brunadonde Bruna Dondé

De repente uma escuridão silenciosa invadiu o lugar, perdi todos sentidos de uma só vez.


Conto Impróprio para crianças menores de 13 anos. © Todos os direitos reservados

#conto #flashfiction
Conto
5
3.1mil VISUALIZAÇÕES
Completa
tempo de leitura
AA Compartilhar

Quarto Sem Janelas

Toda manhã a história se repetia. Eu entrava no banheiro e minhas coisas nunca estavam onde deixei. Durante a noite os objetos ganhavam vida, criavam pequenas pernas e mudavam de lugar. Eu deveria estar acostumada com essa brincadeira sem graça, porém, a cada dia era mais irritante. Isso acontecia apenas no banheiro, mas frequentemente eu imaginava o resto da casa fazendo o mesmo. Meus amigos diziam que eu estava maluca e com a cabeça cansada, perguntavam se meus remédios estavam em dia. Eu queria provar que não estava imaginando coisas, mas quando alguém dormia em minha casa, os objetos não se moviam. Malditos...

Desisti de fazer alguém acreditar. Eu mesma passei a duvidar. Provavelmente eram minhas paranoias tomando conta dos meus pensamentos e causando alucinações. No dia seguinte me olhei no espelho e questionei minha sanidade. Eu não esperava uma resposta, muito menos uma resposta dada pelo meu creme dental. Ele me explicou tudo. Passei alguns minutos ouvindo sem prestar atenção. Era impossível me concentrar no que ele dizia, eu só pensava em correr e não voltar. Manchas vermelhas cobriam o chão e as paredes, estavam ali desde sempre. De repente uma escuridão silenciosa invadiu o lugar, perdi todos sentidos de uma só vez.

Acordei em uma cama no canto de um quarto branco sem janelas. Havia uma porta com uma pequena abertura. Tentei me levantar e não consegui, eu estava presa na cama. Gritei por alguém, sem saber por quem. Uma mulher entrou com um bloco de folhas e entregou para mim. Saiu sem dizer nada. Comecei a ler e descobri que nunca estive sozinha em casa. Comigo morava um corpo, ou os pedaços de um. Pedaços que cortei delicadamente dentro da banheira, achando que a sujeira seria menor. Cuidadosamente eu havia preparado o congelador pra ele e o coloquei lá, parte por parte, como um quebra-cabeça. Os objetos que se mexiam e falavam eram obras do meu cérebro, que insistia em ocultar a gravidade do que eu fiz. Li tudo, várias e várias vezes. Compreendi o quanto era necessário eu continuar ali, isolada.

5 de Abril de 2021 às 12:57 8 Denunciar Insira Seguir história
12
Fim

Conheça o autor

Bruna Dondé Bebedora de café, escritora de histórias incompletas, fotógrafa, gateira, leitora (aceito livros de presente, sempre).

Comente algo

Publique!
Gustavo Machado Gustavo Machado
"Eu não esperava uma resposta, muito menos uma resposta dada pelo meu creme dental" kkkkk Até a metade é hilário, depois fica tenebroso.
June 14, 2021, 17:39

Edgar Macedo Silva Edgar Macedo Silva
Quando muda o tom do texto, vem um frio na barriga. Muito boa essa sensação prende a gente até o fim.
April 13, 2021, 00:32

  • Bruna Dondé Bruna Dondé
    Que bom que gostou! Fico feliz pelo comentário. :) April 13, 2021, 00:40
Magali Rossito Magali Rossito
Também sou bebedora de café e gateira! Kk
April 08, 2021, 18:10

  • Bruna Dondé Bruna Dondé
    Que legal! Escrever/ler bebendo um café e fazendo carinho no bichano é paz. 💚 April 08, 2021, 19:04
Arnaldo Zampieri Arnaldo Zampieri
Inicia de uma forma curiosa, pensei em Toy Story, sei lá. Mas quando o mistério é revelado é tipo um soco na cara. Tô feliz por ter lido! =)
April 05, 2021, 16:08

  • Bruna Dondé Bruna Dondé
    Sério, eu adoro que tu sempre lembra de algo que nem passou pela minha cabeça, mas gosto. Provavelmente uso referências sem perceber. Obrigada por ler e comentar, mesmo na correria! :) April 05, 2021, 16:18
~