repolho_imortal Harumi Matsunaga

“O que acontece quando a neve derrete?” Eram as palavras que Primavera mais odiava ouvir, mas todas as fadas lhe perguntavam a mesma coisa. O Rei das Flores se recusava a aceitar seus sentimentos por Inverno, mesmo depois de tantas centenas de anos.


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Primavera

Quando a primeira neve deixou de cair e a primeira gota de gelo se formou, os murmúrios começaram a percorrer os quatro reinos.

Evidente que o Reino Derretido foi o primeiro a saber, e não haveria pânico se o degelo não fosse tão prematuro.

Algo estava errado.

Entretanto ninguém se moveu para conseguir satisfações do ocorrido. A maioria sabia que a verdade nunca seria revelada, mas no fundo suspeitavam da estranha briga de poder entre seus mestres.

Felizmente a paciência de Primavera era tão curta quanto as raízes de uma suculenta, e antes que a lua mudasse, se dirigiu ao grande palácio celestial. Tendo atravessado as longas escadarias, o belo rei rapidamente foi abordado por jovens fadas de flores e elfos de frutas.

“Majestade! Majestade! Veja minhas novas folhas”, uma fada exibia seus cabelos leitosos feito de pétalas de lírio.

“Meu rei, ó magnifico, receba esta safra madura!”, o elfo de macieira oferecia uma cesta farta de maçãs vermelhas.

A Fada Lírio não era tão encantadora quanto às que cultivava no Reino Derretido e as maçãs não eram as mais tentadoras que já ofereceram. Era de conhecimento geral que aquele rei se recusava a receber presentes do povo e não trocaria mais de algumas frases com as fadas.

Não que seu humor fosse ruim. Primavera sempre receberia as criaturas da natureza com um sorriso delicado, fazendo a flor em seus olhos desabrochar. Não era incomum estar cercado por fadas e elfos tentando agradá-lo, apenas inesperado que sempre apareciam mais ao seu redor. Eles nunca esperariam que seu mestre odiasse ser tratado com tanto respeito.

— Agradeço, meus queridos pequenos — A voz do rei era o veludo de uma pétala de rosa — Entretanto não posso mais oferecer minha pessoa à vocês, nossa amada imperatriz me aguarda.

Ao ouvirem sobre a Imperatriz Celestial, todas as criaturas ao redor voltaram em sua forma original, pintando o jardim com flores e árvores.

De alguma forma, Primavera estava mais satisfeito com o jardim natural do que com os agrados das fadas.

Percorrendo o insuportável corredor para o salão imperial, uma voz ecoou pelos quatro ventos:

“Mestre Primavera, Rei Derretido, Segundo Filho do Sol e Servo do Dia, se apresenta”

Não havia ninguém no salão, e de alguma forma a mesma voz sempre anunciava sua chegada como o sino na porta de uma loja.

— Esqueceu de dizer que sou o homem mais lindo dos quatro reinos.

— Há controvérsias.

Os raios de sol que entravam pelos vitrais se convergiam em direção ao trono de ouro, e em meio a luz cegante, uma elegante dama de branco apareceu.

Ela era Dia, governante de metade do mundo.

Primavera já estava ajoelhado perante a mulher quando sua forma finalmente podia ser vista, não ousando olhar em sua direção.

— Primavera — A Imperatriz o chamou, permitindo que se levantasse.

Ela nada falou, sentada no alto se seu trono, avaliou Primavera de cima a baixo algumas vezes. O longo silêncio era molesto depois da longa jornada apenas para ser recebido.

— Não há motivo para esta reunião — Anunciou Dia depois de perceber a agitação de seu subordinado — Creio que deveria estar se preparando para a virada de estação.

As doces flores no cabelo de Primavera pareciam mudar para narcisos mesmo seu semblante ainda sendo delicado.

— Não tão cedo, majestade, a primeira gota de gelo derreter tão precocemente é preocupante, temo pela saúde de Inverno.

— Água o protege, não há nada a temer — O desdém na voz de Dia irritava ainda mais o mestre das flores.

— Ah, claro, vou confiar na incompetente que deixou a primeira neve parar um mês antes do programado, com certeza, obrigado.

Com a luz ainda refletindo no trono de ouro, era difícil dizer a expressão de Dia.

— Fico feliz que confie em Água, afinal, vai precisar dela para suas chuvas.

Ouvir sua governante podia ser tão confortante quando uma tarde de sol, mas às vezes o sol também podia queimar a pele. Tudo que Primavera ouviu foi: “Cale-se e vá trabalhar”

— Receio que minhas fadas não estejam prontas para a virada de estação, majestade, o planejamento foi adiantado muito abruptamente.

— Então apresse-as, Primavera, o mundo não vai esperar estar preparado.

As flores no cabelo de Primavera floresceram novamente como cravos amarelos, era um visão rara até mesmo para as fadas mais antigas.

Ele nunca esteve tão irritado.

— Desejo me encontrar com Verão.

Dia não o respondeu, estendendo o incômodo silêncio até seu subordinado soltar um longo suspiro, se recompondo de sua impaciência.

— A ordem da natureza não deve ser alterada, Primavera, sabe disso melhor que qualquer um — Havia tristeza na voz de Dia — Prepare-se para a mudança de estação: derreta do gelo, floresça as flores, acorde os animais, e só então, somente então, poderá encontrar com Verão.

Honestamente Primavera não gostava de se encontrar com Inverno, ele nunca sabia como agir ao lado de uma pessoa tão mortalmente silenciosa e estranhamente fria. Aqueles olhos azuis eram como a superfície congelada de um lago, e sempre que o via, Primavera sentia um incontrolável desejo de derretê-lo.

Ao contrário de Verão, com seus cabelos cor de girassol, ela possuía todo o calor do mundo. Apesar dos momentos limitados que os Mestres de Estações podiam interagir, sempre fora Verão que esteve ao seu lado quando mais precisou.

— Como desejar, majestade — Ele se limitou a aceitar.

O Mestre das Flores recuou alguns passos até que pudesse virar as costas, quando a voz de anúncio ecoou novamente.

“Mestre Primavera, Rei Derretido, Segundo Filho do Sol, Servo de Dia… E Talvez o homem mais bonito dos quatro reinos, parte”

Silenciosamente, ele estava satisfeito.

Por alguns segundos imaginou que realmente poderia se encontrar com Inverno sem nenhum problema até chegar o dia de ver Verão.

O ingênuo rei nunca esteve tão errado.

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16 de Maio de 2021 às 13:59 0 Denunciar Insira Seguir história
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