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Milena Volpato


Em Flint Hills as coisas parecem ficar cada vez mais estranhas. Hollie é atormentada frequentemente pelos seus sonhos, desde pequena. A sua vida nunca mais será normal depois das grandes descobertas que fará a respeito de si mesma e o mundo que ela sempre achou que conhecia bem. Algumas pessoas que a amam serão afastadas independente da sua escolha. Essa garota extraordinária vai conhecer alguém muito importante que dedicou a sua vida para mantê-la segura até então, e que guarda um segredo valioso. Perdas, guerras, lutas, paixões... muitas coisas irão acontecer, mas será que Hollie vai conseguir aguentar tudo isso até o final? Esta história inicialmente se passa no ano de 1908 em uma cidade localizada no Kansas(EUA).


Ficção científica Viagem no tempo Para maiores de 18 apenas.
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Capítulo 1

As paisagens de Bluestem são admiráveis. Durante toda a minha vida eu nunca me cansei de observar as longas campinas cheias de gramíneas e plantas herbáceas.

O trajeto até Lower Fox Creek School demora cerca de 30 minutos a cavalo e nesta manhã eu acordei mais tarde do que de costume, portanto, espero que Átila seja rápido o suficiente para me fazer chegar a tempo na aula, caso ao contrário a sra. Madeline vai surtar mais uma vez.

A chuva da noite passada deixou o caminho lamacento. A cada pisada que o Átila dava, respingos de barro eram lançados para todos os lados, inclusive no meu vestido.

Chegando em Strong City, a estrada se dividia em três e o rumo que eu precisava percorrer se desviava para a esquerda. Antes de virar, avistei outro cavalo vindo em direção oposta. Conforme nos aproximávamos mais, pude reconhecer a pessoa que o estava montando.

Puxei as rédeas para diminuir os passos.

—Atrasada? —perguntou Marck parando na minha frente.

—Igual a você? —ele se aproximou mais e posicionou-se ao meu lado.

—Tive alguns problemas por causa da chuva de ontem.

—Algo sério? —com um suspiro moveu a cabeça negativamente balançando os cachos negros que pendiam sobre a sua testa, passamos tanto tempo juntos que eu mal tinha percebido o quanto o seu cabelo havia crescido.

—Não! O barro estava impedindo o portão de abrir, tive que dar um jeito.

—Fazia tempo que não chovia assim.

—Sim! E Isso é bom! Pois a seca do ano passado foi terrível, fez o trigo render pouco. —Concordei com um manear de cabeça. —Mas Hollie, precisamos ir! A não ser que você queira ver a sra. Madeline imitar uma cigarra prestes a explodir! —ele tinha razão. Era apavorante imaginar isso acontecendo novamente.

—Então se prepare pra ser o segundo a levar uma advertência! —Falei o desafiando. Em seguida agitei as rédeas e toquei nas virilhas de Átila com os calcanhares fazendo ele avançar rápido para frente. Marck fez o mesmo e a competição começou.

Ambos permanecemos na mesma posição, meu animal podia ser teimoso as vezes, mas acima de tudo era determinado, dizem que possuímos a mesma personalidade. Há três meses que ganhei meu primeiro cavalo e até hoje tenho dificuldades em faze-lo me obedecer, é um desafio para mim quando ele decide não me ouvir. A sua raça Shire é oriunda da Inglaterra. Conhecida por ter um tamanho incomum. Alguns podem chegar até dois metros de altura. Já me ofereceram valores altos por ele pois além da sua postura magnífica e seu físico forte, que o permite conseguir carregar muito peso, possui uma pelagem negra graciosa que o cobre por inteiro, exceto pela mancha branca que escorre da testa até as narinas. Apesar dos preços, eu não o trocaria por nada. Desde quando o vi pela primeira vez senti meu coração ficar mais feliz, como se o universo o tivesse me enviado por algum motivo.

Marck também tem um belo cavalo, costuma treinar ele para trabalhar no campo e fazer viagens longas, portanto esta é uma competição bem difícil. O garoto é meu amigo de infância, minha mãe tem um apego enorme por ele, o trata como um segundo filho, ou seja, a nossa relação fica em um nível entre o amor e o ódio, como irmãos.

Tudo isso começou na escola, éramos duas crianças novas e sozinhas na cidade. Nos juntamos em uma bela manhã para disputar quem era o melhor atirador de pedras a distância e ele ganhou. Mas não paramos por aí, sempre existe algo em que podemos competir.

Quando nossos pais nos buscavam na escola, perceberam o quanto a nossa amizade era forte e minha mãe se disponibilizou a cuidar de Marck, já que seu pai era viúvo e vivia ocupado administrando as colheitas da fazenda em que viviam. Essa é uma das coisas que temos em comum, apenas um dos pais vivos... ou melhor, apenas um membro da família presente, somos os últimos herdeiros da nossa árvore familiar.

A escola já estava a nossa vista. De longe dava para ouvir a gritaria dos outros 13 alunos que esperavam o sino bater.

Conforme chegávamos mais perto, percebi que a gritaria se fazia por uma torcida competitiva. Alguns gritavam meu nome enquanto outros gritavam o nome do meu amigo.

Agitei mais as rédeas o que me fez avançar um pouco mais a sua frente, mas mantivemos a competição empatada até a chegada deixando alguns desapontados por não haver um vencedor.

Desci de Átila e o amarrei em uma das árvores mais próximas. Segundos depois eu estava rodeada por Chloe e Liz, minhas únicas "amigas" que deixam bem claro que só mantém contato comigo por causa do Marck, ou é o que parece, pois o assunto que mais convém elas quando estou por perto é igual o deste exato momento "você viu como ele é rápido?", "Ele fica tão lindo em cima de um cavalo!", "Hollie você pode dizer para ele que eu trouxe cookies...?".

Como sempre, ignorei as duas, não me interessava nem um pouco os comentários sobre o meu amigo. Passei as mãos sobre meu vestido tentando desamassar o tecido que estava terrivelmente marcado. O vento soprou sutilmente uma mecha do meu cabelo, foi então que percebi que o laço havia se desfeito.

Eu estava patética, meu vestido parecia ter sido regurgitado por uma vaca e nem se fala no meu cabelo que estava completamente bagunçado. O que mais poderia piorar? Bem... eu vim estudar, logo as aulas acabarão e todo mundo vai se afastar, ninguém lembrará de mim assim.

Senti que algo estava faltando, decidi verificar meu material, mas quando ponho a mão ao lado da cintura e não sinto a minha bolsa, paralisei por alguns instantes, o pior que poderia acontecer, já estava acontecendo.

—Merda. —Resmunguei baixo. O sino toca.

***

—Como assim esqueceu o seu material? —A professora espantada questionou a mesma coisa que eu gostaria de saber. —Por que estas aqui hoje senhorita se não for para estudar?

—Desculpe. Vim às pressas para não me atrasar e acabei esquecendo. Não vai se repetir.

—Estou cansada das suas desculpas senhorita Kennedy, cada dia é algo novo! E mais uma coisa... por que está usando roupas tão sujas? Que indecente! Preciso conversar com a sua mãe, não posso mais tolerar posturas assim na minha aula! — apesar da pergunta achei que não deveria responder. —Sente-se! Como punição ficará até mais tarde hoje para a limpeza. — Ao menos não vou precisar que escrever 30 vezes no quadro o quanto sou inconveniente.

Ouvi algumas risadas abafadas no fundo da sala e nem precisei me virar para saber que vinham de Marck.

—Acho que o senhorio Fuller gostou tanto desta ideia que vai se juntar a você depois da aula. —No meu interior eu estava explodindo um riso maligno de vingança. Hoje não empatamos apenas uma corrida como também um castigo por indecência.

***

Depois da aula limpamos a lousa, varremos o chão e organizamos as classes em silêncio já que a sra. Madeline ficou nos observando e dando seus sermões sobre comportamento.

Quando a tortura acabou, me despedi da professora e sai pela porta indo em direção ao meu cavalo.

—A sua mãe vai estar em casa hoje? —Marck perguntou me seguindo.

—Acho que sim. Por que?

—Meu pai voltou de viagem ontem e te trouxe um presente de formatura, mais tarde se pudermos ir visita-las...

—Conhecendo a minha mãe, acredito que ela vai amar ver vocês! Sei que ela também tem um presente para você. -Segurei a pata do Átila puxando-a para trás. O maldito não queria se abaixar para que eu pudesse monta-lo.

—Sério? Vou ter que preparar uma surpresa então! -Sem êxito, desisti de tentar o fazer me obedecer e me virei para Mark.

—Preciso te dar um presente para ganhar uma surpresa? —Ele sorriu mordendo o lábio inferior e em seguida pousou uma das mãos ao lado do meu rosto me mantendo presa entre ele e a árvore que Átila estava amarrado.

—Talvez... depende o presente! — Virei os olhos e suspirei. Mesmo sabendo que aquela malícia toda era uma brincadeira, eu queria mata-lo.

—Aqui. —Pisei no seu pé com força fazendo ele gemer de dor. Com muita dificuldade, me impulsionei em uma pedra e saltei para cima do meu cavalo, antes que qualquer pensamento vingativo fosse retribuído a mim instantaneamente.

—Vai ganhar a sua surpresa, aguarde Hollie... — senti um ar de ódio em suas palavras. Ri baixo.

—Estou ansiosa pra saber o que é. —Agitei as rédeas e sai trotando sem olhar para trás.

***

Chegando em casa, deixei Átila no celeiro com bastante água.

Antes de entrar, já fui me preparando para mais um monte de lições de moral. Espiei pela janelinha da porta e virei a maçaneta. A casa estava em um silêncio assustador.

Caminhei até a cozinha e percebi que meu material estava sobre a mesa, este era um sinal bem claro de que um castigo me aguardava.

—Boa tarde. —Mamãe surgiu atrás de mim me fazendo dar um pequeno pulo de susto.

—Boa tarde! —Sorri. Minha voz saiu um tanto estrangulada. Sem me dar muita atenção, ela passou direto por mim abrindo a porta do armário onde ficavam os copos. Seu cabelo claro estava preso em um coque alto, deixando a vista o seu longo pescoço, me pergunto se no futuro serei igual a ela pois eu ficaria muito feliz com isso, mamãe não demonstra nem um pouco a idade que tem, se continuar assim logo vamos parecer irmãs.

—Desculpa...

—Nem se desculpe! —eu realmente não sabia o que falar. Quando se virou, seus olhos se direcionaram para os meus pés e correram deles até a minha cabeça arregalados. —Por onde você andou? Olha o seu estado!

—A estrada estava péssima por causa da chuva. —Sua feição apavorada parecia tentar me entender.

—Hollie... Você já está crescida, mas ainda não aprendeu a ser uma mulher. — Não pude acreditar que estas palavras saíram da minha mãe, logo ela que me criou sozinha, sustentou nós duas sem depender de um homem e sem se importar com todos os boatos falsos que rondaram por anos pela cidade desde quando chegamos, ouvir isso dela foi igual levar um tapa.

—Se não ser uma mulher significa ser forte, independente e determinada... então eu prefiro não ser! Apenas uma boa postura está longe do que eu consigo ter. —mamãe inesperadamente abriu um sorriso de orelha a orelha.

—Eu sei. —Sabe? —Mas você esqueceu de dizer que ser uma mulher também é ter grandes responsabilidades. Não estou reclamando da bagunça que você está neste vestido, mas o atraso que você teve foi a causa de tudo isso. —Ela pousou uma mão sobre o meu ombro. —Eu me orgulho de você, mas precisa ser mais responsável. -Agora sim, parece a minha mãe falando.

—Sim, concordo... —sorri. —Estou de castigo?

—Não. Acredito que a sra. Madeline já me fez este favor. —Ela riu— Mas eu não vou lavar essas roupas! Este vai ser o seu serviço. —O sorriso dela não se desfez em nenhum momento. Respirei fundo.

—Justo.

—Muito justo! —mamãe saiu da cozinha com um semblante alegre, não entendi muito bem o motivo, talvez estivesse em um dia bom.

—Ah! Mark e o sr. Fuller vão aparecer aqui mais tarde!

—Ele já voltou da viagem?

—Parece que sim, Marck disse que me trouxe um presente de formatura.

—Que gentil! Vamos ter que preparar um jantar!

—Vai convidá-los?

—Claro! Estou com saudades! — meu corpo estremeceu ao lembrar do que ocorreu mais cedo, talvez Marck estivesse preparando algo para se vingar de mim, ele foi bem claro quando disse "vai ganhar a sua surpresa".

***

Passei a tarde esfregando meu vestido e lavando as patas do Átila, todo aquele barro parecia impregnado no tecido e nos pelos. O dia foi muito cansativo, eu queria me jogar na cama e acordar só no outro dia.

Estava quase tudo pronto, faltava apenas a torta que mamãe recém tirara do forno, o cheiro era incrível.

O som de alguém batendo na porta despertou a minha atenção que estava completamente perdida na comida deliciosa que preparamos. Corri abrir.

—Olá sr. Fuller! — Andrew é um homem alto, grisalho e um pouco acima do peso, mas a sua disposição é jovial, gosta de se manter ativo nas atividades do campo, acredito que por este motivo sempre deu conta muito bem da fazenda, e agora que Marck cresceu, só conseguiram melhorar mais o desempenho dela.

—Olá pequenina! Ou devo dizer... moça bonita? Como você cresceu em! —sorri e o abracei. Enquanto eu o abraçava, logo atrás dele percebi a presença do menino que sempre me tira do sério.

—Olá moça bonita. —Marck imitou o seu pai debochadamente e sorriu. Revirei os olhos.

—Podem entrar! Mamãe está na cozinha!

—Percebemos no caminho o cheiro maravilhoso e fico feliz em descobrir que vem daqui! —ele entrou e seguiu direto para a cozinha. —Olá sra. Kennedy! Que mesa espetacular!

—Oi sr. Fuller! Obrigada! Estávamos esperando por vocês! —eles se abraçaram como grandes e velhos amigos enquanto eu e Marck mantínhamos uma grande distância entre nós dois.

—Eu trouxe um presente para a sra.! —Disse Marck estendendo em sua direção um buquê de flores lindo.

—Que lindas! Muito obrigada! Eu amei! Vou coloca-las na água. — Marck sorriu sem jeito, até pareceu ser um menino descente, quase me convenceu. Cerrei os olhos quando ele olhou para mim e seu sorriso se desfez imediatamente. Como um selvagem, me mostrou os dentes e mordeu o ar na minha direção.

—Credo. —Levantei uma sobrancelha. Ele parecia se divertir tentando me botar medo.

—Como andam as coisas por aqui? — perguntou Andrew.

—Iguais como sempre... E como foi a sua viagem? —sentamos em volta da mesa.

O assunto o tempo todo foi sobre a viagem de Andrew a Nova York e como a Ponte de Brooklyn era extraordinária.

—A inauguração foi feita em 1883!!

—Uau! Que incrível! Deve ter sido emocionante ir até lá e apreciar tudo isso! — eu disse enquanto seus olhos brilhavam para mim.

—Foi sim! Inclusive... eu te trouxe um presente! —De seu bolso ele puxou algo enrolado em um lenço. —É bem simples, mas espero que goste! —desdobrei o tecido e no seu meio havia uma caneta tinteiro belíssima.

—Nossa! Eu amei! —ele sorriu.

—É com ponta de irídio. Um presentinho de formatura, vai ser útil na faculdade! — Levantei e corri em volta da mesa para lhe dar um abraço.

—Muito obrigada! —Eu realmente amei meu presente, posso usa-la também para melhorar meus desenhos.

—Não precisa agradecer. —Mamãe levantou da cadeira e se direcionou até um lugar específico da cozinha.

—Venha até aqui moço! -falou ela olhando para Marck que estampou um sorriso no rosto e foi ao seu encontro. Mamãe pegou de cima da estante uma caixa média e entregou a ele. Quando abriu a sua expressão ficou ainda mais empolgada.

—Incrível! Muito obrigado!

—Você comentou que gostaria de suspensórios novos para usar no último dia de aula... quando vi esses achei que eram perfeitos!

—São sim! Muito obrigado! Eu adorei! —ele a retribuiu também com um abraço.

—E quem diria Elinor, que nossos filhos já estão se tornando adultos! Parece que foi ontem que Marck chegou em casa com o olho roxo por ter batido com a cara na porta fechada. —Andrew falou rindo alto. Marck direcionou seu olhar para mim sério, nós dois sabíamos que essa história não era bem a verdadeira e que o motivo do olho roxo foi uma pedra que eu arremessara na sua direção, só não imaginava que a desculpa que ele inventou era tão ridícula quanto a história real. Sorte que a mira dele não era tão boa quanto a minha. Ri baixo.

—Bem... irei guardar meu presente! Obrigada novamente Sr. Fuller, eu amei! —sorri e me retirei da cozinha antes que a conversa ficasse ainda mais constrangedora, eu realmente não queria ouvir sobre as coisas bizarras que eu e Marck fazíamos quando criança.

Subi para meu quarto e guardei a caneta na primeira gaveta da cômoda, era lá onde eu deixava todos os meus desenhos e materiais. Ao abrir a gaveta percebi que o último desenho que eu havia feito era tão detalhado quanto os outros, nele tinha o rosto de uma criança pálida, seus olhos eram grandes e claros, já seus cabelos eram negros como o carvão. Meus sonhos estão cada vez mais nítidos e agora é muito mais fácil conseguir transferir as memórias para o papel, principalmente o rosto de algumas pessoas. Antes era tudo rápido e confuso, como várias fotos fora de sequência, agora é tão real que as vezes nem sei se estou realmente sonhando.

—Uhum!!— Girei meus calcanhares em direção a porta. Marck estava escorado nela com as mãos enfiadas nos bolsos, ele pigarreava para chamar a minha atenção —Ainda tem aqueles sonhos estranhos?

—Sim..., mas é diferente agora.

—Diferente como? —ele andou até mim e olhou para as folhas na gaveta.

—Não sei explicar... é como se eu dormisse e acordasse em casa, mas em outra casa! As pessoas são diferentes e me recebem como se eu fizesse parte da família delas. Neste último achei que estava salvando a vida desta criança, haviam dois animais grandes cercando-a, pareciam cães enormes!! —falei apontando para a folha que agora estava na sua mão. —Mas eles não a atacaram, ela sussurrou algo entre os dentes e eles pararam imediatamente. Congelaram. —Com os olhos cerrados ele observava o desenho, em seguida direcionou o olhar para mim.

—Você me assusta! Estranha. —Bufei.

—Achei que você estava me levando a sério. —Ele riu.

—E estou. Só não consigo entender como alguém consegue lembrar dos sonhos tão nitidamente! Eu não lembro nem o que tomei de café da manhã hoje!

—Você é um idiota! Por isso não lembra das coisas. —Marck não tirou o sorrisinho de deboche da cara.

—Tá legal... —colocou o papel de volta na gaveta. —Teus desenhos são incríveis! Seus sonhos são impressionantes! O que mais quer que eu diga?

—Nada. Por favor. —Pensei que ao menos ele me entenderia. Desde pequena tive esses sonhos e muitas das vezes eram pesadelos dos quais eu precisava desabafar, mas juro para mim mesma que nunca mais vou abrir a boca para contar algo. Acho que meu rosto estava tão sério que ele parou de sorrir imediatamente.

—Desculpa se falei algo de errado...

—Já me acostumei. Pirralho! —chamar ele de "pirralho" agora pareceu mais difícil, pois aparentava ser mais velho do que realmente era. Acredito que o trabalho árduo no campo tenha o deixado com um físico mais forte que os outros meninos da sua idade. —Mas mudando de assunto, Andrew tem razão... estamos ficando adultos! Até que enfim você está mais alto que eu! —ri. —Achei que seria um anão para sempre! — Marck levantou uma sobrancelha.

—Agora sei como é ter um descanso para os braços! —falou ele apoiando o cotovelo sobre a minha cabeça como eu fazia quando a nossa altura era inversa. Me afastei saindo debaixo dele. Por alguns instantes ficamos em silêncio, o que não era algo tão comum de acontecer. —Tenho uma surpresa. —Disse ele.

—Como assim? —aí não... eu sabia. Dei um passo para trás enquanto Marck enfiava a mão esquerda no bolso de sua calça e puxava algo.

—Aqui. —Ele estendeu na minha frente uma pulseira belíssima. Eu não estava acreditando. —É uma ágata de fogo. Segundo o que me disseram ela proporciona proteção, amizade, justiça, vitalidade, força... —Marck chegou mais perto e pegou minha mão fechando a corrente envolta do meu pulso. A cor vermelha da pedra se realçava sobre a minha pele extremamente pálida. Como o próprio nome já diz, ela se parece com o fogo —Acho que combina muito com você! Queria algo que te proporcionasse muito mais coisas, mas eu teria que descarregar uma carroça de pedras no jardim da sua casa! — sem pensar, eu o abracei instantaneamente. Surpreso com a minha reação, ele me envolveu em seus braços.

—Eu amei! Não sei como te agradecer!

—Você é a pessoa mais importante do mundo para mim, Hollie! Sei que eu nunca disse isso antes, mas acho que não é tarde pra dizer agora.

—Você também é muito importante pra mim Marck! Mesmo que eu te torture às vezes, pode acreditar! —Ele riu. Me senti tão idiota pela forma como eu agi depois da aula, se eu soubesse não teria feito aquilo. Neste momento deixamos todos os conflitos infantis de lado para dizer o que sentíamos.

—Desculpa pelo o que te causei mais cedo. —Pedi desculpas a fim de amenizar meu sentimento.

—Tudo bem. Eu mereci. —Senti um efeito diferente após inalar o seu perfume, uma fragrância familiar, amadeirada, que lembrava eucalipto. Apertei mais o abraço e afundei meu rosto em seu peito. Sempre me perguntei se eu era parecida com o meu pai, se ele tinha alguma característica ou cheirinho marcante. Nunca pude abraça-lo, presenteá-lo, ou se quer chama-lo de pai. E todas as fases da minha vida nunca foram comemoradas por ele. Minha formatura seria mais uma. — Mas talvez se eu tivesse perdido um olho a um tempo atrás, não pensaria igual agora. —Apesar da minha pequena reflexão deprimida, não consegui conter a risada.

­—Você é um péssimo mentiroso. —Ele soltou o ar quase como um suspiro.

—Queria que eu falasse a verdade? Que eu apanhei de uma garota como você! Infelizmente tive que preservar a minha masculinidade.

—Sim, queria. Pois eu não sou uma "garota" comum.

—Não é mesmo. É difícil de lidar com você senhorita. Você é a única pessoa que consegue disputar algo comigo, tem toda razão de se sentir especial.

—Uau. Não acredito no que acabei de ouvir. Repete? —Marck bufou e me soltou.

—Você é insuportável sabia?

—É que meus ouvidos não estão acostumados a ouvir o seu ego baixar assim. — Ele revirou os olhos, mas não evitou um sorriso.



9 de Maio de 2021 às 21:13 0 Denunciar Insira Seguir história
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