oak Rodrigo Carvalho

Um homem é convocado para a guerra. Uma guerra brutal contra um inimigo que quer destruí-lo, esmaga-lo e escraviza-lo. O que acontece quando se está a frente do que mais se odeia? O que acontece quando o que você é programado para fazer dá errado?


Ficção científica Distopia Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#guerra #mistério #distopia #ficção #conto #ficção-científica
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Olhei para o Inimigo

“Levantem. Peguem suas armas. Não olhem para trás. Suas famílias, seus amigos, estão orgulhosos e esperançosos. Eles entendem o preço. Vocês têm um propósito: protegê-los. Protegê-los dos inimigos. Os terríveis inimigos que nos querem ao seus pés, caídos, oprimidos, sofrendo a sua mercê. Levantem. Peguem suas armas, por cada um de nós, por vocês, pelo amanhã. Levantem-se soldados a guerra está aqui”.


Aquilo era novo pra mim. É como se eu não fosse programado para compreender aquilo. Você sabe, um cara de Lendis, que veio pra capital tentar a sorte - e meio que conseguiu encontrá-la. Meus parentes falavam dessas coisas, mas eu nunca achei que fosse acontecer. Ok, há alguns anos tudo mudou e o inimigo apareceu. Entramos lá e mostramos quem éramos. Mas, ‘entramos’, era bem distante de ‘eu estou entrando’. Não era eu, não eram meus amigos, não eram meus parentes. Eram eles. Outros que eu não conhecia.


Era tudo impessoal.


Cheguei à base de operações de voluntários - onde não haviam tantos voluntários assim, ainda antes de amanhecer. Meu nome estava na lista. Os oficiais de recrutamento, nenhum com patente superior a de sargentos, me olhava com desaprovação. É compreensível, eu não estava em forma, mas em minha defesa, eu dizia, ninguém havia me dito que haveria uma convocação. Logo, aproveitava a vida como podia, pelo menos, dentro dos meus padrões. Sabe como é, eu tinha direito a algumas coisas, meu salário de técnico em manutenções permitiam um pouco de luxo, alguns doces todos os meses, um pouco de acesso nas redes de inteligência global - até tinha como acessar aquelas zonas proibidas.


Recebi um número. Deixei de ser eu e me tornei o 749-J. Acho que era mais fácil para a mentalidade militar, que foge da nossa ideia civil. Não sou, até hoje, capaz de chegar numa conclusão sobre se ela é superior ou inferior a nossa - ao menos a minha até aquele momento. Hoje eu um deles, sou um militar e entendi que não estou aqui para pensar, cumpro ordens e tenho efetividade.


Eu tive sorte, tenho que afirmar isso aqui. Tudo deu certo, não entrei para as linhas da infantaria móvel e não fui alocado nas fileiras dos combatentes aéreos, não tenho medo de altura, mas prefiro evitar queimar até a morte em queda livre enquanto sou alvejado por outro jato voador. Me deram uma medalha, uma tatuagem no braço esquerdo e um novo código, agora era 749-J.D, um membro da força especial de Blindagem Móvel. Isso significa que eu seria um piloto de uma armadura de combate pesada, chamada de Heavy Suit. Usávamos um modelo antigo, porém confiável - segundo os superiores, o M340. Tínhamos uma vasta quantidade de armas, mas a que eu mais gostava era a de combate corpo a corpo, um machado feito de tungstênio com uma ponta na parte contrária da lâmina. Pesava uns 250 kg e era usado para abrir o cockpit da unidade adversária, ou cortar os seus membros.


O treinamento foi fácil, eu adorei. Não haviam muitas coisas dentro do campo de treinamento que eram capazes de nos ferir, a blindagem era realmente eficiente, mesmo para um modelo um pouco antigo. A todo momento éramos lembrados sobre o nosso inimigo, mesmo que ficasse claro para nós que seus equipamentos e engrenagens de guerra não fossem superiores aos nossos. Diziam para confiar no nosso M340, no nosso escudo de 50mm, no nosso machado de combate e na metralhadora de 12 mil projéteis que carregamos.


Eu acreditei. Não havia motivo para não acreditar. Não mentirmos para nós mesmos. O inimigo era vencível e essa era a última guerra.


Seis meses de treinamento passaram rápido. Fiz amizades, JDs, como nos chamavam, eram unidos como um único bloco. Fazíamos tudo juntos, fazíamos tudo muito bem feito. JD 398 e JD 781 eram meus melhores amigos. Sempre falávamos como seríamos recebidos bem em casa, quando voltássemos. Queríamos aproveitar a primavera em casa. Descobrimos, com surpresa, que apesar de morarmos longe um dos outros, a primavera agia igualmente deslumbrante em cada lugar. Árvores florescem em amarelo, vermelho e branco, patrioticamente as cores de nossa bandeira. Rios e lagoas de águas geladas, mas não tanto, o suficiente para ser agradável pelo tempo ideal de banho. Animais curiosos e bem humorados, que fugiam de nós mas não tinham medo, apenas respeitavam os espaços individuais das espécies.


Eles tinham trabalhos diferentes. Um era um oficial de pesca, o agradecia todos os dias por ser responsável pela pescada que usava no meu prato preferido, o enrolado de peixe cru com molho agridoce. O outro, o JD 398, trabalhava com vendas. Não entendi muito bem o que era, pois ele usava muitos termos em terminologias que não eram acessíveis para mim, mas eu concordava com cada palavra pois parecia muito interessante e inteligente. Acho que ele vendia coisas, mas não entendo bem o que era. Ainda assim, gostava de suas explicações mirabolantes.


Meu esquadrão era composto por mim, 398, 781 e mais outros sete irmãos. Fazíamos parte do pelotão D21, que integrava o 13º Batalhão de Blindados Móveis, ou Heavy Suits. Fomos ordenados a partir para o fronte sulista junto da Quinta Divisão. Nós e mais outros 25 mil soldados da infantaria móvel, artilharia e máquinas de guerra voadoras.


Cantávamos hinos de guerra animados, erguemos nossas mãos e brindamos nossa vitória sem ter disparado um único projétil. O inimigo não era páreo para nós. Estudamos suas táticas, aprendemos sobre suas engenharias militares, sabíamos suas manobras e superamos seu pensamento trivial do que é uma vitória. Não queríamos prisioneiros, queríamos eliminar todos para a segurança de nossas famílias.


Nada para o inimigo, tudo para nós, para nossas famílias.


Chegamos ao acampamento de ação no dia 27 do mês 14. Já era manhã - vimos o sol nascer de dentro dos grandes transportes voadores que nos levavam em massa. Nos deparamos com um lugar decadente, tomado por poeira e cinzas. Era como nos preparam, um terreno tocado pelo inimigo, por sua raiva e vontade de nos escravizar. Nos juntamos aos membros das nossas forças que já estavam lá. Eles estavam cansados, alguns com olhos arregalados não acreditavam que tínhamos chegado. Nós, dos Blindados Móveis arrancamos sorrisos, eles nos elogiavam apenas por caminharmos com nossos trajes - éramos a primeira unidade desse tipo naquele ponto.


Prometemos para eles, como nossos superiores antes de nós, que seríamos a sua salvação.


Tivemos algumas horas para descansar. Não havia um lugar para deixarmos os trajes, então os colocamos ao lado de nossas camas, o que fez do nosso alojamento o maior e mais lotado de equipamentos. Aquilo me fazia vibrar, eu sentia meu coração pulsando e minha pele aquecer. Meu corpo dizia para mim lutar, era a nossa biologia nos mostrando que fomos feitos para aquilo. Eu sabia, não por terem me dito no comando, mas porque não fazia sentido ser diferente. Nunca havia sentido aquilo antes, na minha vida civil, portanto, era a verdade. Eu e todos os meus irmãos éramos armas projetadas para a guerra.


Daremos cobertura para o avanço da linha da infantaria móvel, entrando no campo em movimento de pinça, para dar espaço para as máquinas de combate se posicionarem e atacarem. Eram máquinas de artilharia que se moviam através de esteiras de metal, e podiam cobrir o terreno desfigurado pelo combate com facilidade.


Os gritos incentivando nossa movimentação me deixavam excitado, física e mentalmente. A minha pele fervilhava e meu coração batia tão alto que eu conseguia ouvir mesmo com os diferentes barulhos de armas disparando, explosões e corpos se despedaçando. Cada projétil que atingia meu heavy suit me deixava mais zonzo, tomado por aquilo. Eu não parei, e tenho certeza que todos os meus irmãos se sentiam da mesma forma. O inimigo estava à nossa frente, menos de um 1 km à nossa frente.


Engatilhei a Noc 33, a metralhadora de alto rendimento com 12 mil projéteis. Havia chegado com o grupo inicial a colina com as construções em ruínas. Parecia com um dos nossos prédios escolares, mas eu não sabia ler o que estava escrito nas placas e na fachada. Não importava, eu não estava ali para ser. Me mandaram ir até lá, junto do pelotão, e montar uma linha de fogo para baixo. Eu devia matar os inimigos e não pensar nessas trivialidades.


Com meus próprios olhos vi os inimigos com trajes de combate parecidos com os nossos sendo abatidos pelo meu dedo preciso. As informações indicadas pela tela do interior do meu traje diziam algumas coisas, mas eu não entendia bem. Não fazia diferença, aquilo que me ensinaram eu estava avaliando. Carga, combustível, mobilidade, ventilação, hidratação e a munição. A temperatura era importante, mas já havíamos sido informados que o fronte sulista era mais frio, portanto não precisávamos nos preocupar com a temperatura.


Um texto apareceu na minha tela, era uma ordem especial para o meu pelotão. Íamos escoltar um pelotão inteiro dos rapazes a pé para tomarmos o centro daquela região em ruínas. Nos separamos em uma linha espaçada por 15 metros, entre nós uma centena e meia de soldados da infantaria móvel, frágeis e cansados, diferentes de nós, que não gastamos um único pingo de suor, coragem e segurança.


Os tiros de artilharia das máquinas de combate abriram caminho para o nosso avanço pelo campo tomado por corpos dos inimigos - apesar de reconhecer que haviam corpos dos nossos soldados. Aliás, o equipamento era bem parecido, o que ia um pouco de encontro com nossas instruções.


Trocamos tiros com defensores daquele lugar, mas fazíamos o nosso papel. Com nosso escudo de 50mm levantados e o Noc 33 queimando fogo, cuspindo cápsulas por todos os lados, éramos titãs, avançando e protegendo fileiras de soldados atrás de nós.


Meu M340 informava através de uma lâmpada laranja no painel que a munição estava acabando. Aquilo não me incomodava muito, finalmente eu poderia partir para o combate corpo a corpo, com o machado de combate. Além disso havia um contador que informava o número de mortes confirmadas pelo meu heavy suit, ele era alto e aquilo me agradava. Matar inimigos era o motivo pelo qual me voluntariei.


Nunca vou esquecer aquela cena. Eu já estava com o machado de combate em mãos e afastei alguns inimigos com movimentos rápidos, quando vi o projétil iluminado vindo do alto de um prédio mais distante. O foguete propelido por chamas azuis, que eu não fazia ideia do que era, atingiu o M340 do JD 398 em cheio no peito.


Até aquele momento eu não tinha reparado como funcionava um projétil da Noc 33 acertando o corpo de um inimigo. Mas aquela cena me chocou. A explosão jogou a armadura para trás mas junto da dispersão da bola de fogo azul pude ver algo espirrando para todos os lados.


Ouvi pela comunicação aplicada, por onde eu podia ouvir o que uma unidade móvel falava, que a armadura estava oca, e que não havia mais um corpo, apenas alguns pedaços de carne pendurados nas entradas para o espaço das pernas e braços.


O 398 virou carne moída na minha frente.


Aquilo me tomou a mente de uma forma que eu não poderia imaginar antes. Eu queria punir o responsável por aquilo. O inimigo era impessoal, ele não ligava para a gente e parecia não compreender o que faziam conosco. Mostraria isso para eles.

Parti com minha vontade assassina na direção do prédio onde detectei que partiu o projétil. O escudo me dava confiança que eu não teria o mesmo destino do meu melhor amigo. Cruzei com uma armadura de combate parecida com a minha, tendo uma coloração um pouco diferente. Ele estava tentando engatilhar uma enorme metralhadora acoplada em seu ombro. Não dei tempo para ele continuar, arranquei seu braço e um jato de sangue manchou minha máquina. Golpeie-o com um segundo golpe, de cima para baixo, com a ponta opositora ao machado bem acima da entrada do cockpit, na ligação entre a parte superior do tronco da máquina com a cabeça.


Ele caiu, semi sentado no chão, sobre suas pernas e de tronco erguido. Me virei e fui recebido a tiros por soldados a pé. Eram como pequenos filhotes de animais que eu podia esmagar com um movimento e não havia ninguém para me impedir.


Entrei no prédio após mostrar para aqueles inimigos o motivo deles nunca ousarem explodir outros pilotos daquela forma.


E foi aí que tudo aconteceu.


No salão do primeiro andar fui atingido por tiros, aquilo não era nada. Eu avancei contra os atiradores mas algo me atingiu por trás. Não sei o que foi, mas desligou todos os botões, lâmpadas e telas. Então eu não conseguia me mover, sem as peças especiais que faziam com que eu pudesse movê-lo, eu era só um cara dentro de uma montanha de metal pesado e reforçado.


Ouvia o som deles se aproximando. A língua deles era obtusa e eu não a entendia. Mas sabia que falavam sobre mim, todos eles, uns, dez deles, talvez.


Eu pensei que estaria tudo bem, não abriram aquilo. Eram de uma inteligência inferior, e nunca teriam tido contato com algo tão avançado. Sabia também que serras não seriam suficiente para abrir a blindagem, precisaram explodi-lo como fizeram com o 398 para me tirar de lá.


Três piscadelas de olho depois de pensar nisso, os parafusos da placa protetora do cockpit caíram em meu colo após um som forte de algo que parecia uma furadeira. Meus olhos se arregalaram e eu senti meu coração acelerar e minha mente afundar em uma escuridão de pavor.


Como os inimigos poderiam fazer aquilo? Agora, eu estava acabado. Seria morto. Seria morto, mas não falaria nada, eu não era um traidor. Pensando friamente escapei das profundezas do pavor. Eu sou minha pátria, e não vou traí-la.


Eu não podia lutar, na verdade. Um inimigo de máscara e bem vestido me encarava enquanto outros deles com roupas parecidas com as dos engenheiros do acampamento militar usavam aquelas coisas para desaparafusar as placas de blindagem. Eu não podia acreditar, mas encarava o inimigo à minha frente com ódio.


Então ele perguntou se eu sabia o que estava acontecendo. Aquilo me tirou de órbita. Eu o entendi. Mas como? Em seguida outro inimigo tomou a frente daquele e me atingiu no meio da testa.


Acordei amarrado em uma parede. Minha cara ardia, doía e eu podia sentir todos os meus poros queimarem por toda a minha testa. Sentia o cheiro do meu sangue, sentia o gosto dele e podia senti-lo vertendo lentamente por mim, pelo ferimento que a pancada deixou. Mas eu não enxergava nada, estava num quarto escuro. Ou em algum lugar parecido.


Ouvi passos, dois conjuntos deles. Ele se aproximou e parou à minha frente, mesmo que eu não pudesse ver, sentia que me olhava nos olhos e eu o encarava em contrapartida. Gritei que não cederia a nenhuma malevolência inimiga, e ouvi uma resposta na minha língua. Foi uma confirmação de que entendia aquilo.


Era a mesma voz que falou comigo antes. Perguntou se eu estava me sentindo bem. Não respondi. Perguntou se eu sabia o motivo de eu estar ali. Não respondi, não me importava, eu estava pronto para morrer. Perguntou se eu sabia porque eu lutava. Não respondi, ou tentei não responder. Esbravejei quase como um latido, tentando avançar na sua direção e sendo contido pelas correntes que me prendiam à parede. Gritei que era para arrasar meus inimigos e impedi-los de destruir minha família e minha pátria.


O silêncio posterior foi quase constrangedor.


Perguntou, quebrando o silêncio de alguns minutos, se eu nunca tinha me perguntado do que fazia parte. Não respondi abertamente, mas pensei comigo mesmo, eu fazia parte dos militares, havia sido voluntário.


Ele disse, recrutado.


Pensei comigo mesmo novamente, que eu havia sido recrutado sim, mas que logo me voluntariei.


Recrutado e depois sentiu-se como voluntário, ele disse logo em seguida. E me fez ficar ainda mais profundamente em silêncio, dessa vez na minha própria mente. Ele acabará de dizer algo que puxava sensações e memórias das quais não me sentia-se confortável de relembrar.


Quando ele falou sobre o ideal do ‘inimigo’, que não tem rosto, não tem língua, não tem gostos e muito menos qualidade, eu comecei a entender o que estava acontecendo.


Seu idiota, eu sei o que você quer fazer, eu não vou ceder, você não vai me transformar numa marionete. Gritei esbaforido me recusando a acreditar nas palavras ditas.


A pergunta seguinte foi complicada, pois ele acertou onde doía. Eu não sabia o meu nome, como ele indagou. Nem nome, nem sobrenome, sequer uma letra. Eu não sabia de nada disso, só restava o meu número. 748-J.D.


Ouvi um som de metal, algo leve. Ele falou que estava com a minha medalha, uma dog tag que todo o militar usava. Falou sobre o número e as letras. Aquilo não era meu nome, mas eu me identificava totalmente com aquele código.


As suas palavras eram confusas, mas ele comentou algumas vezes sobre eu não ser o primeiro, mas que ele esperava que eu fosse o que desse ouvidos ao que ele dizia. Particularmente eu não estava entendendo, mas até pareceu que ele me elogiou de alguma forma. Achei graça por um momento, mas percebi que ele havia capturado outros como eu.


O inimigo era ardiloso e mais esperto do que tinham contado para mim.


As luzes se acenderam e após a ardência natural da luz forte tocando meus olhos consegui ver onde estava. A sala era clara, mas claramente não estava bem cuidada, havia apenas eu e o homem de pé, ainda com uma máscara no rosto. A única coisa que se destacava, além dele, era uma enorme janela ao lado de uma porta. Deduzi que o vidro era transparente para alguém atrás dele, e que pra mim, era apenas um espelho.


Perguntei o que queriam de mim. Depois ordenei que os inimigos atrás do espelho saíssem de lá e se mostrassem. Comecei a cantar os hinos de guerra que aprendi com meus irmãos. Eu estava agitado.


O homem de máscara falou algo olhando para o lado. Não era a minha língua, mas de alguma forma eu parecia entender. Ele fala algo sobre eu estar perdendo o controle e que deveria avançar no procedimento.


Ele disse, na minha língua, que sabia que eu podia entendê-lo mesmo se falasse na sua língua. Eu não respondi, mas o encarei friamente diminuindo minha agitação.


Suas próximas palavras foram insuportáveis, ele disse que sabia quem eu era. Falou um nome, Malcon. Falou que eu tinha 28 anos, que vim de Lendis, que eu adorava sushi e que tinha predileção por doces feitos de chocolate.


Nada fazia sentido quando tudo aquilo fazia sentido.


Eu balbuciei algumas palavras sem sentido, até que elas fizeram sentido. Eu falei a língua do inimigo, eu disse que aquilo não era possível. Eu era um inimigo? Que caralhos estava acontecendo.


“Você quer entender o que está acontecendo?” Ele falou na sua língua e eu compreendi perfeitamente enquanto caia de joelhos no chão branco da sala branca. Movi a cabeça negando, mesmo que uma voz dentro do meu peito falasse o contrário.


Levou as mãos até a parte traseira da máscara e desceu o que deveria ser um zíper, já que o barulho era semelhante ao que um faz quando é movido. Puxou a máscara para frente enquanto movia sua cabeça para trás. Os cabelos mais compridos do que eu costumava ver na vida militar balançaram.


Olhei para ele e ele olhou para mim.


Ele perguntou se eu entendia o que estava acontecendo agora e eu não pude responder. Eu apenas olhava em seus olhos e aquele rosto tão familiar para mim.


Sua voz, sem a máscara era tão igual que nem mesmo as duas línguas, se é que eram duas, mesmo com suas pronúncias diferentes, soavam iguais. Logo em seguida falou sobre o motivo de eu estar ali. Disse que foi sorte, mas que como havia comentado, eu não era o primeiro. Eu não podia falar nessa hora, só repassava imagens do meu passado em uma turbilhão constante de memórias.


Malcon de Lendis, era um nome falso, ele comentou. Disse que ele não tinha esse nome, mas sabia o motivo de eu ter. Ele, como eu, era uma cópia de um homem original que morreu de velhice séculos atrás.


Aquilo não fazia o menor sentido, mas eu não conseguia rebater suas palavras, eu estava tão pasmo, que basicamente era um boneco a mercê da vontade daquele cara, o meu inimigo, eu.


Ficamos em silêncio algum tempo, sua expressão era de alguém que compreendia o que eu estava sentido. Perguntei o que ele queria dizer com uma cópia. Ele respondeu que o nome correto era ‘clone’. Uma cópia física exata de um corpo, gerado sem memória, alma e passado.


Quando perguntei a razão, ele falou o motivo; lutamos com memórias selecionadas e implementadas, guiados por ordens de indivíduos que nunca estavam no front. Éramos condicionados para ter apenas uma forma de pensar, de agir e reagir.


Não tive tempo de perguntar sobre ele, pois ele foi logo falando. Explicou que havia um lado que era criado para destruir e um lado que era criado para resistir. Também me contou sobre a ideia que o lado que devia destruir era instruído a acreditar que estava sendo ameaçado, numa tentativa de motivação final, enquanto eles, no lado que deveria resistir, tinha como reforço o medo de perder o que tinham, mas abordado pela ótica de suporte, não de agressão.


Eu estava ouvindo que era uma cópia de um homem morto a muito tempo e, que fui controlado para matar pessoas, que eram cópias de outros homens, que eram controlados apenas para resistir a isso. Meus olhos doíam e eu percebi que estava chorando.


As línguas, ele abordou o assunto curioso, eram parecidas, mas não eram iguais. Foram programadas em nossas mentes antes de acordarmos para a ação, uma vez que era uma seleção às cegas, em que cada lado ficaria com uma das cópias. Também contou que não era comum duas cópias da mesma pessoa estarem no mesmo ciclo de guerra, mas que às vezes o sistema usado para a seleção criava essa situação.


Ele disse que era sorte. Eu achei que estava morto.


Questionei, então, se todas as cópias do lado dele sabia daquilo e a resposta foi um tanto chocante. Não, eram poucos, estavam infiltrados e queriam fazer algo. Queriam sair daquilo, queriam se opor a seus carcereiros num limbo de sofrimento eterno.


Ressaltou que não éramos os mesmos, cada um tendo suas expectativas e experiências de vida. Mas enfatizou que aquilo não estava certo. Não era moral nem ético por motivos variados. Eu tive que concordar.


Se apresentou, disse que era James, tinha 33 anos e estava fazendo aquele trabalho fazia cinco anos. Comentou que havia passado por 4 guerras como aquela e, por isso, transitava por entre os cenários apresentados, sempre vivendo a mesma situação. Cada vez mais eles eram impelidos para trás, derrota atrás de derrota. Criando uma memória de perda e raiva.


Quando perguntei o Porque, ele explicou, esticando a mão para mim, ao som das correntes soltando as minhas próprias; disse que ele e seus companheiros acreditavam que o ciclo se encerra e eles tomariam o nosso lugar como a nação instigada a destruir, motivados por um sentimento ancestral de revolta.


Peguei sua mão e me ergui. Um soldado entrou na sala apontando uma arma para mim. Olhei para ele e voltei para James. Perguntei o que eles fariam, sua respostas foi cômica, mas de acordo com tudo aquilo que me era apresentado, poderia ser verdade.


James, minha cópia mais velha e, que abria meus olhos para um panorama nem um pouco possível, disse que iriam voar até cruzarem o céu até saírem da terra, que na verdade. Ele parou, e riu para mim. Uma expressão que eu conhecia muito bem. Aquele era o meu sorriso, mas eu podia vê-lo sendo dado por outra pessoa, ainda que fosse igual a mim.


James se desculpou me chamando de Malcom, o que tirou um sorriso fino da minha boca. O soldado abaixava a arma enquanto homens com medalhas militares entravam na sala. Agora, com um semblante sério, me disse que iriam tomar a liderança de cada lugar, invadiram os comandos e descobriram a verdade. Quem eram, porque faziam aquilo e principalmente, que mundo era aquele onde isso era permitido.


Não sei se aquilo tudo era loucura demais para uma mente em frangalhos, mas agora estou aqui, convencido por mim mesmo a fazer a maior revolução que os livros de história, pelo menos aqueles que eu já tive contato, poderiam vir a ter em suas linhas.


Olhei para o inimigo. Eu fui meu inimigo por 28 anos. Agora, eu tenho outro.

22 de Março de 2021 às 12:12 1 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

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Rodrigo Carvalho Gosto de escrever, ** *** ******* ***, por enquanto é só isso.

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Nana Larsson Nana Larsson
achei fantástico que você começa lendo e acha que é um tema e muda no meio pra no final ser algo totalmente diferente. gostei demais disso!
March 29, 2021, 13:44
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