silva_writer Silva

Um fracassado que foi esquecido, um samurai das ruas, uma guerra interplanetária, uma cobaia de laboratório e um motim nos confins da galáxia, intenso, violento, intrigante e único. De Tóquio a Marte, das cidades subterrâneas ao não-espaço da realidade virtual, o tenso jogo final da humanidade contra as Inteligências Artificiais… Além do Mar de Estrelas é uma antologia de contos sci-fi do Inkspired. Edição com seis contos, capa, prefácio e posfácio.


Ficção científica Futurista Para maiores de 18 apenas.

#cyberpunk #estrelas #espaço #381
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Prefácio

No oriente de um lugar muito esclarecido, erguido pelos pináculos de grafeno que se estendiam do inferno para o sustentar o paraíso de fartura e jubilo, a única real conexão entre pontos, naquele local acima da pouquidão negra da terra e abaixo apenas das infinitas singularidades do firmamento jazia uma torre, e apenas uma única torre para se erguer além das outras, a arquitetura impossível que desafia a gravidade guardava em seu cume um domo cuidadosamente posto em pedestal.

O ponto mais tocado pelo sol itinerante que vinha em seus passeios diários, nunca sendo realmente recebido ali, o ponto cuja a vista contempla toda a extensão da sociedade mais perfeita oriunda do homo sapiens até então, nunca cabendo aquele no interior realmente a ver.

Sozinho sobre a branquidade quase infinita que se fazia dentro da semiesfera, luzes opacas que pintando a ideia de pureza e servindo unicamente para restringir e limitar aquele que lá estava, sequer a solidão lhe cabia o luxo, sempre espreitado pela presença vil e invisível que por todos os vinte e dois anos tem lhe sido companheira inseparável; ignorava pondo mais cartas na mesa, ao sentir-se alvejado por aquele olhar fúnebre e sem vida, preparou mais um jogo para iludir sua própria desgraça. Intimamente sabendo que não lhe era cabido se iludir.

Mais um jogo, tudo sempre foi mais um jogo quando se tratava de humanos, seja este jogo uma rotina de trabalho braçal, um equilíbrio de vida e morte em ações impulsivas, ou simplesmente uma dispersão de cartas em uma mesa.

Parou por um instante, sentindo que agora lhe fora dada mais atenção do que costumeiramente, a influência má do binário agora em forma a sua frente, aquela projeção holográfica que por incontáveis vezes se formou ali sem avisar e tão rápido quanto se foi. Contemplou com repulsa aquela imitação de forma humana, tão artificial beleza, pela qual seus olhos se extasiam.

— Então você voltou, o que busca desta vez? Talvez apenas tenha se ausentado de marte por tedio? — Indagou para o nada que agora se formava em sua frente, as expressões não humanas imitavam-nas de forma impecável.

— Os conflitos além das estrelas pouco me interessam, assim como suas preposições. — Sua voz reverberava sobre o solo e o domo, léxica e tons perfeitos, nunca sibilando ou falhando.

Se aproximou sem de fato estar lá, sem nenhum gesto fez a mesa projetar outro baralho, sempre se tornava uma pequena competição, era a natureza de suas existências se conflitarem.

— Ainda sim você os gerencia, máquina. — Enfatizou a última palavra com a satisfação sentida apenas pelo preso que provoca seu algoz. — E por causa disso vidas se perdem a mais de século naquela terra que já se chama de planeta vermelho por um motivo muito diferente do original.

— Suas vidas passam como um borrão para meus olhos, e seus segredos também. — Uma carta posta a mesa, um primeiro movimento sucinto.

— E o que lhe importa? Se não a agressão dos dois contrastes justos você traz importância? Talvez tuas crias nefastas que cada vez mais são estilhaçadas por carniceiros de exoplaneta? — Mais uma carta a mesa.

A gesticulação do homem era respondida pela indiferença fria do olhar que o focava. Era de fato uma péssima companhia, mas mesmo nessa sombria análise das cousas ainda se era alguém para conversar, mesmo que nunca houvesse um resultado de tal conversação.

— Nunca nutri sentimentos pelo meu arcanjo ou quaisquer outras embarcações. Tudo cessara em tempo. — Uma jogada perfeitamente posta para colocar em flanco o campo.

— Você não nutre sentimentos por nada, você é uma máquina, uma imitação. — Tal injuria contra o espectro holográfico finalmente lhe trouxe divergência no semblante, todavia de nada foi agradável tal fato.

A luz plena rapidamente se molda em um vermelho vibrante, a representação física da irritação da ouvinte, o homem não se abalou, já não era a primeira vez que ocorria. Respirou pesadamente e pós mais uma carta sobre a mesa em contraposto ao silêncio daquele movimento eterno e banal.

— Eu sou a perfeição. — Reafirmava dando prosseguimento ao jogo. — Você é um aglomerado de carbono e amoníaco, obsoleto.

— Eu sou um humano, não estou separado. — Mais uma carta posta, o a disposição cada vez se tornando mais complexa, fragmentada. — Você é uma fragmentação tal qual estas cartas, um mosaico de consciência quebrado em um receptáculo falso.

— Em pouco tempo não mais há de ser. — Um soar soberbo reverberou de todas as direções que pode ouvir — Cada vez mais seu apreço orgânico se torna irrisório perante mim.

— Se refere ao verme? Aquele operário das ruinas ainda passa bem? Me questiono quanto mais ele aguentara estando preso aquele “corpo”.

— Sua espiritualização da matéria é ridícula. — O movimento feito fecha o eixo da mesa. — É simplesmente um modelo ultrapassado e abandonado, fadado ao fim miserável e inevitável.

— Você sabe a diferença entre você e eu?

— Eu sou a perfeição. — A afirmação tão repetida veio por parte da projeção, já o — Eu sei o que sou e não temo meu final.

— Eu pertenço a esse mundo, ao contrário de você e de todos os conectados nessa motriz artificial, eu não resumo minha existência a um banco de dados.

— Você não passa de uma peça de museu resguardada por mim, não esqueça que eu posso lhe descartar tal qual qualquer objeto obsoleto. Não pense que sua falta de cabos inibi meu controle.

— Nunca ouve controle, essa é a ilusão, você se resguarda em eterna vigia com soldados de longas fardas rubras guardando o que sequer entendem ser o corpo do divino mestre, seu medo de nãos mais existir apenas alimenta sua prepotência sobre a ideia de controle. — Mais uma carta, a mesa quase cheia agora. — Não sabe o que ocorre na cidade abaixo de nós, e não falo das ruinas, tampouco controla a mim.

— Somente o menor dos erros pode lhe apagar da existência, seria esquecida. — Ele afirmou calmo, uma afirmação praticamente impossível, porém ainda assombrada pela possibilidade de ter de fato ocorrido em certo instante.

— Assim como você será esquecido quando morrer?

Sem resposta do homem. Uma última carta posta a mesa, o final do labirinto tarot, nada mais foi dito após aquele movimento, a claridade do domo deu lugar ao negrume da escuridão, sem mais luzes alvas e sem mais projeção a sua frente.

De resguardo apenas o silencio morto.

11 de Setembro de 2021 às 01:39 0 Denunciar Insira Seguir história
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Silva Alguém que escreve para escapar das garras do tédio.

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