wilde-green Welington Pinheiro

Os dois últimos seres humanos vagam por um remoto planeta deserto onde sua nave caiu. Eles aprendem algo sobre o que significa ser filho do Sol.


Ficção científica Todo o público.

#ficcaocientifica #superacao #viagemespacial #introspeccao
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Luz Distante


Antes tivéssemos morrido no espaço. A vida aqui é nada além que um cativeiro da necessidade. Todo movimento, todo interesse, todo sonho, não vai além da busca por água e comida. Não existe uma luz a qual olhar em meio a toda essa escuridão de esperanças.

Ontem Ive passou o dia inteiro calada. Ela não era assim, geralmente comentava sobre tudo o tempo todo. Não sei se seu silêncio é resultado do cansaço de falar ou se o mundo se tornou tão pobre de tudo que simplesmente não há mais sobre o que falar.

Ela costumava me deixar desnorteado com seu falatório adolescente, agora me sinto solitário. Mas não vou falar nada, espero para ver o que acontece. Se realmente quiser dizer algo, ela vai dizer. Talvez esteja apenas amadurecendo. De um jeito triste, amargo, mas apenas... amadurecendo.

Os sonhos são a corda de salvação que nos tira do abismo. Precisamos deles para nos movimentar. Poemas diziam coisas assim na Terra. Mas entre o sonho e sua realização pode haver um deserto. E algumas vezes, tal deserto não tem fim. E os sonhos viram assombrações a nos inquirir e culpar pelo fracasso.

Neste distante mundo esquecido, nós mesmos nos tornamos assombrações.

Dias poeirentos e causticantes; noites frias, mas poéticas. Quando não há tempestades de areia, Ive e eu olhamos as estrelas. Ela costumava ter uma história sobre cada uma, narrava com gosto, sorridente. Há semanas, porém, apenas olha. Desliza o olhar pela Via-Láctea como a acariciar o céu com seu silêncio. Aqui e ali repousa o olhar numa ou n’outra estrela, como se descobrisse algo de especial, uma mensagem diferente que só ela é capaz de ver.

Eu costumava brigar por ela falar demais, agora é esse silêncio que parece repreender minha gritaria interior.

Tão jovem... Seu olhar sonhador ainda me fala de uma alma com quilômetros de profundidade morando ali dentro. Queria que ela tivesse um mundo para viver, outros jovens com os quais conversar; uma história de amor para vibrar os acordes de sua alma. Mas tudo que faz é desossar esses monstros que comemos diariamente sem nem sabermos que toxinas podem ter. E a água desse oásis já está chegando ao fim. Breve teremos que partir mais uma vez. Em direção aonde? A quê?

- Gosta daquela estrela? - perguntei rompendo o silêncio e apontando para onde seu olhar demorava.

Ela fez que sim com a cabeça e logo baixou o olhar para jogar uma pedra nas águas moribundas do oásis.

- Você costumava falar mais - insisti.

O vento do deserto, porém gritou seu uivo forte o suficiente para abafar a conversa.

- O que tem naquela estrela? - continuei.

- Não percebe?

Aquela resposta seca chegou a ser inquisitiva, como se fosse algo tão óbvio que colocava minha experiência de astronauta em cheque.

- Alguém um dia disse que todas as histórias já contadas, todos os amores já vividos, toda esperança já nutrida... Tudo... Foi filho daquela estrela. Somos um fragmento dela vagando como asteroide pelo espaço infinito... Morrendo de saudades de casa, num luto eterno por saber que não podemos mais voltar. Estamos condenados à vida?

Claro! Agora tudo fazia sentido. Aquilo, contudo, foi novo para mim. Sempre me ative tanto às necessidades que nunca pensei em olhar para trás e ver o quanto Sol deixava de ser um sol e juntava-se à miríade indistinta de estrelas distantes.

- Sabe, Jenkins - ela disse se levantando de modo resoluto - eu entendi uma coisa.

Dessa vez fui eu que respondi com silêncio, apenas esperando as palavras que viriam cavalgando o vento.

- Não somos filhos do Sol - disse. - Estrelas não têm filhos. Meus pais ficaram para trás, engolidos pelo abismo. Somos partes do Sol, vida gerada pela energia dele, subsistindo há milhões de quilômetros de distância...

E se somos Sol... Não adianta esperar pela luz e o calor. Temos que fazer isso dentro da gente. Até o dia que a noite fria seja maior que a fogueira e a eternidade feche de vez a cripta da humanidade na poeira desse mundo distante.

Vamos embora. Temos outro oásis para achar.

17 de Março de 2021 às 18:14 7 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

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Max Rocha Max Rocha
Caro Will, quem ainda não teve o prazer de te ler vai se surpreender com sua capacidade de associar o tom lírico à narrativa repleta de embasamento técnico. Seu texto tem inclinações filosóficas sobre o sentido e a natureza da existência. Faz refletir o leitor...

  • Welington Pinheiro Welington Pinheiro
    Obrigado, Max! Sua leitura é inestimável, meu amigo. Vamos seguir produzindo, to gostando daqui do Ink, viu. Vc tinha razão. 3 weeks ago
Wesley Deniel Wesley Deniel
Parabéns, amigo ! Um conto contemplativo e muito agradável de se ler. Tem aqui um novo seguidor de suas histórias ! Grande abraço e muito sucesso ! 🙂

  • Welington Pinheiro Welington Pinheiro
    Muito obrigado, Wesley! Espero surpreendê-lo mais vezes com minhas histórias. Eu sou novo nessa plataforma, ainda estou aprendendo as coisas. Você escreve ficção científica? Vou visitar seus escritos. 3 weeks ago
  • Wesley Deniel Wesley Deniel
    Olá companheiro ! E seja muito bem vindo à nossa comunidade. Eu também sou relativamente novo por aqui, faz pouco mais de um ano que comecei a postar minhas histórias. Aqui, tenho apenas três, por enquanto, mas possuo dezenas em diversos estágios de conclusão. Posto com menos frequência por serem longas (tenho um problema : alguns dizem não ter material, eu já sofro do contrário, começo com histórias na intenção de serem contos curtos, mas acabam se tornando novelas com 50, 100 ou até romances de 200, 300 páginas hahaha) e levarem muito tempo na escrita, pesquisas, aprofundamento de personagens e revisões - muitas revisões ! Eu escrevo de tudo. Se uma ideia de drama surgir, escrevo, se for uma comédia, estou dentro, mas minha principal escrita é o terror, o horror (horror cósmico, com mais frequência) e meu universo em todas as histórias é compartilhado. Ficarei honrado com sua visita. Espero que goste e fique a vontade para comentar. Grande abraço ! Sucesso, irmão ! 🙂 3 weeks ago
Isís Marchetti Isís Marchetti
Olá, Welington! Tudo bem com você? Faço parte do Sistema de Verificação e venho lhe parabenizar pela Verificação da sua história. Eu não sei o que sentir primeiro com esse conto, entre o desespero e a profunda pena por eles diante a tudo que aconteceu, eu só queria que do fundo do coração eles conseguissem sair dessa realidade que estavam vivendo. Gente, ninguém merece viver assim, em hipótese alguma. Eu acho que se fosse eu em uma situação dessas, a primeira coisa que iria passar pela minha cabeça seria o tal de sacrifício próprio para evitar de morrer depois de simplesmente não der mais para continuar vivendo daquela maneira, sabe?! É uma situação muito pesada essa e dá pra começar a entender do porque Ive acatou o silêncio e começou a pensar sobre suas existências, até mesmo as mais profundas e em tudo que sucedeu e os levou até ali. Questionar-se é super compreensível, mas é impossível não notar o quanto sua mágoa era enorme ao chegar naquela conclusão. Bom, vamos ao que interessa de fato. A coesão e a estrutura do seu texto estão ótimas! A narrativa está simples, mas bem surpreendente e me levou para um cenário completamente novo e que me pegou de jeito. Apesar de ler inúmeras histórias, eu adoro aquelas que trazem características tão únicas quanto a sua. A sinopse está bem instigante e ela revela uma premissa incrível sobre o texto. Quanto aos personagens, eu acabei dizendo ali em cima um pouco sobre a situação em que eles se encontravam, mas não consigo ignorar o quanto a minha curiosidade fez com que eu me perguntasse o que foi que os levou até ali, eu acredito que se você fizesse uma história mais a fundo entorno dessa, eu seria a primeira a ler, hehe. Quanto à gramática, seu texto está muito bem escrito, de verdade, e ele é um verdadeiro colírio para os olhos, não só pela ortografia, mas pelo conteúdo em si também. Abraços!

  • Welington Pinheiro Welington Pinheiro
    Muito obrigado pelo comentário, Ísis. Fiquei lisonjeado. Esse texto é despretensioso, eu o escrevi devido à inspiração de uma imagem, não imaginava tocar alguém dessa maneira. Comentários como este teu nos estimula a escrever melhor. Sinceramente, meu próximo texto será feito com muito mais esmero que este. Um abraço. 3 weeks ago
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