antonio-stegues-batista Antonio Stegues Batista

A Escada, é a história de dois jovens que procuram uma passagem que os levaria a um lugar maravilhoso. Será real, ou apenas uma lenda? Em O Passeio da Família Robinson, os Robinson visitam o planeta Terra e ali, fazem uma descoberta importante.


Pós-apocalíptico Todo o público.
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A Escada

De cima do entulho, Jarro observou com atenção a figura mover-se lentamente por entre os montes de lixo.

Julgava ser um pitão, pois o sujeito vestia um conjunto de calça e camisa da cor ocre, com um turbante da mesma cor envolvendo a cabeça e rosto deixando apenas os olhos de fora.

Vestimenta ideal para se confundir com a cor do deserto. Os pitões eram independentes, desconfiados, ariscos. A inimizade deles com as outras duas tribos que viviam ao redor dos Sargaços, era milenar. Assim como eram as divergências entre os charros e os anum, a tribo de Jarro. Ele estava surpreso de ver um pitão tão longe de seu território, ainda mais, sozinho.

Jarro tinha chegado naquele monte de entulho na tarde do dia anterior. Explorava a região em busca de artefatos antigos, inteiros ou com algum componente útil. Quando anoiteceu, ele resolveu abrigar-se na cabine da carcaça de um veículo destroçado. Quando acordou na manhã seguinte, viu um movimento lá em baixo, no solo.

Era o pitão.

Jarro tinha uma visão privilegiada do lugar. Ele estendeu-se sobre a cabine e ficou vigiando o homem agachado atrás de uma caldeira enferrujada. O pitão parecia temer alguma coisa, procurava se manter oculto. Jarro deu uma olhada ao redor e foi então que ele viu um drocodron comendo alguma coisa a uns 50 metros do pitão. O terrível lagarto comedor de gente ainda não tinha percebido o homem.

Jarro ficou indeciso, o pitão não era seu inimigo, mas também não era amigo. Podia simplesmente deixa-lo à sua sorte, ou matar o droc antes que o atacasse. Jarro não era maldoso, afinal, o pitão, apesar da má fama que eles tinham, era um ser humano e todo ser humano tinha direito a vida enquanto nada indicasse o contrário.

Por outro lado, Jarro não queria matar o droc.

O homem estava armado com uma lança, o que não garantia a vitória sobre um animal de 300 quilos. No mínimo, apenas o irritaria, provocando ainda mais, seu instinto selvagem. Enquanto assim pensava, Jarro viu o monstro erguer a cabeça e cheirar o ar. Ele estava sentido o cheiro do homem escondido atrás do monte de ferro velho. O pitão fez a pior coisa que podia fazer, correr. E o droc foi atrás. Logo alcançaria sua presa. Jarro colocou a flecha no arco, puxou a corda, mirou e disparou. A flecha acertou logo abaixo do ombro do animal, lugar onde o couro era mais fino, perto do coração.

O animal caiu de borco. Olhando para trás, o pitão estacou a corrida desenfreada. Jarro desceu com cuidado e se aproximou dele.

─ Foi sorte sua eu estar por perto.

O sujeito continuou imóvel, olhando para ele.

─ Você está muito longe de suas terras. O que faz por aqui? Não sabe que este é o território dos lagartos gigantes?

O pitão relaxou, ergueu a mão e tirou o turbante, despindo a cabeça. Jarro ficou surpreso ao ver que o pitão era uma mulher.

─ Suponho que eu lhe devo a minha vida? −perguntou ela.

─ Com certeza evitei que fosse morta. Essa lança é inútil para se defender do ataque de um drocodron.

A mulher olhou-o com desdém ─ Eu sei me defender e tenho certeza que mataria aquele animal.

─ É? Como pode ter certeza disso?

Ela ergueu a ponta da lança ─ Tem veneno de cobu na lâmina.

─ Não sei não! Qual o seu nome?

─ Mara.

─ O meu é Jarro. O que faz por aqui, sozinha?

Mara olhou para o horizonte.

─Tenho que ir até as montanhas. No Vale dos Ossos.

─ O que vai fazer lá? Não tem nada naquela região!

─ Vou procurar a escada para o santuário.

─ O que é santuário?

─ Diz uma lenda que existe uma escada nas montanhas que leva a outro mundo, melhor que esse. Eu vou encontrar o caminho.

Jarro ficou em dúvida. Ele já ouviu algo parecido contado pelos mais velhos ao redor das fogueiras. Olhou para a garota e achou que ela devia ter algum problema na cabeça. Mara reconheceu aquele olhar. Deu meia volta, agitando os cabelos e saiu caminhando.

─ Você também não acredita.

Jarro considerou que não era questão de acreditar ou não. A garota se arriscava numa aventura perigosa. Ele não podia deixá-la ir sozinha. Pendurou a arma no ombro e a seguiu.

─ As montanhas ficam muito longe! Nós vamos precisar de comida e água.

Mara mostrou o seu embornal ─ Tenho comida e água para cinco dias.

Jarro apalpou o embornal dele. Calculou que também tinha água e mantimentos para uma semana. A água não era problema, havia lugares em que se podia cavar na areia para conseguir água potável. O mar estava muito longe e os rios também. Não podiam pescar. Talvez tivessem sorte de encontrar bambus comestíveis pelo caminho. Em todo caso, o Mar dos Sargaços não estava muito longe e lá, sempre há mariscos.

Mara tirou um pedaço de osso da mochila e mostrou-lhe.

─ O que é isso? ─ indagou Jarro pegando o objeto.

─ Está há muitos anos com minha família. Meu pai considerava um talismã, embora não entendesse o significado dessas marcas.

Jarro examinou o desenho. Era uma serie de arranhões formando uma espiral.

─ É a Escada de Canide ─ disse a garota.

Jarro devolveu o osso eles continuaram caminhando. Ao meio dia pararam à sombra dos destroços de um navio para comer. As montanhas apareciam no horizonte. Levariam uns dois dias para chegar lá. O sol estava quente e Jarro dormitou um pouco. Acordou com Mara chutando seu ombro.

─ Vai ficar aí dormindo ou vou ter que ir sozinha?

─ Minha vontade mesmo, é desistir dessa ideia.

─ Então tá! Só eu vou receber as glorias por ter encontrado o caminho para o santuário.

A contragosto, Jarro ergueu-se, pegou o arco, a aljava e o embornal e seguiu a garota.

O terreno agora era mais alto, embora as montanhas ainda estivessem distantes. Do alto da elevação, Jarro olhou para trás. Dali podia ver o nome do navio no casco. As letras estavam desbotadas pelo tempo, mas o nome ainda podia ser lido, Titanic.

Eles encontraram a escada, os degraus escavados na rocha. Era comprida, e muito alta, com patamares para descanso. Depois de quase uma hora, Jarro e Mara chegaram ao topo e ficaram admirados pelas florestas e campinas que se abriam à sua frente. Aves voavam lá no alto, acima das copas das árvores.

Aquele era o santuário, que, afinal, não era uma lenda.

Explorando a floresta, Jarro e Mara encontraram algo encravado numa árvore. O tronco havia crescido e envolvido parcialmente a placa.

Nela, letras desbotadas diziam, Maine, Canadá.

FIM


A EXCURSÃO

Uma aeronave de passeio, sobrevoou o deserto brasileiro.

Com um formato elíptico, de corpo liso, adquire uma cor azulada e brilhante quando em voo. Como módulo auxiliar de espaçonave interplanetária, tem capacidade para cinco passageiros e um tripulante.

Nela viajavam a família Robinson, Edmond Robinson, de 34 anos, professor de História Universal na Universidade Asimov, em Marte, Nelly G. Robinson, de 31 anos, mnemotécnica na mesma universidade e seus dois filhos, Peter, de 9 anos e Caroline, de 7 anos.

Em férias escolares no Planeta Terra, eles visitavam algumas regiões da América do Sul. Depois de sobrevoar a Floresta Amazônica e as Cataratas do Iguaçu, resolveram fazer um piquenique em uma das praias da Bahia. .

Da cidade de Salvador, só restava algumas ruinas despontando da areia. O mar recuara 20 quilômetros, deixando à vista, uma imensa faixa de areia coberta de sal. Entre três paredes do que outrora fora um alto edifício, Nelly estendeu uma toalha e colocou os recipientes sobre ela, para preparar a refeição.

Uma barraca transparente, auto regulável, protegia o lugar do vento, sol e areia. Enquanto isso, Ed e os filhos caminhavam entre as ruinas. As crianças estavam encantadas com o passeio, de conhecer o planeta onde seus avós nasceram.

Como historiador, Ed contava aos filhos como era a vida naquele tempo. Em certo momento da caminhada, Caroline encontrou algo no chão. Estava semienterrado, ela tirou da areia e mostrou ao pai.

“ Papai, veja o que encontrei! O que será isso?

Ed pegou o objeto, deteriorado nas bordas e sentou-se numa viga de concreto. Tinha um quadrado escuro numa das faces, com pequenas aberturas nos lados. Era fino e leve. Havia uma inscrição na parte superior, algumas letras estavam apagadas, apenas quatro eram legíveis; sung.

Abaixo, pequenos dispositivos de controle e do outro lado, uma lente.

“ Era um aparelho para comunicação e arquivo de dados, chamado, telefone celular. Tinha também, função de captar e armazenar imagens. Como já expliquei uma vez, naquele tempo, com o avanço da tecnologia e acesso fácil e imediato a milhares de informações, a comunicação entre as pessoas foi se modificando através do tempo. Para agilizar a comunicação, as palavras foram abreviadas cada vez mais até que a fala, foi substituída pela comunicação do pensamento, que tem o nome de telepatia.

Caroline estava distraída, olhando para as ruinas e Ed tocou no ombro dela para que olhasse para o rosto dele. Crianças abaixo dos 7 anos se distraiam facilmente, deixando de se concentrar e receber os pensamentos do seu interlocutor. Peter já não tinha mais esse problema, mesmo não olhando para o pai, ele estava concentrado em receber seus pensamentos.

“ As pessoas adquiriam muita informação e falar levava tempo demais, tanto quanto se comunicar através de aparelhos. No decorrer das gerações, os genes humanos também foram se modificando e se adaptando à nova realidade do ambiente e da tecnologia. Assim, com o tempo, os seres humanos foram deixando de se comunicar com a fala e passaram a utilizar a força do pensamento, a telepatia”.

Ed fez uma pausa e ergueu-se.

“ Sua mãe está nos chamando para almoçar. Vamos! ”

Peter segurou a mão dele.

“ Podemos guardar esse aparelho em nosso museu, papai? ”

“ É claro! ”

“ Papai, veja o que posso fazer! ” – exclamou Caroline, mentalmente.

Ed e Peter olharam para trás e ficaram espantados ao verem a menina flutuando, a uns dez metros de altura.

“Daqui posso ver a mamãe! ” – disse ela, rindo.

Fim

Antonio Stegues Batista

28 de Abril de 2021 às 13:34 0 Denunciar Insira Seguir história
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