trinymartins Triny Martins

A necessidade nos leva a fazer caminhos sem voltas e perder pouco a pouco a própria essência. Alysson D'Lavin acabou de sair da cadeia e com apenas um objetivo em mente "vingança". Uma equipe de assaltantes, um casamento para interromper, um sequestro e pessoas dispostas a fazer dar errado e ainda ser obrigada a confiar nas mesmas pessoas que querem acabar sua vida.


Ficção adolescente Impróprio para crianças menores de 13 anos.
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001

Nenhuma história deveria ser contada pelos mocinhos, provavelmente eu seja a vilã da história de algumas pessoas, mas também não vou começar contando e buscando milhões de motivos para explicar o porquê de eu fazer tudo o que faço.

Uma vida movimentada por planos e sonhos infundados. Somente isto vem me mantendo de pé.

—Alysson, para de ficar sonhando acordada e levante-se.

Talvez eu ainda tenha algum brilho no olhar e não demore muito para eu acordar mas, no momento, tudo que eu preciso fazer é encarar por mais algumas horas a minha realidade.

—Adam já está pronto!

Claramente eu já havia me habituado com os gritos instantâneos de Madson, dificilmente ela se daria o trabalho de se deslocar de um cômodo para o outro. Isso um dia lhe levará ao sedentarismo...

Me levantei sem a mínima vontade de buscar por onde recomeçar, mesmo que eu tenha passado á noite refletindo sobre o que fazer. Só querer que tudo saia certo, não é o suficiente desta vez.

—Que merda, Madson. -Resmunguei somente na intenção de atrair um pouco da sua atenção.

—Não vou falar outra vez. Até parece que ainda não se acostumou com sua liberdade. -Madson não poderia soar mais direta com suas palavras.

A dificuldade que eles têm em dizer "presa" é encantador, como se todas as pessoas que assimilam meu sobrenome com a dessa família já não soubessem. Bom, boa parte destas pessoas nem mesmo devem saber o porquê tenho este sobrenome.

—A quem eu deveria agradecer? Ao papai? Talvez seja melhor que ele me esqueça como fizeram em todos os anos da minha vida.

—Minha vontade era... Eu não vou me estressar com você, já não é o suficiente ter sua família inteira contra você? Quer isto de mim também?

—Então um ano não foi o suficiente para você? -A voz de David surgiu ao fim do corredor, fazendo com que todo meu corpo tremesse e escolhesse um lugar mais afastado da porta.

Um ano, PRESA, foi mais que o suficiente e ainda assim levarão meses até que cada marca que carrego no meu corpo se apague. Já outras marcas, estas sempre estarão comigo, não dá pra simplesmente apagar. David também não facilitará para que eu as esqueça.

Me pergunto o que é essa tão inalcançável liberdade, tudo que encontro são regras e muros altos suficiente para sufocarem minhas esperanças.

—David, isso não tem nada a ver com você. -Foi o suficiente para que finalmente me desse uns segundos de sua atenção, com um olhar que deixava bem claro que eu nunca teria mais do que isto dele.

•••


Uma sala enorme, com uma mesa com comida o suficiente para que eu não sentisse fome pelas próximas semanas e era bem capaz que mal a tocassem. Como isso pode ser tão injusto? Nem todas frutas e flores do mundo seriam capazes de trazer um ar mais leve a sala, mas ainda assim, Adam, era capaz de carregar um pouco de luz por onde passa até finalmente se sentar ao lado do seu pai. Sempre esbanjando um sorriso e ganhando a atenção de toda a família.

—Bom dia!

Um garoto muito feliz para alguém que será mandado para longe junto com alguém que mal conhece. Nós todos já sabíamos que David não me aceitaria na casa deles, mas querer maquiar tudo, mandando seu filho junto comigo? Adam com certeza não merece isso, deve ser horrível ficar longe das pessoas que amamos.

—Alysson, eu não tenho expectativas em você, só tente não prejudicar o seu irmão. -Mais uma história sendo vista pelo ângulo dos mocinhos. Isso só me fez revirar os olhos e me posicionar ao lado de David.

—Claro, Deus me livre de alguém me ligar a essa família de vocês, vou me manter longe o suficiente para que nunca saibam quem sou eu. Está melhor assim? -O olhar de Adam foi o suficiente para que eu baixasse a guarda e permitisse que David desse continuidade, eu nunca ganharia uma discussão com ele.

—Sim, isto. Acredito que já esteja habituada ao internato, mesmo este sendo diferente. Adam irá com você e lá terá alguns conhecidos da família, não me traga problemas.

Apesar de indireto com suas palavras, eu não seria burra de não saber interpretar e ter a certeza de que ele está torcendo para que desta vez eu suma para bem longe deles.

•••


A viagem até o colégio foi longa e consegui dormir por todo o caminho, também não foi difícil entrar e encontrar nossos dormitórios em uma pequena -para Adam- casa. Conseguir entrar e sair do colégio era minha única preocupação desde o momento em que entrei, já Adam parecia ansioso demais para conhecer todos os seus colegas de quarto.

Não houve muitas apresentações, ao menos não me dei o trabalho de escutar o que diziam. Pathrick Johnson, Giovanni Bitencourt, Lorenzo, Henrique Deryot e Stephanie Mendonça... Estas são as pessoas com quem terei que passar os próximos dias da minha vida e meu meio irmão, Adam D'Lavin.

—Então você já foi presa? -A pergunta de Stephanie não me surpreendeu, nenhum pouco, na verdade ninguém ali pareceu desconhecer esta informação.

Mesmo com a resposta na ponta da língua resolvi a ignorar. Então só segui para o que eu já havia escolhido como o meu quarto, já era este o plano antes mesmo de sair da casa de David. Nunca que ele me faria dividir um quarto com outras pessoas.

—Espera aí, você tem um quarto só para você? É muito injusto! -Stephanie gritou entrando em seguida dentro do quarto, nem mesmo deu tempo de que eu fechasse a porta.

—Eu sinto muito. -O que mais eu poderia dizer?

—Você sabe que pode chegar mais pessoas ao decorrer do ano? -E ela sequer parecia disposta a me dar um tempo em paz.

—Sim, e por essa porta só entrarão pessoas mortas.

—Você está me ameaçando! -Eu nem mesmo tive tempo de entender de onde ela tirou essa conclusão, Stephanie fez questão não só de chorar com também tentou chamar os outros estudantes, coisa que eu não pude deixá-la fazer.

—Garotas mortas também não falam. -Tive que sussurrar para garantir que somente ela me escutasse. Não ganharia nada com isso, ela nem mesmo é meu objetivo, mas não é menos divertido ver ela surtando.

—Você é louca. Eu não vou morar com ela!

Como o que ela já queria antes, gritou e conseguiu atrair a atenção de outras pessoas e foi um alívio quando, ao invés de tentarem entender a situação, a puxaram para bem longe.

Me certifiquei de fechar bem a porta do quarto e me deitei na esperança de conseguir dormir mais um pouquinho mas, antes que até mesmo conseguisse me cobrir, meu celular começou a tocar, me fazendo lembrar que está coisa existia.

—Alô? -Atendi sem conseguir identificar quem estava me ligando sem. Segundos depois uma risada do outro lado da linha entregou quem era. —O que você quer?

—Um sequestro, muito dinheiro envolvido, topa?

Um Sequestro

Nunca fiz algo do tipo, só vi em filmes e a grande maioria da errado no final. Não é como se eu tivesse a opção de recusar também, isso seria como entregar todos os pontos e abrir mão de qualquer coisa que eu acho que posso ter conquistado nos últimos anos.

Quando penso no que me fez ser presa, sei que não foi precisamente por roubar um banco e sim porque só estavam procurando um motivo para que isto acontecesse. Isso tudo porque faço parte de um grupo, quadrilha ou sei lá o que exatamente são, a questão é que eu ainda faço parte dela, mesmo quando achei que já estava tudo acabado.

Outro motivo para não poder recusar é que eu preciso de dinheiro, já que a possibilidade de eu ser rica é totalmente descartada. David é muito rico, sua família inteira é, mas isto nunca incluiu a mim. A um ano atrás até consegui ter uma vida aceitável por um tempo, mesmo que até hoje eu esteja enfiada em dividas e na época tinha somente o suficiente para pagar as contas e comer.

Passei por muita coisa antes que conseguisse entrar para uma equipe e, quando finalmente eu achei que isso poderia me render algum dinheiro, eu fui pega.

Eu ainda não vivi a parte boa de tudo isso, partes estas que Jason e todos os outros desfrutam com felicidade.

—Vai participar ou não?

Um ano e alguns meses atrás eu certamente diria um não, tremeria em nervoso e só aceitaria porque provavelmente não teria muita opção. Já hoje eu tenho a chance de mostrar o quanto tudo mudou e que finalmente vou poder conseguir alguma coisa.

—Só pra saber, antes de confirmar. A quem iremos sequestrar?

—Henrique Deryot. -Meus pensamentos se embaralham em companhia o meu coração parecia estar entrando em colapso. Talvez seja nervoso, ou somente meu corpo sendo tomado pelo sentimento de felicidade.

—Nós temos uma data? -Mesmo torcendo para que não. Isso só é tudo o que eu desejei durante um longo ano.

—Outubro ou novembro.

Sem esperar por mais nada, a ligação foi encerrada por ele, dispensando uma despedida de minha parte.

•••


Passei as últimas horas me questionando como seria um sequestro, o que faríamos, há muito tempo até lá. Me aproximar dele pode ser uma ótima tática ou estragar tudo. Mas, se eu não estragasse tudo, provavelmente não seria eu.

—Eu já perdi tudo que tinha nesta vida, Henrique, não tenho mais nada com que me importar. -A primeira lágrima que caiu deu ênfase as minhas palavras e ver como isto o afetou fez com que eu quisesse continuar a contar minhas meias verdades.

—Calma, você não se torna uma pessoa ruim só porque vacilou uma vez. -Ele disse o tipo de frase pronta que eu já estava esperando dele.

—E você acha que eu posso me tornar uma boa pessoa? -Tive um aceno e um abraço apertado como resposta, o suficiente para ter toda a atenção de Stepheni recaída sobre nós.

E Isto sim poderia ser um problema.

Não encerrei o assunto, voltei para o quarto já tendo a certeza que não demoraria muito para que Stephanie aparecesse ali, já que Henrique é o seu namorado.

Como o esperado, levei um susto ao ver minha porta aberta com força e Stepheni entrar sem pedir licença, com o mesmo olhar de antes, gritando em ódio.

—O que você foi falar prara Henri?

Humilhante seria a palavra?

—Ok, Stephanie, já que não vai me deixar em paz, eu vou ter que te contar. Tenho que sequestrar o Henry e para isto estou tentando ganhar a confiança dele. Não sei o que vão fazer com ele, antes que me pergunte.

E esse se tornou o meu tipo de jogo favorito.

—Não, você é louca. Vou contar tudo pra ele. -Muito devagar. Ela só precisava raciocinar um pouquinho.

—Garotas mortas não falam. -A vi ficar pálida e voltar seu olhar para o meu. Se ela soubesse que eu não mato nem uma mosca...

—Eu te odeio. -Repete isso umas cinco vezes até ser retirada por Henry, parece até algo planejado. Ela faz o escândalo e ele tenta amenizar às coisas, muito repetitivo.

Pude a ouvir contar tudo, inclusive sobre o sequestro, Henri somente a ignorou fazendo-a se calar. E ele ainda voltou e como um pedido de desculpas me oferecendo um sorvete. Mesmo desconfiada, não pude recusar.

(...)

—Vai roubar ele de mim?! O que você quer? -Tive a descrença de que mais uma vez ela havia entrado no meu quarto, sem bater na porta. Olhei umas quinze vezes para ela e para a porta, tentando entender a dificuldade dela em saber o motivo de haver uma porta ali.

—Ste... -Iria começar a falar, e tão rápido meu olhar caiu sobre o celular em sua mão e pude reparar o seu nervosismo com relação ao aparelho. —... eu sinto muito, eu não sei o que eu fiz pra você me odiar tanto assim.

Graças a ela, o meu primeiro dia de paz está se tornando um inferno e monótono demais, ela com atitudes cada vez mais infantis e que um dia ela irá se arrepender muito disso.

—Você me ameaçou! -Apontou o dedo na minha direção, caminhou até mim com passos tão firmes que me achei incapaz de copiar sem tropeçar umas duas vezes.

—Isso nunca aconteceu, Ste. Por que está fazendo isso? -Me assusto com a naturalidade em que às palavras deixam minha boca, se fosse nas aulas de teatro seria o suficiente para conseguir um bom lugar pra descansar. Nunca pensei que usaria as aulas para algo tão sujo.

—Falsa e dissimulada! -Nós duas sabíamos que sim, no entanto, concordar com ela, seria o mesmo que entregar os pontos e não estou nem um pouco disposta a isso.

—Chega Ste, já mostrou para todos que está mentindo. -Inibi qualquer demonstração de surpresa ao ver Henri entrar no quarto acompanhado de outros estudantes. Como alguém pode ser tão previsível? Esse Henri vale tanto assim?

E mesmo longe dos dois foi possível ver o momento em que encerrou uma chamada, o que só me fez confirmar que ela não é nenhum pouco confiável, quase nenhum deles são.

—Eu gostaria de ficar a sós com ela.
-O pedido de Adam foi rapidamente atendido e todos sairam sem protestos. Olhei para ele me esquecendo de todos problemas dos últimos meses, não deveria ser normal alguém passar tanta paz a outra pessoa, não quando essa mesma pessoa te faria iniciar uma guerra por ela. —Você está bem?

—Eu não sei o que eu fiz pra ela.

Na minha cabeça a consciência grita um "você sabe sim", "como ela pode ser tão falsa", mas quem é que se importa mesmo?

—Calma, vai ficar tudo bem.

Ele sabia tão bem quanto eu que às coisas irão piorar mais ainda e boa parte da minha culpa também posso dividir com ele.

Só de pensar que eu poderia não estar vivendo assim, sem ter que passar um dia após o outro planejando o próximo passo enquanto temo que em algum momento eu possa acabar desistindo e ir parar nas ruas.

•••



24 de Maio de 2021 às 22:18 0 Denunciar Insira Seguir história
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