fenekin Felipe Roberto

Mikaela se vê cercada pela magia da estranha e poderosa cidade de Nelhiam, que guarda em si uma história misteriosa e cheia de fantasia. Na luz da esperança desse novo mundo, ela encontrará uma forma muito antiga de desespero, e deverá enfrenta-la com a força da sua imaginação.


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#suspense #Aventura
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Estranho mundo novo

O manto de estrelas preenchia o local como neve ou névoa sobre o céu. Luzes multicolores, incendiadas em chamas falsas, produzidas por falsos astros onde quer que houvesse espaço. No meio de toda essa luz, haviam prédios cujo o topo lembravam os castelos antigos numa combinação moderna dos dias de hoje, e ruas quebradas em fragmentos espalhados, como peças de um quebra cabeça mal encaixadas. O infinito da distorção preenchia a visão em toda a sua beleza, revelando a natureza trágica e mágica de um mundo sem lógica.

"Uma nova realidade te aguarda aqui" dizia uma voz misteriosa vinda de todos os lugares. Era como se ecoasse em tudo, mas não possuísse presença, como a voz distante ouvida em um sonho. "Os seus desejos hoje darão forma a sua luz". A distorção e o caos fazia a observadora se questionar sobre onde estava, mas a própria presença das estrelas respondeu :

"Esse lugar é para os que um dia serão esquecidos" sussurrava o vento. A garota sentiu um peso e um calor no peito, e quando se deu conta, viu pendurado pelo pescoço um pingente ametista emitindo um leve brilho arroxeado "Veja, essa é a forma do seu desejo, a forma da sua ruína".

Por instinto, a garota levou a mão ao pingente, que antes de sequer ser tocado, se partiu em dezenas de pedaços como algo frágil e sem significado. A luz púrpura irradiou do pingente quebrado e dançou na palma de sua mão, dançando como a labareda de uma fogueira pequena e por fim, ganhou a forma de uma arma de fogo. Uma pistola parcialmente desmontada. Engrenagens expostas, o cano transparente feito da joia púrpura preciosa exposto em meio ao ferro frio e o pingente de gato preso ao cabo. A arma evocava as guerras antigas, e seus detalhes — fossem as partes parcialmente feitas de ametista ou as runas cravejadas no cabo, ou sua aparência velha e quebrada — evocavam uma época antiga e perturbadora, onde magia era algo possível e ao mesmo tempo temível.

— Isso é?... — as palavras da sonhadora se perderam em meio a confusão — Que... ?

E então, a luz do sol irradiu pelas cortinas finas do quarto e preencheu todo o pequeno cômodo. O rosto pálido da garota adormecida na cama se contraiu diante do brilho cegante, e ela se encolheu nas cobertas em busca de seus cinco minutos a mais de descanso. E aí o despertador tocou pela segunda ou quarta vez. Ela despertou e se colocou sentada na cama com uma careta confusa, um misto da noite mal dormida com o sonho estranho que teve.

— Esse negócio de comer demais antes de dormir realmente dá pesadelos, né? — murmurou enquanto encarava o gato de pelos cinzentos que a esperava no pé da cama. Era o ritual matinal deles. O pequeno felino vinha em busca de comida e ela, sempre o recebia com algum questionamento muito pessoal a respeito de determinada situação. Nesse caso era o sonho esquisito do qual despertou.

Em resposta o gato soltou um miado, colocou uma das patas a frente como se pedisse algo e continuou encarando e esperando. Ela sorriu, e o dia começou.

Ela se ajeitou o mais rápido que pôde depois de alimentar o seu bichinho, vestiu o uniforme da escola, passou a escova por todo o longo cabelo e tomou o café da manhã o mais rápido que pôde. O bilhete de bom dia que sua mãe sempre deixava antes de ir pro trabalho ainda na madrugada foi o impulso final. Partiu em direção às ruas pra ir correndo pegar o metrô. No caminho, sentada no assento do transporte bem ao lado da janela, anotava mais palavras em seu bloco de anotação. Sempre maravilhada com o cenário da cidade, os olhos sonhadores de Mika se admiravam com os prédios gigantescos, que apesar de modernos ainda lembravam muito os castelos e palácios antigos. E era evidente que aquelas construções eram diferentes de tudo que existia mundo afora. Algumas torres sumiam em direção as nuvens, e se conectavam através das chamadas "Passarelas Celestes", que segundo a cultura local era uma forma de se alcançar os ouvidos e olhos dos deuses antigos. Uma vez que terminava de admirar o cenário, voltava a escrever. Os trens, bondes e ônibus da cidade também guardavam muito de um design mais retrô. O trânsito constante, a mistura de sons e imagens e o céu limpo e radiante da bela Nelhian, eram as grandes inspirações da garota. Algo de mágico era soprado junto da voz do vento.

"Eu acredito que minha vida só estará completa quando eu finalmente viver uma grande aventura! Afinal, eu acredito que o mundo não é só sobre o que sei, muito menos só sobre o que pode ser visto. O mundo é mistério, descoberta e emoção. O mundo é infinito. O mundo é sobre tudo o que eu jamais poderia imaginar" ela anotou enquanto viajava em suas próprias idéias.

Nelhian a ajudava a pensar assim. A cidade estava cheia de um misticismo único, de um ar mágico e misterioso, de uma mitologia especial e única. As estátuas enormes de deuses em formas engraçadas eram a coisa mais interessante nisso tudo, como gatos gigantes com sorrisos tortos, ou dragões com caldas de estrelas. Tinha também o estranho coelho gigante das florestas. Todas essas imagens esculpidas em estátuas em praças de uma forma bizarra que chegava até a ser divertida. Mika amava cada detalhe.

Era seu segundo dia na cidade e lá estava ela, desembarcando na estação da Academia Caello. Os alunos e alunas iam e viam debaixo do domo de vidro do prédio. Logo atrás na plataforma, o trem seguia o caminho após abandonar muitos estudantes depois do desembarque. Lojas, lanchonetes e outras utilidades a volta da grande redoma e lá na frente, na forma de um gigante castelo moderno feito quase que inteiramente de vidro e com andares o suficiente para causar tontura em quem ousava olhar para cima, aguardava a grande academia. Os céus azuis e as nuvens refletidas em cada espelho da janela, e a radiante torre do relógio de engrenagens prestes a badalar o sino. A beleza infinita convidava Mika, e de braços abertos, ela aceitou o convite com um largo sorriso.

Empolgada, caminhou estação à fora.

...o caso de desaparecimento das três garotas do distrito leste segue sendo um mistério total para a polícia e para os moradores de Nelhiam... — a voz escapava de um rádio, e o som atraía os olhos de Mikaela para a barraca de vendas onde repousava o aparelho sonoro. Piscou os olhos curiosa, mas logo sua atenção voltava para a majestosa beleza do cenário que a cercava.

Quando passou da estação para o palácio de vidro, se deparou com a multidão de alunos indo e vindo. Pra ela, era divertido ver as outras garotas usando o uniforme, a ajudava a se sentir parte disso mesmo quando era uma completa novata. Do lado de dentro do prédio, optou pelas escadas ao invés do elevador simplesmente pra poder analisar mais da arquitetura belíssima do grande palácio de vidro. As escadas em espiral ficavam posicionadas em torres panorâmicas, de onde podia ver a vista da cidade ficando mais e mais distante. A sala ficava em um dos mais altos andares, e por sorte, seu lugar ficava exatamente no canto da janela. Ela se sentou ali no fundo da sala, e observou os outros alunos entrando sem saber que muitos já a elogiavam em sussurros pela sua aparência. Seu olhar distante estava preso na vista da janela, e só se desprendeu quando uma voz lhe chamou a atenção :

— É tudo muito mágico na primeira vez, não é? — o tom era brincalhão e divertido. Mika se virou e finalmente teve visão daquela que falava com ela. A dona da voz era uma garota de baixa estatura sentada na cadeira da frente, uma vizinha da mesa onde se sentava Mika. Tinha cabelos cacheados de um tom castanho-claro e olhos de um verde acinzentado. O rosto era bem fofo e sorridente, como se aquela fosse a sua cara na maioria das vezes — Me chamo Noele, bem-vinda novata! — e estendeu a mão em sua direção.

Mika era naturalmente tímida e recuou um pouco ao primeiro contato. Meio lenta como era, demorou a perceber o cumprimento, e quando aceitou o aperto de mãos sentiu uma leve vergonha.

— Me chamo Mikaela... — respondeu sorrindo sem graça — Tá tão na cara assim que sou nova aqui?

— Considerando que eu nunca te vi antes a minha vida toda? Acho que sim — respondeu Noele num tom divertido, contendo uma risada baixa.

Mikaela só notou depois a estranheza da pergunta. Era o tipo dela dizer coisas estranhas quando não sabia o que dizer ao certo. Ela largou uma risada boba e voltou a desviar o olhar.

— Eu... Acho que preciso melhorar nessas minhas introduções...

— Relaxa, daqui a pouco você se acostuma. — Noele sorria como se quisesse muito fazer uma nova amizade, mas algo na forma como ela olhava para a novata deixava claro uma estranha e repentina curiosidade, como se tivesse notado nela algo que só ela poderia notar

Mikaela não sabia, mas naquele momento uma parte de si que nem ela conhecia, fora notada por aquela nova pessoa. E antes que a conversa delas pudesse progredir mais, o professor adentrou a sala e iniciou a aula. O padrão da academia era rígido, e os alunos permaneceram em silêncio durante toda a lição, apenas ouvindo e anotando como as pequenas máquinas de escrever que eram.

No intervalo, Mikaela se deixou ser guiada por Noele, que mostrava pra elas os locais da academia a qual os alunos tinham o acesso nos tempos de descanso.

— ...ah claro, também pode ir pro terraço ou pras torres de observação, a vista é bem legal — Noele continuava o diálogo, mas os olhos e ouvidos de Mikaela se desviaram para um grupo de garotos que conversavam no corredor.

O assunto era o mesmo da rádio naquele momento. Eles comentavam sobre as três garotas que sumiram de forma repentina e sem deixar rastros ou vestígios de pra onde foram. Mikaela era o tipo de pessoa que adorava uma teoria da conspiração. Sua imaginação brincava e muito com as possibilidades, e isso a fez perguntar por puro impulso :

— Essas garotas que sumiram... Eram dessa academia? — ela perguntou voltando a atenção para Noelle.

— Hm? Ah, sim... Eram sim. — Noele sorriu e levou o indicador ao queixo, fingindo um olhar mais analítico — Não me diga que você é o tipo de pessoa que se interessa por esses casos bizarros, é?

— Bem... — Mika se encolheu um pouquinho — Depende... Quer dizer... Não é bem isso, só... Fiquei curiosa — era vergonhoso admitir que gostava de passar parte do seu tempo lendo sobre casos misteriosos como esse, não queria parecer esquisita. Ela era uma pessoa criativa e muito curiosa, o que a prendia a esses assuntos. Ela tinha paixão pelo mistério e pela magia das boas histórias, mas sentia que seu pensamento era infantil, talvez mais do que o de uma criança. Por isso, Mikaela recuou o olhar meio sem jeito — Pode ser estranho, mas eu fiquei curiosa.

Noele mais uma vez estreitou os olhos, mas logo relaxou a feição e reforçou mais ainda o sorriso que já carregava no rosto. As duas pararam no fim do corredor, que dava pra um jardim suspenso com vista para a estação. A luz entrava pelo arco de passagem do grande corredor, e ambas pareciam ainda menores diante do tamanho colossal do imponente Palácio de Vidro.

— Relaxe, você não precisa ficar tão tensa. Pra ser sincera, eu também viajo bastante com esses assuntos... Tipo... — ela baixou o tom de voz como se fosse contar um segredo — Eu soube que as três sumiram no distrito da estação. A câmera que filmou o momento em que as duas sumiram simplesmente pifou depois de mostrar a gravação, e tudo o que puderam ver nas filmagens foi o momento em que as três simplesmente sumiram de vista.

Mikaela mostrou uma verdadeira cara de espanto. Seus olhos brilhavam num misto estranho de empolgação e medo. Não havia prova concreta do que lhe contara a sua nova amiga, mas ela gostava de imaginar a possibilidade.

— Isso é sério?! — a empolgação escapou na voz, e então ela diminuiu o tom ao fim — D-desculpa. Essa deve ser uma história e tanto... Mas... Ao mesmo tempo é um pouco triste. Imagino que tenham pessoas procurando por elas — aquele era o lado empático dela falando. Mikaela odiaria chegar em casa e descobrir que sua mãe ou qualquer outra pessoa querida desapareceu, e o medo do que poderia ter acontecido nesse meio tempo a assustava.

As duas seguiram conversando por mais tempo até o horário da próxima aula. A cada momento, Mikaela se sentia mais próxima dos assuntos de Noele. Na saída, as duas desciam as escadas juntas enquanto conversavam.

— Então, o que você escreve naquele caderninho? — a pergunta de Noele foi mais pra reforçar uma informação que havia captado quando notou a novata anotando coisas em um caderninho pequeno pouco antes do professor entrar na sala.

— São só notas... Um dia, eu gostaria de escrever um conto ou uma história, sabe? Por isso eu tento me familiarizar com as palavras.

— E eu posso ler essas notas? Eu fico tão curiosa... E você tem jeito de quem escreve umas coisas bem fofinhas.

— Não, não... E... É meio pessoal.

— Que pena... — ambas seguiram em silêncio até Noele parar de caminhar. Ela pareceu ter dado falta ou lembrado de algo — Ah, só um minuto, tá bem? Eu vou voltar pra sala, eu esqueci totalmente de entregar uma ficha pro professor.

— Hm? Claro... Nesse caso, eu acho que vou indo na frente, certo? Não quero demorar demais pra pegar o trem.

Noele acenou positivamente e deu a volta em torno do próprio eixo, começando a correr escadaria acima. A luz alaranjada do fim de tarde perfurava a janela panorâmica que envolvia a escadaria espiral, destacando a silhueta de ambas se distanciando. O ar de uma mudança sutil soprou os ventos envelhecidos do cômodo, e a poeira recebeu os reflexos de luz solar, se tingindo de dourado. Mikaela seguiu sua descida, e quando deu seu primeiro passo para fora da academia, ouviu o som dos sinos do vento tocando de algum lugar. O clima parecia diferente, solitário. Mas ainda era cedo pra decidir o que sentir. Ela nem sequer notou a estranheza do que acontecia a seu redor. Seguiu caminhando pelas ruas até a estação, mas sentia que as ruas vazias combinavam pouco com o horário de saída da academia. Era para o caminho todo estar lotado de alunos, todos indo pegar o trem de volta para suas casas. Ela parou por um momento, quando sentiu o vento ficar mais gelado. A sensação de ser observada fez um calafrio subir pela espinha. Ela olhou a volta. O sol desaparecia lentamente do céu, as primeiras estrelas surgiam.

"Eu devia esperar a Noele?" pensou. Olhou a volta de novo. Parou antes de atravessar para a estação. Sentia algo de estranho vindo de lá. E foi quando sentiu um peso a mais no pescoço, algo sútil mas perceptível, algo que fez suas mãos instintivamente irem em busca do que causava esse peso a mais. Ela tocou o pingente que de repente surgiu ali, e então, o puxou delicadamente enquanto descia os olhos para a jóia, se lembrando imediatamente do sonho que teve naquela manhã.

— Isso de novo... — pensou em voz alta. Ela ergueu os olhos para o céu, que dum momento para o outro foi preenchido por um vazio infinito, onde poderosas e radiantes luzes se encontravam na distância. Seus olhos se encheram com a beleza daquele novo céu, e a realidade aos poucos se perdia a seu redor. As ruas se desmanchavam e se desencaixavam, os prédios se retorciam, o ar por si só parecia mudar por completo. Algo de místico e mágico se fazia presente ali.

Mikaela piscou os olhos confusa e seguiu caminhando. Sentia o corpo leve e sonolento, como se tivesse caído em um sono profundo. Seguindo apenas o instinto da curiosidade, caminhou para dentro da estação. O ambiente parecia maior que quando entrou pela primeira vez. A redoma de vidro do teto recebia os reflexos das estrelas do céu, o chão estava infestado de dezenas de borboletas com asas de cristal, e uma névoa de brilho opaco preenchia o ambiente.

— Eu estou sonhando de novo? — ela beliscou a própria bochecha pra averiguar a situação, e no entanto, não voltava a acordar — Quando eu dormi?...

Um grunhido a fez dar um leve pulo de susto. Mikaela se virou para a entrada de uma loja, de onde saía uma coisa que seus olhos não puderam entender de cara. Os braços e pernas eram finos, e pareciam pesados pois se movia de forma lenta e preguiçosa. Os olhos caídos pareceram ter sido desenhados naquele rosto branco e redondo, e os desenhos eram algo infantil e mal feito. A única profundidade daqueles olhos, era o escuro do grafite que aumentava em relação ao centro da espiral. Parecia estar vestido num uniforme de marinheiro, mas a roupa parecia larga demais em seu corpo esguio e alto. A coisa parou estática para encarar Mikaela, e quando a viu, um sorriso doentio se desenhou em sua face pálida. Garras enormes cresceram em suas mãos, e a cabeça inclinou num movimento brusco, que fez parecer que o pescoço havia quebrado.

— Pequena luz? — a voz parecia se dobrar para dentro, aguda e distorcida. Soava como a de muitas em uma só — Luz não é bem-vinda aqui...

Mikaela recuou segurando por instinto o colar, e num instante começou a correr em direção plataforma, na esperança de poder correr para dentro do trem a tempo de escapar da estranha criatura, que agora a seguia se arrastando pelo chão. Apesar da enorme distância, e da forma lenta como se movia aquela coisa, Mikaela ainda podia ouvir os sons dos seus grunhidos e podia sentir a sensação de seus pés rastejando sobre o chão em busca dela. "O que é essa coisa?! Que tipo de sonho é esse?" pensava.

Mikaela saltou a catraca para a plataforma, correndo por puro instinto e vez ou outra olhando por cima do ombro para o ser, que parecia ficar mais e mais distante devido a lentidão que se movia. O trem parou nos trilhos da área de embarque nesse momento, e com a ansiedade pulsando junto da batida do coração, ela aguardou o abrir das portas, mas se arrependeu de imediato quando elas se abriram. De dentro do trem, dezenas de criaturas como aquela atrás de si saíram se arrastando e se atropelando de forma desajeitada, caindo sob a plataforma e a fazendo recuar assustada. Uma a uma, as sombras caídas se levantavam, a fazendo sentir mais e mais medo.

— S-Socorro! — berrou enquanto girava em torno do próprio eixo, procurando uma brecha por menor que fosse. As criaturas eram lentas, mas o choque de realidade fazia suas pernas tremerem, e por isso, simplesmente não corria. Parte de si ainda dúvida do que via.

Não podia voltar pra trás nem correr para frente, em um momento estava rodeada por aquelas coisas e a única sensação que sentia era o medo terrível de se estar presa nessa situação.

— Isso... — ela beliscou a bochecha mais forte mas tudo o que conseguiu foi dor.

Aquelas coisas murmurava juntas palavras desconexas. Sussurravam que a luz não era bem-vinda ali, e fechavam o cerco arredor da pobre e solitária garota até que ela não pudesse mais ver nada além da muralha de corpos que se fez a seu redor.

— Eu vou acordar... — disse a si mesma segurando firme o seu amuleto — Eu sei que vou, isso é só um sonho!

— Se fosse um... — disse uma das vozes entre as criaturas. Uma voz grave e apagada, que falhava e rasgava a garganta, agredia os ouvidos. Os olhos se voltaram para o ser alto, cujo os olhos perturbados e vazios fuzilavam a pequena Mikaela. — seria um pesadelo...

E então um coro de risadas doentias e falhadas se fez presente enquanto Mikaela se encolhia mais e mais, como se quisesse fugir para dentro de si mesma. Quando a primeira garra desceu ao encontro de seu corpo frágil, um raio de luz solar cortou pela redoma descendo como uma bala, e como uma bala ela perfurou a cabeça de um desses monstros. A criatura se dobrou para dentro com o disparo, e num instante explodiu deixando um rastro de nuvens e luz do dia. E depois outro tiro e mais outro. Radiante e mágica, a luz solar perfurava as sombras daqueles demônios, como se a esperança se fizesse presente em meio a um sonho ruim. O som da metralhadora e das balas soou até que as criaturas fossem caindo uma a uma, e então, quando só sobraram poucas e essas precisaram fugir, o cartucho caiu no chão com um som que ecoou pelo salão vazio, fazendo Mikaela olhar para trás.

De trás da redoma, no topo do telhado, mirando para baixo com uma arma antiga e antiquada para essa época, estava a silhueta de Noele, que confiante pousava frente a luz do sol como uma verdadeira soldada solitária. Uma heroína. Ela estendeu a mão aos céus e os feixes de luz solar desenharam flores e borboletas, que convergiram em um brilho único, dando forma a mais um cartucho. Ela inseriu o objeto na lateral da arma ao invés de embaixo, e então se deixou cair estação à dentro. Um sorriso no rosto, o uniforme no corpo e arma em mãos.

— Não se preocupe, Mika! — ela podia ser vista com clareza agora. O modelo velho da arma que possuía estava enfeitado com floreados dourados e reluzentes, sua presença era quente e confortante, e seu sorriso irradiava a certeza da vitória — O sonho ruim acabou de acabar.

As sombras ignoraram Mikaela e saltaram furiosas na direção da recém chegada. Garras buscaram o corpo da combatente através do espaço, rasgando vento e solo enquanto rugiam em fúria, repetindo "luz não é bem-vinda aqui" vez após vez. Ela se esquivou da primeira com um salto delicado e gracioso pro lado, revidando com um único disparo, reduzindo o monstro a mera luz. Ela dançava entre os inimigos que restavam, as garras passavam perto mas a erravam vez após vez. De forma travessa, dançava e pulava para os lados entre os demônios distribuindo balas até não restar nenhum. Quando apenas duas dessas criaturas restaram, ela se desvencilhou de suas garras, e num momento em que seus movimentos se alinharam, derrubou ambas com uma única bala. O cartucho foi ao chão em um estalo metálico, e as sombras se dissiparam deixando apenas um rastro de poeira. A combatente se encontrava de pé com um sorriso otimista no meio dos restos caóticos deixados por aqueles monstros.

Mikaela que já estava no chão, apenas olhou confusa para a recém chegada.

— O que... acabou de acontecer?

Noele largou a arma, que se dissipou em brilho solar e tomou a forma de um pingente em seu pescoço. Ela se aproximou de Mikaela, e se ajoelhou perto dela, chegando próxima o suficiente para ver de perto o pingente que a novata portava no pescoço.

— Foi o que pensei. — concluiu. Ela estendeu a mão e ajudou Mikaela a levantar. Uma vez que a pôs de pé, deu um passo atrás e olhei a volta pensativa — É sua primeira vez aqui? A julgar pela forma como ficou cercada, eu acho que é...

— Olha eu... Eu estou sonhando, só posso estar — insistiu Mikaela.

— Não, não está — rebateu sua colega — Mas não acho que vou ter tempo de te explicar tudo parada aqui. Precisamos ir.

— Ir pra onde?

— Atrás das outras sombras, fechar a conexão com o Limiar. Se não fizermos isso direito, podemos ficar presas aqui pra sempre...

As palavras fizeram pouco sentido para Mika, mas ela tinha a sensação de que Noele não estava mesmo mentindo. Seja lá onde estivessem agora, Mikaela não queria ficar. Engolindo o medo e a hesitação, ela acenou positivamente, e a partir dali, passou a seguir sua nova colega por aquele estranho mundo novo...

18 de Maio de 2021 às 18:55 1 Denunciar Insira Seguir história
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Roberta Roberta
Simplesmente maravilhoso! Eu amo obras de fantasia e a forma como você apresentou esse universo chamou minha total atenção. E quem diria que o início pacato iria se desdobrar em tiro para todos os lados? Amei a forma como o capítulo terminou e já estou curiosa para o próximo!
May 20, 2021, 03:37
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