atherabeckman Ruana Aretha

Nestes contos você lerá histórias com algumas verdades da vida, podem nos assombrar por vezes, mas quando nos curamos e nos remediamos, podemos enfrentar a mais longa chuva, porque estamos debaixo do mais poderoso guarda-chuva, nós mesmos.


Drama Para maiores de 18 apenas.

#drama #escolar #vida #evoluir
Conto
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Uma bolsista

Este conto é da Julia, uma jovem que na época tinha 23 anos, apreciava os estudos desde cedo, mas ainda queria se encontrar, e no decorrer dos cinco anos da graduação em engenharia florestal decidiu que tinha como sonho ingressar na carreira científica e escolheu fazer um mestrado na área de ciências ambientais, e com muito esforço passou em uma federal da cidade dela. Porém, a mesma não sabia que dias mais sombrios fariam parte de seu trajeto.

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Os dias se emaranhavam enquanto Julia se olhava no espelho, fazia um esforço tremendo todos os dias para se manter no peso com suas dietas malucas e para não passar do seu próprio limite, não era porque ela se limitasse, era porque o corpo dela pedia que fosse assim. Em 2017 havia quebrado o pé, foi bem difícil, ela emagreceu mais de 10 quilos para poder equilibrar o osso e nesses pequenos ossos do pé tinham 6 parafusos e mais uma placa metálica.

O fato aconteceu no último dia do feriado de carnaval do ano de 2017 em um infeliz incidente em casa, ela foi fechar as janelas enquanto chovia bastante, escorregou e fraturou o metatarso, quebrou em três pedaços. Pobre menina, estava tão feliz com a notícia de ter passado no mestrado, pois com a vida difícil e com a mãe que não se importava com a dor no peito que sentia há muito tempo, mas a Julia não se deixava esmorecer.

Mal sabia que sua orientadora era horrenda, pegava muito pesado com tudo, não ligava para o que a Julia sentia, simplesmente talvez fosse melhor que a Julia não existisse, e quando quebrou o pé, foi pior ainda, terá que se esgueirar no campo, no meio do mato para poder construir a sua dissertação, enquanto isso, havia operado há pouco tempo o pé, imaginem qual será a dor de todos os dias, para completar a sombra dos dias, ela ouviu ao longe uma conversa do técnico do laboratório em que trabalhava e de sua orientadora:

-Ela que se vire, não pedi para ela quebrar o pé... — Dizia Fernandes, a orientadora megera.

O técnico saiu cabisbaixo do laboratório, enquanto a Julia se escondia em uma das salas próximas do centro de pesquisa.

-Como os alunos sofrem na mão dessa mulher, e o que podemos fazer se somos apenas míseros técnicos de laboratório... eles nunca saem de cena, há sempre alguém maior que os segura dentro dessa instituição. — O técnico Fábio saiu dizendo isso bem baixinho.

Julia tomava ansiolíticos para lidar com a pressão que a vida a mantinha, era sagrado todas as noites tomar pelo menos duas pílulas para manter a estabilidade e o sorriso no dia seguinte no laboratório. Ela sabia que haviam tantas cobras naquele lugar, era tóxico, o ar em termos psicológicos era pior que Chernobyl, quem pudesse pisar em cima dela, podia pisar, ela não ligava para o que dissessem a ela, era mais uma refém de um sistema onde tinha que servir sem reclamar.

Muitos pensam que ser mestrando ou doutorando, ou pesquisador, e ganhar bolsa da CAPES ou CNPQ , é algo fácil, como se fosse estudar para uma simples prova e passar, pode ser que seja para algumas pessoas. Mas pra grande maioria é como se fosse um vestibular em que o melhor academicamente poderá passar e sofrer mais durante 2 ou 4 anos de suas vidas. Uns tem a vida tranquila no intermédio desses anos, outros sofrem o próprio inferno, são humilhados para terem um mínimo conhecimento, a Julia não teve a sorte que 'uns' tiveram, ela foi como os 'outros', viveu um inferno que precisava colocar no seu coração e trancar nele.

Acreditam que a Julia não tinha a quem dizer ? Pois é, a Julia não podia chorar em casa, se não fosse sozinha, tinha que ser fria consigo, e naquele momento que havia ouvido tal fala sem se importar com a situação dela, foi como se fosse uma bomba em todos os seus membros, não era somente o pé dela e as muletas que sentiam aquilo, era toda a sua alma e seu coração.

Ela não se intimidou com isso, engoliu as lágrimas que não saíram, e começou a delinear o projeto e como seria em campo. Organizou as ferramentas, mesmo mancando e não podendo usar botas, talvez a adrenalina que sentisse fizesse a dor dos ossos serem menor que a dor no coração.

Apesar de que a mãe não ligasse muito para a escolha da filha, a acompanhou em alguns campos, por preocupação, assim como todos que trabalharam incessantemente naqueles dias mesmo com chuva ou ensolarados, pois no meio da floresta ficava insuportável por vezes, era abafado, enfrentavam cobras, aranhas, escorpiões, carrapatos que grudavam em vestes e em seus corpos. Mas nada os impediu de concluir 2 anos de pesquisa.

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Ela teve problemas nas qualificações, como a orientadora havia sugerido a banca, todos eram iguais a ela, reprovou na primeira qualificação devido ao excesso de dados que o projeto havia, então pensavam que a Julia não conseguiria demonstrar o tanto de dados que havia colocado. Mandaram diminuir.

Julia teve uma crise horrenda de ansiedade e misturada com depressão, sofreu e sofreu, em uma dessas crises a mãe a viu chorando, e disse a mãe:

- Penso em desistir de mim. — Julia choramingava em sua cama.

A mãe desferiu golpes com as mãos em Julia e dizia não acreditar em psiquiatras ou psicólogos, e que a melhor psicologia era o que ela fazia naquele momento em Julia. Nos outros dias foram mais ruins ainda, mas a armadura de Julia ia se montando apesar da vida vexatória que tinha.

O mais incrível era que Julia tinha uma torcida implacável , por mais que não visse, na sua última apresentação, haviam tantos participando que tiveram que quase mudar de sala, pois não haviam cadeiras suficientes para ver a apresentação.

Muitos queriam que ela desistisse, a orientadora cansou de dizer:

''Você não é capaz, você não tem conhecimentos suficientes", "você não tem base científica", "o que é você comparado aos outros?"," Você acha que pode ? ", "Porque você ainda tenta depois desses 'nãos'?", "eu sinceramente espero que você não consiga passar ''.

A Julia cansou de ser humilhada publicamente com gritos e até mesmo outras pessoas viram, mas vocês acham que a mesma conseguiu em algum momento a retórica do mundo?. Não houve, mas a Julia conseguiu ultrapassar barreiras pela insistência em um mundo de tristeza que ela não conseguia ver o fim, foram anos agonizantes. No entanto, houve final.

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Hoje a Julia está no doutorado, pode-se dizer que há estresse por vezes mas sem comparação com a desumanidade que viveu. Ela respira ventos leves em um dia ensolarado, com nuvens que já viram muitas chuvas.

A Julia mantém isso na mente nos dias de hoje e repassa sempre a quem puder:

''Somos alunos da vida, do conhecimento de livros e de artigos, precisamos ser humanos para repassar o que sabemos, não precisamos destratar para dizer que o conhecimento nos deixou tolos.''

3 de Junho de 2021 às 16:11 4 Denunciar Insira Seguir história
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Continua…

Conheça o autor

Ruana Aretha Olá!🌻 Tudo bem? Neste perfil você encontrará poesias, contos e histórias com temperos diferentes ( um pouco de drama, um pouco de reflexão, um pouco de romance, a realidade in natura, fantasias, lendas). Agradecida por toda gentileza!

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Arnaldo Zampieri Arnaldo Zampieri
Cara, como é bom te ler! =)
June 04, 2021, 13:47

  • Ruana Aretha Ruana Aretha
    Eu que agradeço por ter tirado um tempinho para ler :) June 04, 2021, 20:26
Emilia Hartmann Emilia Hartmann
Sempre me surpreendendo! Senti tudo ... 💔
June 03, 2021, 21:42

  • Ruana Aretha Ruana Aretha
    Obrigada por ter lido e sentido a história <3 June 04, 2021, 20:28
~