kaka_leda Kaka Léda

♔Duas one shots inspiradas em Black Swan, música do BTS ♔Sumário: • SWAN( #VMin ): Park Jimin é um bailarino bem sucedido que, aos poucos, está perdendo o amor pela dança, devido às pressões e exigências de seu público. Ao som de "Lago dos Cisnes", Taehyung, um rapaz misterioso e sobrenatural que parece obstinado a mostrar ao jovem bailarino uma nova perspectiva sobre as exigências do mundo e sobre os julgamentos do público, ajuda Jimin a recuperar o artista que ainda permanece vivo dentro dele. • PAS DE DEUX( #JiKook ): Durante o baile de aniversário que marca o fim da juventude de Jimin, um peculiar jovem com asas negras como nanquim o tira para uma dança que trará à tona memórias de uma época esquecida. VMin | Jikook ~ Alerta de gatilho: Menção a suicídio


Fanfiction Bandas/Cantores Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#ballet #kookmin #btsfanfic #taeji #btsfic #jikook #lagodoscisnes #vmin #lagodoscines #blackswan
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♔ SWAN ♔

O meu coração não bate quando escuta a música tocar… Parece que o tempo parou...


Acima das grandes portas de entrada do teatro, jazem gravadas as palavras de Martha Graham, em letras ocidentais e coreanas, atraindo olhares de qualquer um, conquistando, inclusive, o rápido vislumbre dos leigos desinteressados.

“Um dançarino morre duas vezes – Uma vez quando ele para de dançar, e essa primeira morte é a mais dolorosa.”

A frase da dançarina americana é quase tão famosa quanto a mesma, e não é realmente necessário explicar o porquê disso: O seu significado perturba.

Em resumo, a pior coisa que pode acontecer àquele que ama e respira arte é acabar adormecido diante dela, como um pintor cego em meio a um horizonte de cores.

Ficar inerte diante daquilo que te inspira a viver, feito um corpo sendo levado pela maré escura de um mar isolado, enquanto há embarcações seguras ao seu redor.

Enfim, a perda do prazer.

No passado, as palavras de Martha me confundiam um pouco. Eu compreendia o que ela queria dizer com aquilo, e, ao mesmo tempo, não o fazia.

Agora, evitar levantar os olhos para ler essa frase era uma tarefa que eu me dedicava a realizar diariamente, durante a minha entrada e saída daquele teatro.

Saber que, atualmente, cada sílaba do que Graham falou poderia me caracterizar era uma das piores sensações possíveis.

Para começar, ser bailarino profissional era o meu desejo infantil, o qual ganhou estruturas, cresceu rapidamente e agora está mais aflorado do que nunca.

Encontro-me, então, sendo um dos principais dançarinos da Academia de Dança Coreana, com shows marcados para o resto do ano, além de uma centena de entrevistas com jornalistas, os quais exibiriam o meu rosto em diversas capas de revistas bem conceituadas e painéis expostos pelos centros urbanos mais movimentados da Coréia.

A primeira vez em que pisei num palco, o meu corpo soube de imediato o que fazer. A música guiava os meus passos, porém, mesmo se não houvesse melodia, eu ainda estaria flutuando e exalando todos os meus sentimentos mais internos através de movimentos corporais.

Hoje, toda essa euforia parecia ter se enterrado no poço mais profundo de meu cerne. Subir ao palco assemelhava-se a uma obrigação rotineira, a uma meta que eu deveria satisfazer constantemente.

Quanto tempo faz desde que eu parei de sentir? Para falar a verdade, eu nem me lembro de quando morri pela primeira vez…

No início, o público me olhava com curiosidade.

Depois, ele me aplaudia arduamente.

Agora, os seus olhos se mostravam exigentes.

Devido a isso, a parte divertida de dançar foi sendo mutilada pelo meu anseio em ser perfeito, para satisfazer os olhares da plateia.

A paixão gradualmente se esvaiu de dentro de mim.

Foi então que eu despertei chorando numa manhã, com o ar fugindo de meus pulmões, o corpo tremendo inteiramente e uma sensação sufocante de vazio me corroendo a alma.

Olhei para o lado, avistando as sapatilhas de ballet sobre a minha mesa de cabeceira, e as peguei, abraçando-as contra o meu corpo.

Levantei-me da cama, troquei os pijamas pelas roupas de dança e corri porta a fora do apartamento. O céu estava escuro e as vielas estreitas cobertas por neblina. O ponteiro do relógio marcava 4 horas da madrugada, portanto, não haveria pessoas em meu caminho, o que me permitiria voar como o vento até o teatro.

Quando cheguei lá, notei que o edifício teatral, alto e lustroso, parecia abandonado ao ser maculado pelas sombras da alvorada. Anos frequentando aquele espaço me permitiu ter as chaves dos portões, por isso, eu adentrei o teatro como se estivesse entrando em minha própria casa.

Como esperado, lá dentro estava completamente vazio.

Liguei as luzes do maior palco e me sentei sobre o seu piso de madeira escura, cruzando as pernas enquanto abrandava as pulsações de meu coração angustiado, respirando fundo e limpando a mente devagarinho.

O que é isso? Eu pensei, mesmo já sabendo a resposta.

Aquela não havia sido a minha primeira crise, ela apenas parecia mais intensa do que as anteriores.

Calcei as sapatilhas, busquei o celular e coloquei a playlist de música clássica no aleatório, esperando por uma melodia que finalmente conseguisse me despertar algo. Qualquer coisa. Qualquer mísero impulso.

A faixa principal de Lago dos Cisnes começou a ecoar pelo teatro. As paredes do recinto, por serem revestidas com um tipo específico de tecido vermelho, promoviam uma ótima sonoridade.

Eu soltei o ar pela boca e então saltei para dar o primeiro passo, iniciando, assim, a dança de Odette, o Cisne Branco.

O meu corpo conhecia aquela coreografia de cor e salteado, devido às dezenas de vezes em que performei a peça pelos palcos coreanos e até mesmo em alguns internacionais. Não havia nada de novo, nenhum gesto impetuoso ou giro mal feito.

Cada centímetro de meu corpo se movia de maneira milimetricamente bem executada, pois somente assim eu poderia me apresentar às massas.

É tedioso – uma voz masculina e grave surgiu e se elevou acima da música orquestrada.

Em seguida, sons de risos ressoaram por todo o palco. Eu parei de dançar no mesmo instante, encolhendo-me assustado, olhando para todos os lados freneticamente, o coração batendo forte no peito.

– Q-quem está aí!? – eu exclamei, assustado. Aquele lugar deveria estar vazio.

Eu vou dizer… Se você dançar de verdade – a voz respondeu num tom repleto de zombaria.

Agora já recuperado do susto, eu bufei e balancei a cabeça de um lado para o outro, com raiva.

Deve ser algum paparazzi maluco, não seria a primeira vez que eles aparecem aqui de repente...

– Eu estava dançando de verdade… – resmunguei baixinho, pegando o meu celular para pausar a música e guardá-lo novamente. Depois daquela interrupção, eu iria para casa.

No entanto, as luzes do palco se apagaram – ou foram apagadas – e tudo se afundou num completo breu.

– O-o que pensa que está fazendo!? – eu disse, ficando tenso. A minha mão já se movia até o celular para acionar a polícia.

Aquilo foi cinza – a voz, que antes parecia distante, desta vez surgiu ao lado de meu ouvido esquerdo, sussurrando devagar. Se a situação não fosse tão sinistra, ela me soaria sedutora.

No mesmo instante, o celular foi puxado de minhas mãos, sumindo em meio à escuridão. O desespero começou a se instaurar dentro de mim.

– Co-como assim “cinza”? – eu decidi iniciar uma comunicação com essa pessoa, pois, certa vez, li na internet que assassinos podem acabar poupando as suas vítimas se gostarem delas.

Cinza… Nem preto e nem branco, apenas cinza. Mediano. Medíocre. Maçante – a voz ecoava de todos os lados, como se aquela pessoa estivesse me rodeando.

Eu engoli em seco.

– E o que se-seria bom para você? – gaguejar era inevitável, o medo me consumia.

A pessoa por trás das sombras ficou em silêncio, como se estivesse pensando em qual resposta me dar.

Por fim, eu senti a aproximação de um corpo, o qual tocou a superfície de minhas costas levemente. Eu tremi.

Dance de verdade – aquele tom grave balançou os meus tímpanos.

Era como se a boca daquela pessoa, que eu suspeitava ser um jovem rapaz, estivesse colada ao meu ouvido. Um misto de calor e frio, vindo dele, percorreu o meu corpo, eriçando os meus pelos.

A luz central do palco foi ligada. Depois, dos alto-falantes espalhados pelas paredes começou a sair outra melodia de Odette.

Eu não sabia qual era o tipo de pessoa com quem eu estava lidando, então obedeci à ordem daquele rapaz e voltei a dançar. Desta vez, contudo, o meu corpo tremia de medo, eu não conseguia parar de imaginar a possibilidade de aquele estranho estar na escuridão, com uma arma apontada para mim, pronto para me matar a qualquer instante.

A minha única escolha era seguir os seus desejos e tentar golpeá-lo de alguma forma quando ele se aproximasse de mim mais uma vez.

Devido ao terror, os meus passos vacilaram ao longo da coreografia, evidenciando o tremor em minhas pernas e a instabilidade de meu corpo. Aos poucos, o semblante de medo sobre a minha face foi se tornando mais aparente.

Bravo! – a pessoa aplaudiu, e a música cessou.

Eu paralisei quando ouvi os passos dele se aproximando de mim.

A figura masculina foi iluminada pela luz, que desenhou o seu corpo e me revelou todos os seus traços.

Como eu já suspeitava, o dono daquela voz grave e suave era um rapaz. O seu corpo alto e magro me forçava a olhar um pouco para cima. A pele refletia os feixes de luz, tornando-o um ser quase etéreo; ela parecia assustadoramente pálida se comparada aos seus cabelos e olhos, os quais brilhavam negros como ônix. Ele vestia um casaco grande e um pouco estranho, porém elegante, que era coberto por penas escuras e se arrastava pelo chão, como se fossem asas fechadas formando uma capa.

O sorriso atrevido e o olhar intenso em sua face me fez pensar nele como a versão masculina de Odile, a Cisne Negro.

– Bravo…? – a minha voz quase não saiu, mas eu precisava mantê-lo distraído com algum diálogo, então me esforcei para falar.

Sim. Bravo! Você dançou de verdade – ele balançou os ombros e colocou as mãos nos quadris, numa pose de satisfação.

– A-ah… Obrigado – eu me sentia confuso, mas isso não era tão importante no momento – E-eu já posso ir embora agora? – ousei perguntar, talvez ele estivesse de bom humor e me deixasse partir.

Pode… Se souber me explicar o significado de “Dançar de verdade” – ele exibiu os dentes.

A minha boca secou. Como eu responderia àquilo? Em minha cabeça tudo o que fiz foi cometer erros e tremer durante a performance. Apenas um louco chamaria isso de “Dançar de verdade”.

Decidi pensar em um plano B. Analisei rapidamente as suas vestes e mãos. O rapaz não parecia estar segurando armas, talvez elas estivessem escondidas entre o casaco de penas, mas até que fossem pegas, eu ganharia alguns segundos para correr.

E foi o que fiz no final.

Eu conhecia a estrutura daquele teatro há anos, poderia andar por ele de olhos fechados, então fugir pela escuridão não seria impossível. Essa na verdade era a minha maior vantagem, já que aquele maluco não conseguiria mirar em mim com uma arma de fogo enquanto eu estivesse protegido pelas sombras da noite. E se ele decidisse me perseguir com uma faca, ou algo do tipo, o meu corpo treinado poderia facilmente escapar numa correria.

Saltei do palco e transferi todas as minhas forças às pernas, para correr o mais rápido possível. Atrás de mim, a luz do palco se apagou, e eu não escutei mais nada, nem som de passos e nem a voz dele.

O silêncio absoluto era o que mais me desesperava.

Ele não vem atrás de mim!?

Ele vai me deixar fugir!?

Após percorrer os corredores sem iluminação do teatro e me aproximar da área onde ficavam os portões de saída, eu permiti que um sopro de alívio me abraçasse.

Você ainda não me respondeu – a voz dele surgiu de súbito, e, no segundo seguinte, eu esbarrei em algo macio.

Eu arregalei os olhos, tentando diferenciar as coisas ao meu redor, mas a escuridão era profunda. Fui novamente arrasado pelo terror.

Eu vou morrer, foi a primeira coisa que pensei.

Eu não vou te matar, então não precisa virar um patinho assustado… – ele disse, dando risadinhas.

Senti aquele jovem se aproximar de mim, o seu rosto encostando na lateral do meu, aproximando os lábios.

Vire um cisne, Park Jimin – ele sussurrou. A sua voz fluiu com o ar, provocando ecos em minha mente – Vire um cisne esplêndido, como um dia você já foi...

– Q-quem é você!? – eu gaguejei, o meu coração estava praticamente na garganta.

Hmmm, já que você dançou de verdade, eu vou te contar. Foi a minha promessa, afinal de contas – ele respondeu calmamente, os seus passos me rodeando. Eu quase podia sentir o seu olhar sobre mim, analisando-me, mesmo em meio à escuridão – O meu nome é Kim Taehyung, e é só isso o que você precisa saber, por enquanto… – comecei a sentir a minha mão ser envolvida pela dele – Venha comigo.

– Não me-mesmo! – eu puxei o meu braço de volta e recuei vários passos.

Mas como se fosse a minha própria sombra, o rapaz que se autointitulou Kim Taehyung surgiu novamente atrás de mim, e pôs as suas mãos sobre os meus olhos.

Então eu vou te levar até lá – ele sussurrou, encostando a bochecha na minha. Pude sentir os músculos de seu rosto se contraindo, provavelmente formando um sorriso.

No momento seguinte, Kim Taehyung descobriu os meus olhos. Com isso, fui atingido por uma iluminação intensa que machucou as minhas pupilas acostumadas ao breu.

Depois de alguns segundos, quando finalmente consegui enxergar de novo, vi que eu me encontrava em pé sobre o mesmo palco de antes. Ele, contudo, tinha todas as suas luzes ligadas, e a plateia estava lotada, como numa noite de performance. Mas aquilo não parecia real, o público me observava com rostos inexpressivos, a iluminação confundia os meus sentidos, dando a impressão de estar dentro de um sonho.

Park Jimin… Você sabe me dizer qual era a música que estava tocando quando lhe mandei dançar pela segunda vez? – Kim Taehyung saiu detrás das cortinas que separavam o palco dos bastidores. A sua aura sombria entrava em contraste com tanta luz e esplendor.

– A música… Era a faixa em que Odette e suas companheiras são enfeitiçadas pelo feiticeiro Rothbart e transformadas em cisnes – eu respondi, ainda um pouco atordoado.

Isso… E sabe por que você dançou de verdade? – Taehyung ficou diante de mim, encarando-me tão intensamente que eu fui obrigado a desviar o olhar.

– Não… Eu fui tão falho…

Negativo. Você não errou os passos, nem os giros e nem os movimentos das mãos. Mas você tremeu e hesitou. Você expôs o medo que estava sentindo em cada movimento, mesmo que inconscientemente – o jovem explicou, a sua voz era tão suave que se tornava melódica – Você representou Odette e as demais vítimas de Rothbart da maneira mais real que eu já vi, evidenciando os anseios e temores que elas provavelmente sentiram quando foram amaldiçoadas. Transformar o que você sente em arte e transmití-la tão bem para o espectador é algo que artistas fazem. E isso que você fez, Park Jimin, é o que chamo de “dançar de verdade”.

Eu levantei a cabeça, voltando a encará-lo, arregalando os olhos ao máximo.

O vazio que eu estava sentindo no início daquela manhã de repente foi preenchido com algo, algo pequenino e quente, talvez um sentimento feliz, ou apenas o vislumbre de um.

Kim Taehyung agora me observava com um olhar um pouco entristecido.

Você acredita que perdeu essa capacidade, não é? – ele tocou o meu peito com uma palma – O que está morto não pode ser revivido, mas isso dentro de você ainda não morreu.

– Co-como você…? – eu ia falar, mas fui imediatamente interrompido pela orquestra que iniciava a música do terceiro arco de Lago dos Cisnes, quando Odile e o príncipe Siegfried dançam na corte real.

Kim Taehyung segurou a minha mão de repente e girou-me. Quando voltei a estar de frente para a plateia, as minhas vestes comuns de dança haviam sido substituídas pela fantasia masculina do Cisne Negro, eu conseguia sentir, inclusive, a maquiagem sobre o meu rosto, completando o vestuário perfeitamente.

– Você espera que eu dance esse arco agora?... – eu perguntei, engolindo o ar e cerrando os punhos – Por mais que antes eu tenha conseguido ser bom, aquilo não foi planejado. O Cisne Negro é seguro de si, ele representa o que é desejado, ansiado e invejado. Nas performances eu consigo executar cada passo perfeitamente, mas aqui, neste momento… Eu não conseguirei alcançar as suas expectativas.

Kim Taehyung sorriu com os lábios fechados, arqueando uma sobrancelha para mim.

– Você está angustiado… É claro que irá conseguir desempenhar o papel do Cisne Negro – ele falou.

– Isso não faz nenhum sentido…

– Olhe para a plateia – Kim Taehyung virou a cabeça na direção do público, e eu o acompanhei – Agora me diga: O que está te angustiando realmente?

Refleti um pouco sobre aquela questão.

Eu sempre internalizei que a angústia havia brotado dentro de mim por causa da minha falta de capacidade. Satisfazer o meu público era a minha meta diária, entregar a mais perfeita das performances enraizou-se em mim como um desejo frequente. O meu amor virou trabalho, o meu trabalho não era mais por amor.

Mas a culpa dessa sensação de insuficiência é apenas sua, Jimin? Uma voz pairou pela minha mente, deixando-me zonzo.

– Não… – eu acabei respondendo alto. Uma raiva começava a crescer dentro de mim.

Os meus olhos se estreitaram para as pessoas que me assistiam da plateia. Os seus rostos agora pareciam sustentar olhares julgadores, como se esperassem por qualquer erro meu para que pudessem, enfim, apontar os seus dedos. Eles não me observavam como um humano, mas como uma máquina de dança que deveria ser nada menos do que… Perfeita.

A culpa é deles, eu trinquei os dentes.

Faça o que tem que fazer – Kim Taehyung falou após verificar a minha reação com um olhar satisfeito – Faça a sua cena comigo, agora. Mostre para eles… Provoque-os… Enfrente-os…

Os instrumentos da orquestra elevaram o volume da melodia, dando ênfase ao clímax do terceiro arco e atraindo-me com ao seu fervor.

Agora Kim Taehyung era o príncipe e eu o Cisne Negro. Dançando em par, nós dois reinamos sobre o palco, ele me auxiliando durante os saltos e giros, envolvendo a minha cintura e o meu quadril com as suas longas e firmes mãos.

O ritmo agitado da música clássica fez eclodir os sentimentos que haviam sido profundamente reprimidos em meu âmago.

Eu dançava diante daquele público inexpressivo com um sorriso repleto de escárnio, movimentando-me feito um pássaro afoito que voava tempestade adentro, gritando para eles na forma de passos e piruetas frenéticas, mostrando a minha exaustão pela rotina, pela exigência e pela pressão.

Odile enlouqueceu o príncipe, mas eu enlouqueceria os espectadores.

Eu sou um artista que ainda não morreu!

Perfeito… Isso sim é perfeito – Kim Taehyung falou isso com um suspiro, após a música chegar ao seu fim e nós pararmos de dançar. Ele me observava com ternura, a sombra de um sorriso feliz pairou sobre os seus lábios.

– Obrigado… – eu desviei o olhar para o chão, um pouco acanhado com aquele elogio e, ao mesmo tempo, estranhamente feliz. Feliz de várias formas distintas.

Quando pisquei os olhos, o teatro voltou a ficar escuro com apenas uma luz iluminando o palco. As minhas roupas normais havia retornado ao meu corpo, e a maquiagem sobre o meu rosto também parecia ter sumido.

Agora você pode ir – a voz dele ressoou através da escuridão. Eu não conseguia vê-lo, e isso me incomodou de uma maneira diferente.

– Espera!... O que você é? Tipo… Quem é você de verdade? Eu não quero saber apenas o seu nome… – eu disse apressado, com medo de que ele fosse embora sem eu perceber.

Escutei Kim Taehyung soltar uma risada melancólica.

Deixe isso para depois. Volte para casa e durma… Você irá se apresentar aqui mais tarde, não é? Então precisa descansar bem… – ele disse. Em seguida, o rapaz apareceu em minha frente e inclinou o rosto para ficar na mesma altura do meu, aproximando os nossos lábios num beijo rápido e quente.

Kim Taehyung desapareceu logo depois, deixando-me completamente atordoado e sozinho naquele teatro.

Fui para casa como ele sugeriu, ainda bastante zonzo com os recentes acontecimentos, sem saber ao certo se tudo aquilo tinha sido um sonho ou se eu havia enlouquecido completamente, tendo ilusões e delírios.

Entretanto, diferentemente de como o meu espírito estava se sentindo no início daquela madrugada, eu agora era a leveza em pessoa, conseguindo respirar profundamente, sem nenhum peso nas costas, sentindo-me suficiente pela primeira vez depois de muito tempo enfiado num martírio pessoal.

Após longas horas de sono e de pleno descanso, despertei com um sorriso e uma peculiar sensação de ansiedade para a performance que eu executaria no final da tarde daquele dia.

Há quanto tempo eu não me sentia assim? Refleti enquanto me arrumava para ir ao teatro.

Quando cheguei ao edifício teatral, reparei em várias coisas novas e bonitas que antes os meus olhos não conseguiam captar, como a pintura nova das colunas que sustentavam o hall de entrada, ou as plantas podadas que decoravam o saguão da bilheteria juntamente com as recém-colocadas estátuas de mármore.

O meu rosto era exibido no painel principal do teatro. Analisando mais uma vez aquela foto, notei que ela mostrava um Park Jimin atormentado, com o olhar sem brilho sendo ofuscado pela maquiagem da fantasia.

Eu queria agradecer à Taehyung por ter me trazido esse brilho de volta.

Como posso encontrá-lo? Perguntei-me em pensamentos.

A resposta não veio, mas algo apareceu para mim enquanto eu me dirigia ao camarim.

Os funcionários da limpeza estavam terminando de esvaziar alguns depósitos do teatro, tirando velhos cenários que já não serviam para serem montados sobre o palco de uma apresentação.

Uma mulher empurrava um carrinho com algumas caixas, os meus olhos analisaram o conteúdo delas rapidamente, mas foi tempo suficiente para que a minha visão capturasse algo entre as velharias.

– Com licença, ahjumma… Eu posso ver isso? – eu perguntei, já enfiando a mão dentro da caixa para tirar um porta-retratos lá de dentro.

Havia uma foto bem antiga nele, ela estava comida pelas traças e maculada pelo tempo. Isso, contudo, não manchava a imagem da pessoa que havia sido fotografada.

– Kim Taehyung…? – eu murmurei, perplexo por estar vendo uma foto do garoto que havia aparecido para mim naquela madrugada.

Então ele existiu mesmo? O que está acontecendo…??

– Ah, Kim Taehyung… Eu conheço esse nome. Sim, sim… – a mulher pegou a foto de minhas mãos – Ah, realmente é ele! Era um bom menino… Tsc, é uma pena.

– Uma pena por quê? – eu franzi o cenho, sentindo o meu coração bater bater mais depressa.

– Antigamente, esse garoto era a nossa principal estrela, rapaz, assim como você é hoje – ela apontou para a foto com um olhar triste – Ele dançava muito bem, era impressionante, mas vivia chorando pelos cantos…

– A senhora sa-sabe o porquê? – um peso começou a tomar de conta de meu peito.

– Não, mas uma vez eu escutei ele gritando dentro do camarim. O pobrezinho dizia que estava cansado… Eu não sei se estava cansado de dançar ou se era por causa de outra coisa – a mulher explicou, os seus olhos começavam a ficar levemente vermelhos, encarando um horizonte inexistente – Uma semana depois o corpo dele foi encontrado no palco. A polícia disse que ele mesmo provocou isso… Foi terrível para todos nós. Eu era uma funcionária novata na época, fiquei tão assustada e sem entender nada…

Eu perdi o equilíbrio por um segundo. Todas as palavras haviam sumido de minha boca, eu só conseguia ouvir as pulsações de meu coração pesado e a minha respiração descoordenada.

– O-obrigado por me explicar, ahjumma… Eu tenho que ir para o camarim – falei apressado, pegando para mim a foto de Kim Taehyung antes de andar para longe pisando em falso três ou quatro vezes.

Quando cheguei lá, sentei-me diante do espelho e passei as mãos pelo cabelo, encarando a fotografia diante de mim.

– Po-por quê? – gaguejei, esfregando os meus olhos pesados e vermelhos.

Um instante depois, as luzes do camarim se apagou, restando acesas apenas as luminárias do espelho.

Venho te observando há alguns anos, Park Jimin… A sua dança me impressionou desde o primeiro dia. Esse é o porquê – a voz de Kim Taehyung veio de trás. Quando levantei os olhos, vi o rapaz refletido no espelho, em pé e atrás de mim.

Virei-me no mesmo instante, mas ele não estava lá de verdade, a sua figura aparecia apenas no espelho. Concentrei-me então somente na imagem refletida para ver o rosto dele. O meu coração dava saltos inconstantes, mas não era por medo, nem mesmo por terror. Kim Taehyung sorria, e isso estava espantando qualquer sentimento de assombro que tentava me alcançar.

Pelo reflexo, vi o rapaz me abraçar por trás, colocando os braços ao redor de meu pescoço, encostando o queixo no topo de minha cabeça confortavelmente.

Eu morri duas vezes, Jimin… Não quero que você morra nenhuma vez sequer – Taehyung sussurrou, a sua voz etérea e suave me atingiu como uma brisa calma.

As luzes retornaram ao camarim, o rapaz já não mais aparecia no espelho e eu tinha a triste sensação de que não o veria mais.

Abaixei a minha cabeça até encostar na mesa do camarim, as lágrimas molhando as minhas bochechas.

– Obrigado, Taehyung… – foi tudo o que consegui dizer, mas eram as palavras mais sinceras do mundo.

Fim

14 de Maio de 2021 às 19:32 0 Denunciar Insira Seguir história
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