S
Sueli Salles


Ela perdeu o dinheiro e o marido, então foi ficando cega por não querer ver. Mas para tudo há limites.


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Chá de lírio

A empregada acompanhou o advogado até a base da escadaria que levava ao piso superior:

- Dr. Jonas, já estou vendo outro trabalho, mas dona Vitória ainda não sabe... Já arrumaram lugar pra ela?

- Deixa comigo, Juliana, vou ver o que faço.

Jonas apertou a carta na mão e, sem perceber, suspirou pesado antes de subir o primeiro degrau. Aquela não era uma missão fácil de ser realizada, mas ele a cumpriria até o fim. Era assim, tinha de ser.

Depois do último leilão, pouca coisa restara da mobília do piso inferior e o vazio fazia ecoar o som discreto dos passos masculinos pela escada. Na parede, ainda, fotos de família e, em destaque, uma do casal. Jonas não conseguiu conter um sussurro reprovador, diante do retrato imponente de Guilherme Danon: “Quem diria, hein, seu cafajeste!”

- Jonas? É você? perguntou Vitória, tateando a parede do corredor.

Ele acelerou o passo em sua direção e beijou-lhe as mãos:

- Sim, dona Vitória. Como passou a manhã? Já arrumou suas coisas?

Como os olhos não ajudassem mais, consequência do glaucoma avançado, ela aprendera a ler as emoções alheias com os outros sentidos. Segurou as mãos geladas do jovem e percebeu o peso da tristeza que o acompanhava:

- Saiu o resultado, não é? Já posso imaginar... Então diga logo, rapaz, e acabamos com essa tensão!

Jonas entregou-lhe o envelope com o timbre oficial:

- O juiz deu ganho de causa para o senhor Danon. A venda da casa é legal e a senhora precisa atender a esta ordem de desocupação ou mandarão o oficial de justiça...

Ela ficou um pouco em silêncio. Depois caminhou até o quarto, pegou uma escova de cabelo e, ajeitando o penteado, perguntou:

- Onde está meu marido? Por que não vem aqui falar comigo?

O advogado engoliu o constrangimento:

- Na Itália, senhora. Há três semanas comunicou à justiça a mudança de domicílio.

- Então o caso com a menina de Florença é pra valer? Eles estão morando juntos?

Sem saber o que responder, limitou-se a fitá-la em silêncio. Por que uma mulher se sujeitaria a tanta exploração durante décadas? Será que, mesmo depois de 40 anos ao lado daquele oportunista, Vitória não enxergava que o marido lhe sugara toda a herança? Que os tantos boatos sobre as traições eram realmente verdadeiros? Que ela tinha sido vítima de um dos golpes mais antigos nas relações sociais, o “do baú”?

O pouco que Jonas sabia sobre a história tinha sido contado pela empregada. Dizia que, havia uns dez anos, quando a mulher descobriu que estavam falidos, o sem-vergonha virou o jogo e mostrou-se furioso com ela. Guilherme recusara-se a dar explicação: como a mulher podia ter desconfiado da sua honestidade? Se ela não acreditava mais na capacidade dele para gerenciar o patrimônio da família, era melhor terminarem o casamento!

Então ela, não sabendo viver sem esse homem, oásis de seus olhos, recolhera a indignação e calara olhos e ouvidos para não perder o amor de sua vida. Além do mais, era difícil reconhecer a verdade já antecipada, no passado, por tanta gente. Agora ela estava ali, quase sozinha, prestes a receber o mandado de despejo:

- Não vou a lugar nenhum, Jonas. Você é um bom rapaz, um advogado gentil, o que é raro, mas está se precipitando. Reconheço que Guilherme não tem lidado bem com a crise: consumiu alguns bens, vendeu umas coisinhas de casa. Bobagem leiloarem tapetes e sofás. Meu marido estava mesmo querendo trocar os móveis, quem sabe ele chame um decorador... O senhor aceita um chá?

O advogado não sabia mais o que fazer. Que mundo era aquele? Pensou nos diálogos entre Alice, a Lebre e o Chapeleiro...

- Desculpe, dona Vitória, mas o Sr. Danon partiu há dois anos! Já vendeu esta casa e é preciso desocupá-la!

.A mulher respirou fundo e fez um instante de silêncio, olhando o chão. Depois, ainda ocultando o rosto, falou em tom suave:

- Bobagem! Vai ficar tudo bem, querido... Por favor, aguarde na sala um instante. Preciso que você resolva algo para mim.

- Mas o juiz...

Assim que ele saiu do quarto, ela abriu a segunda gaveta do armário, pegou uma pequena caixa de música. Sorriu com ternura para o primeiro presente que ganhara do seu grande amor. Ouviu seus primeiros acordes, mas logo fechou-a com força, enquanto o sorriso mudava de contornos, cravando os dentes no lábio inferior. Piscou forte, num gesto quase mágico. Seus olhos de repente viam, viam tudo. Viu o que se recusou a ver por 30 anos. Levantou-se num assalto, mas as pernas bambearam pedindo calma. Aquele corpo frágil agora acreditava conter um gladiador. Adormecido. Mas um gladiador.

Dirigiu-se até o advogado, esticando-lhe uma chave sacada da base da caixinha de música:

- Tome esta chave e resolva o problema. Minha saudosa mãe, que já previa isso tudo desde meu casamento, montou, por anos, duas pastas que me deixou de herança num banco. Nunca achei que as usaria... uma, tenho certeza, tem recursos suficientes para o meu recomeço, quem sabe até nesta casa! A outra tem munição para acabar com a vida dele. São décadas de provas para incriminá-lo inclusive na Itália.

O advogado ouvia surpreso, quase feliz:

- Muito bem, agora entendi a força do seu nome!

Ela, então, encarou-o com seriedade:

- Não há vitória na ingenuidade, nem na cegueira.

Ela sabia que teria uma segunda chance, mas isso não acontecia com a maioria das mulheres naquela situação. Não havia vitória na vingança, mas inegavelmente isso lhe garantiria um bocado de prazer.

- Jonas, tome as providências, faça-o perder tudo que roubou da alma de uma mulher. E você, Juliana, leve esse chá embora e traga-me um vinho. Preciso de um porre para finalmente eu me manter lúcida.

7 de Abril de 2021 às 22:46 2 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Sueli Salles Escrevo desde a adolescência, mas esta é minha primeira experiência em publicação pela internet. Sou professora e gosto de escrever contos sobre a difícil arte de conviver.

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Clau Terra Clau Terra
Sueli, uma realidade de muitas... uma segunda chance para quem arriscar viver. amei o texto!!!
April 14, 2021, 23:50

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