antonio-stegues-batista Antonio Stegues Batista

Danilo Giordano é um artista plástico com a carreira em ascensão, ganha fama e dinheiro. Mas um dia, Violeta Gilliard, famosa crítica de Artes Plásticas, faz um comentário negativo sobre a recente exposição de telas do pintor. Ao mesmo tempo, a noiva de Danilo, Joyce Hoffman, decide acabar com o noivado. Arrasado, ele decide passar uns dias fora da cidade. Aluga uma casa de campo, onde passa a pintar. Num passeio pelas redondezas da cabana, encontra ruinas de uma casa e entre os escombros, descobre uma tela escondida no vão de uma parede. Impressionado com a pintura, ele procura na internet informações sobre a autora, Isadora Rochester. Danilo descobre o endereço de uma sobrinha de Isadora e mais alguma coisa, um terrível segredo...


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O Legado

Fiquei dias internado num hospital. Passava horas sentado numa cadeira de rodas, olhando o céu através da janela. Os médicos disseram que eu precisaria de muitas cirurgias plásticas e fisioterapia, para voltar a ter uma aparência agradável, recuperar em parte, os movimentos das mãos e pernas.

Depois que retiraram as ataduras, evitei me olhar num espelho. A pálpebra esquerda estava disforme, grudada na parte de baixo, havia cicatrizes nas faces, a boca repuxada para um lado, os cabelos queimaram quase que por completo e os médicos rasparam o que restou.

Minha aparência era horrenda, mas não é tão ruim quando você descobre a sua verdadeira essência. Vou contar como tudo aconteceu:

***

Tive duas decepções na mesma semana. O comentário da analista de artes plásticas, Violeta Gilliard, na revista Acrópole, me deixou arrasado. Joyce completou a desgraça quando me telefonou, marcando um encontro na cafeteria. Pelo tom de voz dela, desconfiei que alguma coisa tinha acontecido. Cheguei primeiro. Estava lá, sentado no nosso canto predileto, relendo o artigo da Violeta, quando ela chegou, sentou-se e foi direto ao assunto.

─ Acho melhor dar um tempo em nosso relacionamento, Dan.

Fiquei calado por alguns instantes, decifrando a mensagem. ─ Por que está querendo terminar o nosso relacionamento? Está gostando de outro homem?

─ Não tem nada a ver com outro homem. Você mudou muito de uns tempos para cá. Não aguento mais!

─ É que eu ando irritado com os comentários da Violeta Gilliard. Veja o que ela escreveu desta vez. − abri a revista na página do artigo e li: ─ “Danilo Giordano nos apresentou uma pintura completamente insípida, medíocre. Suas obras parecem rabiscos de criança, sem formas, sem nem mesmo uma linguagem visual. Danilo Giordano regrediu ao primitivismo “. É claro que não gostei dessa crítica e até estou pensando em parar de pintar, tal o meu desânimo.

─ Você mudou. De romântico, sereno, atencioso, foi se tornando rude, irritado e violento...

─ Nunca fui violento com você, Joyce!

Ela se levantou, empurrando a cadeira para trás. ─ Vamos dar um tempo. Eu vou viajar.

─ Viajar? Sozinha? Para onde?

Joyce simplesmente meneou a cabeça e foi embora. Fiquei lá, olhando para a porta por onde ela desapareceu, sem forças e coragem para ir atrás. Mesmo que eu fosse, não iria adiantar. Quando Joyce toma uma decisão, não tem nada nesse mundo que a faça desistir.

***

O barulho de carros na rua atravessava as paredes. Martelava meu cérebro. A cabeça doía, pulsava. Levantei-me da cama, fui ao banheiro pegar um analgésico no estojo. Não queria pensar em Joyce, tampouco me preocupar com a crítica destrutiva de Violeta. Naquele instante decidi me mudar para um lugar tranquilo.

Aluguei uma cabana no meio de um bosque, achando que, em contato com a natureza, pudesse ter boas inspirações para pintar e esquecer Joyce.

O lugar era tranquilo. Eu ficava sentado na varanda, escutando o farfalhar das folhas sacudidas pelo vento e dos galhos estalando lá no alto. Ocasionalmente um pássaro cantava. Descansava algum tempo, bebericando o meu Martini e depois voltava ao trabalho.

Pintei uma série de telas inspirado na mata e seus sons, imaginando seres fantásticos nos recantos sombrios, personagens noturnos vagando por trilhas escuras. Tentei construir uma linguagem visual que tanto Violeta Gilliard falava.

Telefonei para Douglas Barney, proprietário da galeria de artes Cosmos Arte e mandei uma foto das obras. Douglas ficou entusiasmado com as pinturas, ele era um expert, sabia reconhecer um bom trabalho, sabia quando podia ganhar uma boa porcentagem. Afirmou que uma exposição seria bastante lucrativa. Disse para nos reunirmos no escritório dele para tratarmos de todos os detalhes da exposição.

Naquela noite tive um sonho estranho. Caminhava eu por uma trilha, quando vi alguém entre as árvores. Era uma mulher jovem, usando um vestido bege e, mesmo de longe, pude perceber uma correntinha com uma pedra verde no pescoço dela. Ela esboçou um sorriso, acenou com a mão, pedindo para eu segui-la. Fiquei meio desconfiado, achando que estava para cair numa armadilha. Com cautela a segui. Logo depois chegamos aos escombros de uma habitação numa clareira. As ruínas de uma casa destruída por um incêndio.

Acordei e logo esqueci do sonho. Me preocupei em encaixotar os quadros para levar para a cidade. Antes departir, resolvi dar um último passeio, me despedir do lugar. Já tinha andado pelo bosque, mas naquele dia segui por uma trilha antiga. Para minha surpresa, cheguei a uma casa destruída pelo fogo.

Igual à do meu sonho.

Fiquei algum tempo observando o lugar, tentando imaginar quem eram as pessoas que moravam ali, quando percebi algo brilhante numa fenda entre a lareira e a parede.

Era uma correntinha de ouro, com um pingente verde. Notei que havia algo mais. Meti o braço e puxei devagar. Peguei uma pasta de couro marrom, coberta de poeira e teias de aranha. Dentro, estavam dois quadros pintados à óleo. Um era o de uma mulher jovem, muito bonita, usava os cabelos presos num coque e no pescoço, aquela mesma corrente com a pedra verde. Era a mesma mulher do sonho.

Fiquei intrigado. Seria o fantasma da mulher que me guiou até ali para encontrar aqueles objetos? No canto inferior direito, estava o nome da autora; Isadora Rochester. Na segunda tela, a figura, completamente o oposto em termos de estética, representava a Medusa, personagem da mitologia grega.

A autora usou uma técnica diferente para pintar, iniciou com pincelas leves e imprecisas, progredindo em traços fortes, compactando-se para o centro, para o rosto da criatura. Os olhos como brasas vivas, as serpentes em sua cabeça se agitando ameaçadoras.

***

Pesquisando na internet, encontrei na Wikipédia, informações sobre Isadora Rochester. Ela nasceu na França em 1935. Aos 25 anos casou-se com Felipe Danglars, um comerciante de arte. Felipe morreu no ano seguinte. Dizia-se que o casal pertencia a uma sociedade secreta, uns achando que era os Illuminati, outros, que era uma associação de magos e feiticeiros. Depois da morte do marido Isadora mudou-se para o Brasil. Parou de pintar em 1998, quando ocorreu um incêndio em sua mansão. Incapacitada, sofrendo com o mal de Alzheimer, seus bens passaram a serem administrados pela sobrinha, Valéria Souza Aguiar da Silva.

Uma pergunta me ocorreu: Seria Isadora, a mulher que eu vi no sonho? Era muito parecida com a jovem do quadro. Já haviam se passado muito tempo desde que ela chegou ao Brasil.

Resolvendo entregar os pertences a ela, telefonei para a sobrinha.

─ Alô?

─ Valéria Souza?

─ Sim.

─ Aqui é Danilo Giordano. Achei alguns objetos valiosos na antiga propriedade em que Isadora Rochester morou.

─ Pelo que eu sei, a casa pegou fogo e não sobrou nada lá.

─ Tinha uma pasta escondida num vão da parede. Eu aluguei uma cabana lá perto e foi por acaso que a encontrei. Eu queria marcar um dia para ir aí entregar os objetos.

─ Pode vir amanhã à tarde? Depois das 16 horas. Isadora costuma dormir um pouco depois do almoço.

─ Combinado.

***

Valéria morava num condomínio fechado. Identifiquei-me na portaria e logo depois fui autorizado a entrar. Minutos depois, bati na porta da casa, uma construção luxuosa de dois pisos.

A porta se abriu e eu fiquei surpreso ao ver diante de mim, Violeta Gilliard!

Ao perceber meu espanto, ela esboçou um sorriso. ─ Violeta Gilliard é um pseudônimo.

Me senti desconfortável. Ela deveria saber que eu comecei a detestá-la depois daquela opinião negativa sobre minhas obras.

Fez um gesto para eu entrar. Meio cismado, me sentei num sofá. Coloquei a pasta ao lado enquanto ela se acomodava em outro assento.

─ Danilo Giordano. Eu fiz críticas pesadas sobre as suas obras. Espero que não esteja ressentido.

─ Fiquei sim, um pouco magoado, mas aquilo me incentivou a aperfeiçoar o meu trabalho. Pintei alguns quadros e recebi uma opinião positiva de Douglas Barney. Ele vai me colocar numa exposição da bienal desse ano. Disse que vai convidar apenas conhecidos para a vernissage. Lamento dizer que você vai ficar de fora.

Procurei ser o mais arrogante possível e me senti ridículo.

Valéria não se perturbou. ─ Que ótimo! Parabéns. De qualquer forma, eu queria escrever um artigo sobre você, para exaltar essa sua nova fase. Depois da bienal, é claro.

─ Tudo bem, se você me mostra uma cópia do artigo antes de publicar.

─ Combinado. O que você trouxe para minha tia?

─ Posso conversar com ela?

Valéria saiu da sala. Voltou logo depois com a idosa em uma cadeira de rodas.

─ Você deve saber que ela está com amnésia, provavelmente Alzheimer e talvez permaneça calada e alheia a qualquer coisa que você diga.

Não me surpreendi com a aparência da mulher, pois já haviam se passados muitos anos desde a época em que a tela foi pintada. Olhando para seu rosto, via resquícios da antiga beleza retratada na pintura. Os cabelos, agora grisalhos, opacos e secos caindo sobre os ombros, o rosto enrugado precocemente, lhe davam uma aparência de mais idade. As mãos pousadas sobre o cobertor, cobrindo suas pernas, tinham cicatrizes, talvez provocadas pelo incêndio. Ela permanecia de olhos fechados, a cabeça recostada no encosto. Notei manchas roxas nos braços e numa das faces. Fiquei desconfiado que a sobrinha batia na tia.

Valéria inclinou-se, falando suavemente.

─ Tia, tem alguém que quer conversar com a senhora. O nome dele é Danilo Giordano. Ele também é pintor. Danilo disse que tem uma coisa para devolver para a senhora.

Isadora abriu os olhos e ao ver a sobrinha, soltou um gemido, erguendo os braços como que para se defender.

─ Tia, acalme-se, a senhora tem visita.

Tive a impressão que a idosa tinha medo da sobrinha. De qualquer forma, peguei a pasta, tirei as duas telas e as exibi. Isadora permaneceu olhando para a sobrinha.

Valéria examinou as pinturas com admiração e assombro.

─ Essa é ela? Isadora pintou um autorretrato? Eu não tinha conhecimento disso! Conheci todas as obras dela, mas essas duas não estão na relação. Essas telas superam tudo que ela fez. Onde estavam?

─ Escondidas numa parede da casa. Por isso escaparam do fogo.

Valéria colocou os dois quadros sobre o sofá e ficou admirando o contraste visual entre as duas obras. De um lado, a beleza, a harmonia das formas, das cores na figura humana, do outro, a expressão rude, feia, na face da criatura.

Enquanto ela observava as telas, coloquei, nas mãos de Isadora, a correntinha de ouro com a pedra de esmeralda verde.

Valéria voltou-se, com um meio sorriso no rosto.

─ Vou pedir para um perito examinar a autenticidade dos quadros. Se são obras mesmo de Isadora, e não falsificações, naturalmente eu lhe darei uma boa recompensa. Além, é claro, de exaltar a sua nova fase, o que anula praticamente aquele comentário negativo que eu fiz. É isso que você quer, não é? Em troca dos quadros?

Como curadora de Isadora, Valéria seria a única beneficiada com a venda das telas. Percebi na expressão dela, a cobiça, o triunfo. Eu não podia fazer nada quanto a isso. O que sentia era o dever, a necessidade de devolver aqueles pertences a Isadora Rochester. Mas como eu comecei a desconfiar que ela maltratava Isadora, decidi reter os quadros.

─ Que manchas são essas nos braços de sua tia?

Valéria mudou de atitude. O sorriso desapareceu.

─ Ela fica agitada às vezes e se machuca.

─ Tive a impressão que ela tem medo de você. Por enquanto ficarei com as obras até esclarecer isso. Mandarei um médico vir examinar Isadora e entregarei o caso a um bom advogado.

Valéria ficou rígida. Percebi um rubor em suas faces.

─ Com licença − disse ela e levou Isadora para dentro.

Alguns minutos depois voltou com algo numa das mãos. Era uma pistola. Encolhi-me no sofá quando ela apontou a arma para mim.

─ Vou matar você e depois chamarei a polícia. Direi que você veio aqui para me matar.

─ Por que eu iria querer te matar?

─ Por causa daquele artigo, onde falei que és um péssimo pintor. Meu motivo é simples. Você se tornou uma ameaça. Os quadros de Isadora agora são meus e não quero você atrapalhando meus planos.

─ Você é louca!

─ Pare com isso, Valéria! − disse Isadora, surgindo na sala.

Valéria ficou espantada ao ver que a idosa havia rejuvenescido, como que por um passe de mágica. Voltou a ser a mesma jovem do tempo em que havia pintado o seu autorretrato. Do mesmo jeito que eu a vi no bosque.

Trazia no peito a pedra de esmeralda, fonte da sua juventude, que eu, por algum motivo inexplicável, coloquei nas mãos dela.

─ Você é um monstro, Valéria! - exclamou Isadora. ─ Me tratou mal esse tempo todo. Você não presta, minha sobrinha.

O rosto de Isadora adquiriu uma expressão de fúria. Seus cabelos se agitaram, se enrolando transformando-se em serpentes e de seus olhos saíram raios flamejante. Lanças de fogo atingiram o peito da sobrinha. Ela soltou um grito de dor, o corpo cobrindo-se de chamas. Mesmo assim, conseguiu apertar o gatilho, disparando sobre Isadora. As duas caíram ao mesmo tempo, o fogo se espalhando pelo ambiente, consumindo as cortinas.

Por um momento fiquei em choque, depois corri para Isadora, para tentar salvá-la, mas o calor era muito forte. Fui cercado pelo fogo, a fumaça começou a me sufocar, meus olhos nublaram. Caí na escuridão.

***

Quando recuperei os sentidos, me vi num quarto de hospital deitado numa cama, envolto em ataduras. A enfermeira surgiu em meu campo de visão. Tentei falar e um ronco estranho saiu de minha garganta seca. A mulher se aproximou.

─ Fique calmo, senhor Danilo. O senhor sofreu queimaduras de segundo grau. Não corre perigo de vida, mas vai precisar ficar alguns dias no hospital.

Fiquei sabendo que Joyce havia ido me visitar, enquanto eu estava inconsciente. Disseram que ela chorou, ficou poucos minutos, depois foi embora, e nunca mais apareceu. Foi melhor assim. Eu já não tinha esperança de nada. Achava que passaria o resto de minha vida numa cadeira de rodas.

Certo dia um dos enfermeiros me acordou pela manhã.

─ Danilo! Acorde. O senhor tem uma visita.

Mal pude abrir os olhos. Via tudo nublado. Percebi que a visita era uma mulher. Achei que fosse Joyce. Ela me deu um beijo na testa, enfiou algo entre meus dedos e depois foi embora. Pelo tato, percebi que era uma correntinha com uma pedra facetada. A imagem surgiu em minha mente; o colar de Isadora! Será que era ela? Coloquei o colar no pescoço, e logo senti a energia revigorante. As cicatrizes sumiram, me senti forte e bem-disposto. Não havia marcas em minhas mãos.

Deixei a cadeira e fui ao banheiro, me olhar no espelho. Fiquei feliz em me ver sem ferimentos. Estava normal novamente. Só estranhei os calombos doloridos. Alguma coisa estava nascendo em minha cabeça e não eram cabelos...

20 de Março de 2021 às 20:30 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

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