shoegazer J P

Rafaela é uma obstinada nadadora que está cada vez mais perto do seu sonho olímpico. No entanto, na sua conturbada vida que acaba se entrelaçando com a profissional, uma coisa é certa: nesse não intenso jogo entre desejos e obsessões, não há o certo e errado, nem mocinhos e vilões. Só há aqueles que fazem o que tem que ser feito.


Romance Contemporâneo Para maiores de 18 apenas.

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Gênio Indomável

Mergulhei fundo na piscina, praticamente arrastando minhas mãos sobre a lajota morna como a água e, ao senti-la em meus dedos, me sento confortavelmente naquele espaço. A água, desde que tenho noção de quem eu sou, me tranquilizava. O único barulho que podia ouvir ali por muitas vezes era apenas do meu coração batendo, várias vezes por segundo, por incontáveis vezes e sob meus óculos, encarava a vastidão azul clara em minha frente, convidativa, querida e familiar como um membro da família, e por tantas vezes, agiu como se fosse um deles sem querer.

Encarar aquele vazio composto por aquele grandioso retângulo com lajotas brancas, linhas que separavam cada lugar e o cloro que fazia parte da água dava a sensação de lar, principalmente quando estou só e ali, sinto que podemos ser um só, por pelo menos aquele instante.

Deixo a sensação me levar para longe, para as memórias recentes e as antigas. Quase posso tocar aquelas lembranças tão afloradas por aquele estado em que me encontrava. Eu podia me ver criança nadando na piscina do clube da minha cidade, brigando de pega-pega com minhas colegas na água, e de como desde então, eu gostava de mergulhar e ficar no fundo, encarando com os olhos embaçados as pernas das pessoas que ali frequentavam e cortando caminho nadando por elas.

Porém o silêncio meditativo o qual praticava todas as manhãs foi quebrado por uma voz conhecida, que percebendo que eu não respondia, jogou-se na piscina em um salto, me trazendo à tona.

— Mas que merda, Isadora! – exclamei furiosa – Já disse pra você não fazer isso, vai sujar a água.

— Você não respondia – ela foi nadando até as minhas costas e se pendurou em meus ombros – Tua treinadora tá te chamando pra tomar café.

Nadei com ela apoiada em meus ombros até a escada da piscina, e de lá saímos. Peguei a toalha e joguei para ela.

— E o que está fazendo de pé tão cedo? – disse a ela enquanto tirava os óculos e a touca.

— Não aguentava mais a treinadora me enchendo o saco todo dia – ela pigarreava enquanto se enxugava – “Tem que acordar cedo, Isa, todas as meninas acordam cedo e só você fica na cama, não dá. O pessoal lá de cima reclama” – e fazia gestos de falatório perto do ouvido, com uma cara entediada – O de sempre.

— E vai levar outro esporro por chegar molhada assim – apontei para ela, repreendo-a.

— Gosto de viver perigosamente – ela deu com os ombros, pressionando os lábios antes de lançar um sorriso para os outros atletas que passavam por nós – E aí.

— Queria ter um terço dessa sua cara de pau às vezes, Isa – dizia ao vê-la cumprimentando as outras garotas e passando por nós, que íamos para o refeitório.

— Autoconfiança faz bem – ela passou o braço sobre meus ombros, se apoiando em mim.

— Sim, claro – respondia com ironia ao ver sua treinadora se aproximando com uma cara de poucos amigos.

— Isadora, você devia estar aqui há meia hora – ela falava enfática para ela, mas virou-se amigável para mim – Ah, bom dia, Rafaela.

— Bom dia, treinadora.

— Alice está esperando lá na mesa – e desvencilhou Isadora dos meus ombros – E eu vou roubar essa pessoa aqui de você um instante.

— Fique à vontade – dei um sorriso para ambas, e Isadora riu de volta – Até mais tarde.

Com aquela cara, certamente ela iria aprontar mais alguma coisa. Balancei a cabeça rindo ao pensar naquela personalidade tão conflitante e fui para a mesa com minha treinadora, que já aguardava com o café montado na mesa, mas dessa vez, estava só.

— Bom dia, Rafa – ela puxou a cadeira para que eu sentasse – Como está se sentindo hoje?

— Bem, tudo certo até agora – logo peguei um dos pães – Onde estão as meninas?

— Foram pro Centro de Treinamento – ele respondeu tomando um gole de café preto – Vamos começar pela ioga e...

Resmunguei enquanto servia café para mim, e ela deu uma leve tossida. Fazia isso quando queria chamar minha atenção.

— Não esqueça que...

— Treinar mente além de treinar o corpo, eu sei – dei com os ombros – Chato.

— Vocês precisam disso – ela dizia firme – Só depois vamos para o treino na piscina. E eu estou aqui pra supervisionar que está tomando o café direito – e cruzou os braços, séria. Alguém já tinha me dedurado.

— Sei o que estou fazendo – ela me alertou, cortando qualquer coisa que eu fosse falar – Eu sou sua treinadora, esqueceu?

— Tudo bem. Desculpe, é que tudo isso está me deixando tensa e... – dizia gesticulando rápido, aflita, mas ela colocou a mão na minha cabeça e, deixando a face séria de lado, deu um sorriso acolhedor.

— E por isso que a ioga ajuda vocês – e se levantou, dando um tapinha na minha casa – Te espero lá.

Suspirei aliviada. Sentia-me agraciada por ter uma treinadora tão solícita, mesmo sendo muito dura às vezes. Mas não tinha como não ser naquele ambiente.

Estávamos treinando para ser as melhores das melhores. As melhores do mundo. Anos de treinamento iam mostrar resultados ali para poder alcançar o que sempre sonhamos: a medalha olímpica.

Mas para chegar onde queríamos, muito suor e lágrimas eram derramados e pelo visto, quanto mais o sonho se aproximava em meses, mais tensa ficávamos. Porém, tensão demais desestabiliza e nos faz perder. E equilibrar tudo aquilo era mais difícil do que qualquer um podia pensar.

Era um sonho de infância que tomava moldes, mas assim que a ideia se consolidava, mais medo eu tinha: medo de perder era o principal, mas o medo da rejeição e a culpa de achar que não estava me esforçando o suficiente me assombrava quase todos os dias, e esse nervosismo me tirava às vezes o sono e por vezes a fome. E era por isso que antes do café eu sempre mergulhava na piscina, em uma melhor forma de dizer o que estava fazendo ali e o porquê estava fazendo aquilo.

Não entendia como tinham pessoas como a Isadora que pareciam levar tudo aquilo como uma grande brincadeira. Fugindo de compromissos, não seguindo a rotina, levando advertências, ela aparentava não levar nem um pouco a sério tudo aquilo que estávamos e isso levava a inúmeros olhares tortos em sua direção. Enquanto tomava o suco de laranja fresco e servia mais um pouco da mesa farta do café, questionava-me se no final das contas, eu deveria relaxar mais ou ela que estava relaxada demais. Péssimo exemplo ter uma amizade com Isadora, no final das contas.

Depois do café, e de meditação para prosseguir com o treino na piscina com pesos pela manhã inteira e, depois do almoço e após o descanso, seguimos para o treino com musculação e finalmente, pelo de velocidade na piscina. Consegui manter o tempo na média, mas ainda sentia o amargor de que poderia fazer melhor.

No banho, enquanto me enxugava, vi Cláudia se aproximar.

— Rafa – ela deixava a toalha envolta no corpo enquanto balançava o cabelo para se livrar do cloro que persistia – Tá tudo bem?

— Estou, é só que... – suspirei fundo – Eu sei que eu posso dar meu melhor e...

— Às vezes nossa vida não é só trabalho – ela passava o creme em seus cabelos. Mantive-me em silêncio, olhando para os lados e vendo as pessoas irem embora.

— Eu sei que isso aqui é sério – ela continuou a falar – mas se você não relaxar, não vai conseguir se soltar na piscina. Nossa mente tem que estar equilibrada com o corpo, lembra?

— Eu sei, mas... – dizia reticente – Na prática é difícil.

— Por que você não vai lá no CT da Isadora? – ela puxava sua muda de roupa da bolsa – Tenho certeza que ela vai dar um jeito de aprontar alguma coisa que vai te fazer ao menos soltar mais esses seus ombros – e bateu com as mãos em meus ombros, ressoando o barulho que fazia deles – Tá vendo?

— É, pode ser...

— Se não, passa lá no meu quarto mais tarde – ela virou para mudar de roupa – Vamos pedir uma pizza e assistir alguma coisa.

— Então tudo bem – respondi caminhando para a parte de fora do vestiário – Vejo vocês mais tarde então.

Andei por alguns quilômetros até chegar na pista onde Isadora estava treinando. Pelo que bem conhecia dela, deveria estar até depois da hora andando e quando estava me aproximando, vi aquela pequena figura voar e depois sumir, e ao continuar caminhando, vi ela fazer aquilo ainda mais alto.

Encostei-me na grade que tinha ali perto, encarando o que via e entendendo mais uma vez o porquê que mesmo ela sendo uma garota indisciplinada por muitas vezes, faziam tanta questão de que ela continuasse na equipe: ela era realmente muito boa com aquilo.

Fazia manobras difíceis parecerem algo que qualquer um poderia fazer sem maior esforço, mas só quem acompanhava seu treinamento sabia que, por mais que ela tivesse seus defeitos, a persistência era uma das suas maiores qualidades, que atreladas a naturalidade de lidar com aquilo, a levou a chegar naquela equipe.

Ela voou mais uma vez naquela plataforma e deslizou com seu skate de costa, arrastando-o até o chão e virando mais uma vez. Lançou um grunhido satisfeito e bateu com ele no chão, levando-o até seu braço com naturalidade. Isadora andava tanto com aquilo ao seu lado que era até estranho vê-la sem ele e ao notar que eu a olhava, o deslizou no chão, montou seus pés nele e veio até mim.

— E aí – ela bateu com ele de novo – Faz tempo que tá aqui?

— Acabei de chegar – apontei para seu skate – Conseguiu fazer aquela manobra?

— Sim, mas ainda tenho que aperfeiçoar – ela dizia satisfeita – Ainda está no tempo, sem bronca, e você?

— A Clara disse que devo relaxar e me indicaram você como solução para o meu caso – cruzei os braços, encarando a uma Isadora que começava a se animar com o que eu dizia – E aí, o que me indica?

— Bem... – ela dizia com um sorriso traquina no rosto – Tem uma coisa que estou querendo fazer mesmo e acho que preciso de sua ajuda.

— Vamos vandalizar alguma coisa?

— Não, mas quase – e abaixou o tom de voz – Vamos entrar no CT de ginástica.

— Tá brincando, né? – perguntei com ironia – Só as ginastas entram ali. Sabe como a treinadora delas é maluca.

— Ninguém precisa saber – ela colocou o skate no chão mais de uma vez, deslizando sobre a calçado – Vamos logo.

Revirei os olhos e me dei por vencida diante da mais nova loucura da Isadora.

Entrar no Centro de Treinamento da ginástica era uma missão à parte. Primeiro que ela era russa, só seu jeito de falar intimidava e segundo, ela prezava em deixar seu time o mais impecável que pudesse para manter a fama deles e terceiro, seus treinos eram conhecidos por serem às portas fechadas para que as garotas do time não tivessem quaisquer distração. Tão certo era isso que elas sequer podiam conversar com outros pessoas dos polos, apenas entre eles mesmos, como em uma pequena cidade com as fronteiras fechadas para visitação.

Mas Isadora não parecia se importar de que a treinadora Natasha pudesse pegar seu corpo magro e baixo e jogar com maestria para fora e ainda assim dar um pulo para trás e ainda cair impecavelmente. Ela poderia ser cruel e ter a fama de tirana, mas aquilo garantia que o time de ginástica e ginástica artística fossem as mais cotadas em ser as melhores dali.

Entramos pela grade de trás, como duas gatunas prontas para o grande golpe. Isadora subiu primeiro pelas minhas costas e pulou, e eu subindo na grade que não era tão baixa, usei a força dos meus braços para pular para o outro lado sem grandes problemas. O problema não era você estar naquele espaço, o problema maior seria entrar sem ser encontrada.

— Isa, eu acho que isso não é...

Ela colocou o dedo em meus lábios, demonstrando que eu ficasse em silêncio e gesticulou para que andássemos na ponta dos pés e se esgueirando pelos arbustos que ali tinham, chegamos até o portão do lugar. Podia-se ouvir dali as batidas no chão dos treinamentos que seguiam mesmo de noite.

— Coloca esses braços pra funcionar – Isadora me empurrou para o portão – que eu cuido do resto.

Não tinha como negar o seu pedido naquela altura e empurrei o pesado portão de ferro com o antebraço. Deveria estar com algum peso a mais em medida para que curiosos não se atrevessem a entrar, mas ainda assim haviam as pessoas que se arriscavam, como nós.

Isadora passou pelas minhas pernas e foi andando encostada na parede. Estávamos nos fundos, mas ainda assim havia ainda o risco da treinadora ou algum assistente nos encontrar e claramente não dava para mentir alegando que fazíamos parte da equipe, afinal nem o porte físico adequado tínhamos para isso.

Segui-a pelo caminho escuro e, depois de nos perdemos por três vezes e se esconder duas de passos que corriam pelo lugar, chegamos aonde elas treinavam. Era um lugar amplo e absurdamente iluminado, lotado de aparelhos e sem o sinal de nenhum som que não fosse o dos passos e batidas contra o chão de ginastas correndo de um canto a outro.

Isadora, sem fugir do seu objetivo, apontou para que ficássemos na última fileira, ao qual não tinha nenhuma iluminação e que, segundo ela, não íamos ser vistas e eu, relutante, segui o seu plano mais uma vez fazendo o mínimo de barulho possível.

Confesso que estar ali trazia uma sensação de satisfação em meio a delito saudável, e isso era perceptível no olhar cúmplice que lançamos uma a outra ao ver onde chegamos e nos cumprimentamos com um aperto de mão, afirmando que nosso crime tinha se dado com sucesso.

— Sempre quis saber o que elas fazem demais no treino... – Isadora sussurrou para mim – É tanto segredo, parece até uma seita.

— Acho que nada demais, elas só ficam pulando de um lado para o outro, de cima para baixo... – gesticulava em direção a elas – Tem nada demais não, vamos?

— Claro que não – ela fez uma careta – Já que estamos aqui, vamos ver.

E voltou seus olhos rapidamente para onde treinavam. Suspirei e cruzei os braços, analisando o que acontecia ali.

18 de Abril de 2021 às 00:48 0 Denunciar Insira Seguir história
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