antonio-stegues-batista Antonio Stegues Batista

Gordon Calvera, um ex militar sem escrúpulos, se apossa da cidade de Dodge City, coloca um de seus capangas de xerife e outro de prefeito. Com suas artimanhas, ele vai se apoderando das terras ao redor. Ele deseja comprar a fazenda de Sara Stevens, mas a viúva rejeita todas as suas ofertas e o pedido de casamento. Tudo piora quando Calvera sequestra o filho de Sara. Ela se desespera e acha que vai ter que ceder às vontades do bandido, mas um pistoleiro misterioso surge para enfrentar Calvera e recuperar o garoto.


Aventura Impróprio para crianças menores de 13 anos.

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A Volta do Pistoleiro

Dodge City-1889

O cemitério de Dodge City ficava numa elevação, próximo da cidade. Naquele dia 28 de julho, como fazia sempre naquela data, uma mulher percorre a estreita trilha até o cemitério e deposita algumas flores num túmulo onde há uma tosca cruz de madeira de carvalho com um nome gravado à ferro. É um túmulo modesto como a maioria das sepulturas, provavelmente de alguém sem notoriedade, um morador do lugar, pessoa simples. O nome da mulher é Sara Stevens. Após colocar o ramo de flores, ela faz uma breve oração e volta à cidade.

Rufus O’Malley é irlandês. Veio para o Texas com o sonho de encontrar ouro e enriquecer. Foi roubado na estação de trem, no Kansas. Sem dinheiro, e apenas com a roupa do corpo, tornou-se assaltante para poder sobreviver. Após matar um homem num duelo por causa de uma mulher, ele fugiu para o sul, onde se aliou à quadrilha de Gordon Calvera, ex-militar, jogador e trapaceiro.

Quando Sara chegou ao empório, encontrou Rufus esperando por ela.

─ O capitão Calvera quer falar contigo.-disse o homem de cabelos vermelhos, sequer escondendo seu olhar de cobiça e desejo.

Sara detestava Calvera na mesma medida em que o temia. O homem era um assassino frio e dissimulado. Calvera foi expulso do exército por mau comportamento. Inescrupuloso, tonou-se jogador de cartas e junto com Rufus e mais seis homens de maus bofes, tomou conta de Dodge City. O xerife morreu, aparentemente de causas naturais e o prefeito foi obrigado a empossar Gordon Calvera como xerife, com o argumento de que ele era um militar e era o único que podia impor a lei em Dodge City. Alguns dias depois o prefeito também morreu e um dos homens de Calvera foi empossado no lugar dele. José Torres era o prefeito, mas quem mandava na cidade era Calvera.

Sara queria ir embora de Dodge City, vender o empório e a fazenda, que estava abandonada. Antes do pai morrer, ela abriu aquele empório por que não queria ser fazendeira, mas também não podia ficar longe do pai. Seu sonho era encontrar o homem ideal para se casar e mais tarde ir morar numa cidade mais desenvolvida. Seu sonho parecia que iria se realizar quando ela conheceu Bill Charro. Naquela tarde no empório, ela estava trepada numa escada tirando o pó das prateleiras, quando aquele homem elegante entrou com suas esporas de prata retinindo no assoalho. Ele tirou o chapéu preto com uma fita vermelha, bem em frente ao balcão e olhou para ela. A testa dele relaxou e a tensão do queixo se desfez e o olhar antes frio, se tornou cálido como um dia de sol.

Sara também se sentiu atraída por ele, um homem elegante, de aspecto viril, a fisionomia e o porte físico demonstrava ser alguém seguro de si, capaz de enfrentar os maiores perigos do mundo.

Ele havia entrado no empório para comprar balas para seu reluzente Colt 45. Disse que se chamava Bill Hélder, tinha chegado do Oregon naquele mesmo dia e estava à procura de trabalho, qualquer trabalho. Ela então, mandou-o falar com o pai dela, na fazenda. Bill começou a trabalhar na fazenda e se tornou um capataz de confiança. Quando ele ia a cidade, sempre a visitava no empório, ou quando ela ia à fazenda visitar o pai, os dois passavam o dia juntos. Eles começaram a namorar e até fizeram planos para casar. Bill comprou as alianças para oficializar o noivado. Mas, tudo acabou no dia em que os dois estavam conversando em frente ao empório. Naquele dia apareceu George Lester, um pistoleiro em busca de fama. Ele desafiou Bill para um duelo.

─ Então, Charro, quero ver se você é homem para me enfrentar. Vamos para o meio da rua! Quero ver se Bill Charro é mesmo o mais rápido do Oeste!

Bill pegou o braço dela e tentou se afastar, mas o homem, com dois revolveres nos coldres, impediu a passagem. Bill não perdeu a calma.

─ Eu estou desarmado.- disse ele e se afastou. Ela tentou conversar com ele, mas Bill estava com pressa. Mandou-a para casa e se afastou, dizendo que voltaria mais tarde. Ela entrou em casa para espera-lo. Mas, Bill não apareceu. Logo depois ouviu gritos de alerta.

A cocheira estava pegando fogo. Pessoas corriam para buscar baldes com água. Quando o incêndio foi debelado, encontraram um corpo carbonizado entre as ruinas. Mais tarde, o doutor Evans, trouxe uma aliança parcialmente derretida e a notícia de que o corpo era de Bill Hélder, aliás, o verdadeiro nome era Bill Charro.

***

Depois de 5 meses de seca, uma chuva torrencial caiu sobre Rio Largo no Texas, trazendo novas esperanças para os criadores de gado. Quando Jim Larsson chegou na casa da fazenda, a chuva já tinha parado. Ele deixou o cavalo na estrebaria, mudou de roupa no dormitório e entrou no refeitório. Ali já estavam todos os vaqueiros e peões da fazenda Três Figueiras de propriedade de Vitoria Taylor.

─ A patroa quer falar contigo, Larsson. –disse Elmer, um dos peões na fila da boia com um prato na mão. O capataz voltou a sair e entrou na casa grande. Na poltrona da sala estava sentado um homem de cabelos e barba cor de trigo, com o chapéu branco nas mãos. Jim teve a impressão de que o conhecia. Cumprimentou-o com um movimento de cabeça e bateu na porta do escritório.

A voz de Vitoria soou lá dentro. ─ Pode entrar!

O capataz entrou no elegante escritório da patroa, lugar onde ela gostaria que ele estivesse trabalhando. Jim sabia que Vitoria gostava dele. Ele também gostava dela, mas não a amava. Para ele, o amor era a coisa mais importante numa relação. Ele sempre demonstrou respeito e admiração pela patroa e Vitoria aceitava isso, com esperança de que um dia ele viesse a amá-la de verdade.

Ele entrou e sentou-se em frente a escrivaninha. Ela ergueu o rosto do livro de registros, colocando a pena no suporte do porta-tinteiro.

─ Está tudo bem no pasto? – perguntou, com um tom de voz suave, jeito que ela sempre usou ao falar com ele.

─ Sim. Está tudo tranquilo. Agora com a chuva voltando, tudo também volta ao normal.

─ Assim espero, pois daqui a seis meses temos que entregar um rebanho em Silver City. Mas, eu não te chamei para dizer isso. O homem que está na sala se chama Frank Miller. Ele é seleiro e nós estamos precisando de um especialista em couro.

Ao ouvir aquele nome, Jim ficou pensativo.

─ Quero que você reúna alguns carpinteiros para construir uma Selaria aqui na fazenda- disse Vitoria. ─ Nós vamos ter a nossa própria selaria e também uma ferraria.- Vitoria fez uma pausa, olhando para o capataz. ─ Jim, está me ouvindo?

Ele ergueu a cabeça. ─ Sim, claro! É uma ótima ideia. Pode deixar que eu vou providenciar tudo.

Vitoria sorriu, satisfeita. O capataz pediu licença e saiu. Passando pela sala, ele fez sinal para Frank Miller segui-lo. Eles saíram para os fundos da casa. Jim estacou junto ao curral, onde não havia ninguém para ouvir o que ele tinha a dizer ao rapaz.

─ Você está me reconhecendo, não está?

Frank ainda estava com o chapéu nas mãos. Ele franziu a testa e depois esboçou um sorriso.

***

Sara pensou em ignorar o pedido de Calvera, mas se ela se recusasse ir conversar com ele, o homem a obrigaria ir de qualquer jeito. Apesar de conhecê-lo há pouco tempo, sabia que Gordon era um homem acostumado a dar ordens e que não gostava de ser desobedecido. Assim, ela acompanhou Rufus, e aquele sorriso cínico dele. Rufus usava dois revolveres com os coldres amarrados um pouco abaixo da cintura na altura das mãos. Recurso usado por pistoleiros para um saque rápido.

Gordon Calvera fez do bar o seu quartel-general. Ele era o dono. Nos fundos, mandou construir um barraco onde montou um alambique para fabricar uísque de centeio. Centeio que os agricultores eram obrigados a cultivar e a vender somente para ele. Calvera ganhava muito dinheiro com a bebida, e queria expandir os negócios. Pretendia comprar as terras da fazenda que eram do pai de Sara e investir na criação de gado. Sara sabia disso e achou que seria esse o assunto que ele queria tratar com ela.

Ela entrou no bar cheio de homens e algumas mulheres, prostitutas protegidas do dono da casa. Ao localizar Gordon sentado à uma mesa de pôquer, foi direto até ele. Ao vê-la, Gordon ergueu-se e indicou o escritório no outro estremo do salão. Ele abriu a porta e deu-lhe passagem, fazendo um gesto para entrar. Fechou a porta para abafar o barulho das vozes do salão.

─ Me disseram que você foi no cemitério - disse, sentando-se atrás da uma escrivaninha. ─ Não sei como pode ainda se lembrar do seu falecido noivo!

─ Você me chamou para falar disso?

─ Não. Eu quero comprar a fazenda e até já fiz um cheque.

Sara pegou o chegue apenas por curiosidade. Olhou o valor e depois rasgou-o.

─ Você sabe que ela vale muito mais. Por enquanto não vou vender. Pelo menos não a você. E pare de me chamar aqui para isso. É tempo perdido.

Sara deu meia volta e estava para sair, mas Gordon a deteve.

─ Espere! Não foi só por isso que te chamei. Eu quero me casar com você. A gente se casa, e vai passar a lua-de-mel viajando pelo mundo. O que você acha? Vamos viajar pela Europa e Ásia. Que tal? Vou te tratar como uma rainha.

Sara pensou rir na cara do homem, mas seria o mesmo que cutucar a onça com vara curta.

─ Não quero me casar com você!

─ O juiz de paz vai estar na cidade o mês que vem. Ele vai fazer o nosso casamento.

Num repelão, Sara saiu da sala, furiosa.

Ao entrar no empório, se deteve, pensativa. Com certeza, Gordon insistiria com aquele assunto. Mas, ele não podia obriga-la a fazer o que não queria. Nem o juiz concordaria com isso.

***

Um cavalo trotava tranquilamente pela estrada rumo a Dodge City. O cavaleiro, vestido com um casaco de couro com a gola levantada, por que a manhã estava fria, sentado dolentemente na cela parecia dormitar. Deixava a montaria seguir o caminho por conta própria.

Súbito, ele levantou a cabeça e prestou atenção. Uma voz pedia socorro. Ao lado da estrada havia um despenhadeiro. O homem saltou do cavalo e foi até a beira do barranco. Olhando para baixo, viu um homem caído entre as rochas. Com cuidado, ele desceu vagarosamente procurando apoiar o pé em solo firme. Logo que chegou ao fundo da ravina, o outro disse: - Amigo, me ajude! Acho que quebrei a perna.

─ Como aconteceu isso?

─ Meu cavalo se assustou com uma cascavel e eu acabei caindo da sela.

─ Eu vou te ajudar. Vou fazer um trenó.

─ Me chamo Trevor e você?

─ Jesse Donovan.

─ Jesse, minha perna dói pra caramba!

Com uma faca, Jesse cortou alguns galhos e com cipós, fez o trenó. Colocou Trevor sobre ele e o puxou com uma corda. Amarrou o trenó à sela e o rebocou até Dodge City. Denis, um dos homens de Gordon, que vigiava a entrada da cidade, correu para o meio da rua e interceptou o cavaleiro.

─ Esperem aí! Quem são vocês e o que querem na cidade?

Mesmo de costas, Trevor reconheceu a voz do rapaz.

─ Denis, seu bosta! Sou eu!

Denis deu a volta até o trenó.

─ Trevor?! O que te aconteceu?

─ Cai numa ravina e quebrei a perna. Eu morreria lá se não fosse o Jesse aí.

─ Acho melhor levá-lo a um médico- disse Jesse.

─ Me siga - pediu o rapaz e saiu andando. Logo chegaram ao consultório do doutor Evans. Deixando o ferido na porta do médico, Jesse pegou o cavalo pelas rédeas.

─ Eu tenho que ir. - disse ele para Denis.

─ Ok! Pode deixar.

Deitado no trenó, Trevor ergueu uma mão. ─ Obrigado cowboy!

O homem chamado Jesse, dirigiu-se para o bar. Amarrou o cavalo no moirão e entrou. Chegando o balcão, pediu uma dose de uísque. Logo que ele entrou, Rufus, apoiado na outra ponta, olhou para ele avaliando-o como sempre fazia quando algum desconhecido chegava â cidade. O forasteiro barbudo, de roupas simples e poeirentas não o impressionou, parecia ser um daqueles andarilhos que perambulavam pelo estado à procura de emprego. Não parecia ser um pistoleiro, pelo menos ele não viu nenhuma arma na cintura do sujeito. Mas, aquelas botas bem que podia estar ocultando uma derringer. O homem permaneceu apoiado no balcão, com o chapéu sobre o rosto. Bebeu alguns goles da bebida sem se interessar no que se passava pelo salão.

Denis entrou apressado no bar. Foi direto até onde estava Rufus.

─ O Trevor não chegou a Denver.

─ Por que?

─ Caiu numa ribanceira e quebrou a perna. Morreria lá se não fosse aquele sujeito ali no balcão tirar ele lá do fundo.

─ Onde o Trevor está?

─ Com o doutor Evans.

─ Vamos lá, eu quero falar com ele.

***

O homem chamado Jesse, estava sentado na calçada em frente a barbearia, mas ele não estava ali para cortar o cabelo ou a barba. Parecia não ter nada o que fazer. Com um canivete tirava lascas de um graveto. De vez em quando, ele olhava para a entrada do empório, mas eram olhares rápidos, passageiros, para que ninguém pensasse que estava ali para assaltar o lugar.

Denis surgiu do bar e encaminhou-se para ele ─ Venha comigo! - pediu estacando no meio da rua e fazendo um gesto ─ O capitão Gordon quer falar com você.

─ O que ele quer? Não o conheço.

─ Pois vai conhecer agora. Venha logo!

A contragosto, Jesse o seguiu. Entraram no escritório de Calvera, nos fundos do bar. O homem estava examinando uns papéis sobre a mesa.

─ Esse é o Jesse. -disse Denis e saiu. No outro extremo, estava Rufus, sentado numa cadeira. Jesse notou as armas livres para um saque rápido se fosse necessário.

─ Me disseram que você salvou a vida de um de meus auxiliares.- disse Calvera examinando Jesse de alto a baixo.- Agradeço pelo que fez. Trabalha em algum lugar?

─ Não.

─ De onde veio?

─ Ontário.

─ Por que saiu de lá?

Jesse fez uma pausa. Olhou para Rufus e depois voltou a encarar Calvera.

─ Andei fazendo algumas coisas erradas e o xerife me expulsou.

─ Quer trabalhar para mim? Preciso que alguém vá a Denver. Trevor estava indo para lá e infelizmente, o idiota se machucou.

Jesse ficou meditando, olhando para o chão.

─ Então?

─ Olha, eu até que queria um trabalho, mas não posso sair da cidade agora. Estou esperando uma pessoa. Fiquei de me encontrar com ela aqui em Dodge City.

Gordon ficou olhando para Jesse. Pensou insistir, mas mudou de ideia.

─ Está bem. Rufus, mande outra pessoa a Denver.

O homem ergueu-se e esperou na porta.

─ A oferta continua de pé. –disse Calvera para Jesse. ─ Se quer um emprego, me procure.

***

Logo de manhã cedo, quando abriu o empório, Sara encontrou um pedaço de papel enfiado por debaixo da porta. Ela pegou-o e leu; “Bill Charro está vivo. ”

O papel era comum, as letras meio tortas escritas com um lápis de ponta grossa. Sara ficou surpresa e ao mesmo tempo curiosa. Por que alguém escreveria aquilo? Bill estava morto e enterrado lá no cemitério! Que motivo teria alguém para fazer aquilo com ela? Uma brincadeira sem sentido!

Ela abriu a porta e olhou ao longo da rua. Havia poucas pessoas transitando por ali naquele começo de manhã. Numa cidade pequena todos acabavam se conhecendo, e ela não desconfiou de ninguém. Mas, havia um homem estranho do outro lado da rua, sentado em frente a barbearia. Talvez fosse alguém que morava no campo e veio a cidade cortar o cabelo e fazer a barba. Talvez estivesse esperando a barbearia abrir. Ele permanecia sentado, recostado numa das colunas da varanda, com o chapéu caído sobre o rosto.

Rufus O’Malley surgiu na rua caminhando apressado em direção ao empório. Ele parou em frente a Sara e disse: - O capitão mandou dizer que é para você ir jantar com ele hoje. Ele tem uma proposta para fazer, que você não vai poder recusar!

Rufus terminou com um sorriso de deboche e foi embora. Sara ficou chateada. Mais uma vez Calvera procurava dominá-la. Ela até pensou que seria melhor vender tudo para ele, mesmo por um preço baixo e ir embora de Dodge City.

***

Entardecia quando Sara fechou o empório. Ela morava em três peças pegadas ao empório. Uma cozinha e dois quartos. Ema Thompson, uma vizinha, cozinhava para ela e cuidava de outros afazeres domésticos. Sara estava jantando quando alguém bateu na porta. Ela achou que fosse Ema, mas era Rufus.

─ Vamos, o capitão está esperando para jantar com ele.

─ Eu já jantei e não tenho mais nada o que falar com Calvera!

─ De qualquer maneira, acho bom você ir porque o capitão tem uma surpresa para você.

─ Que surpresa? Não quero nada daquele homem!

─ A surpresa acabou de chegar na carruagem da tarde.- disse Rufus, fazendo um gesto para a rua.

Sara ficou confusa em princípio, mas depois levou um choque quando um pensamento passou pela sua cabeça. Imediatamente ela fechou a casa e acompanhou o homem. A carruagem de Denver tinha chegado, e estava parada em frente ao estábulo, trocando os cavalos. Calvera e dois de seus homens estavam em frente ao bar, junto de uma mulher. Pelas roupas e o chapéu que ela usava, Sara percebeu que tinha acabado de chegar na carruagem. Ao vê-la, a moça correu em sua direção e só então Sara reconheceu sua prima, Judy. As duas se abraçaram.

─ Prima, que surpresa! - exclamou Sara e logo notou a expressão tensa da prima. Alguma coisa estava errada. Judy pegou-a pelo braço e se afastou do bar.

─ Aquele homem pegou Johnny.- disse Judy.

Sara estacou, segurou os dois braços da mulher. ─ O que você está dizendo? Johnny veio com você? Onde ele está?

Judy a segurou pela mão e puxou em direção ao empório.

─ Vamos conversar lá dentro.

Judy era dois anos mais velha. No empório, a prima sentou-se, tirando o chapéu da cabeça. Lágrimas vieram aos seus olhos.

─ Dois homens pegaram Johnny e o levaram para dentro do bar, e me impediram de vê-lo. Disseram que só você será capaz de libertá-lo.

─ Mas, por que vocês vieram para Dodge City? – indagou Sara, aflita!

Judy olhou para ela, confusa. ─ Mas, foi você mesma que pediu! Nós recebemos a tua carta!

Sara agitou as mãos. ─ Eu não mandei nenhuma carta!

Ela deu duas passadas de um lado para outro, a apreensão se transformando em raiva. ─ Foi Calvera! Só pode ser. Ele descobriu sobre Johnny. De alguma forma descobriu e o sequestrou para me obrigar a vender a fazenda para ele.

Judy estava olhando para o chão. Ela ergueu-se e foi pegar um papel que apareceu sob a porta.

─ Alguém enfiou debaixo da porta. –disse ela, entregando para Sara, que abriu a porta e olhou para fora. Não havia ninguém próximo do empório. A pessoa deve ter saído correndo para o outro lado. Sara abriu o papel e leu: ” Bill Charro está vivo. Pergunte para o doutor Evans. ”

Sara ficou mais intrigada ainda e começava a acreditar que Bill estivesse mesmo vivo. Precisava falar com o doutor Evans, mas antes, tinha que ver Calvera e resgatar Johnny. Ela sentiu-se impotente, fraca. Puxou uma cadeira e sentou-se. Judy aproximou-se, preocupada.

─ Sente-se bem? Você está branca!

Sara sacudiu uma mão.

─ Estou bem, não se preocupe. Só quero pensar o que dizer a Calvera.

─ Quem é Calvera?

─ Um bandido! Mau caráter! Ele quer a fazenda. Sequestrou Johnny para fazer chantagem.

Sara baixou a cabeça, olhando para o papel que ainda segurava na mão. Voltou a ergueu o rosto e mostrou à prima. Judy leu e disse;

─ Se Bill estivesse aqui, daria um jeito nesse Calvera.

Nesse momento ouviu-se uma explosão. As duas mulheres correram para a rua para ver o que tinha acontecido. Um clarão de fogo surgiu por trás do bar, no barraco onde funcionava a destilaria. Algumas pessoas gritaram incêndio, e começaram a correr para o local. Mas, logo retrocederam quando soaram tiros seguidos de gritos em tom de urgência.

Sara levou as mãos ao rosto, apavorada. ─ Johnny está lá, no bar!

Ela saiu correndo com Judy atrás. Ao chegar próximo ao bar, viu Calvera sair, seguido por Rufus e dois companheiros, além de frequentadores do cassino. Calvera e seus homens estavam interessados no tiroteio que acontecia atrás do barraco. Sara aproveitou a confusão e entrou no bar. Foi direto ao escritório de Calvera. A porta estava trancada e a chave não estava ali.

Sara gritou: ─ Johnny! Você está aí?

Ela bateu na porta, mas não recebeu nenhuma resposta.

─ Vou buscar ajuda. – disse Judy e saiu. Sara dirigiu-se para trás do balcão do bar e procurou a chave nas gavetas.

A voz de Judy soou da porta. ─ Sara! Ele está aqui!

Sara correu para fora e abraçou o filho.

─ Um homem me tirou pela janela. –disse o garoto.

***

Uma hora antes, o homem chamado Jesse, como de costume estava sentado em frente a barbearia. Ele viu quando a carruagem chegou e pensou se não seria melhor entrar nela e ir embora. Mas, ele precisava falar com Sara, saber se ela anda gostava dele a ponto de perdoa-lo.

Jesse, ou melhor, Jim Larsson, aliás, Bill Charro, lembrou-se do dia em que Frank Miller chegou na Fazenda Três Figueiras, a procura de emprego. Ele logo reconheceu Frank, que há 15 anos em Dodge City, era ajudante de seleiro e trabalhava na fazenda do pai de Sara. Frank não o tinha reconhecido, mas ele decidiu revelar para o rapaz que não estava morto e pediu notícias de Sara. Foi quando Frank disse que Sara tinha um filho e que o filho era dele. Ela ia dizer que estava grávida naquele mesmo dia em que houve aquele duelo com George Lester no estábulo.

─ Você tem certeza de que o filho é meu? –havia perguntado e Frank respondeu com toda a sinceridade que lhe era peculiar: - Claro que sim! Eu ouvi quando ela confessou para o pai dela, naquele mesmo ano em que o velho morreu.

Bill ficou feliz com aquela notícia e decidiu na mesma hora ir para o Texas. Na viagem, ele ficou apreensivo. E se Sara estivesse casada? E se o menino considerava o marido dela como pai? Mas, logo que ele chegou a Dodge City, descobriu que Sara se mantinha viúva. Mas, o menino não estava com ela. Descobriu que Gordon Calvera gostava de Sara. Calvera dominava a cidade e Bill decidiu se revelar para Sara e tirá-la da cidade. Mas, procurou revelar aos poucos, com aqueles bilhetes que ele colocava por debaixo da porta dela. Bill também decidiu visitar o doutor Evans e conversar com ele. Evans revelou que Gordon Calvera tomava conta da cidade, que ele era a lei. Todos tinham medo de retaliações, nada faziam para denunciar Calvera e seus homens. Bill disse que levaria Sara para a capital e dar parte às autoridades sobre os crimes de Calvera. Indagado se sabia se ele era pai do filho de Sara, Evans respondeu: - Sim, você é o pai. Eu mesmo fiz o parto. É um menino, hoje está com 15 anos.

─ E onde ele está?

─ Como aqui não tem colégio, nem professor particular, ela o mandou para Denver. Ele está morando com a prima dela, Judy. O menino viria para cá esse ano, mas como Calvera tomou conta da cidade, Sara achou melhor ele ficar por lá, por enquanto.

Então, naquele mesmo dia, quando deixava a casa do doutor Evans, Bill viu quando uma mulher acompanhada de um menino, desceram da carruagem. Logo em seguida eles foram abordados por Rufus e levados para dentro do bar. Minutos depois, Rufus saiu e se dirigiu para a casa de Sara e voltou com ela. Os dois se dirigiram para o bar. A mulher que havia chegado na carruagem saiu e correu ao encontro de Sara. Sara ficou agitada, aflita. Bill não conseguiu ouvir a conversa, mas sabia que ela estava perguntando pelo menino, que ainda permanecia no bar, provavelmente com Calvera. A mulher convenceu Sara a voltar para o empório. Bill concluiu que Calvera havia sequestrado o menino. Ele pegou um papel do bolso, passou pelo empório e enfiou-o por debaixo da porta. Saiu rápido para os fundos, pegou uma pá no depósito e subiu o morro em direção ao cemitério.

Foi direto ao túmulo onde uma cruz de madeira tinha o seu nome. Ele cavou até encontrar o caixão. Abriu a tampa e pegou uma caixa de madeira de cedro que estava sob o esqueleto de George Lester. Voltou a colocar a tampa no caixão e a fechar a cova. Colocou o cinturão com os dois coldres na cintura e fechou a fivela. Limpou as mãos na calça e começou a descer a colina, flexionado as mãos e sacando as armas. Deu alguns tiros nuns cascalhos para ver se a munição ainda estava boa. Ficou satisfeito com o treino.

A primeira coisa que fez foi aproximar-se do barraco pelos fundos. Os homens da Calvera estavam distraídos e nem desconfiavam que iriam ser atacados. Havia apenas um homem cuidando da destilaria e foi fácil derruba-lo com uma coronhada. Arrastou o homem desacordado para fora, derrubou um tonel de uísque no chão e colocou fogo. O assoalho de madeira logo se incendiou e as labaredas subiram para o teto.

Bill esperou que o alarme de incêndio fosse dado. Quando Calvera e os outros correram para a rua, ele abriu a janela do escritório e resgatou o menino. Deixando-o em lugar seguro, voltou a correr para os fundos do barraco. Um dos pistoleiros de Calvera viu-o, mas foi lento ao sacar a arma. Levou um tiro no joelho e caiu, contorcendo-se de dor.

Atraídos pelo disparo, Rufus e Denis surgiram correndo.

─ Foi aquele tal de Jesse! Ele colocou fogo na destilaria e me deu um tiro na perna! –gritou o homem, com uma careta de dor.

Os outros saíram atrás de Bill. Ele escondeu-se no estábulo, o estábulo que foi construído no lugar daquele consumido pelo fogo 15 anos atrás. Correu até o outro extremo e saiu pela janela.

***

O doutor Evans saiu do consultório para ver que estava acontecendo. Ao vê-lo, Sara pegou Johnny pelo braço e correu para o consultório. A prima correu atrás. Evans voltou a entrar.

─ Vamos entrem! Não fiquem na rua!

O médico trancou a porta e foi olhar por uma fresta da janela.

─ Espero que Calvera e sua corja tenham o que merecem! – disse ele.

Sara tocou no braço dele. ─ Doutor, eu tenho recebido alguns bilhetes dizendo que Bill está vivo. O último foi esse.

Sara pegou o papel e deu para ele. Depois de ler, Evans puxou uma cadeira e sentou-se.

─ Sim, agora já não é mais preciso guardar segredo.

─ Como? Então é verdade? Mas nos enterramos o corpo dele. Eu chorei sobre o caixão!

Evans estava hesitante, nervoso.

─ Eu não queria ser cúmplice daquela farsa, mas Bill queria proteger você.

Lágrimas correram pelo rosto de Sara e ela não sabia se estava chorando de alegria ou de raiva. ─ Me proteger?

─ Pense bem. Bill Charro tinha fama de pistoleiro mais rápido do Texas e sempre havia alguém disposto a querer acabar com ele para ganhar fama, entende? Com ele, você corria perigo, alguém poderia querer fazer algum mal a você, apenas para enfurecê-lo. Por isso, quando George Lester apareceu para disputar um duelo com ele, Bill resolveu ir embora da cidade. Ele tinha ido ao estábulo para pegar o cavalo, quando encontrou Lester. Os dois sacaram da arma e dispararam quase ao mesmo tempo. Bill acertou Lester no peito, mas a bala de Lester atingiu um lampião que estava pendurado numa trave. A querosene pegou fogo e se lastrou pelo feno. Logo o estábulo estava em chamas. Bill resolveu ficar longe, olhando e foi então que teve uma ideia. Ele veio falar comigo e me pediu para dizer que o corpo encontrado no incêndio era o dele e me deu a aliança para colocar no cadáver. Como o corpo estava irreconhecível, ninguém desconfiou que era Lester. O resto você sabe.

Sara olhou para Judy e Johnny, que ouviam calados a história. Voltou a encarar Evans. ─ Mas, onde ele está? Para onde foi?

─ Está lá fora, lutando contra os homens de Calvera.

Os tiros haviam cessado. Evans foi olhar pela janela.

─ Era aquele homem barbudo que ficava sentado em frente ao empório. Agora ele cortou a barba e o cabelo.

Sara levou as mãos ao rosto. Estava meio tonta pelas revelações. Evans abriu a porta e saiu para a varanda. Olhou em direção ao barracão que ainda pegava fogo. Algumas pessoas tentavam apagar as chamas acionando o carro dos bombeiros. Bill saiu do bar trazendo Calvera amarrado com uma corda.

─ Graças a Deus, Calvera e seu bando foram derrotados! – afirmou Evans.

─ É Bill! –exclamou Sara.

Evans a segurou pelo braço.

─ Sara, lembre-se que Bill Charro morreu. Aquele homem agora, chama-se Jesse Donovan.

Sara sorriu, abraçou Johnny e indicou: ─ Meu filho, aquele é o teu pai.

2 de Abril de 2021 às 20:27 0 Denunciar Insira Seguir história
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