensamento. Tu amaste profundamente, quebrando as barreiras do desconhecido onipresente, porque máquinas também amam.


Conto Todo o público.

#romance #android #poesia #furutista #cego
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Capítulo único

A sua solidão pintada como ouro reflete no espelho, e é a pior de todas, é a solidão no meio da multidão. E ela abraça o desconhecido vazio que mora no peito, vareja as ondas da ignorância e flerta com o rancor. Todavia ela tende a naufragar aquele que sozinho desbrava os mares da perca, da desilusão. A sós naquela mansão que se tornou sua amante, ousou embebedar-se da companhia do vazio. O pobre marinheiro se afogou e não sabe como nadar para a costa, para aquela felicidade simples que sentia no peito e plantava amor e compaixão.

A escuridão, bendita sóis tu, que lhe privou não só da visão, mais do sabor da vida, da doçura de sorrir e sentir-se amado, mas agora, só sobrará migalhas ou tão pouco. E a vida que levara, parecia tão distante que perdeu as forças e parara de nadar outra vez, e o pobre marinheiro definhou. Os membros rígidos e pesados carregavam o tamanho de sua amargura, seu fardo o puxa para baixo, e a sede, e a fome o engole como o moby dick.

Queria gritar sobre a injustiça do mundo, mas até a voz parecia muda. As cores que destacavam outrora sua pele, agora são cinzas manchadas. O pobre marinheiro já não sentia, apenas vivia, mas viver significa sentir, e isso ele não compreendia. Lembrava como se fosse ontem, as sirenes da ambulância a carregar seu corpo semi-morto, o carro, detonado, tal como ele. Pobre homenzinho, que dirigiu embrigado sem temer as consequências. E elas, como mãe, o castigaram, e agora há de viver na escuridão.

Sua mãe, Olga, insistira para ter como assistente uma máquina, um android. Entretanto, miserável como estava, não o poderia, pois, o lembraria de sua incapacidade. Acabou aceitando, a carência da luz sobre a pele a beijar sua macieis, a aragem a acariciar seus cabelos claros e a grama macia a confortar seus pés lhe fazia falta. As coisas simples, não eram tão simples assim e nesse meio aprendeu a amá-las, a desejá-las como um andarilho num deserto deseja por água.

Porém, sua alma quebradiça estava atada naquela casa entre quatro paredes frias que o encarceravam. E por mais que grite frustrado, que quebre os móveis porque está tão cansado psicologicamente que não tem forças para permitir-se levantar todas as manhãs, o passado não mudara seu fluxo, e por mais que feche seus olhos desejando, ansiando que tudo fosse um mero sonho, tu não irás acordar deste pesadelo, até que aprendas a amar a vida do jeito que ela é.

Acorrentado por tais frustrações, se perguntou se este era o preço por todas as suas ações, seu pecado. Mas, desviar o olhar da realidade que enfrenta, é doloroso. Mais doloroso do que ser cumprimentado pelo céu azulado e limpo, pelo chiar dos pássaros a voarem para seus ninhos, o sol a invadir seu quarto e a iluminar sua face e árvores tão majestosas a abraçarem nossas raízes primitivas.

Porque, apesar da escuridão levar o brilho da vida, ela lhe deu os detalhes que nunca teria percebido se jamais tivesse o perdido. Gradualmente, porém, o ódio sucumbiu a beleza das pequenas coisas, e a raiva que quebrava as correntes que o mantinham sã já não existiam, assim como o marinheiro que em revolta grita maldizeres aos ventos.

Que triste caminho seguimos quando nos privamos da vida, de sentir, de tocá-la com a sensibilidade de uma mãe. O piano toca lá embaixo, naquela casa escura e sem vida, sem cor. E tu, curioso, espia a causa dessas notas a subirem para seus ouvidos e o encantar. Uma melodia tão encantadora que beijou sua alma e a enfeitiçou, a convidando para além das estrelas e do finito mundo e constelações. Tão dóceis e amáveis, sorriu em encanto e hipnotizado andejou para perto. E ela parou, tão breve que sentiu uma angústia. Onde estás a delicadeza que fluía de seus ouvidos para sua alma em tempestade? Que acalmas o coração e sussurras belas poesias!

— Gostas? — outra melodia entrara em seus ouvidos, desta vez, uma voz tão angelical que parecia surreal. Mágico. Como criar asas e aprender a voar sobre as nuvens, tocar o arco-íris e viajar até as estrelas.

Assentiu, quase ansioso, desconhecendo esses sentimentos que expulsaram todas as coisas negativas que sentira. O rancor deu espaço a esperança, o ódio a amor, a solidão em felicidade. E por um momento sentiu suas cores voltarem novamente, a vida cinzenta virar uma obra de arte, assim como ela deveria ser.

Assentiu, pois, se falasse, choraria. Choraria de alegria como um menino que ganhara um presente; e o marinheiro que afundava com seu barco em naufrágio, agora vareja para as costas, para à terra de esperanças e sonhos. Sua alma livre canta, canta como os pássaros nas manhãs quentes e voa para seu ninho.

— Dizem que a música é a passagem para a liberdade… — principiou-se — você acredita?

Thomas acreditaria em qualquer coisa agora, porque ele experimentou a vida, viveu e se tornou seu amante, jurou votos de amor e prometeu jamais abandoná-la; e a escuridão de seus olhos fora cego pela luz. Pois, agora ele enxerga a beleza, a virtude do que é ser vivo, mais do que loucuras da juventude e a sabedoria de um idoso, ele, aquele que foi vencido pela amargura, amou cada detalhe da vida, a formosura que ela esconde, a beldade e a simplicidade. Porque é na simplicidade que está as boas coisas.

— Eu acredito em tudo… — e, mesmo cego, ele sabia que ela sorriu. E aquilo valeu mais do que ouro.

Ela, Eva, tão bonita e formosa como a vida, o adotou em seus braços, o amou mesmo que não fosse programada para tal, porque o amor quebra barreiras e a vida não escolhe seus caminhos. E andando de mãos dadas por aquela trilha, nenhuma luz se ocultará de novo, pois seus destinos estavam escritos em estrelas.

— Você quer ver o sol? Está tão lindo lá fora… — e ele não podia recusar, nunca poderia renegar a sensação da luz em seu rosto, a liberdade preencher o peito e permitir voar para além dos horizontes.

Caminharam juntos como deve ser, amor e vida, Thomas e Eva, porque os dois se completam numa harmonia sem igual. Porque vida sem amor não tem sentido, pois, amar é viver sem temer o futuro, as consequências e voar sem medo de cair, pois, se não, de que maneira podemos crescer sem recaídas?

O sol brilhava, como brilhava naquele verão esbelto cujas folhas coloridas de um verde etéreo despencavam no gramado macio que fazia cócegas nos pés desnudos. E o vento assoviava nos seus ouvidos, os pássaros cantavam melodias tão dóceis que, se perguntava como o mundo não parou para ouvir. Porque estamos tão acostumados com as coisas vãs do mundo, que não paramos para apreciar a beleza da natureza.

E uma mão apertou a sua, tão aveludada e frágil que se sentiu amado, protegido. Entrelaçando em seus dedos enxergou a bondade de um anjo, um querubim que diferente de qualquer humano, lhe cedeu compaixão. Porque até mesmo máquinas amam.

17 de Junho de 2021 às 20:53 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

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