antonio-stegues-batista Antonio Stegues Batista

Abel está a procura de emprego em fazendas e ranchos, quando um estranho nevoeiro cai sobre a região. Saindo da névoa, ele salva uma mulher do ataque de um bandido. O nome dela é Lena, dona do hotel em Purgatório. Como agradecimento pela ajuda, ela oferece um quarto no hotel para ele passar a noite. Na manhã seguinte, Abel parte. Na saída da cidade ele encontra o nevoeiro. Ao atravessá-lo descobre que tinha voltado para a cidade. Ele retorna para a colina, atravessa o nevoeiro e se depara com a cidade novamente. Varas vezes acontece mesma coisa. Diante daquele mistério, ele volta para o hotel e fala com Lena sobre o fenômeno. Como o nevoeiro não deixa ninguém sair do povoado, coisas inesperadas acontecem.


Aventura Todo o público.

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Purgatório

Capitulo- 1/14

LENA

Abel procurava emprego. Duas semanas varando distâncias, chegando em fazendas, ranchos, casas de beira de estrada, pedindo trabalho de peão, tropeiro, qualquer coisa que ele era pau para toda obra.

A resposta era a mesma; não tem trabalho nenhum. Pedia alguma coisa para comer, que o buxo roncava fazia horas. Às vezes, gente humilde e caridosa repartia o pouco que tinha, mas os grandões, senhores de fazenda de gado, ricos rancheiros, ficavam em seus escritórios contando dinheiro. O capataz cumpria as ordens do patrão. Ele da porteira não passava, recebia um não logo de cara. Nem trabalho nem ajutório. Uma merendinha sequer.

Ele burlava a vigilância para pular a cerca e pegar goiaba no pé, às vezes uma espiga de milho para enganar a fome. Quando a noite caia, soltava o cavalo, deitava sob a copa de uma árvore e ali dormia enrolado na manta.

Certo dia acordou com um forte nevoeiro cobrindo o campo. Uma névoa seca, espalhando-se sobre tudo. Mal podia enxergar.

Andando em círculos, procurou pelo cavalo, até que o encontrou pastando tranquilamente. Encilhou-o, montou e partiu, andando devagar porque quase nada enxergavam.

Algum tempo depois, saindo do nevoeiro, deparou-se com uma cena inesperada. No campo abaixo, um homem perseguia uma mulher. Ela corria apavorada, o vestido esvoaçando ao redor, até que ele se enganchou nuns galhos secos e ela caiu. Com um grito de triunfo, o sujeito lançou-se sobre ela. Por ser mais forte, ele a subjugou. Abel percebeu logo o que ele pretendia fazer, puxou o revolver do coldre e deu um tiro para o alto.

Quase no mesmo instante, um trovão abalou os ares. O homem ergueu a cabeça e se assustou com a figura sinistra, no alto da elevação. Como se estivesse vendo um fantasma, deixou sua presa e saiu correndo, sumindo na mata. No horizonte, grossas e negras nuvens se aproximavam lançando relâmpagos e raios. Abel sentiu os pelos do corpo se eriçarem e o cavalo relinchou, inquieto.

A mulher se aproximou para agradecer.

─ Ainda bem que o senhor apareceu.

A voz dela sumiu no barulho do vento. Uma coluna de poeira se erguia do chão. Ela fez um gesto para a base rochosa da colina.

─ Tem uma gruta ali. Acho melhor a gente esperar a tempestade passar lá dentro.

Abel apeou e puxando o cavalo pelas rédeas, a seguiu.

Sentaram-se no chão, recostados na parede rochosa. Ao fundo, o cavalo bufou, aquietando-se.

─ Meu nome é Madalena Cooper, mas pode me chamar de Lena. E o senhor? Qual o seu nome?

─ Abel Ferguson. Não precisa me chamar de senhor, me sinto mais velho do que sou.

─ O que está fazendo por aqui?

─ A procura de emprego. Já passei por um montão de lugares e não consegui nada! E você? O que estava fazendo por esses ermos? Está sozinha?

─ Sim. Fui ao cemitério, levar flores para o tumulo de meus pais. Se papai fosse vivo, faria 79 anos hoje. Ele morreu faz uns dois anos. Foi assassinado por um forasteiro.

- O delegado não prendeu o assassino?

- O assassino fugiu e não foi encontrado. O delegado espalhou um cartaz com a descrição dele.

─ Você mora aqui por perto?

─ Na cidade, depois do morro. Cuido do hotel que meu pai deixou.

Abel tinha andado tanto que não sabia se ainda estava no Texas.

─ Já nem sei mais onde ando! Que cidade?

─ Purgatório.

─ Nunca ouvi falar.

Os dois ficaram calados por um momento, ouvindo a tempestade lá fora. Os trovões foram se afastando. O vento diminuía de intensidade e a poeira assentava.

Abel quebrou o silêncio.

─ Quando voltar, tens que dar parte daquele homem. Da tentativa de estupro.

Lena deu de ombros.

─ Pura perda de tempo. O xerife anda de combinação com criminosos. Ele é dono de quase tudo na cidade. Quer comprar o meu hotel, mas não vendo de jeito nenhum! É a única coisa que tenho.

─ Não está precisando de ajudante?

─ Lamento, mas já tenho um. A cidade anda meio parada no tempo, ninguém progride por essas bandas, mas talvez alguém precise consertar uma cerca, o telhado, se é que você não se importa com o tipo de tarefa.

─ Não me importo, não. Sempre trabalhei como peão de estância, mas meu dinheiro está acabando e não posso recusar serviço.

Nova pausa. Lena olhou para fora.

─ A tempestade passou, mas não caiu nenhuma gota d’água. Foi só furdunço.

Os dois saíram.

O sol se despedia, avermelhado. Logo seria noite. Abel disse:

─ Se é longe, é melhor montarmos.

─ Não precisa, a cidade fica logo adiante.

Purgatório ficava logo a abaixo do terreno, uma centena de casas e prédios. Uma cidadezinha igual a tantas outras naquele fim de mundo. .

A mulher levou-o para o estábulo público, onde ele deixou o cavalo, pagando a hospedagem para dois dias. Sua intenção era ficar uns dois dias por ali, para descansar e ao mesmo tempo, procurar emprego.

O hotel era pequeno, de dois pisos, com oito cômodos. Lena cedeu para ele o melhor dos dormitórios, no segundo andar. A janela dava para a rua principal.

─ Como eu disse, os tempos estão difíceis e não tem mais nenhum outro hospede. − disse Lena. ─ Cinco anos atrás, a cidade ficava cheio de vaqueiros, quando as boiadas passavam pela região e os mineiros alugavam quartos. Eles gostavam de dormir numa cama limpa e macia. Agora, as coisas mudaram, fazendeiros faliram, a mina fechou, viajantes não chegam e a cidade parou.

Ela olhou para Abel. ─ Você não é muito de conversa, não é?

─ Acho que não. Quanto que eu tenho que pagar pelo quarto? Por dois dias?

─ Não vou cobrar nada. Fica como agradecimento por ter me salvado daquele homem nojento.

Capitulo- 2/14

O Cartaz

Abel acabou de tomar banho, quando bateram na porta. Era um homem magro, mal-encarado.

─ O prefeito mandou você ir jantar com ele, no bar Espora de Ouro.

Sem esperar resposta, o sujeito foi embora. Abel acabou de se arrumar, colocou o Colt 45 no coldre e saiu.

Waldemar Miller era um homem roliço, acima do peso ideal. Tinha uma tez clara, de alguém que passa a maior parte do tempo dentro de casa, no caso dele, atrás de uma escrivaninha. Ele estava numa sala reservada nos fundos do bar. Cumprimentou Abel com um forte aperto de mão e um sorriso de boas-vindas. Indicou uma cadeira e sentou-se. Na mesa estavam os copos, pratos e talheres.

─ Me chamo Waldemar Miller, prefeito desta cidade. Vamos jantar antes de conversarmos?

Miller bateu palmas e dali a instantes a comida foi servida. Batata inglesa cosida no vapor, carne seca com molho de tomate, arroz, feijão, galinha frita, salada de alface e uma garrafa de vinho tinto.

─ Os tempos estão difíceis e não podemos nos dar o luxo de fazer um banquete. Come-se o que se tem. Por enquanto é isso, mas as coisas vão melhorar. O senhor deve estar estranhando esse convite. Não tenho por costume, convidar para jantar todo estranho que chega na cidade.

Miller abriu a garrafa de vinho e encheu os copos. Abel estava com fome. Depois de passar dias comendo mal, aquilo para ele era um banquete. As palavras do prefeito não o espantaram, desconfiava que havia um motivo que só poderia ter algum valor para ele, Miller.

─ Agradeço o convite e gostaria de saber o motivo, já que não é uma simples cordialidade.

Miller meteu a mão no bolso interior do paletó e retirou uma folha de papel dobrada. Ele desdobrou e colocou na frente de Abel. Era um cartaz de procura-se. O Governo do Estado do Arkansas oferecia uma recompensa de 5.000 dólares por James Colton, vivo ou morto, acusado de homicídios, assalto a bancos, roubo de cavalos e roubo de residências.

─ Este cartaz chegou na cidade no ano passado. Estava lá, esquecido dentro de uma gaveta do escritório do falecido xerife. Quando vi você chegar na companhia de Madalena, fiquei pensando onde eu já o tinha visto e não levei muito tempo para me lembrar. Mas não se preocupe, não quero prejudica-lo. Vou guardar esse aviso e nem vou mandar prendê-lo.

Miller voltou a dobrar o papel e guardou no bolso. Abel retrucou:

─ O senhor está enganado. Esse desenho é bem tosco não se parece nem um pouco comigo. Me chamo Abel Ferguson. Não tenho documento porque o perdi, aliás bebi demais e fui roubado por uma quenga. Ela levou tudo que eu tinha nos bolsos. .

Miller sacudiu a cabeça, esboçando um sorriso.

─ Compreendo que queira permanecer no anonimato. Asseguro-lhe que de minha parte nada farei para revelar a sua verdadeira identidade. Acontece que estou precisando de homens que saibam obedecer às minhas ordens sem questionamentos e para isso pago bem, muito bem mesmo, em ouro.

─ Estou precisando de trabalho, mas trabalho honesto.

─ Trabalho honesto? Para ganhar algumas moedas vaquejando? Fazendo cercas e espichando arames farpados? Limpando cocheiras? Isso não é trabalho para o James Colton que as histórias falam. Colton é uma lenda! O pistoleiro mais rápido do Oeste. Dizem que assaltou mais de oito bancos, matou mais de quinze homens em duelos.

Abel levantou-se. ─ Me desculpe. Não sou quem o senhor pensa.

Miller sacudiu as mãos. ─ Está bem, está bem! De qualquer forma tenho trabalho para você. Preciso que alguém convença alguns estancieiros a vender suas terras para mim.

─ Obrigar eles a assinar um documento?

Miller sorriu. ─ Captou bem a ideia, gostei.

─ Acho que isso não é honesto de sua parte, obrigar as pessoas a fazerem o que não querem. Eles vendem as terras por uma ninharia e o senhor as vende para a companhia férrea por um preço mais alto.

Miller olhou para Abel, surpreso.

─ Então, já descobriram que a estrada de ferro vai passar pela região?!

─ Se descobriram, agora é que vai ser difícil eles venderam as terras, não é? Sinto muito, nada posso fazer.

─ Faço o que quero nessa região, aqui eu sou a lei. Vou dar um tempo para você pensar.

Abel não respondeu, limitou-se a olhar para Miller, considerando o quanto ele era mesquinho e foi embora, decidido a ignorar a sua oferta.

***

Capitulo-3/14

O Nevoeiro

Naquela noite, antes de dormir, Abel analisou sua situação e a da cidade. Ambas não eram boas. A cidade estava sob o controle de Miller, ele e seus capangas dominavam a população sob ameaças. Ali, o dia seguinte era uma incógnita, qualquer um poderia ser morto por motivo fútil. Os homens de Miller eram pistoleiros, bêbados e assassinos. Lena era uma boa moça, queria defender o que lhe pertencia, mas dia ou menos dia, poderia acabar com uma bala no corpo. Ele também, se Miller achasse que ele poderia atrapalhar seus planos, mandaria alguém matá-lo a qualquer hora, pois em Purgatório a lei se chamava Waldemar Miller. Abel trancou a porta e a janela e com esses pensamentos funestos, procurou dormir.

Na manhã seguinte, logo que acordou, desceu para o saguão disposto a conversar com Lena. Quem estava na recepção era um rapaz de uns 17 anos. Ele largou o livro que estava lendo e debruçou-se no balcão.

─ Às suas ordens, doutor!

─ Como se chama?

─ Casimiro, doutor, mas todos me conhecem como Miro.

─ Miro, meu nome é Abel e não doutor. Ok?

Miro sorriu.

─ Sim, senhor.

─ Onde está Lena?

Ele apontou com um gesto de cabeça para o corredor.

─ Ainda dormindo, na última porta. Mas ela não gosta de ser acordada a essa hora, é muito cedo ainda. Aconselho esperar um pouco.

─ O sol já vai alto e é quase meio dia.

Abel deixou a recepção e foi até a última porta no corredor. Bateu com força e uma voz irritada soou lá dentro.

─ Já vai! Que raios!

Com ar sonolento e ainda usando pijama, Lena meteu a cabeça pelo vão da porta.

─ Preciso falar com você urgente - disse Abel num tom enérgico.

─ Espera ─ disse Lena e tornou a fechar a porta. Abel foi para a varanda. Conhecia as mulheres, principalmente as jovens, que demoravam a se arrumar e se embelezar antes de sair do quarto. Logo depois ela surgiu usando um vestido claro, com decote. Ele achou-a muito mais elegante e bonita.

─ Algum problema com o quarto?

─ Não, está ótimo. Só queria trocar umas ideias.

─ Já comeu alguma coisa? Não pode sair de estomago vazio. Entra que eu vou fazer um café para nós. Fique sabendo que não faço isso para todos os hóspedes, nem porque estou interessada em você ou coisa parecida. Como forma de agradecimento por me ter salvo daquele bandido.

─ Ok. Também não faço julgamentos apressados.

Lena conduziu-o para uma pequena cozinha, onde ela preparou café com queijo, pão e salame. Abel sentou-se à mesa e disse:

─ Eu só queria dizer que é um perigo para uma mulher sozinha viver nessa cidade. Aqui não há lei. Purgatório está infestada de bandidos e Miller é o chefe deles. Ele me ofereceu trabalho e eu recusei, é claro.

─ Não tá dizendo nenhuma novidade. Não vou mais sair sozinha. Só estou esperando a chegada do meu tio Jeremias. Ele vai morar comigo e tomar conta do hotel.

Abel achou que ela não tinha entendido a sua intenção. De qualquer forma, ele não insistiu.

─ Então faço votos que fique bem.

Eles comeram o desjejum. Lena queria prolongar a conversa, mas Abel pensava ir logo embora, antes que ela o convencesse a ficar. Trabalhou a vida toda no campo, gostava de cavalgar, de cuidar do gado, dormir sob as estrelas. Casamento era uma coisa que o assustava. Queria se afastar de Lena, antes que se apaixonasse por ela.

Ele se despediu a partiu logo em seguida. Seguiu preocupado com a segurança da moça, mas nada podia fazer. Logo ela seria amparada pelo tio.

Dois quilômetros depois da cidade, um nevoeiro espesso tomou conta de tudo. A visibilidade era de uns seis metros. Abel deixou o cavalo seguir lentamente pela estrada, rumo a Granito, que ficava a uns 20 quilômetros para o norte.

Algum tempo depois, o nevoeiro foi se extinguindo e ele avistou uma cidade no horizonte. Percebeu que o nevoeiro não se extinguiu e sim, ele é quem havia saído do nevoeiro, uma névoa cinzenta que se estendia como um muro, rodeando a região.

Ao se aproximar da cidade, ficou surpreso. Era purgatório. A tabuleta na beira do caminho dizia, bem-vindo a Purgatório. Ele puxou as rédeas do cavalo e o fez voltar pelo mesmo caminho. Voltou a entrar no nevoeiro e alguns minutos depois, ao sair dele, constatou admirado, que havia voltado ao mesmo lugar.

Desta vez ele tomou um caminho diferente e aconteceu a mesma coisa. Havia algo naquele nevoeiro que colocava a cidade como único lugar na Terra. Todos os caminhos levavam a Purgatório. Abel voltou ao hotel. Lena surpreendeu-se ao vê-lo de volta.

─ Esqueceu alguma coisa, ou decidiu aceitar a oferta de Miller?

Ele desceu do cavalo e amarrou no cavalete.

─ Nem uma coisa e nem outra. Tem um nevoeiro rodeando a região, entrei nele e acabei voltando ao mesmo lugar.

Lena franziu a testa.

─ Não entendi.

─ Segui para o norte e ao sair do nevoeiro, voltei a Purgatório. Segui em outras direções e sempre, ao sair do nevoeiro, voltava para Purgatório.

─ Você está brincando? Dando uma desculpa pra voltar?

─ Não, não estou. Parece que estamos presos aqui por alguma força desconhecida.

Lena voltou-se e gritou: ─ Miro! Vem cá, faz o favor.

O rapaz surgiu correndo.

─ Sim?

─ Pegue um cavalo no estábulo e vá ao rancho do velho Matias comprar dois pernis de porco. Diga que depois eu pago.

─ Pegue meu cavalo – disse Abel e sentou-se na entrada do hotel. Lena sentou-se ao lado dele.

─ É estranho ter nevoeiro em pleno verão! O dia está quente!

─ Não é um nevoeiro comum. Nunca vi nada igual.

Ela permaneceu pensativa, inclinada para a frente, apoiando-se nos joelhos. Abel olhou de esguelha para ela, analisando o seu perfil.

─ Você morou sempre aqui?

Ela endireitou-se, recostando-se na parede.

─ Sim. Nasci aqui. Meus pais já tinham o hotel. Naquele tempo havia ouro na região. Muita gente apareceu em busca de riqueza. O hotel ficava lotado, tanto de aventureiros quanto de comerciantes e vaqueiros. A cidade parecia que iria progredir, mas o veio de ouro acabou e nada mais foi encontrado. Investimentos foram cancelados, negócios desfeitos, construções abandonadas pela metade. Da noite para o dia, a população diminuiu mais da metade. Purgatório quase virou uma cidade fantasma!

─ Miller tem a intensão de comprar terras a baixo custo e revende-las para a Companhia Ferroviária por um preço mais elevado.

─ O trem vai passar por aqui?

─ Vai, mas não se sabe quando.

─ Por isso o prefeito está comprando terras? Ele fez uma oferta pelo hotel, mas recusei. O prédio vale muito mais do que ele quer pagar.

─ Conheço o tipo de homem que Miller é. É um homem perigoso. Fico preocupado com uma mulher jovem e sozinha num lugar como esse. E seus pais? Você disse que seu pai foi assassinado.

─ Minha mãe morreu quando eu tinha seis anos. Papai foi assassinado por um homem que não queria pagar pela hospedagem. Nunca me esqueci dele, tinha uma cicatriz na face esquerda. Papai era muito bravo, não raciocinava direito quando se enfurecia. Eles discutiram, o homem deu-lhe um tiro e fugiu em seguida. O delegado na época era outro, o doutor Leone, ele organizou uma busca para captura-lo, mas o sujeito conseguiu escapar.

Miro surgiu na entrada da cidade, o cavalo a passos lentos. O rapaz estava com uma expressão de cansaço e desanimo.

─ Não consegui achar o rancho do Matias – disse ele, descendo da montaria.

─ O que aconteceu? - indagou Lena.

─ Tem uma cerração e em toda direção que eu ia, acabava voltando para cá. Não sei o que fazer.

─ Não importa. Era o que eu queria saber. Leve o cavalo para o estábulo e depois vá se lavar. Acho que o senhor Abel vai ficar mais alguns dias na cidade.

Abel concordou, sacudindo a cabeça. Uma mulher atravessou a rua e dirigiu-se para eles.

─ Bom dia! Não me apresenta o seu hospede, Lena?

A contragosto, a jovem fez as apresentações.

─ Dora, este é Abel. Abel, esta é a senhorita Dora Vincenzo.

─ Ouvi dizer que o senhor está à procura de trabalho, é verdade?

─ Sim, senhorita.

Elegantemente vestida, Dora girava a sombrinha sobre o ombro. Os olhos azuis examinavam Abel minuciosamente, um meio sorriso bailando nos lábios pintados de carmim.

─ Preciso de alguém para consertar a janela da minha casa, mas não encontrei nenhum marceneiro disponível! Aquela janela faz dias que está emperrada, impedindo o sol entrar. O senhor estará disposto a dar uma olhada? Pra ver se conserta? Eu vou lhe pagar, não há dúvida..

─ É claro! − respondeu Abel, satisfeito com a possibilidade de ganhar algumas moedas honestamente.

Dora abriu um sorriso.

─ Então vamos!

Lena ergueu-se, tocando no braço de Abel.

─ Abel, preciso te mostrar uma coisa, lá dentro.

─ Depois eu vou lá –disse ele para Dora.

─ Moro na casinha branca, a segunda depois do bar.

A mulher deu meia volta e foi embora.

Lena esperou que ela se afastasse.

─ Aquela mulher não presta. Já dormiu com todos os homens da cidade. Não pode ver um novato que logo o convida para ir a sua casa consertar alguma coisa.

─ Pensei que você tinha alguma coisa séria para me dizer- respondeu Abel e saiu correndo atrás da mulher.

─ Senhorita Dora!

Capitulo-4/14

O Alvoroço

Abel voltou ao hotel, uma hora depois. Lena estava na recepção. Ela o olhou com uma expressão aborrecida. Abel colocou algumas moedas no balcão.

─ Até que o nevoeiro desapareça, vou ter que ficar hospedado no hotel.

Um vento forte começou a soprar sobre a cidade, levantando poeira do chão, arrancando o chapéu da cabeça dos desprevenidos, levando de roldão, roupas estendidas nos varais.

─ É o Chisum! - exclamou Lena e foi ajudar Miro a fechar portas e janelas. Abel pegou a chave do quarto e subiu. Através da vidraça olhou a ventania lá fora. Carregados pelo vento, tufos de capim seco rolavam pela rua, atravessando a cidade, nuvens de poeira rodopiavam lançando-se sobre as casas.

Sem nada para fazer, Abel deitou-se e acabou pegando no sono. Acordou com batidas na porta. Era Miro, avisando que Lena o convidava para almoçar. Ele estava com fome, não podia recusar o convite. Durante o almoço, Lena não disse nada. Abel sabia que ela estava magoada por ele ter ido à casa de Dora. É claro que não havia nenhuma janela para consertar. A mulher era uma ninfomaníaca, tinha um apetite voraz por sexo, ainda mais com desconhecidos. Abel satisfez os desejos dela e os dele.

Para quebrar o silêncio, ele falou: ─ Está gostosa essa galinha assada!

Lena evitou olhar para ele, mas respondeu: ─ Ficaremos sem comida, se o tal nevoeiro não deixar a gente sair da cidade.

─ Realmente. Eu não havia pensado nisso.

─ No empório tem bastante comida - disse Miro.

─ O senhor Tobias vai se aproveitar da situação para aumentar os preços, disso tenho certeza.

─ Alguma vez já aconteceu aparecer aquele nevoeiro?

─ Nunca! - respondeu Lena e levantou-se, recolhendo o prato para a pia.

A ventania não durou muito tempo. Quando cessou, alguém bateu na recepção do hotel. Era o empregado de Miller, avisando que o patrão queria falar com Abel.

Abel não queria trabalhar para aquele falso prefeito/ delegado, de qualquer forma, achava que devia saber o que aqueles bandidos pretendiam. Ele seguiu o homem. Os moradores varriam a poeira acumulada em suas casas.

Miller estava na prefeitura com outro homem. Abel logo percebeu a má energia que o sujeito emitia. Só de olhar para as pessoas, ele percebia se a índole era boa ou má e aquele sujeito era de maus bofes. O brilho dos olhos era como os de alguém que se considerava superior a todo mundo. Lena tinha razão, Miller só tinha maus elementos como amigos, serviçais e colaboradores. Na realidade, eram capangas.

─ Senhor Abel! - exclamou o prefeito e gesticulou para o homem sentado no sofá. ─ Quero lhe apresentar o senhor Jack Wilson.

Os dois apenas se olharam, o homem sequer fez um gesto de saudação. Miller olhou para ele.

─ Então Jack, o reconhece?

Jack olhou intrigado de um para o outro. Apertou os lábios num gesto de incompreensão.

─ Não conheço. Deveria?

Miller perguntou, impaciente: ─ Você não disse certa vez, que conhecia James Colton? Que era amigo dele?

Sem se perturbar, o homem respondeu: ─ Eu não disse que era amigo dele. Disse que o tinha visto numa mesa de carteado num bordel e foi um amigo que o apontou. Eu pretendia falar com ele, mas quando me dei conta o homem sumiu. Estava de barba e cabelos compridos. Isso foi há uns três anos. Esse é mais novo que o outro. Além disso, nunca mais se teve notícia de James Colton. Alguém deve ter matado o sujeito.

Miller olhou desconsolado para Abel.

─ Bem. De qualquer forma a oferta de emprego está de pé.

Abel não respondeu, limitou-se a sacudir a cabeça e foi embora. Ao chegar em frente ao hotel, viu um grupo de pessoas na entrada da cidade, olhando para os morros e discutindo entre si. Ele calculou que mais pessoas tomavam conhecimento do fenômeno que cercava a região.

Logo, toda a população estava reunida na rua. Alguns se sentiam confinados e isso assustava. Outros se preocuparam com a escassez de alimentos. Um grupo de exaltados começou a se dirigir para o empório, saquear as mercadorias. Miller percebeu as intenções deles, mas nada fez. Abel correu na frente e se posicionou na entrada.

─ Calma, pessoal. Acho que a comida que vocês têm em casa ainda não acabou. Quando isso acontecer, a ração do empório será distribuída por igual. Até lá, pode ser que aquele nevoeiro já tenha ido embora. Portanto, ninguém vai saquear o empório.

─ Você é delegado para nos impedir? - gritou alguém.

─ Não. Só quero distribuir o alimento por igual e não algumas poucas pessoas ficarem com tudo. Só isso.

─ Ele tem razão. - disse o ferreiro e acrescentou: - Vamos embora.

O grupo se dispersou. Tobias Thompson, dono do empório, aproximou-se e agradeceu a Abel.

─ Obrigado pelo auxilio.

─ Acho melhor o senhor reforçar e trancar essa porta. Deixe apenas uma pessoa entrar por vez, quando quiserem comprar alguma coisa.

─ Faremos isso. Como é o seu nome?

─ Abel Ferguson.

Tobias voltou a agradecer e Abel retornou ao hotel.

Capitulo 5/ 14

O Bêbado

No caminho para o hotel, Abel foi interpelado por um homem sentado no chão, encostado na escadaria da igreja. Desalinhado e sujo, tinha a pele brilhante e fedia a álcool. Gesticulou para a o povo reunido na rua.

─ O que está acontecendo que o pessoal tá arvoroçado?

─ Tem um nevoeiro que não deixa ninguém sair da cidade e o pessoal está com receio de passar fome.

─ Todos vão pagar pelos seus pecados, principalmente Miller. Aquele cão sarnento tem segredos que ninguém imagina!

Miller com segredos? Abel ficou curioso. Descobrir algo sobre o prefeito, poderia ser uma vantagem, ou não, dependia do que era. Abel agachou-se. O homem poderia estar dizendo bobagens por causa do efeito da bebida, mas aparentemente, ele não estava tão bêbado que estivesse tendo alucinações.

─ Como se chama?

─ Julius Kilby.

─ Julius me conte o que você sabe.

─ Já vi Miller sair à noite da cidade. Com certeza para uma conversa com o tinhoso. Naquela direção só tem a mina e ele levava um pacote. Uma oferenda, com certeza. Ficar na rua durante as noites tem suas vantagens, você vê coisas que não acontecem durante o dia. Sabia que Miller foi médico? Ele era dono do asilo que tinha no Morro do Coveiro. Um asilo para loucos, que pegou fogo um dia. Morreu todo os doentes, só escaparam o diretor, Sebastian Canho e Miller.

─ E o Sebastian, mora onde?

─ Perto do riacho Bodoque, passa a ponte e dobra a esquerda.

─ Foi bom conversar com você, Julius. Me diga só mais uma coisa. O que você fazia antes e porque está nessa situação? Não tem casa para morar?

O homem permaneceu com o olhar distante. Falou num tom de tristeza.

─ Eu tinha casa, um ranchinho onde plantava umas verduras, criava algumas galinhas. Quando minha mulher me abandonou, passei a beber e jogar. Perdi tudo no jogo para o Miller, aquele ladrão. Tenho certeza de que ele me roubou!

─ E você não pode provar, não é mesmo?

─ Não posso provar e agora estou aqui, sem eira nem beira.

─ Obrigado pelas informações. Até logo e procure parar de beber.

Capitulo- 6/14

A Reunião

No caminho para o hotel, Abel encontrou Lena.

─ Miller convocou uma reunião com os cidadãos mais influentes da cidade. Não fui convidada por ser mulher, o que acho injusto e preconceituoso. De qualquer maneira, não vou procurar briga numa situação dessas. Queria que você me representasse.

─ É claro! Vamos lá.

A reunião era na prefeitura. Na porta estava Jack Wilson. Ele barrou a passagem de Lena.

─ A reunião é só para homens.

─ Acho melhor você esperar em casa- disse Abel e esperou ela se afastar, para depois entrar. No salão estavam cerca de 20 homens, moradores, comerciantes, negociantes, prestadores de serviços. Miller disse que mandou dois de seus auxiliares percorrer a região, para saber se havia algum rancho do lado de dentro do círculo de névoa. Eles disseram que não havia nenhuma lavoura ou produção de gado, do lado da cidade. Portanto, o estoque de alimentos do empório era único alimento que dispunham, e que seria distribuído por igual. Aconselhou a população se manter calma, obedecer à lei e a ordem e esperar o fenômeno acabar.

─ E se não sumir? O que faremos? - indagou, Altemar Summers, o ferreiro.

─ Não acredito que possa ficar lá para sempre. Assim como surgiu, pode ir embora de repente. Até lá, é melhor a gente esperar com tranquilidade.

- E se a gente fizesse um túnel para passar por baixo? - perguntou o doutor, Dantas.

─ Já pensei nisso, doutor, mas não sabemos qual a largura do nevoeiro. Meu auxiliar disse que levou mais de meia hora para sair dele. Isso dá mais de dois quilômetros e não temos condição para fazer um túnel desse tamanho. Portanto, vamos esperar.

Abel considerou que Miller estava agindo certo. Não havia muito o que fazer. Mas havia a possibilidade dos tuneis da mina se estender por debaixo do nevoeiro. Decidiu examinar o local.

Capitulo - 7/ 14

Um Grito na Noite

Ao sair da reunião, Abel dirigiu-se para o hotel, para falar com Lena. Ela estava fazendo o jantar. Depois de contar o que Miller disse na reunião, ele indagou:

─ Você sabe que tamanho e para que direção os tuneis da mina vão?

Ela olhou para ele, estranhando a pergunta.

─ Não. Porque quer saber?

─ Quero saber se os tuneis passam por debaixo do nevoeiro.

─ Ah! Que boa ideia! Seria um caminho para sair da cidade, caso nos falte comida?

─ Essa é a ideia. Você conhece alguém que trabalhou na mina? Talvez a pessoa saiba para que direção vão os tuneis.

─ Olha, já faz muitos anos que a mina fechou e os mineiros foram trabalhar em outro lugar. Não sei se alguém sabe. Na prefeitura deve existir mapas.

─ Por enquanto não quero dar esperanças vãs às pessoas, entende? Acho melhor procurar esses mapas em segredo.

─ Como a cidade está parada no tempo, ninguém trabalha na prefeitura, muito menos Miller, que é o prefeito. Ele passa o tempo todo no bar Espora De Ouro, que ele, abre aspas, comprou, fecha aspas, do antigo dono por um valor insignificante.

─ Então, vou dar uma olhada na prefeitura mais tarde. Já está pronta a janta?

─ Quase - respondeu Lena e gesticulou com a colher de pau: - Para você é cinquenta centavos o prato.

Abel esperou a cidade dormir, para sair. Passava da meia-noite quando ele deixou o hotel e seguiu rente aos prédios, entre as sombras. Sabia que Julius dormia em frente à igreja e como ela ficava no outro extremo, não havia o perigo de ser visto. A não ser se alguém estivesse sem sono e perambulava por ali.

Abel chegou sem nenhum problema na prefeitura. O prédio estava às escuras, como era de se esperar. Não foi difícil entrar por uma janela dos fundos. Era a janela da sala do prefeito. Abel pegou uma vela do bolso e acendeu. Despois de procurar em todos os lugares, ele foi encontrar um documento sobre a mina numa pasta de arquivo. Era apenas uma licença para extração do minério e um contrato de locação, mas não havia nenhum mapa. Agora, o único jeito de saber a extensão dos tuneis, era entrar na mina e isso deveria ser feito de dia.

Abel deixou a prefeitura e estava voltando ao hotel, quando ouviu um grito de mulher.

Capitulo – 8/14

O Maníaco

O grito se repetiu, desta vez mais baixo. Era na casa de Dora. Abel correu para lá. Havia luz na cozinha. Ele deu a volta e viu a porta aberta. Ouviu ruído de luta e gemidos de dor. Entrou correndo e deparou-se com um homem sobre Dora caída no chão, ele estava tentando estrangula-la. Abel pegou-o pela camisa e puxou-o para trás. O sujeito largou a mulher e caiu sentado. Abel deu um pontapé no lado da cabeça do homem e depois imobilizou-o de cara no assoalho.

─ Ele tentou me estuprar! - disse Dora e respirou fundo, passando as mãos pelos cabelos desgrenhados.

─ Conhece esse sujeito?

─ Não, nunca o vi. Eu estava dormindo quando ouvi um barulho e vim ver o que era. Foi quando ele me atacou. Já estava dentro de casa.

─ Me arranje alguma coisa para amarrá-lo.

Dora tirou o cordão de uma cortina e deu para Abel. Aos poucos ela recuperava a serenidade.

─ Onde você estava que chegou tão rápido?

Abel respondeu, enquanto amarrava as mãos do homem.

─ Não conseguia dormir e resolvi dar uma caminhada. Já estava voltado para o hotel quando ouvi o teu grito.

─ Acho que foi só você que ouviu, pois até agora ninguém mais apareceu. Se não fosse você, ele teria me matado!

─ Vou levar esse tarado para a cadeia e você vai ter que ir junto, fazer a denúncia.

Abel teve que acordar o subdelegado, Frank Johansson, para atender a ocorrência. De mau humor, ele abriu a delegacia. Dora mostrou as marcas no pescoço e os arranhões pelas coxas. Ela não teve nenhuma vergonha de mostrar a belas pernas. Frank prendeu o sujeito apenas porque gostava da mulher.

Depois que Frank trancafiou o tarado, Abel acompanhou Dora até a casa dela. Ele disse que agora não havia mais perigo. Ela agradeceu e pediu para ele ficar com ela o resto da noite, mas Abel recusou, argumentando que estava cansado e com sono. Preferiu dormir no hotel.

Capitulo- 9/14

A Mina, as Ruínas e Um Cadáver

Na manhã seguinte, Abel acompanhou Lena à delegacia, para ver se o homem preso era o mesmo que a tinha atacado. Ela confirmou o fato e Frank ajuntou o depoimento dela ao inquérito. Saindo da delegacia, Abel disse para Lena que iria dar uma olhada no nevoeiro para ver se tinha mudado alguma coisa.

O fenômeno continuava o mesmo, aparentemente não tinha se alterado em nada. Abel dirigiu-se então, para a mina, seguindo as indicações de Lena. Chegando lá, encontrou a entrada fechada por uma pesada porta de carvalho reforçada com barras de ferro, cravadas na rocha. A mina estava em terras do Estado, mas Miller devia ter tomado conta, pois Julius disse que ele vinha para aqueles lados. Talvez Miller tivesse esperança de que seria encontrado ouro ali novamente e por isso trancou a entrada.

Abel deixou a mina e tomou a estrada em direção ao riacho Bodoque. Meia hora depois, avistou as ruinas de um prédio oculto parcialmente pela mata. Ele apeou, deixou o cavalo pastando e aproximou-se da construção consumida pelo fogo. Era o velho asilo de loucos que havia se incendiado. Restavam apenas três paredes compridas, sem o teto, que havia desabado, os tijolos e argamassa queimados espalhados pelo chão, o mato cobrindo algumas partes. Restos de camas e moveis jaziam no mesmo lugar, os colchões queimados sobre ferros retorcidos. No piso de concreto, coberto de cinzas e entulhos, ervas daninhas cresciam entre rachaduras.

As únicas pessoas que tinham escapado do incêndio foi o diretor, Sebastian Canho e Miller. Ele era médico e proprietário do asilo, devia ser o médico responsável pelo tratamento dos pacientes. Abel deixou as ruinas e desceu o morro, tomando a estrada. Atravessou a ponte e entrou na trilha que levava à casa de Sebastian. Encontrou a moradia em estado de abandono. Folhas secas cobriam o pátio e a varanda. Quando se aproximou da porta, já sentiu o cheiro de corpo em decomposição. Amarrou o lenço no rosto, empurrou a porta que estava apenas encostada e entrou. A sala de estar estava em ordem, uma fina camada de poeira cobria os parcos móveis. O corpo estava na cozinha, sentado numa cadeira de balanço. Aos pés do morto havia um rifle. O queixo estava mais destruído, talvez pelo tiro, o que indicava que o sujeito cometeu suicídio.

Abel voltou a sair. Ficou sentado por um tempo num tronco seco, respirando ar puro. Minutos depois, pegou uma corda, amarrou na cadeira e arrastou para fora pela porta da cozinha. Encontrando uma pá, fez uma cova e enterrou o cadáver. Esperou ainda algum tempo para o fedor se dissipar e depois voltou a entrar na casa. Ele tinha visto uma folha de papel sobre a mesa. Sebastian havia escrito uma carta, antes de morrer.

“ A quem interessar possa, deixo esse depoimento de acusação. Cansado de viver solitário e triste pela morte de minha esposa, ponho um ponto final em minha vida. O culpado pela morte de Miriam, foi Hudson, o filho louco de Waldemar Miller. O desgraçado despejou álcool sobre os pacientes do asilo e colocou fogo. Como todos sabem, Miriam também trabalhava lá como enfermeira. Eu estava no escritório conversando com Miller, quando ouvimos os gritos. Algumas camas e os próprios pacientes estavam em chamas, inclusive Miriam. Corri para ajudá-la, mas alguma coisa bateu em minha cabeça e perdi os sentidos. Teria morrido se não fosse Miller. Foi ele quem me tirou desacordado da casa em chamas. Teria sido melhor se não o tivesse feito. O culpado pelo incêndio foi o filho de Mller “.

***

Capitulo- 10/14

O Duelo

Logo que chegou na cidade, Abel avistou de longe, uma aglomeração de pessoa em frente ao hotel. Apressou o cavalo e ao se aproximar, viu um homem mal-encarado, puxando Lena pelos cabelos.

-─ Vou te mostrar o que faço com onça braba! - gritou ele. Abel pulou do cavalo e avançou, dando com a quina da mão no antebraço do sujeito. O golpe no nervo, fez com que ele perdesse momentaneamente a força. Largou Lena e voltou-se, furioso.

─ Que merda!

─ Você é um covarde, batendo em mulher.

─ Bato em qualquer um que se atravessar em meu caminho!

Com o rosto vermelho e cabelos desgrenhados, Lena disse:

─ Ele é o homem que matou meu pai!

Abel viu a cicatriz no rosto do indivíduo. Viu também, a arma que portava no coldre.

─ Mentira! Não fiz nada disso.

O homem deu alguns passos para trás, olhando para os lados. As pessoas assistiam de longe e estavam amedrontadas. Abel sabia que ninguém iria ajudar Lena.

─ Coloque a arma no chão e vamos conversar com o delegado- pediu Abel, atento aos movimentos do homem.

O sujeito deu mais um passo para trás, não tirando os olhos de Abel. Ele sacou rápido a arma. Abel sacou no mesmo instante e apertou o gatilho primeiro. Acertou o homem no peito, e o tiro dele, alguns segundos depois, pegou Abel de raspão na testa. Com o choque, ele cambaleou, perdendo as forças, largando a arma.

O Colt caiu aos pés de Lena. O criminoso ainda estava vivo. Mesmo tonto, reuniu suas últimas forças e apontou a arma para Abel. Mas ele não chegou a apertar o gatilho, levou outro tiro, desta vez no coração. Caiu, esvaindo-se em sangue. Lena largou a pistola e correu para Abel.

Alertado pelo alvoroço, Miller e Frank compareceram ao local e ouvindo testemunhas, Frank considerou o caso como legítima defesa. Com a atual situação em que se encontravam, não havia muito o que fazer. Certas coisas deveriam ser ignoradas, ainda mais quando não se ganha nada ao aplicar a lei. Miller mandou o agente funerário se encarregar do sepultamento e voltou para a mesa de jogos.

A bala havia pegado de raspão na testa de Abel. Lena desinfetou o local e queria amarrar um lenço na cabeça dele, mas ele recusou, dizendo que estava bem.

─ Como se sente agora que o assassino de teu pai está morto?

Ela sentou-se numa cadeira.

─ Nunca imaginei que eu mesma seria a pessoa que iria matar o desgraçado. Atirei nele porque ele ia te matar!

─ E eu agradeço por isso.

─ Ainda estou tremendo!

- Esqueça. Sabe de uma coisa? Estou louco de fome!

Enquanto almoçava, Abel contou onde tinha ido e o que fez naquela manhã. A visita na mina, nas ruinas, a descoberta macabra na casa de Sebastian e a carta de despedida que ele deixou.

─ Coitado do Sebastian! - exclamou ela. ─ Eu sempre soube que o filho do Miller tinha morrido de pneumonia quando era criança.

─ Provavelmente ele já tinha problemas mentais. Miller e a esposa resolveram levar ele para algum lugar e disseram que tinha morrido. Talvez Miller tenha construído a clínica exatamente para tentar isolar o menino e tratá-lo. Internaram na clínica e lá ele ficou, até se tornar adulto, sofrendo do mesmo mal.

─ E um dia resolveu colocar fogo nos colegas. Deve ter tido um ataque de nervos violento para fazer o que fez!

─ E a esposa de Miller?

─ Morreu. Lembro que mamãe foi ao enterro. Só não lembro do que ela morreu.

Capitulo-11/14

Um Assassino Desumano

Abel estava dormindo quando ouviu gritos. Levantou-se rápido, procurando ouvir de onde vinha. Da rua. Vestiu a calça, pegou a arma e desceu correndo a escada. Lena surgiu na luz do corredor.

─ Fique aqui.- ordenou ele e saiu. Com a arma em punho, foi para o meio da rua, olhando em direção ao bar. Pensou em Julius. Chegando lá, viu um vulto caído no canto da varanda. Reconheceu Julius pelas roupas, a cabeça estava esfacelada. Ao lado estava a arma do crime, uma pedra coberta de sangue. A porta do bar se abriu e surgiu, Frank Johansson.

─ O que está acontecendo? - perguntou, ao ver Abel. No mesmo instante baixou os olhos e viu o cadáver. ─ Eu ouvi o grito. Não pensei que era tão grave.

Miller permitia que Jonas dormissem em frente ao bar. Não mandaria alguém matar o pobre homem, a não se por um motivo muito forte. Será que Jonas descobriu alguma coisa sobre ele e Miller resolveu matá-lo com as próprias mãos?

Abel estava com esses pensamentos na cabeça quando chegou na casa de Miller. As luzes estavam acesas e a porta entreaberta. Ele empurrou e entrou com cautela. Logo viu o corpo estirado no chão, sobre uma poça de sangue ainda fresco. Sacando a arma, Abel vistoriou o resto da casa, mas não encontrou ninguém. A porta da cozinha estava aberta e foi por ali que o assassino fugiu. Nos fundos havia uma casinha que estava totalmente às escuras.

Ele bateu com o punho fechado na porta. Não demorou muito para Joey Kramer, auxiliar de Miller, aparecer.

─ Que raios! O que foi? - perguntou. O homem estava apenas de calção e parecia ter acordado naquele momento.

─ Alguém matou Jonas e Miller.- disse Abel, tentando ver alguma coisa na escuridão dos fundos do terreno

─ Mas...quem fez isso?

─ Me empresta um lampião.

Joey entrou e retornou com um lampião. Abel examinou o pátio. O terreno fazia divisa com outra casa. A cerca era baixa. Havia marcas de sapatos no solo, exatamente onde o assassino pulou a cerca. Abel devolveu o lampião e voltou ao local do crime. Como Julius, o rosto de Miller estava desfigurado. O assassino usou um ferro de passar roupas para golpeá-lo. O prefeito estava usando pijama. Devia estar dormindo quando o assassino chegou. Não havia sinais de arrombamento, o que indicava que Miller abriu a porta para ele, porque conhecia a pessoa.

***

Capítulo- 12/14

Um Caixão Cheio de Areia

Abel não acreditava que o matador fosse um dos capangas de Miller. Por que matar Julius primeiro, e depois Miller? O assassino não premeditou o crime, não portava armas. Usou o que encontrou na ocasião, uma pedra, para matar o mendigo e um ferro de passar roupas para matar o prefeito. Poderia ser alguém que veio de fora da cidade e não um de seus habitantes. As pessoas podiam entrar, mas não sair por causa do nevoeiro.

Abel tinha uma desconfiança e passou a pensar nela. No cemitério, assistindo o sepultamento de Julius e Miller, ele visitou depois, os túmulos das pessoas que haviam morrido no incêndio da clínica. Lena mostrou para ele onde estavam os túmulos dos onze pacientes e da esposa de Sebastian Canho.

Naquela noite, Abel saiu do hotel. Pegou o cavalo no estábulo e dirigiu-se para o cemitério. O lugar era deserto, não havia possibilidade de ser visto, ainda mais àquela hora da noite. Por isso, ele acendeu um lampião, pegou uma pá no depósito e cavou o túmulo de Hudson Miller.

Alguns minutos depois, constatou que as suas desconfianças estavam certas. O caixão não continha o corpo do filho de Miller, e sim, alguns sacos de areia, completando o mesmo peso do rapaz. Voltou a fechar o túmulo e retornou à cidade. Deixou o cavalo no estábulo e seguiu caminhando pela rua em direção ao hotel. Ao chegar em frente do estabelecimento, ouviu gritos lá dentro. Imediatamente correu para o quarto de Lena, mas outro grito fez com que ele mudasse a direção e entrasse na cozinha.

Chegou no exato momento em que o assassino erguia a faca para matar Lena.

Abel apertou o gatilho, acertando a mão do homem. A faca escapou da mão ferida e ele voltou-se, olhando com ódio para Abel. Levantou-se e se atirou contra a janela espatifando a vidraça. Abel deixou-o ir, estava mais preocupado com Lena. Ela estava abalada, mas ilesa.

Lena bebeu um copo de água para se acalmar e depois se sentou. Contou que havia acordado com o barulho de alguma coisa caindo no assoalho da cozinha. Encontrou a janela arrombada e aquele homem lá dentro, pegando comida na despensa. O aspecto dele era assustador. Usava uma roupa rota e suja, tinha barba e cabelos compridos. Os olhos esbugalhados de um louco.

─ De onde será que veio essa criatura?

─ Acho que ele é Hudson Miller.

─ Disseram que ele morreu no incêndio do asilo!

─ Cheguei agora do cemitério. Eu já desconfiava disso. No caixão só tem areia. Miller salvou o filho e depois Sebastian. Sebastian estava desacordado e não viu quando Miller escondeu o rapaz em algum lugar.

─ Onde ele ficou todo esse tempo? Por que apareceu só agora?

─ Miller deve ter trancado na mina. De alguma forma ele saiu e foi procurar o pai. Encontrou Julius dormindo e usou uma pedra para mata-lo, num gesto de puro desvario. Depois bateu na porta de Miller, que o levou para dentro, confiando nas boas intensões do filho.

─ Como não deram falta do corpo dele no incêndio?

─ Só posso supor que Miller tenha subornado o agente funerário, que já chegou ao local com a areia dentro do caixão. Evidentemente, por causa do cheiro, os caixões permaneceram lacrados durante o velório. Talvez eles tenham identificado os corpos carbonizados pela posição das camas, ou por outros detalhes. O de Hudson deve ter sido o primeiro a ganhar o atestado de óbito. O médico que fez o registro confiou na palavra do agente funerário, quando ele indicou o caixão como sendo o corpo de Hudson lá dentro. Evidentemente, tudo isso é suposição, pois vai ser impossível saber como realmente aconteceu.

Capítulo- 13/14

O Incêndio

A cidade amanheceu com medo. Na rua, as pessoas comentavam sobre as mortes na noite anterior. Quem foi? Por que? Abel pediu para Lena não dizer nada sobre suas suposições, a quem quer que fosse. Ele podia estar errado. As incertezas aumentavam ainda mais a sensação de insegurança da população. A câmara de vereadores, impedida de atuar por causa de Miller, voltou a se reunir secretamente. Eles fizeram o convite a Abel, para que ele liderasse um grupo de moradores para prender os capangas de Miller.

Pegos de surpresa, Jack, Frank e Joey, não resistiram e foram encarcerados, sob acusação de roubo, intimidação, ameaça, corrupção, formação de quadrilha e homicídio.

Depois de prender os bandidos, Abel e o grupo foram à mina. Chegando lá, encontraram a porta arrebentada.

Eles entraram e encontraram roupas, vasilhames, um colchão e muito lixo no túnel principal.

-─ Parece que tinha alguém morando aqui dentro - disse Tobias Thompson. Abel contou a eles o que disse para Lena, que supunha ser Hudson Miller. Os homens ficaram espantados.

─ Durante todos esses anos ninguém ficou sabendo disso! - Exclamou Orson Lewis.

─ Miller trazia alimentos para ele. Sabia que o filho era louco e optou por deixa-lo preso aqui.

─ Foi uma crueldade!

─ A gente também não ficou sabendo de nada.

─ Alguém sabe a extensão desses tuneis? - perguntou Abel.

─ Não sei ao certo, mas parece que não ultrapassa mil metros- respondeu o ferreiro.

─ Vamos nos dividir e examinar os tuneis. Se encontrarem Hudson, atirem somente se for necessário.

Hudson não estava na mina. Quando o grupo saiu, alguém avisou que avistara fumaça espessa na direção da cidade. Todos montaram em seus cavalos e partiram a galope. Algumas casas estavam pegando fogo e os bombeiros, junto com voluntários, combatiam as chamas. O incêndio foi provocado por um homem cabeludo e barbudo. O doutor Dantas tentou detê-lo, mas foi esfaqueado no braço. Alguns homens saíram em perseguição ao louco, que fugiu para a mata. Ele acabou caindo de um penhasco e morreu.

Abel chegou ao local. Mesmo ferido, o doutor Dantas examinou os sinais vitais do homem.

─ Esse homem parece Hudson Miller!

─ É ele mesmo doutor- disse Abel ─ Waldemar Miller salvou o filho do incêndio e o escondeu na mina. Apesar de ter sido um homem mau, Miller amava o filho e não queria que nada acontecesse a ele. Mas, Hudson, na sua loucura, matou o próprio pai, talvez considerando ser ele, o seu carrasco e não protetor.

***

Capítulo- 14/14

Final feliz

Três dias depois...

Abel convidou Lena para um piquenique. Ela ficou radiante com o convite. Preparou a comida, talheres, toalha e colocou tudo numa cesta. Abel comprou uma garrafa de vinho e eles partiram para o campo. Sob a sombra de uma árvore, eles se instalaram. Comeram, disseram piadas e riram muito. Depois, Abel se recostou no tronco da árvore e olhou para o nevoeiro que permanecia como uma muralha, alguns metros adiante. Lena sentou-se ao lado e recostou o rosto no ombro dele. Meia tonta por causa do vinho, ela disse:

─ Até quando esse nevoeiro vai ficar aí?

Sentindo prazer com o contado dela, Abel respondeu; ─ Não sei, acho que...

Ele parou de falar e ficou olhando o nevoeiro. Ele estava se dissipando.

─ Está desaparecendo! - exclamou. Rapidamente, como que levado por um forte vento, o nevoeiro saiu rodopiando e se desvaneceu.

Abel e Lena se ergueram e correram para o alto da colina. Olharam agora o outro lado, para a campina batida pelo sol. Correram até embaixo, rindo como crianças e tornaram a voltar.

Abel voltou a parar no alto da elevação, olhando o horizonte. Com uma expressão triste, Lena olhou para ele.

─ Acho que gora você vai embora, não é?

Ele a encarou. ─ E você quer que eu vá?

─ Não

Abel sorriu.

E os dois se beijaram.

Fim

4 de Abril de 2021 às 19:42 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

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