luanakarinegc Luana Karine

Ana Valence tem tudo que mais ama a seu redor: Seu pai Vitor, sua melhor amiga Violeta e a confeitaria dos sonhos. Depois de árduos dezesseis anos finalmente seu pai havia realizado o sonho de ter sua própria confeitaria. Ana estava radiante, enfim ela sentia que seus dias na terra estavam em pura alegria. Mas, Valence não esperava que um acidente horrível afastaria seus sonhos e nem imaginava que um homem divertido e importante como Alexandre, seria capaz de ajudá-la em uma decisão tão difícil. Abandonar ou não a confeitaria? "O amor podia não ser o mais doce, ou ter a cobertura mais perfeita, mas era tudo que eu precisava."


Conto Todo o público.

#conto #258 #umamordoce
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Prólogo

Em algum momento entre o colegial e a faculdade meus pais se apaixonaram perdidamente.


Meu pai, Vitor, sempre falou que minha mãe, Vanila, era a mulher mais vibrante que ele havia conhecido — e doce como baunilha. Determinada com um touro e tendenciosa como uma vilã de conto de fadas ela era uma Regina George dos cabelos pretos e sardas alaranjadas. Incomum e necessitada por notas boas na escola. Foi nesse momento da história que o nerd de topete e óculos se apaixonou pela patricinha da escola.


Deixando ainda mais claro, meu pai caiu de amores pela minha mãe em questões de segundos entre a explicação de matéria orgânica e macro bactérias.


Até hoje meu pai não sabe como minha mãe foi bem na prova, já que segundo ele: "Eu expliquei tudo errado querida. Sua mãe fez um verdadeiro milagre!"


Lembrar dessas histórias me deixava ansiosa por mais. Eu amava ouvir todos os conflitos até eles finalmente se renderem um ao outro. Podemos dizer que não demorou muito, meu pai era um homem interessante, diria até galanteador e minha mãe caiu facilmente no jeito estranho dele de comer brócolis com ketchup, durante a janta.


Porém a história não me foi contada com muitos detalhes, então não saberia nem dizer em que momento houve um pedido de namoro ou até mesmo o noivado, mas aconteceu! Uns meses depois de se casarem minha mãe disse querer um bebê e meu pai, bom... Morreu de medo com a ideia. Por obra do destino ou não, minha mãe teve uma pequena e gordinha menininha dos olhos escuros como jabuticaba e pele branca como um lírio, no caso eu!


Segundo meu pai, eu era cópia exata da minha mãe, nenhuma diferença. Para confortá-lo eu sempre dizia:


— Pelo menos herdei seu humor e charme.


Ele sempre ria bem-humorado, é claro.


Meu pai gosta de frisar parecer besteira ter medo de ter bebês. Quando se tem segurança e uma boa cabeça apenas o céu é uma barreira para um bom desafio, mas ele não esperava que os desafios incluíssem perder o amor de sua vida. Minha mãe partiu quando eu tinha poucos anos de vida — Está parte da história também não me foi contada com detalhes —, mas minha mãe havia partido, e meu pai estava só com um bebê recém-nascido.


Mesmo com o medo beirando sobre seus ouvidos em sussurros agonizantes ele não fraquejou nem por um momento, por algum motivo meu pai se sentiu incrivelmente forte. Um dia ele me contou que olhou para mim no berçário — com vários gritos de bebês alheios ao lado —, e sentiu uma segurança e confiança que não poderia ser explicada e falou:


— Somos nós dois meu pequeno doce. Somos apenas nós dois.


Meu pai não estava errado. Sempre fomos nós dois e posso dizer, com toda certeza, que recebi o pai mais legal e carinhoso do mundo. Tudo que ele fazia era transmitir seus sentimentos em dobro, não importava a situação, ele mediava entre ser meu pai e minha mãe.


Um grande exemplo foi minha jornada para descobrir meu dom dá vida. Meu pai tinha esse lance de que todos nós seres humanos nascemos com um dom, porém, nós precisávamos descobrir. Tipo a Tinker Bell, e o processo para se descobrir fada artesã.


Lembro brevemente da minha primeira aula de balé aos cinco anos. Foi uma merda! Esqueceram de me dizer que eu precisava de sincronia e coordenação motora nas minhas pernas para ter algum futuro na dança.


— Ana querida. Você deve controlar suas pernas e não o contrário — Meu professor que apelidei gentilmente de senhor girafa, falou.


Como eu poderia saber? Quando se usa sapatilhas e frufru o dom de bailarina não vem junto? Definitivamente não. Eu não fiquei tão desapontada, porque quem tem uma ideia de futuro com cinco anos.


Um pouco para frente, na verdade, bem à frente com quinze anos — os anos negros como diria meu pai —, meu primeiro beijo e quase sexo, aconteceram. Minha amiga Violeta — melhor amiga, na verdade, acredito que se ela me ouvisse a chamando de apenas amiga me daria uma livrada na cabeça ­ —, me convidou para uma competição de ping pong em uma festa de algum de seus primos. Achei ter um dom para aquilo, sabe? Minha mira era simplesmente impecável, tão boa que bebi quase todas as doses de vodca com cereja e cai dura na cama de alguém que cheirava a anti-mofo. Não foi o melhor momento da minha vida.


O dia seguinte chegou e descobrir que ficar de ressaca em uma segunda de aula era quase uma sentença de morte. Descobri também que eu não tinha nenhum dom e, que pela primeira vez meu pai queria se livrar de mim, mas o sentimento durou pouco. Depois de surtar por não saber o que eu queria da minha vida, meu pai me abraçou enquanto eu chorava na minha cama em uma madrugada atípica de frio. Com o nariz escorrendo e os olhos inchados ele me ofereceu uma última tentativa: sua cozinha.


Naquela noite, nós fizemos bolinhos, biscoitos, tortas, e eu descobri meu verdadeiro dom e ele era tom doce que pensei:


— Esse é o gosto do amor?



Sete anos atrás...


— Ana! Violeta está esperando por você! — A voz do meu pai reverberou do primeiro andar me assustando.

— Estou descendo! — Gritei de volta do segundo andar, diretamente da minha cama. Arfei observando o homem gostoso que estava deitado na minha cama com a cabeça entre minhas pernas.

— Você precisa ir. Se meu pai subir e encontrar você... Bom, eu não quero nem pensar na possibilidade... — Leo engatinhou sobre mim e calou minha boca com a sua quente. — Hum... Você tem que ir embora... — Conclui rindo, enquanto seus beijos desciam pelo meu colo.

— Qual é Ana? — Ele murmurou.

— Embora! — O empurrei e apontei para janela. — Mais tarde mando uma mensagem.

Ele me deu seu sorriso safado e me prensou contra a cama. Admirei seus olhos como esmeralda.

— Você mandará mesmo a mensagem ou terei que fazer uma pequena invasão no meio da noite?

— Bom... Se a invasão for as dez em ponto, não vejo problema... — Sussurrei. Ele se aproximou, mas coloquei um dedo sobre seus lábios. Leo me deu um sorriso de lado e se afastou colocando sua camisa branca.

— Até a noite Valence! — Ele falou antes de sair pela janela. Suspirei encarando o teto, satisfeita.

Se a escada não fosse colada na minha janela eu não sabia o que seria de mim. Ficar sozinha em um quarto às vezes podia ser entediante. Sorte a minha que eu não precisava me preocupar com solidão ultimamente.

A porta fez um barulho enorme interrompendo meu torpor pós amasso. Levantei em um pulo ajeitando minha saia e abrindo a porta com um sorriso.

— Que sorriso lindo! — Cantarolei.

— Eu não estou sorrindo Ana — Meu pai falou com a cara fechada.

— Eu sei. Isso se chama sarcasmo. Aprendi com você lembra?

— Nem me lembre... — Ele murmurou e deu uma breve olhada para dentro do meu quarto. — Por que demorou tanto?

— Já viu o tamanho desse cabelo? É difícil pentear isso quando tudo que ele quer fazer é ficar de pé.

Meu pai fez uma careta sutil e assentiu levando a mão a cabeça me observando. Ergui uma sobrancelha.

— Pare de me julgar!

— Está um horror! — Ele admitiu com um sorriso gentil. É claro que estava e ele não perderia a oportunidade de zombar disso.

— É valeu...

— Odeio seu sarcasmo — Ele murmurou novamente me empurrando até a escada.

Enquanto descíamos meu pai expressava seu descontentamento com a parte cabeluda da família da minha mãe. É claro que ele estava insatisfeito, depois dos trinta nenhum fio habitava mais em sua cabeça.

— Até que enfim! Estamos atrasadas, Ana! É o último ano do ensino médio, não o último dia de aula! — Violeta exclamou olhando para o seu relógio de pulso. — O que houve com seu cabelo? Até parece que um gato estava brincando aí.

Revirei os olhos arrancando uma maça da cesta da bancada. Minha amiga encarou meu pai com as mãos na cintura.

— Nem me olhe assim, eu já tentei um balde d'água gelada mais não adiantou — Meu pai falou rindo. Poupei-me de fazer alguma expressão, nunca se esqueceria da água gelada nas minhas costas.

— Podemos ignorar meu cabelo e minha dificuldade de acordar, e ir embora?

— Ok. Tenham um bom dia, meninas! Não se esqueça do seu horário Ana! — Meu pai gritou, quando passamos pelo portão de madeira.

— Não vou!

— Tchau, tio Vetor! — Violeta gritou rindo. Quando éramos crianças ela não conseguia falar o nome do meu pai direito, sempre saia Vetor. O apelido ficou para todo o sempre. Meu pai parecia gostar.

Caminhamos um pouco mais de um quarteirão. Eu precisava de uma distância significativa para não correr o risco dos ouvidos do meu pai detectasse minhas palavras.

— Leo estava praticando anatomia na minha cama agora cedo.

Violeta direcionou o pescoço com tanta rapidez para me olhar que temi que se quebrasse bem na minha frente.

— De novo? — Ela gritou.

Dei de ombros com um sorriso digamos que um pouco convencido. Leo era um grande feito, o cara era bem concorrido.

— O sexo é ótimo. Eu não quero nada, ele não quer. Qual é o problema?

— Temos muitos problemas! Primeiro, ele é filho do diretor e o diretor odeia você! — Ela falou me fazendo revirar os olhos. — Seu pai dorme no quarto ao lado! Não acredita ser rir demais na cara do perigo?

— Talvez um pouco...

— E o pior de todos... Ele é gostoso demais. Deve está com você e o terceiro ano todo!

— Estou segura de que o diretor nunca vai a um jantar de família, porque eu nunca passarei de sexo casual com Leonardo. Meu pai quase sempre dorme no sofá e usamos camisinha, estou livre de doenças sexualmente transmissíveis por hora.

— Você é louca Ana. Aquela boca troca saliva com uma quantidade astronômica de mulheres. Ele lambe uma agora e mais tarde beija você. — Ela falou com uma carranca. Enojada de uma forma que nem parecia beijar estranhos por aí.

Talvez Violeta tivesse um ponto, mas ele tinha uma boca tão boa, e pensar como foi fácil ele surgir na minha vida me deixava menos frustrada com a opção de chutá-lo da minha cama.

— Certo... Mas você sabe que eu não estou a fim de compromisso, não é como se eu pretendesse me apaixonar por ele. Não tenho tempo para isso.

Meu tempo era baseado em: escola, minhas aulas de pintura e confeitaria. Fora isso nada era realmente interessante, com exceção das terças que era o "dia do Sam" — Dia da semana para maratonas dos filmes do Sam Caflin. Violeta tinha uma espécie de obsessão pelo ator e bom, eu não poderia reclamar. Finnick Odair realmente era uma tentação, ironicamente ele casava com uma Annie. Então, eu levava isso como um sinal divino de um futuro Finick na minha vida.

— Acredito que não sobrará muita opção a não ser fazer juízo com as próprias mãos — Ela me deu um sorriso de compaixão balançando os dedos na minha cara. Ri a abraçando enquanto caminhávamos.

Ela estava certa e droga! Eu teria que dizer adeus aquela boca para sempre, antes que eu caísse de cara no clichê mais manjado do planeta. Apaixonar-me pelo ficante. A confeitaria me tirava todo o tempo e entre escolher um homem e doce. Os bolinhos ganhavam de 10/10.

— Conversaremos depois das preliminares... — Falei e Violeta riu apesar da careta. A segurei pelo braço e atravessamos o portão enferrujado da nossa escola. Normalmente eu estaria animada para mais um ano letivo, eu gostava de estudar, mas era nosso último ano e convenhamos, eu não via à hora de terminar e me livrar das provas e principalmente do diretor Lopes que me irritava profundamente.

— Valence cadê você para me encher de recheio? — Virei à cabeça dando de cara com Marcelo. O mulato dos olhos escuros estava com um brilho de garoto perigoso explodindo pelos braços apertados na jaqueta jeans preta. — Ei Vi — Ele acenou para Violeta quase derretida ao meu lado.

— Oi... — Ela disse tão baixo que mal pude ouvir.

Violeta Viçosa tinha uma enorme queda pelo cabelo preto despretensioso e o abdômen — que em seu respeito nunca toquei — Marcelo era uma tentação, não o doce com morango e chocolate. Estava mais para um bad boy que usava jaqueta e calças desfiadas que, na verdade, era um completo banana quando se tratava em lidar com mulheres.

— Você sabe muito bem que eu não vou bancar sua futura diabete — Afastei-me de seu abraço. — Além disso, meu pai está pensando seriamente em chutar sua bunda se aparecer mais uma vez na confeitaria. Então, fica aí o aviso — Dei uma batidinha em seu ombro.

Ele revirou os olhos e puxou as mangas da sua jaqueta me seguindo até meu armário cheio de adesivos de bonecos com a bunda de fora. Esses moleques imbecis da escola não têm o que fazer? Arranquei os adesivos jogando no lixo ao do meu armário.

— Vou com você hoje? — Ele perguntou me ignorando. Olhei para Violeta e apontei para ela.

— Você vai com ela, preciso sair mais cedo hoje. Uma mulher de negócios nunca para! — Abri um sorriso jogando meu cabelo comprido preto para o lado.

— Mais um ano saindo antes do tempo... Sabe que o diretor queimará sua foto da formatura ao invés de pendurar com a merda da classe, né?

— Não vai me fazer falta, acredite!

Fechei a porta do armário lhe dando um último sorriso e puxei uma Violeta muda comigo.

— Está louca? Ir com ele até a confeitaria — Ela falou entre dentes com as bochechas vermelhadas. — Acredita que ele vai mesmo?

Ri com sua mudança de humor. Violeta não era tão tímida como aparentava, na verdade, ela ficava tímida quando estava apaixonada o que não acontecia com tanta frequência já que ela se permitiu ficar cega de amor por Marcelo desde o fundamental.

Minha amiga ergueu os óculos da ponta do nariz, alguns fios que dava jus ao seu nome estava grudado no gloss que cobria seus lábios.

— Ele vai! O garoto é viciado em doce. Ele quer açúcar, eu dou para ele.

— Nossa isso ficou muito pornográfico... — Ela murmurou e abriu sorriso estranho em seguida. — Será que ele mistura açúcar com...

— Eca! Espero que não, já pensou ter açúcar até no c...

— Ana Valence? — Meu nome foi chamado por uma voz grossa que me era familiar até demais. Respirei fundo para o diretor, sua expressão parecia abatida e quase pálida. No mesmo instante uma sensação cobriu meu peito. — Pode me acompanhar até minha sala, por favor?

Assenti. Violeta apertou minha mão de leve antes deu seguir o homem barbudo — que costumava me ameaçar de suspensão há uns dois anos —, pelo corredor principal até passarmos pela porta amarelada da diretoria. O cheiro de papel e impressora, que já era até comum para mim, cobriu meus sentidos quando me sentei na poltrona preta que fazia um barulho borrachudo quando eu mexia.

— Eu não fiz nada de errado, não faz nem trinta minutos que pisei os pés aqui — Comecei a falar, mas o diretor cerrou os olhos parecendo aflito e pediu que eu me calasse.

— Ana... Acabei de receber um telefonema da polícia... Eu não esperava que fosse eu que lhe daria a notícia, mas seu pai...

Minhas costas se ergueram eretas, junto da minha feição. Meu pai foi preso? Ele era mais certo do que uma linha feita com ajuda de uma régua.

— A polícia? O que houve com meu pai? — Levantei em um pulo jogando a mochila nas costas, pronta para socorrê-lo. O direto me encarou sem irritação, o que era estranho, pois ele sempre estava irritado. Então naquele momento um pensamento me ocorreu e minhas pernas pareciam derreter.

— Ana sinto muito... — O diretor repetiu.

— Sente muito? Do que sente muito? — Perguntei tão baixo com a voz estrangulada pela pressão na minha garganta. Eu sentia uma grande vontade de chorar, mas estava engolindo tudo em seco.

— Ele sofreu um acidente indo para o trabalho. Quando a ambulância chegou... Ele não estava mais com vida.

Meu corpo cai mole na cadeira. As palavras do diretor giraram na minha cabeça como um carrossel. Meu pai estava morto? Minha única família se foi? O amor que era tão doce ficou azedo e rígido, em um segundo agonizante.

Perdi um pedaço do meu sonho.

17 de Maio de 2021 às 21:10 0 Denunciar Insira Seguir história
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