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Dean: Entre o Bem e o Mal conta história de Dean Lincoln, um rapaz de 23 anos que busca um novo rumo na sua vida após um passado turbulento. Entretanto, fragmentos do passado o assombram, reescrevendo o rumo da sua vida por completo.


Aventura Para maiores de 18 apenas.

#magia #comic #brasil #quadrinhos #japão #história #independente #regentes #Storynotes
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Capítulo 1: Sileo (Recomeço)

Na primeira Difusão, o universo surgiu. De um ponto minúsculo mergulhado em um vazio solitário, vários materiais começaram a surgir. Engrenagens pre-programadas, se encaixando perfeitamente, ainda ínfimas na sinfonia do silêncio eterno. Sem saber, eles estavam expandindo e criando os primeiros horizontes, dando luz aos primeiros materiais que, mais tarde, viriam a se transformar em lares colossais, concretizados das mais variadas formas e localizados nos destinos mais longínquos, criando os seus próprios conceitos de tempo.


Dos lares rudimentares da Primeira Difusão, surgiram novos seres e entre eles estava Tär, Primeiro Consciente. Uma Casca de Carne, Osso e Músculos, perfeitamente composto por pequenas conexões escondidas dentre os músculos. Mais tarde, essa ordinária criatura foi chamada “Ser Humano”.


No início, a sua necessidade era, digamos, a sua “inteligência”, por assim dizer. Ele lutava por todas as suas providências, desde roupas até alimentos. E assim, Tär, antes ordinário, ganhava consistência e passava pela malha do tempo com facilidade, criando sociedade e, inevitavelmente, uma cultura. A malha do tempo fora generosa com O Primeiro Consciente, ele viveu por vários anos, e por várias décadas. A primeira sociedade criada e conduzida pelo Primeiro Consciente, evoluiu ao ponto de se transformar na primeira Humanidade, guiando-a para a luz do futuro incerto e moldável que dependia apenas das escolhas dos seres presentes naquele tempo.


Durante eras de estabilidade, O Primeiro Consciente partiu e a Humanidade teve o seu primeiro contato com a morte. Os seus feitos foram lembrados em variados rabiscos nas rochas, tornando-o uma Lenda. Do Luto e da dúvida, nasceu a Incógnita, um local isento do tempo e do espaço, onde apenas aqueles que forem tão poderosos e fortes como o Primeiro Consciente, podem caminhar por lá, criando, a partir de suas memórias, um local de conforto.


A partir da morte do Primeiro Consciente, a sociedade conheceu o medo na sua forma mais pura. O medo da Morte, do desconhecido, e sob a narrativa de que “A Presença do Primeiro Consciente irá nos proteger” surgiram líderes para guiar a humanidade e então surgiu Liak.


Um caçador frio, calculista, opressor, Liak guiou a humanidade e ensinou os limites do ódio, pregando que as coisas acontecem após a força e de que eles não deveriam temer a morte. Ele também pregava que Tär deixou apenas medo e isso a enfraqueceu. Tempos depois, ele morreu por um animal e da sua essência nasceu o primeiro Ser Oculto. Um ser obscuro representado pelo ódio, sem lar. A sua presença causa o retrocesso e leva aquelas mentes fracas para a morte ou para a corrupção.


Para conter Liak, sempre existiu Tär, para que a humanidade pudesse viver sem a sua influência.


A humanidade evoluiu, várias lendas surgiram e para cada lenda, um ou mais oculto surgiram. Como um xadrez progressivo, que construíam a suas regras conforme o tempo. Lendas de várias épocas da humanidade, vários tempos, que no fim da sua existência terrestre se encontravam em um objetivo. Proteger a humanidade e ajudá-los a se desenvolverem pacificamente.


Entretanto…

Em uma noite, Outra Difusão aconteceu.

E as Regras mudaram.


[Sacramento — 02:40]


A cidade de Sacramento é a mais “escondida” na rota até San Francisco. Calma lá, não é como uma cidade fantasma. Ela é uma cidade calma, a sua beleza está em sua paz acima do normal, pois, pouco se fala dos seus casos de violência. Enquanto a sua vizinha famosa, está sofrendo uma epidemia de violência onde a própria polícia, segundo a opinião popular, está “encolhida” perante a criminalidade.


No leste de Sacramento, há catorze quilômetros da divisão entre San Francisco e Sacramento, em um apartamento minúsculo e bagunçado, um rapaz de camisa preta e vermelha, observava a densa floresta por trás das casas. Há algumas horas, havia caído uma chuva forte com ventos leves e agora caia uma garoa silenciosa.


Ele havia passado o dia e parte da madrugada arrumando suas coisas nas caixas, desarmando alguns móveis e empacotando alguns eletrônicos e livros. Entretanto, mesmo com o cansaço, ele continuava acordado. O sono não voltaria tão cedo, pois, algo havia acontecido.


Alguém destranca a porta e ao abrir, um rapaz de pele negra e roupas pesadas de inverno entra ao lado de uma mulher formal de cabelos castanhos, aparência latina que usava um blazer cinza-claro e segurava uma pasta preta. O rapaz com roupas de inverno tinha uma voz bonita, aveludada, mas falha por conta do seu sotaque carregado, e usando esse seu artifício, ele fala:


— Dean! Desculpa a demora, cara. Essa chuva estava eu não esperava essa maldita chuva. Consegui trazê-la.


A moça se apresentou automaticamente:


— Olá, Sr. Lincoln, tudo bem? Meu nome é Rosa Castro e sou a responsável pela divisão de bens de Nicolas Lincoln, seu pai.


A última denominação, 'pai' incomodou Dean, que retrucou logo em seguida:


— Apenas Nicolas Lincoln, por favor. E você pode me chamar apenas de Dean.


Rosa percebeu o tom mais sério de Dean e se desculpou, sem perder o tom de seriedade.


— Então, Dean. Como você sabe, Nicolas Lincoln foi declarado como morto há quatro dias. Ele se suicidou no próprio quarto em um casebre em Louisiana. O sepultamento foi há algumas horas. Você não compareceu?


— Ele não merece a minha presença, não tem motivo para perder meu tempo com isso.


O rapaz sente um pouco da frieza de Dean e, usando a sua religião, resiste:


— Deus lhe deu uma última oportunidade para o perdão, Dean. Por favor…

— Não insiste, Arno. Por favor.


Então não insistiu, mas também não aceitou a atitude de Dean. Rosa Castro, prosseguiu, ela abriu a pasta preta que revelou uma pilha de documentos, uma grande parte deles com as fotos de Dean e Nicolas no topo do documento, sendo a mais antiga delas a de Dean, aparentemente uma criança na época.


— Pois bem, Nicolas não tem nenhum herdeiro além de você. Ele tinha uma filha, Helena Hasegawa, mas ela foi morta brutalmente há alguns anos com a mãe.


— Tem como ser mais direta, Rosa?

— Deixe-a terminar, Dean. — reclamou Arno

— Não, ele tá certo. Já está bem tarde e eu preciso voltar para casa.

— Tudo bem.

— A herança deixada está avaliada em trinta mil dólares. Esse dinheiro está em uma conta reserva aberta há vinte anos. Você estava no testemunho dele, então preparei um documento de transferência de nome caso aceite o dinheiro.


Rosa pegou uma pilha de papéis e colocou no espaço ao lado de Dean na janela, deixando uma caneta preta e dourada por cima dos papéis.



Trinta mil dólares. Em alguns países, a conversão de toda essa grana daria para mudar uma vida por inteiro, tirar ela da lama. Dá para comprar o carro mais novo da Tesla e ainda sobraria para fazer um 'mochilão' pelo mundo, daria para recomeçar a vida de formas inimagináveis. Entretanto, já dizia aquele dito popular “Até o ar que você respira tem uma história” e a história desse dinheiro era triste, tão triste quanto um suicídio. E Dean sabia disso.


Com os olhos voltados ao documento, ele diz:


— Arno, meu velho.

— Fala, cara.

— Faz tempo que você não me fala da sua família, como tá indo?


A França, oito anos depois da saída de Emmanuelle Macron da presidência, sofreu uma crise sociopolítica e se tornou um dos países mais desiguais da Europa. Os pedintes voltaram as ruas e a fome voltou aos subúrbios. Arno Palmer, Filho de um imigrante americano e de uma faxineira francesa, cresceu na linha da pobreza. Volta e meia, ele se juntava a outros garotos para roubar comida e quase sempre se via fugindo da polícia ou se escondendo em alguma casa abandonada até a maré baixar, ficando sem voltar para casa por dias, e até mesmo, semanas.


Cansados disso, os pais de Arno juntaram dinheiro e mandaram ele para a América, para ele recomeçar. E ele prometeu que traria os pais para morarem com ele. Essa promessa já tem doze anos.


— Não tenho notícias da ma' mère há um bom tempo.

— Entendo.


Olhando para Rosa e Arno, Lincoln falou:


— Todo objeto tem alguma história, alguma origem, algum dono de bom ou mau-caráter. Esse dinheiro não foi fruto com uma poupança, ele foi trocado por algo que não tem mais volta. Mas acredito que ele terá um fim justo.


Dean assinou os papéis, passando a conta reserva de Nicolas Lincoln para ele e, consequentemente o dinheiro. De dentro do bolso do blazer, uma carta do banco com as informações da conta com o cartão. Ele pegou a carta e entregou para Arno dizendo:


— Toma. É uma troca equivalente… Uma família por outra.

— Ma sainte Marie. Dean! Porquê?


— Nicolas acabou com as duas pessoas que eu mais amei na minha vida e, provavelmente, esse dinheiro é fruto da minha perda. Quero que ele tenha um bom uso, Arno.


Arno se debulhou em lágrimas e o abraçou forte:


— Dieu est miséricordieux, Dean! Irei lhe recompensar por tudo, velho!

— Fique tranquilo. Rosa, tem mais alguma coisa para fazer? Rosa?


Rosa estava limpando as lágrimas que havia escorrido pelo seu rosto, mas voltou a realidade assim que Dean a chamou.


— Não, por enquanto não tem mais nada para fazer. Atualizo o senhor se acontecer alguma coisa.


— Para onde a senhora vai, Rosé? Posso te levar, se quiser. — Falou Arno emocionado, porém, um pouco mais calmo.


— Não se incomode, Sr. Palmer. Sei o caminho da rodoviária, logo voltarei para casa.


— Très bien (Tudo Bem), Rosa. Que Deus guie o seu caminho!


Rosa fechou a pasta, ajeitou o blazer e seguiu sozinha até a saída do apartamento, deixando Arno e Dean no quarto. Dean olha a bagunça e diz:


— E então, você me ajuda a colocar tudo isso na caminhonete?

— Mais bien sûr! (mas é claro)



[20 min]


Dean havia parado a sua Caminhonete Ford F 1000 modelo 85 reformada na porta do prédio onde ficava a sua antiga casa e uma grande parte das coisas estavam organizadas de forma invejável, sem sobrar nenhum espaço na parte de trás e fazendo com que ela fechasse perfeitamente. Arno providenciou uma lona preta para proteger as coisas da chuva, porém, por conta do seu tamanho, algumas coisas ficaram expostas a garoa.


Enquanto Dean estava revisando os documentos do carro, Arno, ao lado da porta do motorista, disse:


— Você ficará bem, garoto? Já tem como pagar o aluguel de lá, comprar as coisas…

— Sobre isso, eu consigo sobreviver bem. Consegui comprar um canto por lá durante esses anos.

— Como?

— Juntando, economizando. Pelo que vi nas fotos, ele é modesto, não é a toa que foi bem barato. Aproveitarei alguns móveis de lá.

— Deu sorte! É muito raro encontrar apartamento barato em San Francisco. Nem mesmo nos subúrbios.

— Dessa vez foi mesmo, não vou mentir. — disse Dean rindo.

— E quando é que cê volta?


Ele parou de revisar os documentos e começou a pensar em tudo que ele passou pela cidade. Dean chegou aqui durante uma época sombria e esquecível de Sacramento, em meio a protestos, greves e uma população com tanta vontade de batalhar que dariam orgulho ao espartano mais fervoroso. E, mesmo Sacramento sendo um lugar pacífico, ele teve pouquíssimas memórias boas aqui, e poucas pessoas a quem lembrar.


— Acho que vai demorar um bom tempo para voltar para cá, Arno.


— Sério? Graças a você meus pais estão aqui, seria uma honra apresentar o cara que tornou o meu sonho possível!


— Idem, meu velho. Mas não dá, pelo menos não agora. Foram longos anos planejando isso, lutando para que cada passo me levasse até aqui. Não quero olhar para trás agora.



Arno respirou fundo, exalando um pouco de tristeza pelo adeus do seu melhor amigo, porém, mais ainda pela sua última fala. Ele então apertou a mão de Dean e olhou em seus olhos dizendo:


— Ne conduisez jamais les yeux fermés, Dean Lincoln (Nunca dirija de olhos fechados, Dean Lincoln)


Arno fechou a porta da caminhonete e se despediu do amigo em silêncio. Confuso, Dean manobrou o carro e seguiu em direção a San Francisco. Pegando o atalho mais curto para o Caminho dos Patriotas, floresta abaixo.


[Caminho dos Patriotas, 2ª Divisão para San Francisco — 03:44]


Caminho dos Patriotas, uma região que serve de atalho para vários caminhoneiros, e até mesmo viajantes, que querem chegar mais rápido pela cidade e não quer perder tempo no engarrafamento da Golden Gate. Escondida em uma densa floresta de Pinheiros, o local era um verdadeiro parque de diversões para os chamados 'rednecks'. Ignorantes, tanto de personalidade quanto intelectualmente falando, que se isolam do mundo por, simplesmente, falta de entendimento.


Na maioria das vezes, eles se agarram a um patriotismo doentio e religioso, o que os tornam seres bem perigosos.


Enquanto descia a ladeira da floresta para chegar no Caminho dos Patriotas, ele viu a garoa de antes se transformar em uma chuva forte em segundos, seguida de alguns ventos fortes que balançavam violentamente a copa das árvores. Ladeira abaixo, no meio da floresta, haviam alguns casebres e grandes pousadas com alguns comércios adornados por grandes placas de neon brancas bem iluminadas. Por segurança, ele resolveu parar por um momento até a chuva passar.


Ele estacionou na frente de uma pousada simples, bem antiga e, aparentemente com pouquíssimos quartos. Na porta, um jovem no auge dos seus dezesseis para dezessete anos com algumas vestes antigas e levemente rasgadas estava sentado nos degraus da entrada. Ao lado dele, uma senhora de aparência frágil, limitada em uma cadeira de rodas cheia de remendas e marcas pesadas de uso, tentando abrir uma lata de feijão enquanto, em seu colo, sobre uma toalha de mão, estava um prato com um pedaço de frango cozido e ervilhas.


O farol da caminhonete incomodou o garoto que reclamou com um sotaque bastante caricato:


— Cê quer me deixar cego, imbecil? Desliga essa porcaria aí, desliga!


Dean desligou o carro e, consequentemente, o farol apagou. O garoto subiu os degraus e passou pela senhora, sem mover um dedo para ajudá-la. Em vez disso, ele entrou e deixou a porta entreaberta. Dean saiu do carro e foi até a senhora, ela olhou para Dean e disse:


— Vai passar a noite aqui, meu rapaz? É cinquenta dólares o-


— Licença.


Ele pegou a lata da mão da senhora e abriu a tampa e a entregou dizendo:


— Não, só estou esperando a chuva passar.


Colocando o feijão no prato, ela reclama e o seu tom de voz parecia estar bem exausto com a vida que estava levando.


— Esses jovens de hoje não tem mais nada na cabeça, meu rapaz.

— Ele não se importa mais com a senhora?

— Ele se importa mais com a minha aposentadoria do que comigo. Tá doido para que eu bata as botas!


Naquele momento, a senhora respirou um pouco e deu uma colherada no feijão que estava no prato. Ao sentir o gosto da comida, uma expressão de desgosto surgiu rapidamente, a comida passara da validade e estava intragável. Mesmo assim, ela engoliu a comida até o final e deixou o prato no chão.


— Só queria passar o dia sem que esse meu neto não me tratasse tão mal.



No momento em que ela falou isso, ambos escutaram o barulho de uma porta quebrando e uma pessoa sendo arremessada com força para fora de um bar, que ficava ao lado da pousada e era tão grande quanto o humilde estabelecimento. Da porta quebrada surgiu um homem gordo, pois robusto era uma piada perante o seu tamanho, sem camisa e segurando copo de um litro com um pouco de cerveja.


O homem ferido era um pedinte com as suas vestes surradas, ele estava descalço e tinha várias feridas antigas e novas em suas pernas e em seus braços. O seu cabelo estava raspado de maneira abrupta e a sua barba já estava bem espessa. Outro homem, tão gordo quanto o bêbado agressor, entregou uma trouxa improvisada com um saco de farinha de trigo e jogou em direção ao pedinte dizendo:



— Como você tem coragem de vir aqui na minha mesa, do meu bar, no meu Icarus, pedir dinheiro para gente?


O agressor, bruto e ignorante, convoca o homem que estava ao seu lado e diz:


— Ditko!

— Pode falar, Don.

— Pega “O Abençoado”


Ditko, mesmo com a sua alma briguenta, ficou um pouco receoso e retrucou:


— Ô Don, deixe esse merda aí. Não precisa disso.

— Só busca o que eu pedi, se não estourarei a cabeça dele e a sua também.


Ditko entrou no bar e colocou a mão na bancada e puxou um taco de beisebol prateado com uma rede de aço na ponta. Haviam marcas de sangue seco por toda a arma, mostrando que outras vítimas já tiveram a infelicidade de estar em seu caminho. A passos rápidos, Ditko entrou “O Abençoado” a Don e ele caminhou lentamente até o Pedinte, que não tinha muitas forças para se levantar e que se arrastava em meio a lama e a chuva.


— Não adianta colocar uma placa, ameaçar, vocês em vez de procurar um trabalho simples, ficam aqui… Tirando a paz dos outros. Ditko, nós faremos desse filho da p*ta um exemplo. Só assim vamos ter paz.



Ele se aproximou do Pedinte pronto para fazer a próxima vítima. Prestes a golpeá-lo, Dean aparece no meio da briga e dá um soco bem encaixado no rosto de Don, fazendo com que desse alguns passos para trás, se afastando do Pedinte. Inconformado, ele tentou golpear Dean com a sua arma, porém, Dean se esquivou e deu um chute em sua barriga, isso fez com que Don perdesse o equilíbrio e caísse no chão.


Dean pegou a arma de Don e apontou para ele dizendo:


— Você não vai encostar um dedo nele, seu lixo.


Ditko, que estava na porta do Icarus, puxou um revólver enferrujado e apontou para Dean, totalmente desesperado e com raiva:


*SAI DE PERTO DELE, CAR*LHO! TÁ QUERENDO L-LEVAR UMA BALA NA CABEÇA TAMBÉM?!


Percebendo o perigo, Dean levanta as mãos para cima, sem largar a arma e mantendo os olhos focados em Ditko.


— Agora você não é o herói, né? Devolve O Abençoado.


Ditko foi se aproximando lentamente para pegar “O Abençoado”. Quando chegou em uma distância segura, Dean golpeou a mão de Ditko usando O Abençoado, justamente a mão em que ele segurava o Revólver. No mesmo tempo, ele jogou a arma longe e, em silêncio, saiu da frente dos dois e foi em direção ao pedinte.


Sem se importar com a chuva, ele ajudou o Pedinte a se levantar e ele pegou a trouxa de roupas que Don havia jogado no chão e levou consigo. Dean levou até a sua caminhonete e, no caminho até lá, ele não disse nenhuma palavra.


Dean o colocou no carro e entrou logo em seguida. Cautelosamente, ele perguntou ao rapaz:


— Tá tudo bem contigo?


Ele continuou em silêncio e olhou para Don tentando levantar com a ajuda, inútil de Ditko.


— Você não precisa ficar com medo de falar, eles não fazer nada.


O pedinte então tateou o porta-luvas da caminhonete até achar um pequeno bloco de notas com uma caneta suja de tinta por dentro, presa em uma das folhas. Ele escreveu por alguns segundos e entregou o bloco para Dean.


As letras estavam trêmulas, algumas palavras fora da linha da frase, mas o importante era que a mensagem estava clara.


“O senhor poderia me deixar no Hospital Rodoviário próximo da Golden? Eles me bateram na boca e eu não consigo falar”


Olhou para o rapaz e disse:


— Não tente falar, eu te levo para lá, faz parte do meu trajeto.


Sem esperar a chuva cessar, ele manobrou o carro para a estrada e deixou aquela pequena vila no Caminho dos Patriotas. Furiosos, os frequentadores do Icarus xingavam Dean, e Don e Ditko apenas observavam, se esforçando para notar cada detalhe da caminhonete para, por ventura, pudesse revidar o ataque de Dean algum dia.


A parte final do Caminho dos Patriotas era uma floresta densa, escura e que, em dias de chuva, se tornava perigosa para todos os motoristas que passavam por ela. A situação de poucos minutos atrás fez com que tanto Dean, quanto o Pedinte sem nome ficassem de acordados, isso fez com que, por consequência, eles presenciassem esse corredor escuro onde estavam atravessando. O Pedinte, com suas mãos trêmulas e o medo de acontecer algum acidente, tentava rezar para poder chegar são e salvo no Hospital. Dean viu isso e falou:


— Não fique tão preocupado, eu dirijo bem…


No mesmo momento, um clarão surgiu na frente da caminhonete. Em um ato rápido, Dean jogou a caminhonete para direita e um caminhão de modelo bi-trem, sem nenhuma carga, passou ao seu lado como um vulto, seguido de uma viatura da Polícia Rodoviária, tão rápida quanto. Assim que ambos os veículos passaram, Dean jogou o carro de volta para a sua faixa. Ofegante, ele olhou para o Pedinte, agora com o seu corpo inteiro tomado pelo medo, e completou:


— … Só não garanto por eles.


Segundos depois dessa situação, O Pedinte apontou para um clarão no final da floresta. Ao se aproximar, ambos perceberam a placa meio apagada do Hospital Rodoviário, um prédio de tamanho médio, pintado de branco e com um estacionamento vazio, porém, muito bem iluminado. De forma abrupta e urgente, ele parou nas vagas das ambulâncias, estas que ficavam na porta de entrada.


Na porta haviam dois maqueiros, um deles, aparentemente, fumando o quinto cigarro enquanto o outro mexia no celular. Dean abriu a janela e disse:


— Ele tá precisando de ajuda!


Urgentemente, eles pegaram uma maca que estava no hospital e próxima à porta e levou até o carro. O Pedinte, antes de sair, colocou o bloco de notas no painel do carro e agradeceu a Dean. Ele pegou o bloco de notas e entregou a um dos maqueiros dizendo — “Ele esqueceu isso aqui!” — Assim que o Pedinte entrou no hospital e dobrou a primeira esquerda no final do corredor, Dean manobrou o carro de volta para a estrada e seguiu em direção a San Francisco.



[Ponte Golden Gate — San Francisco. — 05:33]


Um tempo depois, a chuva forte havia cessado, porém, os céus continuavam cinza. O cheiro de asfalto molhado e da fumaça de escapamento deixava um ar mais industrial, como se todos estivessem caminhando para mais um dia de trabalho na fábrica. E “We Can't Stop Hurtin'” do Chicago tocando na rádio local deixava tudo mais imersivo. Poucos metros da entrada da Golden Gate, havia um arco enorme de metal com uma cortina de ‘lasers’ azuis tomando os dois lados da pista, a placa de metal molhada pela chuva dizia — “SCAM DE CHECAGEM RÁPIDA” — Logo abaixo, um cartaz de fina espessura dizia: “Sistema para verificação de armas e entorpecentes proibidos no Estado da Califórnia”.


Como dito, San Francisco, de uns anos para cá, tem passado por uma onda de violência estranha. Por considerarem uma cidade “neutra” e que, anos atrás, conseguiu alcançar a importante marca de “Cidade menos violenta dos Estados Unidos”, muitos criminosos de diversos estados, e até mesmo, países, encontraram em San Francisco uma forma de estabelecer as suas bases aqui, usando-a como uma “reserva segura”. Como uma forma de combater o tráfico de drogas e de combater a criminalidade da cidade. Algumas medidas foram tomadas e uma delas é o SCAM de CHECAGEM RÁPIDA. Importado diretamente de uma gigante da tecnologia de Seoul, Coreia do Sul.


O carro de Dean se aproximava do Scam e, antes mesmo que percebesse, os ‘lasers’ avançaram lentamente em direção a caminhonete, passando por dentro do motor e no interior do carro e indo até as coisas da mudança de Dean. Na mesma hora, o rádio parou e trocou para uma voz feminina robótica que dizia:


Carro Registrado com Sucesso: Ford F1000 1985, Placa DV-031997 de Sacramento, California. Nenhum dos objetos presentes no veículo ou no corpo do motorista apresenta nenhum sinal de periculosidade. Entrada Permitida, siga bem a viagem e aproveite a nossa maravilhosa cidade. Bom dia.


Pelo exato minuto seguinte, o ruído do rádio tentando conectar na rádio ecoou pelo carro e depois a música voltou, contudo, um pouco mais baixa que o normal. Dean lembrou brevemente da fala “no corpo do motorista” e se perguntou:


— Aquele negócio passou por dentro de mim? Aquele negócio passou por dentro de mim… Que desnecessário!


A música estava quase acabando, dando um 'fade out' para passar para a próxima música da rádio. A frente, um pequeno engarrafamento estava havia chegado a Dean de maneira espontânea. Lentamente, a música trocava para a introdução de Head Over Heels” do Tears for Fears, dando um clima calmo no carro. Ele abriu um pouco, bem pouco mesmo, a janela do carro e o vento frio contribuiu para o clima da música.


No banco do passageiro havia um livro de bolso, ele era todo preto, sem sinopse na parte de trás, nem mesmo o ISBN ou Código de Barras. Na frente, havia o título do livro "Os contos de Yamazaki, Capítulo Magma" "Os Contos de Yamazaki" era uma série de livros escrita por um garoto de 15 anos chamado Yuu Matsunaga. Com uma base de fãs focada no oriente, ele a única aparição pública foi em uma entrevista para um site de cultura ‘pop’, onde ele apareceu para agradecer as mil cópias vendidas no Japão. Nas palavras dele: "Vocês realizaram o sonho de uma família e de um garoto sem perspectivas, obrigado."

Assim como os outros livros da série, uma parte do título estava em horizontal e, no canto da capa a palavra "Magma", em letras estilizadas, dando um tom mais oriental. Ele pegou o livro e, aproveitando a lentidão do engarrafamento, deu uma folheada, parando na exata página que falava do tal Yamazaki H.A. descrição desse personagem fez com que certas lembranças viessem a tona.



[Yuri & Lincoln]


"Yamazaki é um rapaz tímido, possui uma desconfiança enorme com as pessoas que se aproximam dele, pois, os humanos são moldados com emoções e emoções são como tempestade: Relativas, podendo atingir até aqueles que não merecem ser atingidos. Entretanto, esse ser tímido fora imbuído de uma tarefa contrária, quase como um desafio, sendo "cuidar dos seres humanos'…


A leitura, conduzida sob a voz suave de Yuri Hasegawa, estava acontecendo em seu local de trabalho, a Biblioteca do Dragão, localizada no sul de Louisiana. O ouvinte, que era o seu filho, Dean Lincoln, escutava atentamente enquanto olhava a mãe tatear as informações em um livro preto com um título em branco e o 'Magma' escrito na lateral e em formato vertical.


Ansioso, Dean pega um caderno novo próximo à mãe e diz:


— Eu vou escrever um personagem desse para a minha aventura.


Com o sorriso de um adulto, mergulhado na realidade e vendo a imaginação de uma criança ativa a aflorada. Ela abaixa o livro e olha Dean por cima dos seus óculos redondos.


— Você quer ser um escritor?

— Talvez.

— E como você pretende criar esse personagem?


Dean pensou um pouco e colocou e perguntou:


— A senhora disse que ele é um personagem tímido, certo?

— Sim, exatamente.

— Então pensei em um espelho, ele vai se transformar na pessoa que ele mais conversa.

— Interessante, e ele não parece com nada?

— Ele não tem identidade, ele é como um… esqueci aquela palavra que a senhora falou. Poxa! Que olha as coisas!

"Vigia"?

— Isso! Um Vigia, ele apenas vê e guia… não precisa de identidade.

— E você já tem um nome para o seu personagem?

— Tenho. Será "Yamazaki, O Vigia."



[Ponte Golden Gate, San Francisco — 06:44]


O engarrafamento dava os seus pequenos sinais de desengate, no carro, ao lado de Dean, um rapaz com uma semelhança extrema a Dean estava no banco do carona. Enquanto Dean usava uma camisa quadriculada vermelha, ele usava uma branca, além de ter alguns textos marcados em japonês marcados em seu rosto e pescoço.


Esse antônimo percebeu algumas marcas de machucado nas mãos de Dean e comentou:


— Ele mereceu? O cara que levou esse teu soco aí?


Dean respirou fundo, sabendo de quem era a voz e comentou:


— Mereceu. Mereceu muito.

— Que bom! Fico feliz pela coragem mas… Triste por você ter se envolvido numa luta que não era sua.

— Era um pedinte, que tipo de pessoa eu seria se eu não o ajudasse naquela situação? É algo humano.


— Tudo bem… Eu entendo.


Um breve silêncio se criou depois da fala do seu antônimo, entretanto, Dean o quebrou:


— Lembrei delas de novo, não é, Yamazaki?


Ele deu uma risada discreta e olhou para a janela:


— Se estou aqui, é porque sim. Sou o seu alter-ego, lembra? Alguns chamariam isso de "amigo imaginário", mas prefiro o termo "Consultor independente".


— Pode deixar, "Consultor Independente", eu vou me lembrar dessa vez.

— É o que você sempre diz. Mas e aí, o que aconteceu dessa vez?

— Nada, estamos indo para San Francisco apenas… Ela adorava essa cidade, sempre quis visitá-la.

— Sim, mas você tá aqui porquê mesmo?

— Para começar uma nova vida, Yamazaki. Com novos objetivos, vou até começar uma faculdade.


A última vez que Yamazaki conversou com Dean foi quando ele tinha 10 anos e estava fugindo escondido em um caminhão de mudanças que saía de Louisiana e estava a caminho de Sacramento, isso tudo alguns dias depois do ocorrido que ocasionou na morte de sua mãe e de sua irmã. Depois disso, ele teve que sobreviver na cidade de Sacramento e teve pouquíssimo tempo para se apegar as memórias das pessoas que ele mais amava. Por conta disso, Yamazaki ficou surpreso, pois, em seu ponto de vista, era uma criança traumatizada que, em um intervalo curtíssimo de tempo, se tornou um rapaz a caminho de um objetivo.


— Caramba! Fico feliz que você tenha conseguido isso em tão pouco tempo.

— Pouco tempo? Doze anos se passaram, cara. Muitas coisas aconteceram.

— Sim… posso imaginar. E nessa "faculdade", você vai fazer o quê lá?

— Cursarei história, virar um Professor depois.

— Professor? Você?

— Qual é o problema, cara?

— Um professor tem carisma, uma boa apresentação. Você não tem isso.

— Eu sou carismático! — Reclama Dean.

— Você é um carrancudo que não sabe escutar outra coisa a não ser música dos anos oitenta.


Dean pensou em retrucar Yamazaki, entretanto, acabou desistindo e apenas riu da situação:


"Carrancudo" Essa foi boa. Nunca pensei que seria chamado carrancudo antes dos 30 anos.

— É só você parar de ouvir música brega.

— Tá bom, eu já entendi!

— Mas falando sério. Fico feliz por você, cara. E, antes que seja tarde… Bem-vindo a sua nova vida.


Sob a manhã tímida que se revelava entre as nuvens cinzas da manhã, Dean seguia para a cidade, para a sua nova vida.


[Incógnita — Biblioteca Viajante]


Durante essa minha existência como Alquimista, eu descobri que a Morte se revela dentro de um quebra cabeça sensorial. Quando a sua existência passa escapa das suas mãos frias por diversas vezes, ela, inconformada, começa a confundir os seus sentidos, nebular os seus pensamentos. É como se, indiretamente, ela dissesse "Na próxima, você será meu". Contudo, essa próxima se estende em várias e várias tentativas, entrando em um ‘looping’ eterno e nunca alcançando o seu real objetivo.


Sentada nessa cadeira, com os meus sentidos aflorados, eu consigo sentir tudo. O peso da cadeira sob meu corpo, a espessura da madeira sob meus pés, as minhas roupas se adaptando a minha pele a cada movimento, o suor dos meus cabelos se acumulando e começando a incomodar as minhas raízes. Os meus olhos se adaptando ao ardor da luz ofuscada da sala apontando para o meu rosto e olhando o topo das prateleiras da Biblioteca Viajante. O sangue espesso correndo dos meus pulsos, entrando nas minhas luvas de couro e manchando as minhas mãos e unhas, enquanto pequenos e finos, braços de metal instalados em uma base e próximos a minha cadeira, estão costurando o corte preciso dos meus pulsos.


Cada movimento, cada costura. Consigo sentir tudo, consigo ver tudo e esse é a punição da morte. Sentir cada despedida como se fosse um único espetáculo. Infelizmente, para mim, esses espetáculos cansaram e tem alguém, em um lugar inóspito, onde preciso salvar. Até porquê, ele me deve, e eu devo-lhe.


Em uma biblioteca parcialmente escura, entre duas estantes delicadamente centralizadas, uma mulher de cabelos negros medianos, usando uma camisa social e um colete cor de vinho está sentada desleixadamente numa cadeira de ‘design’ sofisticado, com vários arranjos em madeira e aço. Ela está olhando um livro suspenso por um suporte de aço, tomado por chamas violetas.


Em um estalar de dedos, ela transforma as pequenas máquinas que costuravam o corte grave em seu pulso, em pó, deixando uma pequena fresta inacabada e despejando um pouco de sangue. Ela se levanta rápido e, pela perda de sangue, sente a sua visão ficar meio turva, mesmo assim permanece de pé e caminha em direção ao livro.


E pressiona a costura do corte do seu pulso direito, fazendo com que as chamas se enfurecessem para o alto e mudassem de violeta para vermelho. Ela sentiu um orbe se formar na palma de suas mãos e, assim que ela tirou a mão das chamas do livro, um pequeno orbe vermelho de chamas estava sob sua posse. Um pouco mais a frente, havia um círculo com vários símbolos e nomes estranhos, semelhantes ao latim e em cima dele, um jarro de bronze.


Com o pulso da sua mão esquerda, ela derramou mais um pouco de sangue e, diante dos seus olhos, uma pequena ruptura se abriu, como um portal, que carregava ventos frios com um leve odor de carne podre.


Ela junta as suas mãos e, as chamas do orbe tomam os seus braços por inteiro e, por um instante, se sente mais forte e mais revigorada, mesmo com os danos. A mulher coloca uma das mãos no portal, como se estivesse pronta para forçar a ruptura e diz para si mesma:


— Décima vez, Mestre Daisuke. Aguarde-me, eu irei conseguir.



[Floresta das Cinzas — Icognita]


Almas, almas se esvaindo de todos os lugares. A cada passo dado nesse lugar, era uma alma se despedindo de maneira trágica. Como loucos, eles atacavam qualquer alma divergente à sua loucura, ao seu transe. Após anos desbravando terras desconhecidas, encontro-me caminhando sobre a linha tênue da cautela novamente, deparando-me com pessoas jogadas nas mãos da morte como folhas de outono durante a chegada do inverno.


No final do dia, após tantas almas perdidas, eu o encontro na porta do meu templo, buscando mais uma vez uma batalha. Ele nunca tinha rosto, sempre escondido por uma armadura e máscara negra com leves detalhes egocêntricos de ouro. Batalhávamos ferozmente em meio as cinzas, todas as almas tiradas por mim durante todo o trajeto estava ali, garantidas em uma batalha cansativa e sangrenta. Nossas armaduras se quebravam facilmente com os socos, as lâminas cortavam a nossa pele como papel, colocando em jogo a fragilidade de nossos corpos e também, naquele momento, me via diante da morte, andando sobre uma ponte de vidro na qual eu não poderia cair.


Infelizmente.

Eu sempre caía…

E eu sempre me juntava as outras almas e as cinzas da Floresta das Cinzas.


E, sempre no outro dia, todas as ações se repetiam. E eu sabia, o que iria acontecer. A matança, o sangue, o cansaço e a morte, juntos em um mesmo conjunto repetitivo de dias que, semelhante ao breve calor do Outono, se acumulavam e me desgastavam. Me sentia como um humano novamente, porém, carregando o peso de uma lenda sobre os meus ombros.


Em mais um dia de matanças, me deparo com a morte diante de mim, mas dessa vez, sabendo a resposta, sabendo o resultado, o meu corpo simplesmente desiste. Esperando o impiedoso destino.



[Biblioteca Viajante/Floresta das Cinzas — Icognita]


Atrás do antônimo do Andarilho, nos portões do Templo, um portal surge repentinamente, exalando uma energia enorme, dilacerando a realidade e revelando uma estante de livros antigas e o rosto de uma mulher de cabelos negros com os braços envoltos em chamas escarlates. O seu esforço monumental fazia com que o portal se rompesse cada vez mais.


Com os seus braços esticados em cada extremidade, o portal finalmente se abriu, entretanto, ele não era sustentável e poderia se fechar a qualquer momento. Tudo dependia de quanto a Alquimista poderia resistir. Tentando manter o portal aberto, ela olha para frente e vê o andarilho, com uma armadura gasta e tomada pelas cinzas dos mortos da Floresta das Cinzas, exalando uma dolorosa felicidade, ela grita:


MESTRE DAISUKE! NÃO AGUENTAREI POR MUITO TEMPO, VENHA!


Daisuke, esse era o nome do tal andarilho. Por sua vez, Daisuke se levanta e observa a sua contraparte no caminho. Mesmo a contragosto do corpo, busca energias para se manter de pé e caminha em direção ao portal. A sua contraparte, o samurai que sempre o desafiava, partiu para o ataque com toda a ferocidade. Sem utilizar a sua katana, ele dá uma cotovelada no capacete do samurai, seguido de um forte cruzado de direita, que o derruba no chão.


Daisuke então pega a sua katana e finca ela no ombro do samurai negro, fazendo-o agonizar de dor enquanto, em simultâneo, tentava tirar a espada do seu ombro. Em silêncio, e pouco fraco, ele caminhava com dificuldade até o portal, incomodado com as cinzas que afundavam os seus passos e o deixava cada vez mais lento.


Quando Daisuke se aproximou, a Alquimista agarrou brevemente uma parte da sua armadura e puxou para dentro do portal, que se fechou logo em seguida. Após o esforço, ela caiu no chão por conta da exaustão e, pouco a pouco, perdia a consciência e apagava na Biblioteca Viajante.


[Um breve tempo depois]


A Alquimista, repentinamente, desperta, sentada no chão e com as costas encostadas em uma parte da longa bancada que ficava no final da Biblioteca. Ao seu lado, e utilizando a mesma armadura de antes, Daisuke fazia um curativo improvisado, para estancar o corte no seu pulso esquerdo. Ainda meio grogue, ela olha toda a situação e, com um sorriso tímido, ela diz:


— Hidrocarboneto aromático. Você pegou os curativos da primeira gaveta à esquerda, não é? Eles estão velhos e cheirando a naftalina, que também tá velha.


— Curativo é curativo, não importa o tempo. E você está com um ferimento bem grave. Perdeu muito sangue.


— Mas eu consegui… Pietra Von Ivory conseguiu.


Cheia de si, Pietra Von Ivory é uma alquimista lendária na história humana. Durante a Peste Negra, quando a igreja abominava toda e qualquer tipo de prática científica. Os seus pais, Dalibor Von Ivory e a jovem de cabelos ruivos e iniciante na Alquimia, Agnes Grannus-Eratus se esconderam em uma densa floresta longe da cidade e criaram a "Lunax Lumen". Uma comunidade de alquimistas que, não só curavam os mais pobres, como utilizavam da arte para se defender, caso fosse necessário. Quando era criança, se tornou uma alquimista-prodígio, sendo um exemplo para as outras crianças que viviam e sendo chamada de 'Alpha', pelo seu pai.


Após a igreja descobrir a Lunax Lumen e causar um massacre em massa de todos os alquimistas. Pietra, usando os conhecimentos dos seus pais, viajou pelo mundo e pelas épocas, espalhando a arte da Alquimia que, mais tarde, viraria o que hoje conhecemos como "Química".


Como uma lenda, envolvida na sua Biblioteca Viajante, ela sente que o seu trabalho ainda não acabou e existem mais problemas a serem enfrentados.


Com a ajuda de Daisuke, ela consegue se levantar. De pé, ela vai até uma das gavetas da bancada e pega uma pequena tigela dourada com uns biscoitos franceses de framboesa envolvidos em açúcar de confeiteiros. Mesmo dentro de uma gaveta, eles pareciam estranhamente bem conservados. Ela pega três biscoitos e come um deles. Com a boca cheia diz:


— Ignore a minha falta de elegância, Daisuke. Eu preciso aumentar a minha glicose.


Sereno, Daisuke se aproxima e fica ao seu lado e diz:


— Não se preocupe com isso.


Com um estalar de dedos, ela acende as luzes da biblioteca, revelando prateleiras quase infinitas de livros. Histórias, Curiosidades, Enciclopédias, Documentários, dossiês, cartas, declarações e coisas mais escondidas em estantes de madeira, envolvidas em adornos reais de bronze. Pietra respirou fundo, aceitando para si mesma toda a dor e todo o cansaço.


Respeitosamente, ela pergunta:


— Mestre Daisuke, você consegue se recordar de alguma coisa? Digo, antes de ser mandado para a Floresta das Cinzas.


Daisuke se esforça para lembrar:


— Lembro de um clarão. Um clarão vindo do horizonte, destruindo tudo que estava no caminho. Era uma destruição silenciosa e rápida. Lembro que senti o meu corpo despedaçar e, um tempo depois, eu estava lá na Floresta. Foi tudo muito rápido.


— Uma destruição silenciosa, me lembro dessa forma também.

— Você também foi levada para a Floresta das Cinzas?

— Fui, eu vivi esse pesadelo também. Fiquei vagando por um bom tempo, tentando ignorar a solidão e a depressão do local e mantendo a minha mente fechada. No final das contas, eu consegui sair. Utilizando isso.


Ela se aproximou do livro e o fechou, apagando as chamas que envolviam o objeto.


— Antes do clarão, eu estava pronta para viajar para Capadócia, para devolver esse livro práticas místicas, o Livro de Eli. Então, quando entrei para Floresta das Cinzas, ele veio comigo. Depois disso só precisei de tempo e de muito sangue para buscar algum ponto de volta.


Ela voltou à bancada e puxou mais uma gaveta com um pergaminho branco e, ao abrir, ela revelou cinco retratos desenhados à mão: um Samurai de armadura escarlate, Uma Kitsune, Um general francês e um Inventor e, é claro, ela mesma, a Alquimista.


— Antigamente, éramos cinco lendas: Eu, o Ronin Andarilho, Asuna, Hefesto e Gerard Lacroix. Cada um tinha a sua parte específica aqui na Incógnita referente a sua passagem na Terra, os chamados Templos de Meditação. Quase todos eles foram totalmente apagados.


— Incluindo o Templo do Outono? — Daisuke perguntou em tom de preocupação.



Pietra, sem usar sangue, apenas recitou uma passagem no Livro de Eli e um portal se abriu. Nele, refletia a imagem do alto de uma montanha em um lindo outono, além de uma longa floresta coberta em um final de tarde estonteante.


— Eu disse "quase todos", Mestre. Venha comigo.



[Templo do Outono, Icognita]


Ao entrar no Templo do Outono, eles se depararam com o dito Templo do Outono, totalmente destruído e revirado. As duas estátuas que estavam na entrada estavam despedaçadas, as portas, que antes eram tão grandes que se misturavam a parede do local, estavam partidas ao meio, bloqueando a entrada e impossibilitando a visão do lado de dentro. Assustado, Daisuke pega o pedaço de uma das estátuas que estava próximo ao seu pé e diz:


— O meu templo… Os meus guardas…

— O seu Templo de Meditação foi por onde eu consegui escapar, pode apostar, também fiquei assustado ao ver um lugar tão bonito ficar as traças.

— O que mais aconteceu por aqui, Pietra? E como podemos resolver?

— Nós… não podemos resolver, Daisuke.


Daisuke larga o pedaço da estátua e se aproxima de Pietra buscando respostas. A confiança dela fala mais alto e ela explica de imediato:


— Após alcançar a Biblioteca Viajante, eu comecei a estudar o que aconteceu e chamei todo o evento de "O Grande Cataclismo". Percebi que a nossa ausência, para a terra, levou muito tempo. Isso fez com que os Ocultos tomassem conta de todo o mundo, incentivando eventos históricos, matando a humanidade lentamente. Eles criaram um bloqueio onde as lendas não podem ficar por muito tempo.


— Bem, se não podemos agir, o que faremos então?

— Temos uma saída para isso.

— Qual?

— Os Legados, pessoas na terra ligadas a nossa história. Podemos convocá-las, podemos guiá-las e treina-las podendo descobrir respostas e, até mesmo, transformá-las nos novos defensores da terra. Regentes da nossa história, que poderão equilibrar o mundo novamente.


— E existem pessoas ligadas a nossa história?

— Por enquanto, encontrei apenas duas. Um ligado a você e outro ligado a Asuna. Não coloquei muito empenho para procurar os outros, pois, haviam coisas mais importantes e…

— Não se preocupe com isso, daremos um passo de cada vez. Como líder, eu começo.

— Diferente de Asuna, eu tenho um pouco mais de informações sobre você. Originalmente, o seu legado era uma mulher chamada Yuri Hasegawa, ela era uma mãe e tinha um casal de filhos, Dean Lincoln e Helena Hasegawa. Infelizmente, a vida dela e de sua filha foi ceifada brutalmente, sobrando apenas o garoto.


Daisuke se incomodou com a notícia da morte de Yuri e respirou fundo para tentar digerir a notícia.


— Como encontro o garoto?

— Você não deve se lembrar, mas antigamente, você deixou um guia com ela. Um espírito tímido, chamado Yamazaki. Ele passou para Lincoln. Encontrando ele, você encontra o garoto.


Daisuke se prepara para entrar em seu templo, sabendo das informações e sabendo o que fazer daqui para frente. Enquanto isso, Pietra, usando os minerais presentes na terra do Templo do Outono, criou um banco de ferro para observar o horizonte. Antes de Daisuke se afastar, ela o chamou novamente e disse:


— Prepare-se bem, Mestre. As regras mudaram e estamos presenciando o nascimento de uma nova era na história humana.


— Consigo me lembrar de uma palavra, "Sileo", "Recomeço" em Latim. Correto?

— Sim, Mestre.

— Então, bem-vindos ao novo Sileo, a um novo recomeço.


[Continua]

24 de Outubro de 2021 às 01:33 0 Denunciar Insira Seguir história
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