antonio-stegues-batista Antonio Stegues Batista

No mosteiro de São Petrônio, o noviço Daniel descobre na biblioteca um livro que ensina a fazer um golen feminino. Ele e Filinto roubam o livro e de acordo com as instruções, fazem um encanto com uma boneca de pano, acreditando que ela se transformará numa jovem de carne e osso. Dois dias depois...


Suspense/Mistério Impróprio para crianças menores de 13 anos.
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Boneca de Pano

Mosteiro de São Petrônio, Rio de Janeiro-1882


Filinto passava a maior parte do tempo junto com outro jovem da sua idade, Daniel Dantas, também noviço. Na catequese, nas orações e penitências estavam sempre juntos e se ajudavam um ao outro nas tarefas e obrigações do dia-a-dia. Certo final de tarde, passeando pelo jardim, Daniel indagou:

─ Você teve namorada? Antes de fazer os votos?

Filinto sacudiu a cabeça. ─ Não.

Daniel ficou surpreso. Esboçou um sorriso de escárnio. Depois, aprumou o peito e afirmou: ─ Eu tive várias.

─ Várias? Não acredito! Estais mentindo.

─ Bem, na verdade, foram duas.

─ E você resolveu ser padre porque foi rejeitado, suponho.

─ Não! Nada disso. Bem, não importa.

Daniel parou no caminho lajeado. Olhou para os lados. Certificando-se de que não havia ninguém nas proximidades para ouvi-los, ele baixou o tom de voz.

─ Você não sente vontade de ter uma mulher?

Filinto foi pego de surpresa com a pergunta. Estava com 26 anos e nunca teve contato íntimo com nenhuma mulher. A mãe o preparou desde criança para a vida sacerdotal, ensinando os preceitos religiosos, demonstrando o que eram as boas virtudes, o que eram os vícios e os pecados. O pecado era a porta do inferno. A mãe dizia para ele nunca esquecer que uma vida dedicada ao bem, livre dos pecados, dos vícios e prazeres mundanos, agrada à Deus. ” Só os puros de coração têm lugar garantido no paraíso. Para dedicar sua vida a Deus, é preciso ignorar, renunciar, esquecer certas coisas. Até atingir a perfeição do espírito, é um caminho árduo. O inimigo lançará de muitos subterfúgios para fazer você mudar de caminho e entrar na porta larga, aquela que leva ao inferno. Se você quer ser um padre, não poderá se casar, nem olhar com desejo para mulher alguma”.

Filinto sempre evitou olhar diretamente para uma mulher, solteira ou casada. Se por algum motivo algum pensamento de luxúria viesse à sua mente, ele rezava o Pai Nosso e a Ave Maria.

─ Procuro rezar e afastar tais pensamentos. Meu objetivo é a vida monástica, seguir os preceitos religiosos. Quero ser um sacerdote puro de corpo e alma.

─ Deixa de ser bobo! Ter uma mulher não é pecado nenhum. A proibição é uma regra criada pelos homens e não uma Lei de Deus.

─ Escolhi viver num mosteiro, longe da sociedade, me dedicar a uma rotina só de orações e trabalho. Sabes muito bem que o Abade não permite mulheres no mosteiro, nem que seja para uma visita. Nem os outros padres aceitariam uma mulher vivendo conosco! Onde estais com a cabeça?

Daniel deu de ombros, falou num tom amistoso. ─ Eu só queria saber a tua opinião.

─ Se você quer se casar, por que não abandona a clausura e vai viver tua vida lá fora?

Daniel ficou em silêncio por um momento, tornou a olhar para os lados e inclinou a cabeça. ─ Quando meus pais morreram, andei vagando pelas ruas pedindo esmolas até que o padre Gregório me acolheu e desde então, estou me preparando para ser sacerdote. Não quero sair daqui, não. Esquece o que eu disse.

O rapaz calou-se e eles continuaram a caminhar, cada um lendo o seu breviário. O assunto pareceu ter se esgotado ali, mas no dia seguinte, quando eles estavam lavando o piso da cozinha, Daniel voltou a falar no mesmo assunto.

─ Nós podemos criar uma mulher. − disse ele em voz baixa. Filinto olhou ao redor. Certificou-se de que estavam sozinhos na cozinha, mesmo assim, teve receio que alguém ouvisse a conversa. Achou que o companheiro estava sendo impertinente. Não queria ser rude, mas precisava tirar aquelas ideias da cabeça dele.

─ De onde você tirou essa maluquice? Não somos Deus para fazer tal coisa!

─Tem um livro na biblioteca que ensina.

Aquela revelação deixou Filinto admirado. Ele estava há dois anos no mosteiro e nem sabia o que tinha na biblioteca, aliás, sabia que tinha livros, mas nunca entrou lá porque o seu livro de orações lhe bastava. O Abade proibia que os noviços entrassem na biblioteca sem autorização. A maioria dos livros vieram da Europa, principalmente de Portugal. Como ele mesmo disse; “A biblioteca contém segredos, verdades e mentiras e a proibição de entrar lá, é porque nem todas as verdades são para todos os ouvidos, nem toda mentira é vista como tal e isso pode afetar o espírito de quem ainda não está preparado para enfrentar o maligno “.

─ É uma fórmula mágica − disse Daniel, inclinando-se para Filinto. ─ A criatura obedecerá a seus criadores e somente a eles. Podemos escondê-la em minha cela e brincar com ela depois das Completas.

─ Brincar, você quer dizer, deitar com ela?

─ Você sabe que não podemos ir a um bordel, tampouco trazer uma mulher para o nosso quarto.

Filinto baixou o tom de voz e o outro teve chegar mais perto para ouvir.

─ Como você descobriu esse livro? Já o leu?

─ Não. Foi irmão Antero que falou. Ele é quem faz a limpeza lá e encontrou o livro por acaso. Disse que a criatura obedecerá a seus criadores e somente a eles.

─ Como vamos entrar lá se a porta está sempre trancada? − Filinto fez a pergunta e arrependeu-se tarde demais. Estaria o maligno turvando sua razão?

─ Antero faz a limpeza do lugar. Ele tem uma cópia da chave. Guarda no quarto dele. Quando ele estiver dormindo, entrou lá e a pego, mas eu vou precisar da tua ajuda para encontrar o livro.

****

Filinto acabou de fazer a oração e sentou-se na beira da cama. Ele tinha pensado exaustivamente nos prós e contras daquele ato que estava por fazer. Daniel afirmou que não era bruxaria, caso contrário, não estaria na biblioteca do mosteiro. Disse que era ciência. A golem seria criada para as necessidades do corpo, assim como as orações e súplicas o eram para a alma. Citou o apóstolo Paulo que disse; “cada homem deve ter sua própria mulher”. Mas ele não falou dos monges. A Ordem incentivava o celibato, mas não proibia que o monge tivesse esposa, desde que ele a visitasse uma vez por mês.

Esses pensamentos vinham à cabeça de Filinto, enquanto ele aguardava por Daniel. Queria poder ter certeza de que sua alma não arderia nas chamas do inferno. Já estava na idade adulta e nunca esteve com uma mulher. Sua mãe sempre o manteve trancado em casa, “longe das maldades do mundo”, como dizia ela. Achava que nenhuma garota da vila era boa o suficiente para ser esposa dele, além do mais, a mãe queria que ele fosse padre. Agora tinha uma oportunidade para ter uma namorada, alguém que faria tudo por ele. Outra preocupação era a reação do Abade caso descobrisse a mulher. Provavelmente os dois seriam expulsos do mosteiro e da Ordem.

Uma luz tremulou por debaixo da porta e Daniel entrou, segurando um candeeiro. Exibiu a chave, sussurrando: ─ Vamos.

Filinto respirou fundo, não conseguiu resistir à tentação e seguiu-o através do corredor escuro, na ala dos dormitórios. Passaram pela porta do refeitório, atravessaram a sala de estar e subiram a escada para a biblioteca. O silêncio era imenso, como se tudo e todos estivessem mortos. Filinto se sentia em outro lugar, em outro tempo como uma alma penada vagando no limbo. Daniel enfiou a chave na fechadura e girou.

Entraram rapidamente, tornando a fechar a porta. Havia várias estantes. As prateleiras cheias de rolos de pergaminho, livros, cartas, fórmulas, bulas, uma infinidade de textos. Seria difícil achar o livro que procuravam. Daniel acendeu outro candeeiro e deu para ele. ─ É um livro de capa vermelha, pequeno.

Filinto tinha que aproximar a chama para enxergar melhor e havia o perigo de colocar fogo em alguma coisa. Seria uma tragédia se a biblioteca incendiasse. O cheiro de poeira fazia seu nariz coçar. Eram muitas prateleiras para examinar. O tempo foi passando e parecia que a noite acabaria e o livro não seria encontrado. Filinto já estava cansado de se abaixar a levantar, para olhar os livras de baixo e depois os de cima, quando finalmente, Daniel tocou o braço dele.

─ Achei! Vamos embora.

Voltaram pelo mesmo caminho e entraram no quarto de Filinto. Os dois sentaram-se na beira da cama e à luz dos candeeiros, começaram a examinar o livro. Devia ter umas 50 páginas, todas perfuradas numa borda com um barbante encerado amarrando-as juntamente com uma capa lisa, de couro, pintada de carmim. A maioria dos textos eram simpatias para dar sorte, ganhar dinheiro, amaldiçoar um inimigo, expulsar demônios, fórmulas para acabar com pragas nas plantações, curar doenças nas tetas das vacas e muitas outras coisas. A fórmula para criar um golem feminino estava nas últimas páginas.

Para fazer um golem feminino são necessários cinco ingredientes; uma boneca de pano,1 ovo de galinha,1 colher de pó de calcário, 1 colher de sal e 5 colheres de vinho tinto. Mistura-se tudo numa tigela e com a poção, besunta-se a boneca e em seguida pronuncia-se as palavras mágicas; Ortus Erat Spiritus Vitae et Femina Reservat. ”

****

No dia seguinte, Daniel se reuniu com Filinto no quarto dele para fazer o golem feminino. Eles tinham arranjado todos os ingredientes e agora misturavam tudo numa tigela. Daniel tinha feito a boneca com panos e desenhado a boca e os olhos. Os cabelos eram as franjas de uma cortina velha que ele cortou e colou na cabeça da boneca com goma de mandioca. A receita não mencionava o tamanho da boneca, por isso eles fizeram uma pequena, crendo que o ovo a faria crescer e se desenvolver numa mulher de tamanho médio. Daniel colocou o objeto no chão e os dois se ajoelharam. Com o livro na mão, pronunciaram as palavras mágicas que dariam vida ao golem.

Permaneceram em silencio, olhando a boneca, esperando a transformação. Cinco minutos depois eles repetiram as palavras, mas de novo, nada aconteceu. Decepcionado, Filinto sentou-se na beira da cama.

─ Besteira! Tudo isso é bobagem! Acho melhor você devolver esse livro à biblioteca antes que alguém dê por sua falta. Aliás, isso aí não vale nada!

Daniel ainda ficou ajoelhado sem piscar os olhos, com a esperança de ver alguma coisa diferente naquele boneco brilhante, onde o calcário se transformaria em ossos, o tecido em carne, o vinho em sangue. Mas nada aconteceu. Permaneceu imóvel, de cabeça baixa por um momento, depois pegou o livro e saiu. Filinto chutou a boneca para debaixo da cama e deitou-se para dormir.

Na manhã seguinte, ele levantou-se na hora habitual para as orações. Depois do desjejum foi trabalhar nos vinhedos. O dia passou sem novidades, mas no outro dia, o cozinheiro reclamou que alguém pegou o toucinho que ele iria colocar no feijão. Em outra manhã, ele descobriu que um pedaço de queijo e um pão tinha sumiu da despensa. Não foi rato, pois a despensa estava fechada e não havia nenhum buraco na madeira.

Uma busca foi feita na cozinha, mas nada encontraram. Chegou-se à conclusão, que alguém havia pegado os alimentos fora do horário das refeições. O abade fez uma advertência dizendo que aquilo, além de ser um pecado, era antiético.

O quarto de Filinto era o que ficava mais perto da cozinha, portanto, o ladrão achou o lugar ideal para se esconder, o que foi uma coincidência estranha. Filinto acordou no meio da noite sentindo que alguma coisa bateu nas ripas da cama. Ele levantou-se, acendeu a lamparina, ajoelhou-se, iluminando debaixo do leito. O susto foi tão grande que ele se atirou para trás e arrastou-se até a parede oposta. Debaixo da cama tinha alguém, uma mulher de cabelos negros. Filinto ficou sentado no chão, surpreso, espantado. O sortilégio havia dado certo! O rosto dela surgiu na luz tremeluzente da lamparina.

─ Saia daí, não tenha medo. − disse ele. Ela saiu e ficou sentada no chão, de cabeça baixa. Usava um vestido cinzento, sujo, os cabelos estavam emaranhados, as unhas também sujas. Porém, a beleza da garota era sobrenatural. Parecia um anjo.

─ Meu nome é Filinto e o seu? Como se chama? Ah! Como sou bobo, você acabou de nascer e ainda não tem nome.

Ela aparentava ser mais jovem do que ele. Permaneceu calada, torcendo a barra do vestido com os dedos engordurados, depois de comer o queijo roubado da despensa. Olhou para o rapaz com olhos brilhantes, com uma expressão de ingenuidade e inocência.

─ Não importa. – ele disse, num tom afetuoso ─ Eu vou te ensinar tudo, até ler e escrever. Espere aqui, não saia do quarto. Eu já volto.

O rapaz saiu com os pensamentos em alvoroço, foi até o quarto de Daniel e o acordou, dizendo que a magia deu certo. Incrédulo, Daniel foi ao quarto dele e ficou maravilhado com a beleza da garota.

─ Nós podemos fazer tudo que quiser com ela! − disse ele, eufórico.

─ Não! Ela merece o nosso respeito. Precisamos tirá-la do mosteiro.

─ Sim, tem razão! Se os outros a descobrem a tiram de nós, com certeza.

─ E seremos castigados por bruxaria.

Daniel deu algumas passadas pelo quarto, pensativo. Parou, voltando-se.

─Tem uma cabana abandonada no bosque. Podemos deixá-la lá. Sairemos ao amanhecer.

Enquanto eles conversavam em voz baixa, a garota se deitou na cama de Filinto e adormeceu. Filinto pegou um cobertor na cômoda e estendeu num canto para dormir.

─ Vou dormir aqui essa noite − disse Daniel. ─ Sairemos logo que amanhecer.

***

Filinto acordou com gemidos e batidas na parede. Pegou os fósforos e acendeu a lamparina. Ficou surpreso ao ver Daniel sobre a garota. Ele achou que eles estavam tendo conjunção carnal, mas percebeu que Daniel tampava a boca dela e ela estava se defendendo, o empurrando para fora da cama. Filinto nunca tinha visto Daniel tão descontrolado e selvagem. A garota esperneou, tentando escapar, mas ele estava decidido a satisfazer seus instintos.

Filinto tirou o cordão do hábito, enrolou no pescoço de Daniel e começou a puxar. O rapaz tentou se desvencilhar, mas a raiva de Filinto e o dever de proteger a garota multiplicaram suas forças. Dali em instantes Daniel deixou de lutar e suas mãos caíram, inertes. Com a respiração ofegante, Filinto se afastou. Ficou estático, sem remorso, olhando o corpo sem vida do companheiro. A garota aproximou-se dele e deu-lhe um beijo na face. Aquele beijo selava o compromisso dos dois, cada um protegeria o outro e só ao outro deveria confiar.

***

Frei Januário foi ao poço pegar água para fazer o almoço. Naquele quarta-feira faria uma sopa de legumes. Quando foi descer o balde, viu algo lá no fundo. Ficou apavorado ao perceber que era um corpo humano. Ele saiu gritando e o mosteiro ficou em polvorosa.

Quando içaram o corpo, descobriram que era Daniel Dantas. Chegou-se à conclusão de que fora um acidente, o rapaz foi pegar água para regar a horta, se descuidou e acabou caindo no fundo do poço. Filinto chorou no velório, um choro real causado por um sentimento verdadeiro. Ele gostava de Daniel, sempre foram bons companheiros e amigos inseparáveis.

Havia tirado a vida dele por um motivo muito forte, justo. Daniel tinha sido possuído pelo maligno, estava para cometer um crime, possuir a garota sem o consentimento dela, macular o seu corpo, visto que anjo era. Filinto achava que tinha salvado a alma do amigo do fogo do inferno. Ele estava em paz com sua consciência.

****

Depois do sepultamento, Filinto aproveitou que não tinha ninguém na cozinha para pegar pão, queijo e salame. Levou para o quarto. Com uma faca cortou algumas rodelas de salame, um pedaço de queijo, colocou no pão e deu para a garota comer. Enquanto ela comia, ele ficou pensando num nome para ela. Ele conhecia tantos nomes que era difícil escolher. Tinha que ser um nome que combinasse tanto com sua beleza angelical, quanto o porte físico. Súbito, a porta se abriu e entrou o cozinheiro, esbaforido.

─ Eu vi quando você pegou... - começou ele, mas parou ao ver a garota. Olhou-a de alto a baixo. – O que ela está fazendo aqui?

─ Ela é minha. − respondeu Filinto depois de uma breve hesitação.

Januário enrugou a testa, intrigado. ─ Sua, o quê? Irmã? Amiga? Não interessa, o Abade vai saber disso agora mesmo. As regras são claras, é proibido mulheres no mosteiro.

Filinto não gostou nada da possibilidade de ficar sem a sua criação. Ele pegou a faca e quando o cozinheiro saía, cravou nas costas dele. Januário caiu de joelhos sob o umbral, fez uma careta de dor e ainda teve forças para pedir por socorro. Gritou o mais alto que pode e depois caiu de cara no chão. Filinto pegou a mão da garota. Na fuga, ela se inclinou para pegar algo. Deixando o quarto, atravessaram a cozinha e chegaram aos fundos do pátio.

Sempre segurando a garota pela mão, Filinto subiu uma escada e entrou na torre do sino. Havia uma árvore do outro lado do muro. Alcançando os galhos eles poderiam subir na árvore e saltar para o outro lado, para a rua. Ele se voltou para a garota para dizer algo. Ela fez um gesto com o braço e cravou a faca no peito dele. O rapaz arregalou os olhos de espanto, olhou para o próprio peito e depois para ela. A garota sorria, o rosto suado, os dedos sujos envolvendo o cabo da faca.

Os joelhos de Filinto se dobraram e ele caiu, bateu com a cabeça no sino e despencou no vazio. O sino balançou, o badalo tocando as paredes de aço. Ouviu-se duas badaladas. O som fúnebre ecoou sobre o mosteiro.

****

O Abade Ramiro recebeu em seu escritório, o diretor do Hospício Dom Pedro II, doutor Zenildo D’Almeida. Dois enfermeiros troncudos seguravam a garota. Ela estava com os braços presos numa camisa-de-força. Tinha no rosto uma expressão de indiferença.

─ Bernadete tem problemas mentais, como o senhor bem pode ver.− disse o diretor. ─ Ela aproveitou a distração dos enfermeiros para fugir. De agora em diante nós vamos ter que mantê-la num quarto, bem trancada.

─ E eu vou mandar cortar aquela árvore nos fundos. Creio que foi por ali que ela entrou no mosteiro e se escondeu no quarto do pobre Filinto. − disse Dom Ramiro.

Zenildo se despediu lamentando o ocorrido. Antes de ser levada, Bernadete voltou o rosto para o abade e sorriu. Ramiro estremeceu, sentindo uma pontada na barriga, como se uma lamina de aço perfurasse suas entranhas.

FIM

10 de Abril de 2021 às 12:25 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

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