koosou Isadora Miranda

Park Jimin, quando nasceu, foi "amaldiçoado" pelo dom da obediência por Solar, uma fada desastrada (mas com boas intenções), que impossibilita o garoto de desobedecer qualquer ordem, não importa quão má seja. Durante a infância, Jimin manteve uma relação muito próxima com a mãe, Eleanor, que vem a falecer quando o garoto está prestes a fazer 15 anos. Anos depois, o pai do Park se casa novamente com a cruel, Olga, por dinheiro, cujas filhas se aproveitam do dom de Jimin para fazerem dele servo. Cansado das atrocidades de sua madrasta e filhas, Jimin junto ao livro mágico de seu amigo Taehyung, embarcam em uma aventura cheia de ogros, gigantes e quem... Sabe um príncipe encantado. Jikook || shortfic || kookmin || baseado em " uma garota encantada" Cover by: Dluvst


Fanfiction Todo o público.

# #contosdefada
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𝟶𝟷↵

A tonta da fada Solar não queria jogar uma maldição sobre mim. Ela queria me conceder um dom. Ao me ver chorando inconsolável, durante a minha primeira hora de vida, minhas lágrimas lhe serviram de inspiração. Balançando a cabeça amavelmente para minha mãe, a fada tocou meu nariz.

- O dom que eu lhe concedo é a obediência. Jimin será sempre obediente.

Agora, pare de chorar, menino.

Eu parei.

Meu pai estava longe numa viagem de negócios, como sempre, mas nossa cozinheira, Mandy, estava lá. Mandy e minha mãe ficaram horrorizadas e, por mais que explicassem, não conseguiam fazer Solar entender que havia feito uma coisa terrível contra mim.

Eu bem posso imaginar a discussão: as sardas de Mandy mais evidentes do que nunca, seus cabelos crespos grisalhos descabelados e seu queixo duplo tremendo de raiva; minha mãe imóvel e profundamente emocionada, com seus cachos castanhos ainda úmidos do trabalho de parto, o sorriso fugindo de seus olhos.

Não consigo imaginar o Solar. Não sei como era. Ela não desfez o encanto.

A primeira vez que me dei conta dele, foi no dia do meu aniversário de cinco anos. Lembro-me perfeitamente daquele dia, talvez por Mandy ter contado esta história tantas vezes.

- Para o seu aniversário - disse ela - fiz um lindo bolo. Seis camadas.

Jenny, nossa governanta, havia confeccionado um vestido longo para mim.

- Azul como à meia-noite, com uma faixa branca. Você era pequeno para sua idade, parecia uma boneca de porcelana, com uma fita branca no cabelo loiro e as bochechas coradas de tanta animação.

No meio da mesa havia um vaso cheio de flores que Nathan, nosso criador, havia colhido.

Todos nós sentamos ao redor da mesa (meu pai tinha viajado novamente).
Eu estava animadíssima. Tinha visto Mandy assar o bolo, Jenny costurar o vestido e Nathan colher as flores. Mandy cortou o bolo. Quando me deu o meu pedaço, disse sem pensar:

- Coma.

A primeira mordida foi deliciosa. Comi o bolo, toda contente e Mandy cortou outra fatia. Esta já foi mais difícil de comer. Quando acabou, ninguém me ofereceu outro pedaço, mas sabia que tinha que continuar comendo.

Enfiei o garfo diretamente no bolo.

- Jimin, o que você está fazendo? - minha mãe perguntou.

- Porquinho - Mandy riu - É o aniversário dele, Lady. Deixe que coma o quanto quiser - Mandy colocou outra fatia no meu prato.

Eu me senti enjoado e atemorizado. Por que não conseguia parar de comer?

Engolir era uma luta. Cada mordida pesava na minha língua e parecia uma massa grudenta de cola que eu lutava para fazer descer. Comecei a chorar enquanto comia.

Minha mãe foi a primeira a perceber.

- Pare de comer, Jimin - ordenou. Eu parei.

Qualquer pessoa podia me controlar com uma ordem. Tinha que ser um
comando direto, tipo "Ponha o xale", ou "Você tem que ir para a cama agora".

Se fosse um desejo, ou pedido, não fazia efeito. Eu podia ignorar "Eu queria que você pusesse o xale", ou "Por que você não vai para a cama agora?".

Mas contra uma ordem, era impotente.

Se alguém me mandasse pular num pé só por um dia e meio, eu teria que obedecer. E pular num pé só não era a pior ordem que poderia ser dada.

Se você me ordenasse que cortasse a cabeça fora, eu teria que obedecer.

Eu corria perigo a cada momento.

À medida que fui crescendo, fui aprendendo a retardar minha obediência, mas cada momento me custava muito - em falta de ar, náusea, tonteira, e outros sérios desconfortos. Não conseguia nunca retardar o cumprimento da ordem por muito tempo.

Mesmo poucos minutos, significava uma luta desesperada.

Eu tinha uma fada madrinha, e minha mãe lhe pediu que me tirasse a maldição.

Mas minha fada madrinha disse que Solar era a única que poderia desfazer o feitiço. Porém, avisou que o encanto poderia se quebrar algum dia sem a ajuda de Solar.

Mas eu não sabia como. E nem sabia quem era a minha fada madrinha. Em vez de me tornar uma pessoa dócil, o feitiço de Solar fez de mim uma pessoa rebelde.

Ou, talvez, esta fosse mesmo a minha natureza. Minha mãe raramente insistia para que eu fizesse algo. Meu pai me via raramente, não sabia nada a respeito do feitiço, e não me dava muitas ordens.

Mandy era mandona, dava ordens quase com tanta frequência quanto respirava.

Ordens gentis ou ordens para-o-seu-próprio-bem.

"Agasalhe-se, Jimin." Ou "Segure esta tigela enquanto eu bato os ovos, querido".

Eu não gostava dessas ordens, por mais inofensivas que elas fossem.

Segurava a tigela, mas saía andando e Mandy tinha que me seguir pela cozinha.

Ela me chamava de espertinho e tentava me pegar com instruções mais específicas, e eu encontrava novas maneiras de escapar. Geralmente, era um grande esforço conseguir que nós duas fizéssemos alguma coisa juntas, minha mãe achava graça e a cada vez instiga uma de nós.

Tudo terminava bem - eu decidi fazer o que Mandy queria, ou Mandy trocava sua ordem por um pedido.

Quando Mandy, sem querer, me dava uma ordem que eu não queria, eu perguntava:

- Tenho mesmo que fazer isto? - E ela considerava.

Quando estava com oito anos, tive um amigo, Siwon, filho de uma de nossas criadas. Um dia eu e Siwon estávamos na cozinha, vendo Mandy fazer Marzipan.

Mandy me mandou ir à despensa pegar mais amêndoas. Eu voltei com apenas duas. Ela então me mandou voltar com instruções mais exatas, que segui à risca, embora tentasse frustrar seus verdadeiros desejos.

Mais tarde, quando Siwon e eu fomos ao jardim para devorar o doce, ela me perguntou por que não havia feito logo o que Mandy queria que fizesse.

- Detesto quando ela fica mandona - respondi.

Siwon disse presunçosamente:

- Eu sempre obedeço aos mais velhos.

- Isto é porque você não é obrigado.

- Sou, sim, se não obedecer o meu pai me bate.

- Não é a mesma coisa. Eu estou sob um encanto - eu gostava da importância das palavras. Encantos eram raros. Solar era a única fada precipitada o bastante para lançá-los sobre alguém.

- Como a Bela Adormecida?

- Com a diferença de que não terei que dormir por cem anos.

- Qual é o seu encanto?

Contei a ele.

- Se alguém lhe der uma ordem, você vai ter que obedecer? Inclusive eu?

Confirmei com a cabeça.

- Posso experimentar?

- Não - eu não havia previsto esta situação. Mudei de assunto. - Vamos apostar uma corrida até o portão.

- Está bem, mas eu ordeno que você perca.

- Então eu não quero apostar na corrida.

- Eu ordeno que você aposte na corrida comigo, e ordeno que você perca.

Nós corremos. Eu perdi.

Fomos apanhar frutas silvestres. Tive que dar a Siwon as mais doces e maduras. Brincamos de princesas e ogros. Tive que ser o ogro.

🎀


Uma hora depois da minha confissão, acertei um soco nele. Siwon gritou, e escorria sangue de seu nariz.

Nossa amizade terminou naquele dia. Minha mãe arrumou um novo emprego para a mãe de Siwon longe de Frell, nossa cidade.

Depois de me punir por ter usado o punho, minha mãe me deu uma de suas raras ordens: nunca contar a ninguém sobre o meu feitiço.

Mas eu não contaria mesmo. Havia aprendido a ser cauteloso.

Quando estava com quase quinze anos, eu e minha mãe pegamos um forte resfriado.

Mandy nos medicou com sua sopa curadora, feita com cenoura, alho-poró, aipo, e fios de cabelo de rabo de unicórnio.

A sopa estava deliciosa, mas tanto eu quanto minha mãe detestamos olhar para aqueles longos fios branco-amarelados flutuando com os legumes.

Como meu pai estava longe de Frell, tomamos a sopa sentados na cama de minha mãe. Se ele estivesse em casa, nem entraria no quarto dela.

Meu pai não gostava que eu ficasse em nenhum lugar perto dele, atrapalhando, como ele dizia.

Tomei minha sopa com os fios de cabelo dentro porque Mandy me ordenou, embora tenha feito caretas para a sopa e para Mandy quando ela se virou para sair.

- Vou esperar a minha sopa esfriar - disse minha mãe. Então, depois que Mandy saiu, ela retirou os fios, tomou a sopa, e os colocou de volta na tigela vazia.

No dia seguinte eu estava bem e minha mãe estava muito pior. Muito doente para comer ou beber qualquer coisa. Ela disse que sentia uma faca em sua garganta e uma estaca batendo em sua cabeça.

Para fazê-la sentir-se melhor, pus compressas frias em sua testa e lhe contei histórias. Eram histórias antigas e conhecidas sobre fadas que eu ia mudando aqui e ali, mas às vezes eu conseguia fazer minha mãe rir.

E seu riso se transformava em tosse.

Antes que Mandy me mandasse ir para cama, minha mãe me beijou.

- Boa noite. Amo você, precioso.

Estas foram suas últimas palavras para mim. Enquanto eu saía do quarto, ouvi as últimas palavras de minha mãe para Mandy.

- Não estou muito doente. Não mande chamar Sir Peter. - Sir Peter era meu pai.

Na manhã seguinte, ela estava acordada, porém, sonhando. Com os olhos arregalados, conversava com cortesãos invisíveis e puxava nervosamente seu colar de prata. Para Mandy e para mim, que estávamos ali com ela no quarto, não falava nada.

Nathan, o criado, trouxe o médico, que me afastou. Nosso hall de entrada estava vazio. Segui para a escada em espiral e desci, me lembrando das vezes em que eu e minha mãe estávamos escorregando pelo corrimão.

Não fazíamos isso quando havia gente por perto.

- Nós temos que manter a classe - ela me sussurrava e, então, descia a escada de um jeito todo majestoso. E eu a imitava, lutando contra meu jeito desengonçado, contente em fazer parte da brincadeira.

Mas quando estávamos sozinhas, preferíamos escorregar e ir gritando até lá embaixo.

E subimos de volta correndo para dar mais outra escorregada, e mais uma terceira, e mais uma quarta.

Quando eu chegava no final da escada, abria a pesada porta de entrada e corria para o sol lá fora.

Era uma longa caminhada até o antigo castelo, mas eu queria fazer um pedido, e queria que este pedido fosse feito no lugar em que ele tivesse mais chance de ser atendido.

O castelo fora abandonado quando o rei Jeon ainda era um menino, embora houvesse sido reaberto para ocasiões especiais, bailes privados, casamentos, e coisas do gênero.

Mesmo assim, Jenny dizia que era assombrado e Nathan dizia que estava infestado de ratos.

As plantas dos jardins tinham crescido muito, mas Jenny jurava que as árvores tinham poder.

Fui direto para o bosque das velas. As árvores-vela eram pequenas árvores que tinham sido podadas e amarradas com arames para fazer com que elas crescessem em forma de candelabros.

Para fazer um pedido você precisa ter argumentos para a negociação.

Fechei meus olhos e pensei:

- Se a minha mãe ficar boa logo, eu serei bom, não serei apenas obediente. Eu me empenharei mais em não ser chato e não implicar tanto com a Mandy.

Não pedi pela vida de minha mãe, porque não acreditava que ela estivesse correndo risco de morte.

☕ ⇄ 安

- Deixando o marido e um filho. É nosso dever confortá-los - Assim o alto chanceler, Hyunjin, finalizou depois de falar monótonamente por quase uma hora.

Um pouco de seu discurso foi sobre minha mãe. Pelo menos, as palavras "Lady Eleanor" foram ditas com frequência, mas a pessoa que foi descrita - mãe responsável, cidadã leal, esposa fiel - me soou mais parecida com o alto chanceler do que com minha mãe. Um pouco do discurso foi sobre a morte, mas a maior parte foi sobre lealdade a Kyria e a seus governantes, rei Jeon, príncipe jungkook e toda a família real.

Meu pai segurou minha mão. A palma de sua mão estava úmida e quente como o pântano da Hidra. Queria ter podido ficar junto de Mandy e dos outros criados.

Soltei a mão de meu pai e dei um passo afastando-me. Ele aproximou-se e pegou minha mão novamente.

O caixão de minha mãe era feito de um mogno brilhante esculpido com desenhos de fadas e elfos.

Se, pelo menos, as fadas pudessem sair da madeira e fazer um encanto que trouxesse minha mãe de volta à vida. E pudessem fazer um outro encanto para levar meu pai embora. Ou, quem sabe, minha fada madrinha pudesse fazer isso, se eu soubesse onde encontrá-la.

Quando o alto chanceler calou-se, coube a mim fechar o caixão, para que minha mãe pudesse ser colocada em sua sepultura. Meu pai colocou suas mãos nos meus ombros e empurrou-me para a frente.

A boca de minha mãe estava rígida, o oposto de como era em vida. Seu rosto estava vazio, o que era terrível. Mas, pior, foi o ranger da tampa do esquife, enquanto baixava, mais o ruído seco da tampa, ao se fechar. E, mais ainda, a ideia de ter minha mãe confinada dentro de uma caixa.

As lágrimas, que haviam engolido durante todo o dia, irromperam. Fiquei ali diante de toda a corte, chorando como um bebê, num grito de dor infinito, incapaz de conseguir me controlar.

Meu pai pressionou meu rosto contra seu peito. Talvez parecesse que ele estivesse me consolando, mas estava apenas tentando abafar o som, que não
podia ser abafado. Ele me soltou. Num firme sussurro disse:

- Saia daqui. Volte quando você conseguir se acalmar.

Desta vez, fiquei feliz em obedecer. Corri. Meu pesado vestido preto me fez tropeçar, e cair. Antes que alguém pudesse me ajudar, eu já estava novamente seguindo em frente, com meus joelhos e mãos ardendo.

A maior árvore do cemitério era um salgueiro-chorão - a árvore que chorava. Eu me atirei por entre suas folhas no chão, soluçando.

Todos chamavam isso de perder a mãe, mas ela não estava perdida.

Ela tinha ido embora, e onde quer que eu fosse - outra cidade, outro país, Mundo das Fadas, ou Cavernas de Gnomos - não a encontraria.

Nós nunca mais iríamos conversar, nem rir juntos. Nem nadar no rio Locarno. Nem escorregar no corrimão, nem pregar peças em jenny. Nem um milhão de outras coisas.

Depois de muito chorar, sentei-me. A parte da frente do meu vestido havia passado de preto seda para marrom sujo. Como diria Mandy, eu estava em um espetáculo.

Quanto tempo havia se passado? Tinha que voltar.

Meu pai havia ordenado, e o feitiço estava me forçando a obedecer.

Do lado de fora da privacidade de minha árvore, estava o príncipe Jungkook, lendo uma lápide. Nunca havia estado tão perto dele antes. Será que ele me ouvirá chorar?

Embora o príncipe fosse apenas dois anos mais novo do que eu, era bem mais alto, e sua postura era igual a de seu pai: pés afastados, mãos para trás, como se estivesse passando em revista todo o país. Sua fisionomia também era parecida com a do pai, embora os ângulos marcados do rosto do rei Jeon fossem mais suavizados no filho. Os dois tinham cachos negros e pele morena.

Eu nunca estive próxima do rei o suficiente para notar se ele também tinha aquele pouquinho de sardas no nariz, algo surpreendente num rosto tão moreno.

- Minha prima - disse o príncipe, indicando a lápide. - Nunca gostei dela. Gostava de sua mãe. - Ele começou a andar em direção ao túmulo de minha mãe.

Será que ele esperava que o acompanhasse? Será que deveria manter uma distância aceitável de sua presença real?

Com espaço suficiente para que uma carruagem passasse entre nós, fui
andando a seu lado. Ele se aproximou. Percebi que havia chorado também, embora tenha permanecido de pé e limpo.

- Você pode me chamar de Jungkook - disse ele subitamente. - Todos me chamam assim.

Será que devia? Andamos em silêncio.

- Meu pai me chama de Jungkook também - ele acrescentou.

O rei!

- Obrigada - eu falei.

- Obrigada, Jungkook - ele corrigiu. Então prosseguiu. - Sua mãe me fazia rir. Uma vez, num banquete, o chanceler Hyunjin estava fazendo um discurso.

Enquanto ele falava, sua mãe pegou o guardanapo. Vi antes que o seu pai o amassasse. Ele ajeitou as pontas do guardanapo no formato do perfil do chanceler, com a boca aberta e o queixo protuberante. Seria igualzinho ao chanceler, se o chanceler fosse azul como o guardanapo. Tive que sair sem jantar, para poder rir lá fora.

Nós já estávamos na metade do caminho. Começou a chover. Eu podia
ver uma figura, pequena pela distância, de pé, próxima ao túmulo de minha mãe.

Meu pai.

- Onde foram todos? - perguntei a Jungkook.

- Todos partiram antes que eu o encontrasse - disse ele. - Você queria que eles tivessem esperado? - Ele pareceu preocupado, como se devesse tê-los feito esperar.

- Não, eu não queria que nenhum deles esperasse - respondi, querendo dizer que meu pai poderia ter ido também.

- Sei tudo sobre você - anunciou Jungkook, depois de darmos mais alguns passos.

- Você sabe? Como pode saber?

- Sua cozinheira e a nossa cozinheira se encontram no mercado. Ela fala de você - ele me olhou meio de soslaio. - Você sabe muita coisa sobre mim?

- Não.

Mandy nunca havia dito nada.

- O que você sabe?

- Sei que você sabe imitar as pessoas, igual a Lady Eleanor. Uma vez você imitou seu criador em frente a ele, e ele não sabia mais se ele era o criado ou se o criado era você. Você inventa seus próprios contos de fada, deixa as coisas caírem da sua mão e também tropeça nas coisas. Eu sei que uma vez você
quebrou um conjunto inteiro de pratos.

- Eu havia escorregado em pedaços de gelo!

- Pedaços de gelo que você mesmo tinha derramado antes de escorregar.

Ele riu. Não era uma gargalhada de deboche, era uma risada alegre saudando uma boa brincadeira.

- Foi um acidente - protestei. Mas também sorri, trêmulo, depois de ter chorado tanto.

Alcançamos meu pai, que se curvou, em reverência.

- Obrigado, Alteza, por acompanhar meu filho - Jungkook retribuiu a reverência - Venha, Park Jimin - disse meu pai.

Park Jimin. Ninguém nunca havia me chamado deste modo antes. Embora fosse este o meu verdadeiro nome.

Olhei para trás vendo a figura desaparecer aos poucos...

......

Quando chegamos em casa, meu pai mandou que eu vestisse uma roupa
limpa e viesse logo receber os convidados que estavam chegando para nos cumprimentar.

Meu quarto estava tranquilo. Tudo estava exatamente como antes de minha mãe morrer.

Os pássaros bordados na colcha sobre a minha cama estavam a salvo em seu mundo de folhas em pontos de cruz.

Meu diário estava sobre a
cômoda. Meus amigos de infância - Flora, a boneca de pano, e Mona, a
boneca de madeira com vestido de sete babados - estavam acomodadas na
cestinha delas.

Sentei na cama, lutando contra a necessidade de obedecer a ordem de
meu pai para que me vestisse e descesse.

Embora eu quisesse me consolar, ficando em meu quarto, em minha cama, e sentindo a suave brisa que entrava pela janela, não parava de pensar em meu pai e em me vestir.

Uma vez, eu ouvira Jenny dizer a Mandy que meu pai era gente apenas por fora, que, por dentro, era feito de cinzas misturadas com moedas e cérebro.
Mandy não concorda.

- Ele é totalmente humano. Nenhuma outra criatura seria tão egoísta quanto ele é. Nem fadas, nem gnomos, nem elfos, nem gigantes.

Por três minutos completos, adiei minha troca de roupa. Foi um jogo terrível que fiz, tentando quebrar o encanto, testando por quanto tempo conseguiria aguentar a necessidade de fazer o que me fora ordenado.

Havia um zumbido na minha cabeça e o chão parecia sacudir tanto que eu temia cair da cama. Abracei meu travesseiro, até que meus braços começaram a doer - era
como se o travesseiro fosse uma âncora que me impedisse de obedecer às ordens.

Em um segundo, estava a ponto de voar pelos ares em mil pedaços.
Levantei-me e andei até o guarda-roupa. Imediatamente senti me perfeitamente
bem.

Embora desconfiasse que meu pai quisesse que eu usasse outro vestido
de luto, escolhi o vestido que minha mãe mais gostava. Ela dizia que o azul
Maya realçava os meus olhos.

Eu achava que quando eu usava aquele vestido parecia com um anjinho - um anjinho magrinho e pontiagudo, com
cabeça humana e cabelos lisos. Pelo menos, o vestido não era preto. Minha mãe detestava roupa preta.

O grande salão estava repleto de pessoas de preto. Meu pai veio em minha direção imediatamente.

- Aqui está o meu menino, o jovem Park Jimin - ele falou alto.

Meu pai me conduziu para dentro, sussurrando:

- Você está parecendo um céu com este vestido. Deveria estar de luto. Eles vão pensar que você não tem respeito
pela sua... - Fui engolfado, por trás, por dois braços roliços envoltos num cetim preto que rangia.

- Meu pobre menino, nós sentimos por você - a voz era melosa. - E, Sir Peter, é terrível vê-lo nesta ocasião tão trágica - Mais um forte aperto, e fui liberado.

A pessoa que falava era alta, rechonchuda, com longos cachos anelados cor de mel. Seu rosto era de um branco pastoso, com um borrão de ruge em cada bochecha. Com ela, havia duas versões menores dela mesma, mas sem o rugido. A menor não tinha o cabelo abundante da mãe. Tinha uns cachos finos grudados no couro cabeludo, como se fossem colados.

- Esta é a dama Olga - disse meu pai, tocando o braço da senhora alta.

Fiz reverência e esbarrei na menina mais nova.

- Desculpe-me - eu falei.
Ela não respondeu, nem moveu-se, apenas ficou me observando.

Meu pai continuou.

- Estas são as suas adoráveis filhas?

- Elas são os meus tesouros. Esta é Hattie, e esta é Kyla. Elas estão de partida para a escola de aperfeiçoamento social em poucos dias. Hattie era aproximadamente dois anos mais velha.

- Encantada em conhecê-lo- disse ela, sorrindo e mostrando seus enormes dentes de frente. Hattie estendeu-me sua mão, como se esperasse que eu
fosse beijá-la ou curvar-me.

Fiquei olhando, sem saber ao certo o que fazer. Ela abaixou seu braço, e
continuou a sorrir.

Kyla foi aquela com a qual esbarrei.

- Prazer em conhecê-lo- disse em voz bem alta.

Kyla era da minha idade. Entre seus olhos, havia sulcos bem marcados
de tanto franzir o cenho.

- Consolem Jimin em seu pesar - disse a dama Olga a suas filhas.

- Eu quero conversar com Sir Peter. -
Ela pegou o braço de meu pai, e eles nos deixaram.

- Nossos corações choram por você - começou Hattie. - Quando você errou no funeral, tive pena de você.

- Azul não é cor de luto - disse Kyla . Hattie inspecionou o ambiente.

- Este é um belo salão, quase tão fino quanto o do palácio, onde um dia eu ainda vou morar. Nossa mãe, a dama Olga, diz que seu pai é muito rico. Ela diz que ele consegue ganhar dinheiro com qualquer coisa.

- Até com uma unha do dedo do pé - observou Kyla.

- Nossa mãe, dama Olga, diz que seu pai era pobre quando casou-se
com a sua mãe. Diz também que Lady Eleanor já era rica quando eles se casaram, mas que o seu pai fez com que ela ficasse ainda mais rica.

- Nós também somos ricas - disse kyla. - Temos sorte de sermos
ricas.

- Você nos mostraria o resto da mansão? - pediu Hattie. Fomos para o
andar de cima, e Hattie teve que inspecionar todos os cômodos. Abriu o guarda-roupa do quarto de minha mãe e, antes que eu pudesse impedi-la, correu a mão pelos vestidos.

Quando voltamos ao salão, anunciou:

- Quarenta e duas janelas e uma lareira em cada quarto. As janelas devem ter custado um baú cheio de KJs de ouro.

- Você quer saber como é nossa mansão? - perguntou Kyla. Para mim
pouco importava se elas moravam numa toca.

- Você terá que nos visitar e ver por você mesmo - disse Hattie em
resposta ao meu silêncio.

Nós paramos perto da mesa lateral, que estava carregada com montanhas
de comida. Havia desde um cervo inteiro assado com ervas trançadas
envolvendo seus chifres, até biscoitinhos amanteigados tão pequenos e rendados como flocos de neve.

Fiquei me perguntando como Mandy havia conseguido tempo para preparar tudo aquilo.

- Vocês querem comer alguma coisa?
- Si... - iniciou Olive, mas sua irmã interrompeu com firmeza.

- Oh, não. Não, obrigada. Nós nunca comemos em festas. A animação
nos tira totalmente o apetite.

- Meu apetite... - Kyla tentou novamente.

- Nosso apetite é pequeno. Nossa mãe fica preocupada. Mas parece delicioso - Hattie foi se aproximando para perto dos pratos. - Ovos de codorna são um primor. Dez KJs de bronze cada. Olive, há pelo menos cinquenta. Mais ovos de codorna do que janelas.

- Gosto de tortas de groselha - disse Kyla.

- Não devemos - disse Hattie. - Bem, talvez, só um pouquinho.

Um gigante não conseguiria comer metade de um pernil de cervo, mais
uma montanha de arroz selvagem, oito dos cinquenta ovos de codorna, e ainda
retornar para a sobremesa. Mas Hattie conseguiu.

Kyla comeu ainda mais. Tortas de groselha, pão de passas, torta com
creme, pudim de ameixa, balas de chocolate e bolo aromatizado - tudo regado com calda de rum amanteigada, calda de damasco e calda de hortelã.

Elas elevaram seus pratos até bem perto de seus rostos, para que o garfo
tivesse que percorrer a menor distância possível. Kyla comia sem parar, mas Hattie, de vez em quando, baixava o garfo para passar afetadamente o guardanapo na boca. Depois, avançava na comida outra vez, com mais voracidade do que nunca.

Era uma visão repugnante. Olhei para baixo, na direção de um tapete que
costumava ficar sob a cadeira de minha mãe. Hoje, ele estava colocado próximo
à mesa do bufê. Nunca havia me concentrado naquele tapete antes.

Um cão farejador e caçadores perseguiam um javali em direção a um franjado de lã escarlate. Quando fixei o olhar, vi o movimento. O vento soprava
e mexia a grama aos pés do javali.

Eu pisquei e o movimento parou. Fixei obolhar novamente e o movimento recomeçou. O cão tinha acabado de latir. Senti sua garganta relaxar. Um dos caçadores mancavam, e eu senti uma pontada em sua panturrilha. O javali arfava e corria com medo e fúria.

- O que você está olhando? - Perguntou Kyla. Ela havia terminado de comer. Comecei a falar. Eu sentia como se eu tivesse estado no tapete.

- Nada. Apenas o tapete. - Dei uma olhada para o tapete novamente.
Um tapete comum com um desenho comum.

- Seus olhos estavam saltando para fora.

- Pareciam com os olhos de um ogro - disse Hattie. - Como os de um inseto. Mas, pronto, você já está parecendo mais normal agora.

Ela nunca me pareceu normal. Parecia um coelho. Um coelho feio, do
tipo que Mandy gostava de pegar para cozinhar. E o rosto de Kyle era
como uma batata descascada.

- Suponho que seus olhos nunca tenham saltado para fora. - Falei.

- Acho que não. - Hattie sorri complacentemente.

- Eles são muito pequenos para saltar. -
O sorriso dela permaneceu, mas agora parecia emplastado.

- Eu te perdoo, menino. Nós da nobreza somos generosos. Sua pobre mãe era conhecida também por sua má origem.

Minha mãe era conhecida. O uso do verbo no pretérito congelou minha língua.

- Meninas! - dama Olga veio rapidamente em nossa direção. -
Temos que ir. - Ela me abraçou, e meu nariz foi invadido por um cheiro de leite
estragado. Elas se foram. Meu pai ficou lá fora junto ao portão de ferro, despedindo- se do restante dos convidados.

Fui ver Mandy na cozinha.

Ela estava empilhando os pratos sujos.

- Parece que essas pessoas estavam sem comer há uma semana.

Coloquei um avental e enchi a pia de água.

- Eles nunca haviam saboreado a sua comida antes. - Mandy cozinhava melhor do que qualquer pessoa.

Minha mãe e eu às vezes tentávamos
fazer suas receitas. Nós seguíamos exatamente as instruções, e o prato ficou delicioso, mas nunca tão maravilhoso como quando Mandy cozinhava.

De algum modo, isso me fez lembrar do tapete.

- O tapete no salão, com os caçadores e o javali, você sabe do que eu estou falando? Aconteceu uma coisa engraçada comigo quando olhei para ele.

- Ah, aquela bobagem. Você não deve prestar atenção àquele tapete
velho. - Ela voltou a mexer num pote de sopa.

- Como assim?

- É uma brincadeira de fadas. Um tapete de fadas!

- Como você sabe?

- Ele pertencia a lady - Mandy sempre chamava minha mãe de "lady".

Aquilo não era uma resposta.

- Foi a minha fada madrinha quem deu o tapete a ela?

- Há muito tempo atrás.

- A minha mãe alguma vez lhe disse quem é a minha fada madrinha?

- Não, não disse. Onde está o seu pai?

- Ele está lá fora, se despedindo. Você sabe? Mesmo sem a minha mãe
ter-lhe contado?

- Sei o quê?

- Quem é a minha fada madrinha.

- Se sua mãe quisesse que soubesse, ela teria lhe contado.

- Ela ia me contar. Ela prometeu. Por favor, me diga, Mandy.

- Sou eu.

- Você não está me dizendo. Quem é ela?

- Eu. Sua fada madrinha sou eu. Tome, experimente esta sopa de cenoura. E para o jantar. Que tal?

Minha boca abriu-se automaticamente. A colher virou e um gole quente - mas que não queimava - desceu.

Mandy havia conseguido das cenouras o que elas tinham de mais doce, o que há de melhor nelas. Além das cenouras havia outros sabores: limão, caldo de tartaruga, e um tempero que eu não sei o nome.

A melhor sopa de cenoura do mundo, sopa mágica, que ninguém, a não ser Mandy, conseguiria fazer.

O tapete. A sopa. Era uma sopa de fada. Mandy era uma fada!

Mas, se Mandy era uma fada, por que minha mãe havia morrido?

- Você não é uma fada.

- Por que não?

- Se você fosse uma fada, você a teria salvo.

- Oh, querido , eu a teria salvo se pudesse. Se ela tivesse deixado os fios de cabelo de unicórnio dentro da sopa curadora, estaria bem hoje.

- Você sabia? Então, por que deixou?

- Eu não sabia, até o momento em que ela ficou muito doente. Nós não temos como evitar a morte.

Desmoronei sobre o banco que ficava perto do fogão, chorando tão forte que mal conseguia respirar. Então, os braços de Mandy me ampara, e continuei a chorar sobre as dobras amarrotadas de seu avental, onde tantas vezes antes eu havia chorado por razões bem menores.

Uma lágrima pousou no meu dedo. Mandy também estava chorando. Seu rosto estava vermelho e manchado.

- Eu também era a fada madrinha dela - disse Mandy- E de sua avó também - Ela assoou o nariz.

Afastei os braços de Mandy, para ter uma nova visão dela. Ela não podia ser uma fada. Fadas são magras, jovens e bonitas. Mandy era alta, como uma fada deveria ser, mas quem já ouviu falar de uma fada com cabelos curtos grisalhos e dois queixos?

- Mostre para mim - exigi.

- Mostrar para você o quê?

- Que você é uma fada. Desapareça ou algo assim.

- Não tenho que lhe mostrar nada.
E - com exceção de Solar - fadas nunca desaparecem quando outras criaturas estão presentes.

- Você pode?

- Nós podemos, mas não fazemos. Solar é a única que é ousada e idiota o bastante.

- Por que idiota?

- Porque faz com que os outros saibam que ela é uma fada - Mandy começou a lavar a louça.

- Vem me ajudar.

- Nathan e Jenny sabem? - levei uns pratos para a pia.

- Sabem o quê?

- Que você é uma fada?

- Ah, esse assunto de novo. Ninguém sabe, a não ser você. E acho bom manter segredo - Mandy me olhou o mais brava que pôde.

- Por quê?

Ela fez uma cara feia, apenas.

- Vou manter segredo. Prometo. Mas, por quê?

- Vou lhe contar. As pessoas gostam apenas da ideia de haver fadas.
Quando esbarram com uma fada verdadeira, de carne-e-osso, há sempre problemas - ela enxaguou uma travessa. - Você seca.

- Por quê?

- Porque os pratos estão molhados, ora. - Ela viu minha cara de surpresa. - Ah, por que há sempre problemas? Por duas razões, principalmente. As pessoas sabem que nós podemos fazer magias, então, querem que nós resolvamos todos os seus problemas. Quando não fazemos o que querem, ficam zangadas. A outra razão, é que nós somos imortais. Isso aborrece as pessoas também. A lady não falou comigo por uma semana, quando o pai dela morreu.

- Por que Solar não se importa que as pessoas saibam que ela é uma fada?

- Ela gosta que as pessoas saibam, a tola. Ela quer que as pessoas lhe agradeçam, quando ela lhes concede algum de seus terríveis dons.

- Eles são sempre terríveis?

- Sempre. Eles são sempre terríveis, mas algumas pessoas ficam encantadas em receber um presente de uma fada, mesmo que isso as torna infelizes.

- Por que minha mãe sabia que você é uma fada? Por que fiquei sabendo?

- Toda a linha dos Park 's são amigos das Fadas. Você tem sangue de fada em você.

Sangue de fada!

- Posso fazer magia? Vou viver para sempre? Minha mãe viveria para sempre se ela não tivesse ficado doente? Existem muitos Amigos das Fadas?

- Muito poucas. Você é a única que resta em Kyria. E, não, meu amor, você não pode fazer magia ou viver para sempre. É apenas uma gota de sangue de fada. Mas já existe uma característica que começou a se manifestar. Seus pés não têm crescido já faz alguns anos, eu garanto.

- Nada em mim cresceu nos últimos anos.

- O resto de você vai crescer em breve, mas você terá pés de fada, como sua mãe tinha - Mandy levantou a barra de sua saia e suas cinco anáguas, para revelar seus pés, que não eram maiores do que os meus.

- Nós somos muito altas para o tamanho dos nossos pés. Isso é a única coisa que nós não podemos mudar com magia. Os homens colocam enchimento em seus sapatos para que ninguém descubra, e nós, mulheres, escondemos os pés sob as saias.

Estiquei meu pé para fora do vestido. Pés pequenos estavam na moda, mas será que eles iriam me fazer ficar mais desengonçado, quando ficasse mais alto? Será que conseguiria manter meu equilíbrio?

- Você poderia fazer meu pé crescer, se você quisesse? Ou..- Eu busquei outro milagre. A chuva respingou na janela. - Ou poderia fazer a chuva parar?

Mandy moveu sua cabeça afirmativamente.

- Faz. Por favor, faça.

- Por que eu teria de querer fazer?

- Para mim. Eu quero ver magia. Grande magia.

- Nós não fazemos grande magia. Solar é a única que faz. É muito perigoso.

- O que há de perigoso em acabar com uma tempestade?

- Talvez não haja nada de perigoso, mas talvez haja. Use a sua imaginação.

- Seria bom ter céus claros. As pessoas poderiam sair.

- Use a sua imaginação - Mandy repetiu. Pensei.

- A grama precisa de chuva. As plantações precisam de chuva.

- Mais - disse Mandy.

- Talvez um bandido fosse roubar alguém, e ele não está indo por causa da chuva.

- Está certo. Ou, talvez, começasse uma seca, e aí, eu teria que dar um jeito nela, porque a teria iniciado. E, por sua vez, quem sabe, a chuva que eu enviasse, faria cair um galho que quebraria o telhado de uma casa, e então teria que consertar o telhado também.

- Não seria culpa sua. Os donos da casa deveriam ter construído um telhado mais forte.

- Talvez sim, talvez não. Ou, talvez, causasse uma enchente e as pessoas morressem. Este é o problema com a grande magia. Eu só faço pequena magia. Comida boa, minha sopa curadora, meu tônico.

- Quando o Solar lançou o feitiço em mim, foi uma grande magia?

- Claro que foi. Aquela besta! - Mandy escovou um pote com tanta força que ele fez um estrondo e bateu de encontro à pia de cobre.

- Me diga como eu faço para desfazer o encanto. Por favor, Mandy.

- Eu não sei. Só sei que ele pode ser desfeito.

- Se eu contasse ao Solar como é terrível, você acha que ela retiraria o encanto?

- Duvido, mas pode ser. Mas, aí, ela poderia desfazer um feitiço e fazer outro ainda pior. O problema de Solar é que as ideias surgem na cabeça dela e saem em forma de dons.

- Como ela é?

- Ela não é como o resto de nós. Mas é melhor você não querer nunca pôr os olhos nela.

- Onde ela mora? - perguntei.
Se eu pudesse encontrá-la, talvez pudesse persuadi-la a desfazer esta maldição. Apesar de tudo, Mandy poderia estar enganada.

- Nós não temos nos falado. Não fico procurando saber por onde anda Solar, a idiota. Cuidado com a tigela!

A ordem veio tarde demais. Eu peguei a vassoura.

- Todas as fadas são desastradas?

- Não, querida. Sangue de fada não faz você ficar desastrada. Isso é humano. Você não me vê deixando pratos caírem, vê?

Comecei a varrer, mas não foi necessário. Os pedaços de cerâmica se juntaram e voaram para dentro da lata de lixo. Eu não conseguia acreditar.

- Isso é tudo que eu faço, querido. Pequena magia que não pode fazer mal a ninguém. Porém é útil, às vezes. Nenhum pedaço afiado foi deixado no chão.

Fiquei olhando fixamente para a lata. Os cacos estavam lá.

- Por que você não os transformou de volta numa tigela?

- É uma magia muito grande. Não parece, mas é. Poderia ferir alguém.
Nunca se sabe.

- Você quer dizer que as fadas não podem ver o futuro? Se pudesse, você veria, não veria?

- Nós não podemos ver o futuro mais do que vocês. Só os gnomos podem ver o futuro, e, mesmo assim, só alguns deles.

Um sino tocou em algum lugar da casa. Era meu pai que estava chamando um dos criados. Minha mãe nunca usava o sino.

- Você era a fada madrinha de minha bisavó também? - Milhares de perguntas surgiam sem parar - Por quanto tempo você tem sido nossa fada madrinha? - Quantos anos teria Mandy, realmente?

Jenny entrou.

- Sir Peter quer você no escritório, senhor.

- O que ele quer? - perguntei.

- Ele não disse - Jenny torcia ansiosamente uma de suas tranças.
Bertha tinha medo de tudo. O que havia lá para se ter medo? Meu pai queria falar comigo. Era só isso que se poderia esperar. Terminei de secar um prato, sequei outro, e mais um terceiro.

- Melhor não demorar, senhor - disse Bertha. Fui pegar o quarto prato.

- É melhor você ir - disse Mandy. - E ele não vai querer vê-lo de avental.

Mandy estava assustada também! Tirei o avental e saí. Parei bem na entrada do escritório. Meu pai estava sentado na cadeira de minha mãe, examinando alguma coisa que estava em seu colo.

- Ah, aí está você - ele ergueu os olhos. - Chegue mais perto, Jimin.

Olhei furiosamente para ele, ressentindo o comando. Então, dei um passo à frente. Este era o jogo que eu fazia com a Mandy: obediência e desafio.

- Pedi para você chegar mais perto, Park Jimin.

- Eu cheguei mais perto.

- Não o suficiente. Eu não vou morder. Só quero conhecê-lo um pouco mais. - Ele caminhou na minha direção e me conduziu a uma cadeira em frente à dele.

- Você já viu alguma coisa tão esplêndida quanto esta? - Ele me passou o objeto que estava em seu colo. - Você pode segurá-lo. É pesado para o tamanho que tem. Aqui está.

Eu havia decidido deixar o objeto cair no chão, já que meu pai gostava tanto dele. Mas dei uma olhada antes, e não pude jogá-lo.

Eu estava segurando um castelo de porcelana menor que meus dois punhos. Tinha seis pequeninas torres e cada uma terminava num castiçal de miniatura. E, oh!, estendido entre as janelas de duas torres havia um fio bem fino de porcelana, no qual estavam penduradas - roupas! Meiões de homem, um robe, um aventalzinho de bebê, tudo tão fino quanto uma teia de aranha. E, pintado numa janela no andar de baixo, uma moça sorridente acenava com um cachecol de seda.

Bem, pelo menos, parecia ser seda.
Meu pai pegou de volta o castelo.

- Feche os olhos.

Eu o ouvi fechar as pesadas cortinas. Ia vigiando com os olhos semicerrados. Não confiava nele.

Ele pôs o castelo sobre o console da lareira, colocou velas nele, e as acendeu.

- Abra os olhos.

Corri para ver de perto. Castelo era um mundo cintilante de maravilhas.
As chamas desenhavam matizes perolizadas nas paredes brancas, e as janelas reluziam um amarelo-ouro, sugerindo alegres chamas no interior.

- Ohhh! - falei.

Meu pai abriu as cortinas e soprou as velas.

- É lindo, não é? - Concordo.

- Onde você conseguiu isto?

- Com os elfos. Um elfo o fez. Eles são ceramistas maravilhosos. Um dos alunos de Agulen fez este. Sempre quis um Agulen, mas ainda não consegui nenhum.

- Onde você vai colocá-lo?

- Onde você quer que eu o coloque, Jimin?

- Numa janela.

- Não o quer em seu quarto?

- Em qualquer quarto, mas numa janela. - Para que ele possa reluzir para todos, dentro de casa e na rua.

Meu pai me olhou por um longo tempo.

- Direi ao comprador para colocá-lo numa janela.

- Você vai vendê-lo!

- Sou comerciante, Jimin. Vendo coisas. - Por um momento ele falou consigo mesmo. - E talvez possa passá-lo adiante como um Agulen genuíno. Quem poderia saber? - ele voltou para mim. - Agora você sabe quem sou: Sir Peter, o comerciante. Mas, quem é você?

- Um filho que tinha uma mãe. - Ele deixou isso de lado.

- Mas quem é Jimin?

- Um garoto que não gosta de ser interrogado. - Ele estava satisfeito.

- Você tem coragem, para vir falar desse jeito comigo. - Ele me examinou.
- Este é o meu queixo. - Ele tocou meu queixo, eu recuei. - Forte. Determinado. Este é meu nariz. Espero que você não se importe que as narinas se dilatam. Os meus olhos, só os seus são verdes. A maior parte de seu rosto é minha. Imagino como ficará isso numa mulher, quando você crescer.

Por que ele pensava que era elegante falar a respeito de mim como se eu fosse um retrato e não uma menino?

- O que devo fazer com você? - perguntou a si mesmo.

- Por que você deveria fazer algo comigo?

- Não posso deixar você crescer para virar uma ajudante de cozinheira. Você precisa ser educado - ele mudou de assunto- O que você achou das filhas da dama Olga?

- Elas não me serviram muito de conforto - falei.

Meu pai riu, deu gargalhadas, cabeça para trás, sacudindo os ombros. O que havia de tão engraçado? Não gostava que rissem de mim. Isso me fez ter vontade de dizer algo de bom sobre as abomináveis Hattie e Kyla.

- Elas estavam bem intencionadas, eu suponho. - Meu pai limpou as lágrimas dos olhos.

- Elas não estavam bem-intencionadas. A mais velha é uma conivente desagradável, como a mãe dela, e a menor é uma tola. Nunca passou pela cabeça delas terem boas intenções.

Sua voz se tornou mais ponderada.

- Dama Olga tem muitos títulos e é rica - O que isso tinha a ver? - Talvez eu deva mandá-lo para a escola de aperfeiçoamento social com as filhas dela. Você poderá aprender a andar como alguém da sua estirpe e não como um elefantinho.

Escola de aperfeiçoamento social! Eu teria que deixar Mandy. E lá me davam ordens o tempo todo e teria que obedecer, fosse o que fosse. Tentaram me livrar da minha falta de jeito, mas não conseguiram. Então me puniram, e eu os puniria de volta, e eles me puniram ainda mais.

- Por que não posso simplesmente ficar aqui?

- Acho que você poderia ser ensinado por uma governanta educadora.

Se eu encontrar alguma...

- Prefiro bem mais ter uma governanta, pai. Estudaria com bastante empenho se eu fosse uma governanta.

- De outro modo, não? - suas sobrancelhas levantaram, mas eu poderia afirmar que meu pai estava se divertindo.

Ele se levantou e foi para a escrivaninha onde minha mãe costumava trabalhar em nossas contas domésticas.

- Pode ir agora. Tenho trabalho a fazer - Saí. Quando estava passando pela porta, falei:

- Talvez elefantinhos não possam ser aceitos na escola de aperfeiçoamento social. Talvez elefantinhos não possam ser educados. Talvez eles... - eu parei. Meu pai estava rindo novamente.

espero que tenham gostado, postado tbm no App vizinho.

17 de Maio de 2021 às 22:29 0 Denunciar Insira Seguir história
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