nuvenzinhas Infinity Clouds

As vezes não encontramos um lugar para chamar de nosso e mesmo que possa existir, fazemos de tudo para não encontrar ou nos conectar, porque ainda queremos conhecer o mundo. S/n sentirá o que é estar conectado á alguém, e então, sempre retornará ao mesmo lugar na esperança de encontrar um lar.


Fanfiction Bandas/Cantores Todo o público. © All right reserved

#bts #kimtaehyung #escritora
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Capítulo 1 - Aonde você está?

Lembro-me da última vez que vi minha mãe, ela estava apagando a luz, que iluminava a varanda da casa de minha avó, fiquei ali parada na estrada de terra esperando aquele momento. Esta foi a última lembrança que tive dela, desde então o ciclo de lembranças foi interrompido. Não, ela não morreu, mas provavelmente deve ter alguma crise por não saber o paradeiro exato da filha. Mantenho contato com ela para acalmar os ânimos, mas não digo a localidade exata, isso acontece duas vezes por semana apenas para dizer “Não se preocupe, estou bem!” e sempre ouço algum tipo de sermão. Ela sabia que eu faria isso, dava sinais dessa minha fuga sempre que falávamos sobre viagem.

Ela deveria ter se preparado, porque quando coloco algo na cabeça eu arrumo um jeito para se realizar. Isso se chama teimosia, mas vale a pena ser teimosa. Persistência? Talvez, pode até ser se for olhar para esse lado. Mas a crise existencial que persiste dentro de mim é influenciadora para esta fuga, então, diria que seja teimosia. Os únicos momentos que mantenho meus dois celulares ligados são, quando estou com hora marcada pra conversar com minha mãe, minha agente literária ou com a secretária, só esses momentos já bastavam.

As vezes sinto que abandonei ela sozinha, mesmo que tenha minha irmã e minha sobrinha por perto, mas por eu ser a única solteira dos filhos sinto que eu sou a única família que resta para ela. Tento não pensar desta forma, mas me pego pensando assim. “vai demorar muito pra voltar? Seus irmãos querem saber onde você está!” disse ela. “Deveriam se preocupar com os próprios filhos!” retruquei. Esse também é um dos motivos por eu estar longe, tenho alguns parentes que acham que ainda tem o dever de se intrometer na vida dos outros. É um mau hábito. Eu praticamente ignoro qualquer tipo de comentário pretensioso.

Nunca fiquei mais do que dois meses em um só lugar, ou país. Meu inglês é simples demais para conseguir manter uma linha de conversação, uso apenas para conseguir as necessidades básicas do tipo dormir e comer. Nada mais que isso. Também não sinto a necessidade de conversar com alguém, não sei o que falar. Gosto de pensar que as pessoas precisam de um pouco de silêncio, tá certo estou em uma cidade movimentada, mas o silêncio não se baseia apenas em estar num ambiente silencioso, também está relacionado com “se estar sozinho num ambiente desconhecido”. Conheci a Melanie Denski, duas semanas atrás. Uma inglesa que sempre morou no Brasil desde os seis anos de idade. Ela sofreu um acidente de carro e teve que viver a vida numa cadeira de rodas, e mesmo assim persiste em querer conhecer o mundo sem se importar com a situação. Amei a determinação dela, era precioso e contagiante. Depois de duas semanas descobrindo a cidade, deixei ela por conta própria e segui o meu caminho.

Gostaria de saber o que essas pessoas estranhas estão pensando. Elas estão na mesma cafeteria que eu, ocupados com computadores, jornais, tablets... Será que também sentem as mesmas vontades de arrumar as coisas e fugir? Talvez eu esteja pensando demais.

“Moça, aqui está o seu café!”

Acho que era isso que a garçonete havia dito, meu inglês só funcionava com diálogos curtos, é uma pena que as pessoas não vêm com legenda. Agradeci, já que ela estava com a minha caneca em mãos, era sinal de “aqui está o seu café.” Novamente sozinha, olhando pelo vidro enquanto a fileira de carros, e alguns pedestres apressados, corriam devido aos primeiros pingos de chuva que ameaçavam cair. “É melhor correr ou chegarão derretidos em seus destinos.” Comentei silenciosamente. Retornei a lembrança da última noite em casa, minha mãe apagando a luz da varando, a noite estava neblinando. Ela me perguntou se eu queria levar o guarda-chuva para poder ir embora. Recusei, mas como a chuva estava muito forte, retornei e peguei o objeto. Espero que ela tenha devolvido, minha vó não é uma mulher fácil de se lidar, então, todo objeto que sair tem que retornar dois dias antes de ter saído. É uma lógica absurda, mas que serve muito bem para ela.

Não me apresentei da forma correta, meu nome é S/n. Sou formada em pedagogia, tenho diploma em psicologia da educação e minha vida está inteiramente envolvida nesta área. Porém, estou longe de aplicar tudo o que eu aprendi. O motivo seria, "tenho que estar em algum lugar onde eu possa me encontrar". Às vezes me pego em alguma escola, envolvida em algum projeto rápido. Tenho um segredo, mas ninguém tem interesse em saber. Sou escritora que utiliza um pseudônimo, e devido ao anonimato, posso viajar e viver tranquilamente sem interrupções. Apesar do inglês precário, sei me virar muito bem com o coreano, um dos idiomas que eu mais amo em aprender.

Sydney é um lugar acolhedor. Pena que eu não iria ficar por muito tempo, ou eu teria uma rotina bem cansativa. Já tive rotinas e todas as vezes que eu olhava para a porta de saída sentia vontade de escapar e ir embora. Não daria certo ficar por aqui, já que eu estava fugindo da mesmice. Uma dica valiosa, nunca se apegue com facilidade ou estará preso no lugar encantador. Já pensei várias vezes em ficar nos encantos de alguma cidade, mas sempre retorno a lembrança que presenciei de uma moça tendo crises de ansiedade, em um ponto de ônibus. Explicando melhor, ela trabalhava em uma grande empresa de São Paulo, tinha muitas atividades e estava sobrecarregada com o trabalho. As pessoas tentavam se aglomerar para ver a situação, apenas curiosos. Alguns diziam que era frescura, outros apenas assentiam calados. Pedi espaço, caso estivessem ali apenas para julgar ser real ou um ato para chamar atenção, “Com certeza ela não seria tão extrema para passar vergonha em público assim, não faz sentido!” Tentei convencer um rapaz boa pinta. Mas desisti, já que estava desperdiçando saliva, palavras e tempo, meu foco era aliviar todo o sentimento de afogamento e sensação de peso. Simplificando, é com essas lembranças que desisto de ficar por muito tempo.

A chuva ainda caia do lado de fora, desta vez alguns preparados passavam por ali em seus guarda-chuvas, provavelmente assistiram ao noticiário sobre a meteorologia para aquela manhã, exceto os primeiros apressados. Marcele acabara de chegar, o carro preto estacionou no meio fio. Por exigência da minha agente, teríamos que ter um motorista particular nos lugares que estaríamos. E Sidney não era diferente. “Está caindo um pé d’água.” Ela se jogou na cadeira. Um sorriso pretensioso estava se formando, demorou muito pra me encontrar, mas lá estava ela. Sorrindo. Isso assustava. Ela era mais alta do que eu, os cabelos lisos e negros batiam no ombro. Pele clara que acabara de pegar um bronzeado. A danada estava na praia.

“Vai pedir algo, Senhorita?”

A garçonete de antes se aproximou, e mal sabia ela que aquela mulher já era senhora, só não usava a aliança. Vai entender, muitos não usam. Marcele pediu um café preto com muito açúcar, e uma boa quantidade de cupcakes.

“Estou esperando você dizer algo, mas parece que veio só para sorrir. – a encarei sobre caneca. – E desta vez demorou pra me encontrar.”

“Laura estava confusa com as dicas! – ela retirou uma pasta da bolsa. – vai ficar quanto tempo aqui?”

“Estarei indo embora amanhã, tenho uma palestra a apresentar no Rio de Janeiro. – Encarei a pasta. – Veio aqui pra isso?”

Era sempre assim. Passava uma temporada sem ter que me envolver com os livros, despreocupada. Ou envolvida com palestras sobre educação. Pensando bem, quando estou escrevendo considero como férias. Apesar de ter trabalhado em uma escolinha infantil, aqui na Austrália, aproveitei para escrever algumas linhas do novo livro.

“Não exatamente, – ela abriu a pasta. – um dos sócios da editora está vendendo a parte da empresa.”

“Anderson deveria comprar!”

Comentei. Não era algo que pudesse me preocupar, passei parte do meu tempo impulsionando os meus livros. Claro, com a ajuda da internet, até conhecer Marcele e mudar completamente. Porém, continuei anônima e utilizando um pseudônimo. Não achei que seria uma boa me envolver com alguma coisa na editora que me presta serviço.

“Ele não pode, - um sorriso cheio de ideias era aparente. – o sócio está pedindo um valor alto. Então, ele veio com uma ideia de você comprar a parte à venda e ele comprar de você por um preço razoável.”

“Se eu comprar não irei vender por um valor abaixo do que comprei. – peguei os papéis. – Isso seria muita burrice. Só irei vender se ele tiver o valor que eu exigir.”

“Imaginei isso, você entende muito bem sobre o mercado. Não é atoa que sempre anda investindo o seu dinheiro. – ela me entrega a caneta preferida. – Preciso que assine esses papéis, para liberar mais uma tiragem do seu livro. E aqui estão as papeladas da parte à venda da editora, pense com carinho. Seria uma boa ser sócia da editora Max, assim não teria problemas com prazo e lançamentos. Cairia perfeitamente com o seu estilo de vida, uma livre viajante.”

Soou convidativo aquela ideia. Marcele sabia muito bem como utilizar as palavras, mas eu estava inclinada a rejeitar mesmo que o discurso tenha sido eficiente. Depois de ter assinado os documentos para liberar mais uma produção dos meus livros, deixamos a cafeteria para trás. Entrei no carro partindo para o meu pequeno quarto depois de deixar Marcele no hotel, onde havia se hospedado. “Agora entendi o motivo da Laura ter comprado duas passagens de volta ao Brasil.” Ela comentou antes de chegarmos ao hotel. Estaríamos retornando juntas pela primeira vez depois de muitos anos, após isso era cada um por si.

Sydney é fantástica, nunca vi praias e pontos turísticos tão brilhantes como aquela cidade. A Austrália tem seus encantos e eu não posso negar, mas era preciso me desapegar. Apesar da beleza não senti que era um lugar para morar. Também não esperava ter tal sentimento. No dia seguinte, coloquei minhas malas no carro, pegamos a Marcele no hotel e me dirigi para o colégio onde eu trabalhava. Não era um trabalho que me prendia, eu era apenas monitora, ficava observando as crianças no período dos intervalos.

“Não achei que iria se demitir tão rápido.”

A diretora comentou frustrada.

“Também não achei, Diretora. – Esfregava minhas mãos, ansiosa para sair. – Mas preciso resolver algumas coisas.”

Como eu havia dito, meu inglês não era dos melhores, mas eu conseguia uma comunicação robótica. Ensaiei muito na noite anterior. Consegui sair sem muito choro e drama. Os adultos nem ligavam para mim, exceto as crianças, mas elas não presenciaram a minha despedida e dali mesmo parti para o aeroporto. Estarei retornando ao Brasil, mas minha mente já estava planejando a minha fuga.

15 de Maio de 2021 às 02:52 0 Denunciar Insira Seguir história
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