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Testemunhe a trágica jornada de um lobo em busca por reencontrar seu precioso Jardim...


Drama Para maiores de 18 apenas.

#drama #lobo #tragédia #penúria
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A Trágica Jornada


Sangue, baba e pus: era aquela composição asquerosa que ele escarrava em quantidades já alarmantes na neve fresca na medida em que tentava, inutilmente pelo visto, se colocar de pé mais uma vez.


Ou pela última vez.


O animal quadrúpede resfolegava, tombado no solo revestido com aquele material macio, gelado e da mesma cor de sua parca pelugem. Ganiu em desespero, assustado com sua própria invalidez. Outrora o Alfa robusto, garboso e imponente de sua alcatéia, agora era apenas um arremedo fétido, sarnento, esquálido e banguela de lobo. Nem mesmo um recém-nascido poderia ser tão frágil e fraco como ele o era.


O odor repugnante de seu próprio corpo assolava o pouco de olfato que lhe restava e o gosto podre e permanente que vadeada por sua língua lhe enchia de náuseas. E o fedor oriundo das áreas expostas ou machucadas de seu couro, onde a sarna se instalou?


Tinha tanto nojo de si mesmo!


O ar gélido, antes revigorante, agora era uma tortura velada rastejando em seus pulmões. A barriga ardia por dentro, mesmo vazia e afundada entre as costelas, o estômago fustigado pela fome e pela diarréia. Os ouvidos latejavam e zuniam de maneira incômoda, como se fossem a morada de abelhas e os poucos dentes que lhe restavam estavam moles e rombudos, gerando uma sensação tão ruim quanto opressiva em suas gengivas ensanguentadas.


Ele estava inegavelmente condenado.


Uivou o mais alto que sua condição miserável lhe permitiu, apesar e por causa do sofrimento que tal feito lhe custava. Seu angustiante lamento preencheu a floresta, reverberando por entre os troncos altos e cinzentos dos pinheiros, ultrapassando até mesmo as distantes copas alvas e ganhando os céus rumo às nuvens que ocultavam o sol poente.


Não muito depois disso, o lobo farejou o vento invernal, buscando algum alento nos aromas peculiares de seu habitat de origem. Desistiu quando, ao invés de cheiros reconfortantes, acabou aspirando uma bolota viscosa e purulenta de ranho que sumiu em sua garganta ressecada pela sede e lanhada pelo incômodo e incessante pigarreio que havia adquirido.


O infeliz animal cerrou então as pálpebras machucadas e rosnou de modo inconformado, deixando a fúria falar mais alto que a dor. As ancas pareciam ter pedras sobre elas quando, tremendo de frio e pelo esforço absurdo que fazia, ele foi se firmando sobre as quatro patas. A tontura veio em seguida, abrupta. Mais tosse. Mais expectoração forçada. Mais suplício.


Tinha chegado ao limite: sabia, sentia. Todavia, ainda tinha que chegar a um local antes de se entregar ao seu destino inexorável, selado quando ele e muitos outros animais beberam as águas do rio e/ou serviram-se dos peixes e da vegetação nas proximidades do curso aquoso. Nunca saberia que o mesmo fora contaminado pela ação oculta e perversa de humanos.


O descarte e ocultação de material químico experimental nas entranhas da terra condenou a longo prazo tanto o solo quanto o lençol freático que originava e alimentava o rio. O resultado insidioso disso quem descobriu foram os habitantes daquele ecossistema fadado ao lento, cruel e irreversível extermínio. E tal qual a tarde findava no firmamento, o sopro vital do lobo se extinguia na floresta agonizante.


O animal moribundo se embrenhava na mata recoberta de gelo e neve de maneira cambaleante, suportando estóico o martírio que sua caminhada lhe imputava. Um rastro carmesim e rançoso foi sendo formado por sua partida, deixando o local das pegadas e aonde as feridas gotejavam com uma tonalidade rósea e traços amarelados.


Até mesmo pedaços de si o lupino foi deixando para trás de trecho em trecho, tão desgraçada era sua situação. O frio, outrora suportado com relativa facilidade, havia se convertido em um flagelo para sua carcaça desnutrida. E a neve, antes uma amiga nas caçadas por lhe tornar invisível às possíveis presas, tornava-se sua algoz ululante, o derradeiro obstáculo que lhe drenava as forças e, aos poucos, a própria vida.


A funesta, vagarosa e solitária marcha do canídeo durou muito além do que ele temia. Imerso em calafrios e espasmos musculares, chegava a delirar por intermédio de ilusões auditivas e olfativas, teimosas em dividir espaço com a terrível realidade nos míseros momentos em que a penúria dava trégua. Todavia, o gosto inconfundível do término em sua boca lhe demovia daquilo tão rápido quanto seu coração estava batendo.


Finalmente, depois da intensa batalha pela consciência e de tão sofrida caminhada, o lobo níveo avistou uma enorme clareira com um velho, largo e seco pinheiro no centro. Suas íris obstruídas pela remela excessiva readquiriram o tom radiante por um tempo enquanto percorriam toda aquela extensão branca até se deterem em alguns montes alvos que pareciam eclodir do solo, indicando que o mesmo havia sido revolvido naqueles locais e depois novamente recobertos pelas partículas esbranquiçadas que uma vez mais descendiam como lágrimas do céu.


O lupino branco então estacou no lugar, suspirou e estranhamente parou de tremer enquanto foi dobrando as pernas traseiras e de modo solene sentou-se no chão. Mesmo tão debilitado, naquele momento sua aura imponente de Alfa ressurgiu perante a certeza absoluta que seus instintos mais primais lhe atestavam: havia reencontrado o local mais importante de sua vida. Só então, se permitiu vagarosamente deitar o peito e por fim a cabeça no solo nevado.


De repente, a primavera regressara em todo o seu esplendor: a clareira estava forrada de relva esverdeada e flores perfumadas, os pássaros tornaram a cantarolar em belíssimas assovios enquanto adejavam pelas árvores, os raios do sol novamente irrompiam das raras nuvens trazendo luz e calor, a lufada rude e uivante do vento dava lugar à uma gostosa brisa e o corpo adulto e doente regredia ao do peralta filhotinho que um dia o lobo fora.


Os amontoados de terra igualmente deixaram de existir e lá estavam seus irmãos e irmãs, sua tão saudosa e amada matilha: todos tão pequenos, vigorosos e graciosos quanto ele próprio. O ladrar coletivo e pueril enchia o ar, pois estavam o instigando a brincar e correr com eles no lindo jardim, como sempre faziam e fariam mesmo depois de adultos. Eles o chamaram novamente com um timbre alto e igualmente acolhedor, de tão felizes por ele estar ali com eles mais uma vez.


Ou pela última vez.


E foi assim, com a mais preciosa memória de seu coração selvagem sobrepujando todo o resto, que o último lobo branco de uma floresta sentenciada à morte parou de respirar perante as covas do restante de sua família enquanto a lua ascendia como que entristecida no horizonte diante de seus olhos ainda abertos.


Se alguém olhasse muito atentamente, com sorte poderia notar o alívio e a felicidade em suas feições enquanto a nevasca, insensível como o inverno que a expelia, se encarregava de conceder-lhe senão paz, ao menos uma singela mortalha e um improvisado enterro...

7 de Maio de 2021 às 03:54 1 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

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Yvi  Yvi
De alguma forma, me lembrou o anime da pedra, que está em lançamento. Não sei se tu conhece, chama Fumetsu No Anata E, ou, To Your Eternity (algo assim). Parabéns pelo texto! Perfeito, como sempre! <3
May 15, 2021, 01:58
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