antonio-stegues-batista Antonio Stegues Batista

Em A Bela Adormecida, Jarro, um jovem coletor de antiguidades, vai além das terras conhecidas e se depara com um estranho prédio e seu morador misterioso. Em O Jeito de Caminhar de Scarlett Johansson, Rubens, um soldado apaixonado por uma estrela da cinema, decide mudar de rotina.


Pós-apocalíptico Todo o público.
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A Bela Adormecida

Enquanto passeavam pelo jardim, Lena pediu a mestre Erasmo para recitar um poema.

Numa voz pausada, o mentor falou:

(1) - “ Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,

Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais, e já quase adormecia,

Ouvi o que parecia, o som de alguém que batia,

Levemente a meus umbrais “.

A garota o interrompeu:

─ Esse eu já ouvi ontem. Fale-me de outra coisa. – pediu ela, sentando-se num banco de pedra sob o pé de uma tamareira em flor.

─ Percebo um leve tom de aborrecimento na sua voz. Posso saber o que perturba seus pensamentos?

─ Nada demais. Só sinto falta da Iris. Por que ela foi embora?

─ Eu já lhe disse que a mãe dela está doente.

─ Nós podemos mandar um médico curá-la, não podemos?

─ Infelizmente é uma doença que não tem cura. Iris quer permanecer ao lado da mãe até o fim.

─ Eu poderia fazer companhia!

─ Sabes que pode ser uma doença contagiosa e você não pode se expor a esse perigo.

Lena ficou pensativa, parecia decepcionada. Erasmo procurou distrai-la, afinal, esse era o seu trabalho.

─ Quer que eu recite outro poema?

─ Conte-me a história da Bela Adormecida.

***

O coletor de antiguidades nunca tinha ido tão longe. Depois de vários dias de viagem, havia chegado, finalmente, ao fim da estepe. Ela não terminava na beira do mundo, como muitos acreditavam, mas sim, numa grande floresta.

Logo ao entrar na mata, Remo encontrou um muro alto. Seguindo rente a ele, logo descobriu uma passagem onde as pedras haviam tombado. Abrindo caminho com seu machete, descobriu vestígios de moradias e de uma antiga rua pavimentada. Embora coberta por ervas e arbustos, dava para ver algumas pedras e a simetria do caminho. Ao redor, construções pouco visíveis sob a vegetação.

Remo se considerava um afortunado. Sabia que a civilização dos antigos não se resumia só nas ruinas conhecidas de sua região. Era no mundo todo e onde ele acabava, não tinha ideia. Um dia talvez descobriria, pois tinha desejos de saciar a sua curiosidade, em descobrir os mistérios sobre o mundo dos Antigos.

Dentro daquelas ruínas haveria objetos, máquinas e aparelhos e mesmo que ele não soubesse a sua utilidade, seria um tesouro arqueológico incalculável. Conhecimento, ciência que os Antigos possuíam e que não existiam mais.

Remo deparou-se com uma construção diferente, uma moradia completamente inteira e descoberta. A vegetação cresceu ao redor, mas parecia que temia tocá-la, de estender suas raízes e galhos sobre ela. Será que havia moradores ali? Ele bateu na porta diversas vezes, sem que ninguém aparecesse.

Como as portas e janelas estavam trancadas e sem conseguir abri-las, o rapaz improvisou uma escada com galhos e cipós, para subir na sacada do segundo pavimento. Pulou para a sacada e entrou pela porta que estava aberta. Recuou assustado ao ver uma jovem sentada num divã, lendo um livro. Mas ela, percebendo a presença dele, ergueu a cabeça e o olhou, intrigada.

Já estava com uma perna sobre o parapeito da sacada para ir embora, quando a garota o deteve.

─ Espere! Por que já vai embora? Quero saber quem és.

Ele voltou a pisar na sacada.

─ Não quero incomodar. Meu nome é Remo. Pensei que não tinha ninguém morando aqui.

─ Me chamo Lena. Em que parte da cidade você mora?

─ Longe daqui, num lugar chamado Agreste.

Lena demonstrou surpresa.

─ Fora da cidade? Todo mundo sabe que não há mais vida além dos muros!

─ Pois saiba que estas enganada. Onde moro tem muitas pessoas. Simples, supersticiosas, mas boas pessoas. Procuro antiguidades e pensei que não haveria ninguém nessa cidade abandonada.

Lena olhou para a mata, fez um gesto.

─ Abandonada? E aquelas pessoas? E os carros nas ruas, as crianças brincando no parque?

Remo não viu ninguém. Começou a achar que a garota sofria de algum mal da cabeça. Sabia que os loucos se tornavam violentos quando contrariados. Ele procurou mudar de assunto, distrair a atenção dela para outra coisa.

─ Que livro você está lendo?

─ O Paraiso Perdido, de Milton.

Ela estendeu o volume para ele pegar. Mas Remo não conseguiu segurar, sua mão passou através do objeto. Os dois ficaram espantados com o fenômeno. Ele já tinha ouvido falar em fantasmas, a alma da pessoa morta que assombra casas abandonadas. Era a primeira vez que ele se deparava com um espírito. Lena era um fantasma que assombrava aquela casa! Ele imaginou que ela acreditava que ainda estava viva. Não havia outra explicação. Aquilo não o assustava, ao contrário, queria saber mais coisas sobre o fantasma.

─ Preciso dos conselhos de mestre Erasmo.

Ela bateu palmas e um homem surgiu por um corredor. Vestia uma roupa justa, cinzenta. O cabelo era brilhante e repuxado para trás. O rosto era duro e sem expressão.

─ Ao seu dispor, senhorita.

─ Esse rapaz se chama Remo. Disse que veio de muito longe. Tentei dar a ele o meu livro, porém...veja!

Eles repetiram o gesto.

─ Por que não conseguimos nos tocar?

─ Porque a imagem de vossa alteza, é apenas um holograma. Procure lembrar-se. Eu não podia revelar isso, pois não sabia se haveria alguém vivo no mundo. Creio que agora tudo mudou.

Remo estava distraído, olhando ao redor, verificando que o quarto tinha mobílias bonitas, mas estavam cobertas de pó. Ao voltar-se, viu que Erasmo havia se retirado, tão silencioso, como se nunca ali tivesse estado. Seria ele também um fantasma?

─ Vocês são fantasmas?

Lena pareceu ter despertado de um transe.

─ Não! Tenho certeza que não. Estou tentando me lembrar! Minhas recordações estão confusas.

Ela aproximou-se do parapeito da sacada e olhou para baixo.

─ Eu jurava que havia um belo jardim ali, pessoas nas ruas, nas casas, mas suponho que sejam projeções de alguma máquina. Apenas uma distração.

─ Não entendo o que você está dizendo.

─ Me acompanhe.

Remo a seguiu. Desceram uma escada, chegaram a outra sala igualmente mobiliada e também coberta de pó. Uma porta foi aberta e eles desceram outra escada, enquanto luzes com a claridade do dia se acendiam no teto. Na pequena sala havia objetos estranhos, inscrições luminosas.

No centro estava uma caixa de metal, sob uma luz leitosa. Tinha uma tampa de vidro e através dela, Remo viu uma pessoa deitada sobre um leito acolchoado, como se estivesse dormindo. Ficou admirado ao ver que a jovem era idêntica a Lena. Julgou que fossem irmãs gêmeas.

Ele olhou para o lado, para falar com a garota, mas ela havia desaparecido. Como por encanto, Erasmo surgiu das sombras.

─ Suponho que é grande o teu assombro − disse, num tom neutro, como se o interlocutor não estivesse presente. ─ Muitas coisas aqui é um mistério para você, já que vens de uma outra parte da humanidade. És descendente de sobreviventes de uma grande epidemia que assolou o mundo, eras atrás. Mas conservas a centelha da inteligência e com certeza, vais descobrir as respostas para as perguntas que tens em mente.

Remo olhou com espanto para o corpo na urna.

- Aquela com quem falei, era o espírito da princesa Lena?

Em vez de responder diretamente, Erasmo recitou um poema.

(2) - “Ó almas presas, mudas e fechadas. Nas prisões colossais e abandonadas. Da dor no calabouço, atroz, funéreo! Nesses silêncios solitários, graves. Que chaveiro do céu possui as chaves, para abrir-vos as portas do Mistério? “

─ Não entendo o que queres dizer, mestre Erasmo!

O homem apontou para a parede onde tinha uma chave pendurada num pequeno gancho. Remo entendendo que era a chave para abrir a câmara, foi até ela e a pegou. Ao se voltar, Erasmo não estava mais ali. Colocou a chave na pequena fechadura e torceu. De imediato a tampa abriu-se com um chiado.

As pálpebras da jovem adormecida se moveram, piscando e em seguida, Lena fixou o olhar nele. Remo estendeu a mão e tocou os dedos dela. Sim, podia senti-la agora! Era real! Lena movimentou os braços para se segurar nas bordas da câmara. Ele a ajudou a se levantar.

***

A jovem bebeu um soro para recuperar o vigor físico. Após um curto período de recuperação motora, dirigiu-se para a sacada.

─ Quando uma doença mortal atacou a humanidade, os governantes da cidade trancaram os portões e não deixaram ninguém mais entrar.

Remo absorveu as palavras, comparando com as histórias que os mais velhos contavam.

─ Meu pai era um cientista brilhante. Para me proteger da praga, inventou um soro que me fez dormir todos esses séculos, dentro daquela urna. Meu corpo ficou inerte, mas minha mente interagia num mundo virtual.− ela fez uma pausa e olhou para Remo. ─ Uma cidade de mentira que só eu pudesse ver.

- E aquele homem? Erasmo?

A jovem sorriu – Sim, ele também é uma ilusão, uma miragem criada por uma máquina, para me distrair com suas histórias e poesias.

─ E você, vai voltar ao seu mundo de mentira?

- Não! A doença que matava as pessoas acabou. Não quero mais dormir. Se você me acompanhar, quero conhecer o seu mundo...

(1- Início do poema, O Corvo, de Edgar Alan Poe.

(2- Trecho do poema, Cárcere das Almas, de Cruz e Souza.

***

***

O JEITO DE CAMINHAR DE SCARLETT JOHANSSON

Rubens tentava pegar café na máquina automática, mas ela se recusava a dar.

─ Créditos insuficientes – dizia a máquina com sua voz impessoal.

Rubens voltava a colocar o cartão de crédito na ranhura e a cafeteira continuava a dizer que o cartão não tinha créditos. Ele tinha certeza de que havia dinheiro na conta e estava a ponto de dar um pontapé na máquina, quando Jairo chegou. Ele tinha trocado o uniforme militar por um conjunto de calça e túnica azul. Jairo era seu melhor amigo e companheiro de pelotão.

─ Problemas com as máquinas? - indagou ele, num tom alegre.

─ Tenho créditos, mas essa maldita máquina afirma que não. Será que estou enganado?

Jairo sacou o seu cartão de crédito do bolso e colocou no mecanismo. Dois copos de café saíram fumegantes saíram deslizando da portinhola.

─ Essas coisas já estão velhas e caducas. – comentou Jairo, pondo-se a caminhar. Rubens seguiu ao lado dele, bebendo o líquido preto e aromático, mas quase sem gosto. Sempre ficava admirado com o café, uma bebida que persistia nos costumes da civilização há milhares de anos.

─ Já notou que o café está cada vez mais ruim? Acho que ninguém está fazendo a manutenção dessas máquinas. Algumas ruas estão escuras durante a noite. Lâmpadas queimam e ninguém às trocas. Parece que o governo não está mais interessando no bem-estar e segurança do cidadão!

─ Esqueceu que não temos mais governo? Tudo é controlado por Mark-9

─ Quem?

Jairo estacou, olhando para Rubens como se ele fosse um alienígena.

─ O Sistema. Não sabe mais o nome do Sistema?

─ Detesto o Sistema! Gostaria que tudo sumisse e voltasse ao que era antes.

─ Você é bem estranho, sabia? A gente batalha junto, conversa no quartel, como estamos fazendo agora, mas quando te convido para ir ao clube militar nos divertir, conhecer garotas, transar com elas, você arranja uma desculpa para não ir.

─ Transar com mulheres insensíveis? Entorpecidas pelas drogas? Nossa sociedade está ruindo, Jairo. A civilização está caindo aos pedaços! Nós combatemos monstros virtuais para ganhar créditos, dinheiro para comprar comida sintética! Para ter direito em viver, viver uma vida de ilusão!

─ Você está muito irritado e irritante hoje. Afinal, o que você faz nas horas de folga?

Rubens sentou-se num banco. Eles estavam numa das praças do quartel, um lugar especialmente construído para o soldado espairecer.

Rubens respirou fundo, acalmando-se.

─ Gosto de ficar em casa, assistindo filmes antigos. Principalmente com a minha atriz preferida. Já assistiu um filme com Scarlett Johansson? Sabe de quem estou falando?

─ Claro! Sei quem é. Uma vez assisti um filme dela na casa do meu avô. Acho que o título era, Encontros e Desencantos.

Rubens riu.

─ Encontros e Desencontros. Bom filme, não?

─ Faz tanto tempo que não me lembro mais como era a história!

─ Gosto muito dela. Notou que ela tem um andar bem peculiar?

─ Só notei que ela é bem gostosa!

Rubens semicerrou os olhos fazendo gestos com a mão.

─ É um andar elegante, sensual. Notou como os quadris se movem? E as pernas? Bem torneadas, o passo firme e preciso. Ela tem um porte aristocrático. Parece uma rainha!

Jairo esboçou um sorriso ─ Não me diga que se apaixonou por uma estrela de cinema que já morreu há muito tempo! Ela viveu no século vinte e um, não foi?

─ Por aí. Mas não estou apaixonado não. E se estivesse? Acha que sou maluco? Malucos somos todos nós, lutando contra um bando de lobisomens virtuais!

De repente uma sirene começou a tocar. Rubens acabou de beber o café e jogou o copo na lata de lixo, enquanto Jairo mudava de roupa com um simples apertar de botão em seu cinto. Eles correram para a muralha. O quartel estava sendo atacado. Centenas de criaturas surgiram no horizonte. A tarja escura foi se avolumando, se definindo em seres medonhos, correndo, pulando com suas garras riscando a terra seca, que outrora foi um campo verdejante. Com seus focinhos projetados para baixo, os olhos fixos no alvo, os caninos rebrilhando no violento desejo de matar.

Posicionado no alto das muralhas, os soldados disparavam suas armas laser. Algumas feras conseguiam escalar o muro alcançar um soldado e matá-lo, rasgando suas carnes. Centenas morriam pulverizadas pelo calor intenso dos raios laser. Lado a lado, com o rifle apoiado no ombro, Rubens e Jairo disparavam sem cessar.

De repente as feras sumiram e o silencio caiu sobre a campina.

Os soldados estranharam o fato. Havia tempo que não acontecia blecaute no sistema. No fim da batalha, as feras simplesmente se retiravam e os números de abatidos e feridos de ambos os lados eram contabilizados. Acima do horizonte, letras brilhantes anunciaram pausa na guerra; Intervalo Para Manutenção do Sistema. Os soldados se retiraram para seus apartamentos.

****

Faziam dias que Jairo não via Rubens, desde que a luta com os lobisomens foi interrompida. Ele não ia mais à praça, tampouco atendia o telefone. Jairo resolveu visitá-lo. Chegando ao apartamento, acionou o intercomunicador por três vezes sem obter reposta. Ia desistir quando resolveu experimentar a maçaneta da porta. Acabou descobrindo que ela não estava trancada, tampouco o alarme estava ativado.

Ao entrar, a primeira coisa que sentiu foi o forte cheiro de produtos de limpeza. Viu um projetor sobre a mesinha, a figura tridimensional caminhando na sala. Ela ia de um extremo a outro do aposento e tornava a voltar. Uma mulher nua, translúcida, caminhando sem parar. Tinha cabelos ruivos, a pele clara, o corpo esguio bem torneado. Era uma imagem virtual criada por Rubens. Era Scarlett Johansson!

Rubens estava sentado no sofá. O que restava dele, um corpo esquelético, mumificado por constantes banhos de componentes químicos. Os robôs de limpeza permaneciam inertes, parados ao redor, esperando ordens que ele não podia mais lhes dar. A mão direita ainda segurava uma pistola iônica. Era bem visível, o furo redondo na cabeça inclinada para o lado esquerdo.

Acho que ele não aguentou a rotina. Pensou Jairo. Na verdade, era um simples pensamento para justificar aquele ato extremo do amigo. Teria ele coragem para fazer o mesmo?

Antonio Stegues Batista

29 de Abril de 2021 às 20:07 0 Denunciar Insira Seguir história
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