antonio-stegues-batista Antonio Stegues Batista

Depois de expulsar os bárbaros da Gália, o general romano, Graco Vinicius, resolve deixar o exército. Mas antes de voltar para Roma, ele decide pagar uma dívida e se reconciliar com seu passado.


De Época Todo o público.
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Graco e Lídia

ITÁLIA, ANO 307 DC.

Combatendo os bárbaros que haviam invadido províncias romanas na Gália, uma divisão do Exército Romano acabou caindo numa emboscada. Lutando em menor número contra ferozes guerreiros, o general Catulo e seus soldados já se sentiam perdidos quando uma divisão da Legião Dourada, comandada pelo general Graco Vinicius, chegou ao campo de batalha e atacou o inimigo pela retaguarda.

Em desvantagem numérica, os chefes bárbaros ordenaram retirada. Após a luta sangrenta, os romanos ergueram acampamento para tratar dos feridos, sepultar seus mortos e refazer suas energias. Catulo e dois de seus oficiais procuraram Graco em sua tenda para agradecer-lhe e cumprimentá-lo pela vitória.

─ Sem vossa ajuda certamente estaríamos mortos. - disse Catulo.

─ Foi imprudência sua, andar por essa região com tão poucos soldados! − respondeu Graco com veemência.

O centurião Pompeu olhou para Catulo esperando que o general se ofendesse com a censura de Graco, mas Catulo aceitou a repreensão. Continuando numa atitude tranquila, disse: ─ Eu estava a sua procura. Diocleciano e Maxímiano renunciaram e nomearam Constancio Cloro e Galério como soberanos, mas nós queremos que você seja o nosso novo imperador. Tens o apoio das legiões do Norte. Marcharemos para Roma, para anunciar a nomeação.

Graco olhou para Catulo e permaneceu calado.

─ O que foi? Parece-me que não aprovas nossa escolha.

Sentado num banco, Graco ergueu-se, foi até a entrada da tenda e olhou para o terreno abaixo, coberto pelas tendas de seus soldados. Voltou-se.

─ Estou surpreso. Não esperava que fossem me escolher.

Catulo sorriu.

─ És honesto, justo. Tens muitos amigos e admiradores. Embora Constâncio Cloro e Galério tenham o apoio dos nobres, a escolha das legiões do Norte prevalecerá. Os nobres defendem os seus interesses e não o interesse da maioria do povo.

Graco suspirou, voltou a sentar-se e apoiou os cotovelos nos joelhos. ─ Não estou em condições de assumir o Poder, não agora.

─ Porque não agora? Não haverá outra oportunidade, Graco Vinicius! Terás o apoio dos teus amigos e soldados! O império é muito grande para que um homem só possa vencer as barreiras sozinho! Há inimigos por toda parte! Ou você não está de acordo com isso?

─ É claro que sim. Concordo com vosso argumento, porém me sinto cansado, esgotado por tantas batalhas. Preciso de um tempo para descansar. Para assumir o governo da nação, é necessário muito empenho, muita dedicação. Acho que Cícero Calvo seria o homem ideal para assumir o trono e sei que também, ele merece a vossa confiança.

Catulo olhou para os dois companheiros que permaneciam calados.

─ Cícero Calvo?

Pompeu e Alípio não comentaram nada. Pompeu se limitou a erguer os ombros.

Catulo voltou a encarar Graco.

─ É a sua palavra definitiva?

─ Sim.

─ Está certo, então. Falaremos com Cícero.

─ Obrigado de qualquer forma.

Quando eles saíram, o centurião Túlio Gaius, ajudante de ordens e amigo de Graco desde a adolescência, entrou na tenda.

─ Pelo que vi no semblante daqueles três, o senhor não aceitou a proposta deles.

─ O que eu quero é descansar, meu amigo! Sele nossos cavalos, nós vamos a Túsculo visitar meu pai.

Túlio hesitou.

─ A Túsculo? Agora?

─ Sim. Rápido, chame Enéas, vou passar o comando para ele. Quero partir antes que escureça.

Túlio ia dizer mais alguma coisa, mas mudou de ideia e saiu para cumprir a ordem. Cerca de uma hora depois os dois partiram. Quando escureceu, Graco resolveu acampar ao abrigo de uma arvore frondosa à beira de um regato. Quando desceu do cavalo, soltou um gemido e levou a mão ao flanco direito.

─ O que foi? -perguntou Túlio e só então ele percebeu a mancha escura na túnica do general.

Largou as rédeas da sua montaria e foi ajudar Graco.

─ O senhor foi ferido em combate e não disse nada!

─ Era coisa pequena, mas acho que agora inflamou. – sentou-se no chão, encostando-se ao tronco da arvore. Túlio ajudou a despir a túnica.

─ Por Júpiter, Vinicius! O cirurgião poderia ter feito um curativo. E agora, o que posso fazer?

─ Deve haver alguma erva curativa aí no mato, vá procurar.

Túlio entrou na mata e andou algum tempo entre a folhagem até encontrar ervas adequadas que tivessem propriedades medicinais. Depois de fazer o curativo em seu chefe, acendeu uma fogueira e preparou um pão para assar. Comeram o pão com figo seco e beberam água do regato. Graco deitou-se e logo adormeceu. Teve um sono agitado perturbado por pesadelos. Somente depois de algum tempo, quando ele já dormia tranquilo, é que Túlio dispôs-se a dormir.

Graco acordou na manhã seguinte ainda com dor no ferimento. Túlio fez novo curativo.

─ Acho que a espada daquele bárbaro estava embebida em veneno. -disse o general.

─ Essa erva não está fazendo efeito. -afirmou Túlio, apreensivo.

─ Horla está muito longe daqui?

─ Não. Está muito mais perto que Túsculo. Chegaremos pela tarde.

─ Então vamos para lá.

─ Ótimo! Talvez encontremos um bom cirurgião na cidade.

Túlio recolheu seus apetrechos, canecas, facas, o embornal, as mantas, encilhou os animais e depois ajudou Graco a montar.

─ Lembra-se de Lídia Agripa? -perguntou Graco.

─ Sim. A filha do tribuno Otávio Agripa.

Túlio montou e os dois reiniciaram a viagem.

─ Fiquei com raiva por ela ter inventado inverdades sobre a minha conduta. −disse Graco. Eu a conheci há cerca de cinco anos na Praça do Coliseu. Lembro-me como se fosse ontem, alguém nos apresentou, acho que foi Aellus. Eu ainda era centurião.

Graco fez uma pausa com ar pensativo, inclinando-se, apoiou-se na sela. As montarias seguiam a passo lento atravessando um campo em direção à estrada.

─ Foi no começo das festas de setembro, o dia estava agradável e como eu estava de folga, fui dar um passeio com Mario Lupo. A praça estava movimentada, cheia de gente. Encontramos Aellus conversando com uma bela jovem. Era Lídia, filha do falecido tribuno Otavio Agripa. Ela liderava um grupo de jovens simpatizantes dos cristãos que pressionavam os pretores e ao próprio imperador, pedindo liberdade de culto aos cristãos. Aellus é claro, concordava com essa ideia e até aquele dia eu ignorava isso, e tampouco sabia das atividades de Lídia. Depois que nos apresentou, Aellus se retirou em companhia de Mario. Fiquei conversando por longo tempo com ela, falando sobre as festas e sobre nós mesmos. Simpatizamos um com o outro e tudo levava a crer que iniciaríamos um romance. Mas na semana seguinte recebi ordens para debelar um grupo de manifestantes que estava obstruindo a entrada do senado. Fiquei surpreso ao descobrir que Lídia estava entre os manifestantes. Tirei-a dali e levei-a para um lugar reservado onde pudesse conversar com calma. Foi pela atitude de arrogância e rebeldia dela, por não concordar com suas ideias que a repreendi e ameacei prende-la. O que poderia ser uma bela amizade, se tornou em antipatia e aversão. Depois, se por acaso a gente se encontrava, sempre acabávamos discutindo.

****

Adriana estava na cozinha, fazendo o almoço e pela janela avistou Lídia sentada na varanda, pensativa. No pátio, Tíbulo e dois de seus servos construíam um novo curral. Adriana saiu e foi sentar-se ao lado da sobrinha.

─ Tenho notado que desde ontem estás pensativa, preocupada com alguma coisa. O que acontece? Sentes falta de teu pai? Com saudades de Roma?

─ Não, não é isso.

Lídia suspirou, olhando a paisagem. No campo pastavam rebanhos de carneiros. Para além do cercado em frente à propriedade passava a estrada, contornando o bosque e seguindo até a cidade atrás dos montes verdejantes.

─ O que é então?

─ Sonhei com Graco ontem e a imagem dele não me sai do pensamento.

─ Graco Vinicius?

─ Faz tempo que não o vejo e não sei por que ele me aparece em sonhos, e agora não me sai do pensamento.

─ Acha que ele pode aparecer para te prejudicar mais ainda?

─ Não sei minha tia. Não tenho mais nada que ele me possa tirar.

****

Os dois viajantes pararam na margem da estrada para que os cavalos pudessem descansar e pastar. Túlio foi até um regato e encheu uma bilha com água. Deu de beber a Graco e sentou-se ao lado dele.

─ Logo chegaremos a Horla.

─ Quando chegarmos lá, pergunte a alguém onde mora Tíbulo Tarquínio.

─ É parente seu?

─ Não, Tíbulo é marido de Adriana, tia de Lídia.

─ E nós vamos a casa dele?

─ Exato.

─ Acha que é uma boa ideia? Tíbulo poderá se negar a recebê-lo. Pelo que sei o senhor se tornou inimigo da família.

─ Vou te contar o que fiz e verás que eu agi corretamente. O pai de Cláudia havia pedido dinheiro emprestado a um agiota e deu como garantia a casa onde morava. Como ele não conseguiu pagar, o agiota estava disposto a tomar a propriedade. Sem que Cláudia e o pai soubessem, paguei a divida e recebi em troca, o título que Otavio Justo havia assinado. De posse do título, me tornei proprietário da casa. Minha intenção, claro, era devolver a propriedade a Otavio. Ao saber que eu estava de posse do título, Lídia ficou furiosa e quando me encontrou não me deu chances de explicar, foi logo me insultando. Perdi a paciência e resolvi ficar com o documento. Mudei de ideia e alguns dias depois fui procurá-la, mas fiquei sabendo que ela deixou Roma. Naquele mesmo dia recebi a notícia de que Otavio Agripa havia falecido. Daí então tive a certeza de que Lídia nunca poderia me perdoar.

****

─ Não conheço Graco Vinicius pessoalmente. -disse Adriana. ─ Mas pelo que ele fez a teu pai e a ti, mostra que é um homem de mau caráter!

─ Realmente, Graco agiu de má fé. É um bruto, valentão, grosseiro. Para ele as mulheres são seres inferiores, que não tem aptidão para tomar decisões próprias, não tem direito de participar da política, nem exercer cargo publico!

─ Ele te falou isso?

─ Não, mas ficou furioso quando soube que eu participava do movimento em favor dos cristãos. Disse que meu lugar era ficar em casa e cuidar do meu pai.

****

Túlio começou a selar os cavalos enquanto Graco permanecia sentado, pensativo.

─ Se você tem certeza de que a moça não vai perdoá-lo, por que vai lá?

Graco apoiou-se no tronco e ergueu-se. O ferimento tinha parado de sangrar e a dor diminuiu.

─ Eu tinha uma dívida moral com o pai dela. Foi através do apoio de Otavio que consegui o comando da legião Dourada. A forma que achei para pagar esse débito foi quitar a dívida dele. Vou dizer isso para Lídia, se ela não acredita, paciência.

Túlio ajudou o general a montar. ─ Não entendo por que só agora você resolveu fazer isso.

─ Também não sei meu amigo. Talvez porque a morte esteve próxima.

─ E ainda está, se não curar esse ferimento.

****

─ Acho que você deve se distrair com alguma coisa. -disse Adriana. ─ Não quer sair um pouco? Porque não vais visitar tua amiga Ione?

─ Prefiro ficar em casa. Vou trabalhar no tear.

─ Está bem.

Num gesto de carinho, Adriana passou a mão pelos cabelos da sobrinha e entrou na cozinha. Lídia permaneceu sentada no mesmo lugar olhando para a estrada e dali a instantes avistou dois cavaleiros surgirem na curva do caminho.

****

─ Aquela é a quinta de Tíbulo Tarquínio. − disse Túlio para Graco. ─ Tem certeza de quer ir lá?

─ Sim. Preciso falar com Lídia.

─ Para quê? Vocês se detestam!

─ Tenho um peso na consciência, Túlio!

Os dois cavaleiros conduziram as montarias pela trilha que levava à morada de Tíbulo Tarquínio. Tíbulo, que havia avistado os visitantes, dirigiu-se para a varanda e postou-se ao lado da sobrinha. Ao reconhecer Graco, Lídia ergueu-se, surpreendida.

─ Conhece aqueles dois? -perguntou o tio.

─ É Graco Vinicius.

Graco desceu do cavalo e deu as rédeas para Túlio segurar. Com uma mão na ilharga e uma expressão de dor, dirigiu-se para a varanda. Estava subindo a escada quando parou, inclinando-se, retrocedeu deu meia volta e caiu sentado. Túlio saltou do cavalo e correu para ajudá-lo.

─ Ele está ferido.− anunciou.

Tíbulo desceu para ajudar. Os dois homens carregaram Graco para dentro da casa e o ajudaram a deitar-se num divã. Túlio despiu a túnica de Graco e examinou o ferimento.

─ A ferida está inflamada.

─ Como isso aconteceu? - perguntou Tíbulo.

─ Em combate com os bárbaros. - respondeu Túlio colocando a mão na testa de Graco. ─ Ele está com febre. Eu ia levá-lo a um médico na cidade, mas Graco insistiu em vir para cá.

─ Faça um emplastro com malva, figos e óleo. - pediu Tíbulo para Adriana, que observava Graco, ressabiada.

─ Deixe que eu faça isso. -disse Lídia, saindo do seu estado confuso..

****

Quando Graco despertou, estranhou o lugar em que estava. Não era a sua tenda, tampouco o seu dormitório em sua casa em Roma. Ao fazer um movimento para erguer-se, sentiu uma dor do lado direito e foi então que se lembrou do ferimento e da sua chegada à casa de Tíbulo Tarquínio. Sentou-se na beira do leito, pegou a túnica que estava sobre uma cadeira e vestiu-a. Saindo do dormitório encontrou Adriana e Lídia na cozinha. Elas olhavam apreensivas para fora, através da janela.

─ O que está acontecendo? -perguntou. Adriana olhou para ele, carrancuda.

─ Foi para isso que o senhor veio para cá? – disse, num tom ríspido.

Sem esperar resposta ela se retirou a passos largos. Parou, esperando pela sobrinha.

─ Quero falar com ele, minha tia.

A contragosto, Adriana deixou-a e se retirou.

─ Há quanto tempo estou aqui? -indagou Graco. Com uma expressão impassível Lídia respondeu:

─ Há quatro dias. Você poderia ter morrido se não fossem os nossos cuidados.

Na rua soaram relinchos de cavalos e vozes.

O pátio estava tomado por soldados romanos, alguns montados em seus cavalos, outros a pé aguardando ordens. O comandante conversava com Tíbulo. Graco reconheceu-o, era Marco Probo, comandante da legião Falconi. Tíbulo falava fazendo gestos largos e parecia nervoso. Graco voltou-se para Lídia.

─ Onde está Túlio?

─ Partiu há dois dias para Roma.

─ O que esses soldados estão fazendo aqui?

─ Tomar posse de nossas terras. Não foi para isso que veio? − respondeu Lídia com uma expressão de desprezo e deu meia volta para retirar-se, mas Graco segurou-a pelo braço.

─ Por Júpiter! Não sei o que está acontecendo! Não sei o que Marco Probo quer, mas vou procurar saber.

Ele saiu, desceu a escada para o pátio. Aproximou-se de Probo, que discutia com Tíbulo. Ao vê-lo, o general suavizou a expressão, esboçando um sorriso.

─ Salve Graco Vinicius! É uma coincidência encontrá-lo aqui. Eu ia mandar um mensageiro ao seu acampamento em Gália. Pretendo ser o novo governador de Roma. Tenho o apoio de Silas e espero também o seu apoio.

Graco olhou ao redor. Viu soldados cansados, desanimados. Certamente nem todos concordavam com as ideias de Marco Probo.

─ E, o que estão fazendo aqui?

─ Precisamos de comida, água e descanso e estas terras é um bom lugar para acamparmos. Silas virá ao nosso encontro. Combateremos Carino e eu tomarei o poder. Então, o que me diz?

Graco ficou alguns segundos em silêncio, raciocinando. Certamente Tarquínio lutaria com Marco Probo pelo poder. Haveria uma rebelião entre as legiões. Talvez uma guerra civil. A não ser que Constâncio Cloro e Galério agissem com diplomacia e bom senso, que tomassem decisões que contentasse a todos.

─ Eu não vou apoiar ninguém. -respondeu Graco.

─ Por que? Pretende disputar o trono também?

─ Claro que não! Pretendo deixar o exército. Quero voltar para casa e descansar.

Marco Probo soltou uma risada e depois se calou, olhando sério para Graco.

─ Una-se a mim, prometo que o nomearei governador de alguma província, onde quiserdes e lhe concederei outros privilégios. Palavra de honra.

─ Não, Marco Probo. Já estou decidido. Se o senhor quer lutar contra os romanos para tomar o trono do império, lute, mas não conte comigo. E por favor, saia dessas terras, elas têm dono!

O rosto do general ficou vermelho, deu um passo para trás e segurou o cabo da espada. Graco permaneceu impassível.

─ Vais atacar um homem desarmado? O que estarão pensando os seus soldados?

Marco Probo olhou ao redor e percebeu que seus homens estavam atentos à discussão. Sabia que muitos deles já estiveram sob o comando de Graco e o estimavam. Resolveu agir com prudência. Graco decidiu tomar uma decisão para acabar com aquele impasse.

─ Estou disposto a defender esta propriedade e estas pessoas, nem que para isso eu precise lutar com o senhor. Só nos dois.

─ Por que isso? Achais que pode me vencer? Não sejas tolo! Una-se a mim e tomaremos o trono de Roma.

─ Não vou me unir a uma pessoa que não respeita os direitos alheios, que matou idosos e crianças.

Marco probo bufou e gesticulou, gritando:

─ Pegue uma espada, traidor! Alguém dê uma espada a ele!

Graco voltou-se para Tíbulo que assistia a discussão. ─ Por favor, traga a minha espada.

─ Senhores isso não é necessário! -exclamou Tíbulo.

─ Faça o que estou pedindo. -retrucou Graco.

O homem saiu correndo, entrou no quarto e retornou com a espada. Adriana o deteve.

─ O que está acontecendo?

─ Graco vai lutar contra o general para defender nossa propriedade.

─ A ferida pode se abrir, meu Tio! -exclamou Lídia. ─ Ele ainda está fraco. Porque está fazendo isso?

─ Deve ter se arrependido dos males que te fez. -afirmou Adriana.

─ Se eu tivesse condições, enfrentaria esse general Probo. -disse Tíbulo, olhando para a espada em sua mão. ─ De qualquer maneira, aqueles dois têm antigas contas a ajustar.

Tíbulo saiu para o pátio e Lídia ficou aflita ao lado da tia, observando os acontecimentos. Graco tomou a espada e os dois generais se enfrentaram, cada um estudando o movimento do outro. Marco Probo atacou com vigor, desferindo golpes seguidos que Graco repeliu com facilidade. Afastando a lamina mortal, Graco tentou atingir o seu oponente que também aparou os golpes com a espada. Marco Probo fez nova investida, Graco recuou e chocou-se contra a cerca do curral. Com uma expressão de dor, deu um passo para o lado e se manteve fora do alcance da espada de Marco Probo. Novamente os dois lutadores trocaram golpes sem no entanto, atingir o seu adversário, e se afastaram um do outro, estudando uma nova investida. Os soldados assistiam a luta em silencio. Apesar das desavenças com Graco, Lídia temia pela vida dele. Ele levou a mão ao lado do corpo, onde uma mancha vermelha surgira. A ferida havia se aberto.

Ao ver o sangue na roupa de Graco, Marco Probo sorriu vitorioso e com novo ânimo, atacou. Desferiu um golpe de cima para baixo, mas Graco desviou-se e atingiu a perna dele. O general soltou um grito de dor. Um corte profundo havia se aberto em sua coxa. Com a perna ferida ele perdia a agilidade e quase não podia se manter de pé, baixou a guarda e foi nesse instante que Graco desarmou-o com um golpe de espada. Apavorado, o general gritou para seus soldados:

─ Matem-no! Matem Graco Vinicius!

Porém, nenhum homem se moveu, se limitaram a olhar para o seu comandante com desprezo. Naquele instante uma tropa de soldados com o emblema da guarda pretoriana de Roma, comandada por Cícero Calvo, surgiu na estrada e irrompeu no pátio. Junto, vinha Túlio Gaius.

Cicero estacou a montaria, pulou para o chão e ordenou:

─ Prendam o general Marco Probo.

Dois soldados agarraram o general pelos braços enquanto Cicero pronunciava;

─ General Marco Probo, o senhor está preso por desobedecer às ordens superiores, por assassinato e traição. Será levado para Roma e julgado por ordem do novo imperador do Estado Romano, general Constantino, nomeado pelo senado.

Ele fez uma pausa e falou aos soldados:

─ Peguem suas armas e tendas, montem em seus cavalos e retornem aos seus quarteis.

Túlio dirigiu-se até onde estava Graco, escorado na cerca do curral.

─ Até pensei que tinhas me abandonado.

Túlio sorriu. ─ Assim o senhor me ofende!

Depois que Cicero e seu prisioneiros partiram, Tíbulo convidou Graco e Túlio para entrarem em sua casa. Lídia esperava Graco na varanda, agora um pouco mais aliviada por vê-lo salvo da espada de Marco Probo. Graco sentou-se no divã e despiu a túnica. O choque com a cerca havia aberto a ferida. Lídia começou a fazer novo curativo. Adriana, que observava, disse:

─ O senhor foi imprudente, lutar nessas condições. Não entendo porque se arriscou morrer para nos defender.

─ Tia, deixe esse assunto de lado.

─ Não, Lídia. Eu preciso compreender o que se passou. Afinal de contas, vocês dois eram inimigos. Mas agora eu vejo o general lutar para te proteger e você trata o ferimento dele. Resolveram serem amigos, ou isso é apenas uma trégua?

─ Eu lhes devia isso. Principalmente à Lídia. Quero que me perdoe por tudo que aconteceu. Com relação à casa de teu pai, eu tentei explicar em outra ocasião, mas não tive oportunidade. Na realidade, comprei o titulo que Otavio havia assinado com o agiota com a intenção de devolver a propriedade a vocês. Acreditem ou não, essa é a verdade.

Lídia encarou-o, surpresa. ─ Porque não me disse isso antes?

─ Eu tentei, mas estavas muito nervosa e não quis me ouvir, lembra?

Ela sacudiu a cabeça em silencio. Acabou de fazer o curativo e sentou-se numa cadeira. Tíbulo tocou o braço de Túlio.

─ Vamos para a cozinha. Acho que esses dois ainda têm muito que conversar.

***

Na entrada da quinta, um grupo de soldados com a flâmula da Legião Dourada aguardava o seu comandante. Graco agradeceu a Tíbulo pela hospedagem e despediu-se. Na varanda da casa, Lídia o observava junto com Adriana. Graco acenou para elas e montou em seu cavalo. Lídia correu até ele.

─ Graco!

─ Tenho que ir a Roma, pedir dispensa do exercito. Pretendo me dedicar a outros afazeres. Tíbulo me ofereceu trabalho. Vou pensar no assunto e voltarei para dar uma resposta.

─ Nós vamos esperá-lo. -respondeu Tíbulo.

Graco acenou com a mão e partiu.

Tíbulo colocou um braço sobre os ombros da sobrinha.

─ Você gosta dele, não é?

─ Já não sinto aquela antipatia, aquele desprezo por Graco, mas não sei se o amo.

─ Talvez ele se sente da mesma forma. Mas vocês vão descobrir a verdade...

Antes de sumir na curva do caminho, Graco acenou para eles e Lídia respondeu com outro aceno.

19 de Maio de 2021 às 20:33 0 Denunciar Insira Seguir história
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