skrushnic Sam Krushnic

"Disseram-me, que isto seria meu castigo, até que meu pecado fosse perdoado. Mas, da interpretação correta da frase, eu nunca vi... Sim, é um castigo ver outras pessoas sendo amadas. Sim, é um castigo ver o quanto foram necessárias para alguém. Sim, é um castigo elas receberem tudo aquilo que sempre quis, mas que nunca consegui. Apenas neste sentido, o que faço, é um castigo para mim. Novamente, eu estarei sozinho em um quarto escuro e com medo. Mas, como tinha dito no início desta carta: “... Quem, por Deus, sentiria minha falta?”


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Acorde... Você não está morto!

─ Como o mordomo da família Phantomhive, como eu poderia ter algum sentimento por alguém? Principalmente por você, um ser baixo, pervertido e escandaloso. - disse sem piedade ao ceifeiro. ─ Por favor, não me faça perder mais tempo. Meu jovem Mestre aguarda-me para seu jantar. E atrasos, não são permitidos nesta Mansão.
─ Mas, mas... Sebas-chan. Eu te amo! - tentou impedir a ida do outro, segurando forte a manga de seu elegante fraque, revelando o obvio. ─ Desde o dia que o vi pela primeira vez, eu ainda como um desajeitado mordomo da Senhora Durless. Nossos corações foram feitos para ficarem juntos!

Os olhos de Grell lacrimejavam, ficando cada vez mais verdes. Imploravam em silêncio, o amor, mesmo que superficial, do mordomo em preto. Não era segredo que o ceifeiro sentia algo pelo mordomo demônio dos Phantomhive, sempre demonstrou isso, nunca se importando com quem estava próximo a si. Porem, desta vez, Grell sentia que todo aquele teatro que geralmente fazia, apenas para chamar atenção, tornou-se algo maior e mais significativo. Seus “ataques de amor”, passaram a ficar menos evidentes, quando estando próximo do mordomo, e seu silêncio, cada vez mais marcante. O ceifeiro em vermelho estava, realmente, amando quem não sabe amar. “Não é a primeira vez...”, pensava consigo sobre o passado, quando percebeu que trilhava a mesma estrada.

─ Nossos corações... Juntos? - Sebastian sorriu cruelmente pelas palavras ouvidas. ─ Sabe que não tenho um coração. E o pouco que sinto, é limitado apenas para meu jovem Mestre. - cuspia as dolorosas palavras.
─ Jovem Mestre, jovem Mestre, ah! - estressou-se o ceifeiro. ─ O que aquela criança amargurada tem que eu não tenho? - disse forte, irritando o mordomo. ─ Sebastian querido, ele nem lhe dá o respeito que merece! - continuou com ira, tentando abrir os olhos do demônio. ─ Ele...

Grell queria tirar toda a raiva que tinha de Ciel de dentro de si, e alertar o demônio que o pequeno Conde não é o que sempre aparentou e apresentou ser. Mas antes que pudesse terminar, Grell é atingido por Sebastian em seu rosto. O golpe não esperado, junto a força do demônio, faz o ceifeiro cair ao chão,longe do local onde estava em pé. Pouco recuperando-se, Grell gemia baixo com a dor que sentia, tanto em seu maxilar, quanto pelo impacto com o chão. Com dificuldade, ergueu seu corpo do chão, e colocou a mão nos lábios. Viu sangue, além de sentir um molar solto. “Dor de amor, é a pior que se pode sentir...”, pensou consigo, contradizendo sua típica frase. Limpou o sangue com a manga do casaco vermelho e virou seu rosto machucado e úmido por lágrimas ao mordomo. Sua expressão era triste, decepcionada e, profundamente, vazia.

A Morte, que vestia, orgulhosamente, a cor do sentimento mais forte e puro dos humanos, que cortava as noites com seu esplendor e crueldade, levando consigo as almas daqueles, cujo o tempo tinha terminado na Terra, perdera o sorriso pontiagudo que sempre tivera em seus lábios. A Morte, que cobria-se com o vermelho quente da paixão, perdera seu calor, sua cor e sua alma. A Morte, cega pelos sentimentos tolos, herdados ainda quando humano, encarava sua dolorosa morte.

Grell via o pouco que lhe restava de alma, sendo consumida pela dor e pelo olhar frio do demônio mordomo que tanto amava. “Dói Sebastian... Dói...”, pensava consigo, enquanto encara o mordomo, ainda na falsa esperança de receber alguma atitude carinhosa do outro. “Por favor... Sebastian...”, suas lágrimas caíam sem controle, e Grell não tinha vergonha de mostrar, o quanto ainda amava aquela criatura das trevas. “Sebastian... Sebastian...”, gritava consigo, encarando o mordomo.

Ao longe, Sebastian observava a posição deplorável que proporcionou ao ceifeiro. A frieza em seu olhar rubro, aumentou ao ver o ceifeiro cuspindo o dente que tinha quebrado com o golpe recebido. Sorriu sádico e perverso, percebendo que aquela presença escandalosa, nunca mais o perturbaria novamente. “O recado, finalmente, foi dado e entendido...”, suspirou aliviado. Ainda observando o ceifeiro, Sebastian pensou em proporcionar a Grell uma dor mais profunda, que marcasse sua alma, assim como a de Ciel fora marcada por outros. Mas, entendendo o olhar e a expressão do ceifeiro, percebeu que já tinha feito. “Perfeito!”, pensou consigo. Arrumou seu fraque com elegância em seus movimentos, e trocou suas luvas sujas de sangue, jogando-as com descaso no chão. Sem, sequer, olhar para trás ou dizer mais alguma palavra debochada ou fria, Sebastian caminhou até desaparecer da vista do ceifeiro.

─ Sebas-tian... - sussurrou em lágrimas.

Do alto de um dos telhados da Mansão, invisível aos olhos humanos e do demônio presente, o outro observava a deprimente e cruel cena. “Quando vai aprender, Sutcliff?”, perguntava consigo, não suportando ver a dor que o demônio causara no ceifeiro em vermelho. “Demônios...”, praguejou consigo. Ódio e raiva. Ciúmes e orgulho. Amor e tristeza. Opostos e extremos lutavam dentro de si, sem qualquer piedade para com seus instintos. “Desta vez, não vou intervir...”, decidiu, finalmente.


• • •


Grell ficara alguns consideráveis minutos no chão, absorvendo tudo o que tinha acontecido naqueles longos minutos que tinham se passado. A dor que sentia dentro de seu petito, não podia ser comparada a dor que seu corpo sentia. A dor de dentro era, incomparavelmente, pior que a de fora, em todos os sentidos. Grell respirava forte, tentando ouvir o pouco que ainda lhe restava de orgulho, e conter as lágrimas. Mas a dor era imensa, e o impedia de realizar tal simples tarefa. Grell não estava mais suportando senti-la calado. Ajoelhado ao chão, levantou suas mãos trêmulas, e cobriu o rosto úmido com elas.

As lágrimas de Grell caiam sem piedade. O ceifeiro abafava seus gritos agonizados de dor, entre suas mãos, enquanto sentia sua vida esvair por entre seus dedos. Seu choro era forte e desesperado, Grell queria arrancar, de alguma forma rápida, tudo aquilo que passou a sentir por Sebastian. Grell, para interromper aquela dor maldita que sentia, queria ceifar-se a si mesmo, arrancando seu coração. Queria ser uma máquina, como todos os outros ceifeiros que conhecia. Daquele momento em diante de sua vida, queria não sentir mais nada por ninguém. Por um momento, desejou ardentemente voltar no tempo, quando ainda era um aprendiz tolo e arrogante, que não sentia nada, além de raiva e orgulho. A Morte em vermelho, falecia aos poucos.

Quando sentiu-se mais calmo ou, simplesmente, anestesiado, por sua dor, com dificuldade, Grell levantou-se do chão, limpou e arrumou suas roupas. Respirando forte, olhou firme para o nada a sua frente, e decidiu seus próximos atos. “Não é a primeira vez...”, pensou novamente consigo, agora, dando outro sentido a frase. Passando os dedos levemente por seu pescoço, lembrava-se de como tornou o ser que era hoje. Seu caminhar era firme, porém incerto. Não queria ter de fazer a mesma atrocidade já feita, mas Grell nunca encontrou uma resposta para a pergunta que sempre o atormentou, seja em vida, ou em morte. “Pensei que o Purgatório seria mais divertido... Quanta ingenuidade...”, sorriu discreto consigo, enquanto voltava para casa.

Sua volta ao lar fora lenta e silenciosa. A cada passo que dava, Grell pensava em voltar atrás em sua decisão, algo que ele, simplesmente, podia, pois o tempo era seu melhor amigo. “Bela tentativa...”, gritava consigo, escondendo as lágrias dos olhares maldosos que o rodeava. As ofensas e piadas de mal gosto que ouvira durante seu percurso, ecoava por todo o seu ser triste e vazio, sem nenhum efeito fazer. “Sempre a mesma coisa...”, pensava consigo, notando que poderia passar milênios, sem que a humanidade mudasse. “Jamais serei aceito...”.

Quando, finalmente, chegou em casa, Grell não mudou sua rotina. Despiu-se do casaco vermelho, colocando-o no armário ao lado da porta de entrada, junto de sua Foice da Morte, que permaneceu na casa, pois não precisou ser usada para aquela ocasião, que julgou ser pacífica e amorosa. Por alguns segundos, Grell a olhava com memórias em seu peito. “Tantas vidas já levadas...”, sorriu discreto. A foice personalizada, era seu maior orgulho em sua nova vida como ceifeiro. Grell lembrou-se de quando a olhou e tocou pela primeira vez. Pesada e brilhante, como sua alma, forte como seu espírito, e vermelha como sua paixão nunca adormecida. “Será mais que uma Foice... Levará mais que almas humanas...”. Com olhos lacrimejados, fechou a porta do pequeno armário, e subiu as escadas no escuro, pois conhecia cada centímetro daquela aconchegante residência.

Em seu quarto, no segundo andar, sentou-se na cama e retirou os óculos, os sapatos e o resto de suas roupas. Com o hobby devidamente amarrado em sua fina cintura, caminhou até o banheiro, ficando o tempo que lhe fora perdido naquele desastroso encontro. Em sua banheira, Grell não conseguia pensar em nada. Grell não sentia, nem se limitava a ouvir sua razão, que se negava a obedecer sua louca decisão. “Até na morte, sou inútil...”.

─ Tive duas chances. - sussurrou para si. ─ E desperdicei as duas. - sorriu com dor de suas escolhas, até que as lágrimas voltaram, lavando seu sorriso. ─ Perdoe-me, de novo... - sussurrou ao vazio, na esperança que algo superior a si, pudesse escutá-lo.


• • •


~••~

“Esta deveria ser uma simples despedida... Mas, por Deus, de quem eu iria me despedir? Aqueles que um dia amei, já se foram. E, mesmo que ainda estivessem na mesma situação que a minha, não sentiriam a minha falta.
E, aquele que ainda amo, não aceitará meu amor.

Sozinho... De novo...

Na primeira vez, eu estava em um quarto vazio, que cheirava bebida e... Na primeira vez, eu tinha medo, muito medo... Pois não sabia o que encontraria.
Como sou um tolo, eu ainda sinto o mesmo medo irracional de antes... Eu ainda sinto, as mesmas emoções. Meu coração acelerado, e minhas mãos trêmulas, lembraram-me que, de alguma forma, ainda estou vivo...

Porque? Eu nunca pedi uma segunda chance... Eu não queria estar vivo. Eu não queria viver mais, sentir mais... Eu não queria mais nada. Eu não quero, mais nada.

Tudo o que tenho, de material, nunca foi importante para mim. Tudo o que tenho, de sentimental, é uma farsa que eu mesmo inventei, apenas para me sentir melhor. Quão patético sou... Se eu me visse, também me odiaria.

Presenciei a morte das outras pessoas por todos esses anos, vendo em silêncio, o quão foram importantes para alguém.

Disseram-me, que isto seria meu castigo, até que meu pecado fosse perdoado. Mas, da interpretação correta da frase, eu nunca vi...

Sim, é um castigo ver outras pessoas sendo amadas. Sim, é um castigo ver o quanto foram necessárias para alguém. Sim, é um castigo elas receberem tudo aquilo que sempre quis, mas que nunca consegui. Apenas neste sentido, o que faço, é um castigo para mim.

Novamente, eu estarei sozinho em um quarto escuro e com medo. Mas, como tinha dito no início desta carta:
“... Quem, por Deus, sentiria minha falta?”

Sutcliff, Grell.”

~••~


Grell dobrou sua carta, e a colocou na mesinha de cabeceira, ao embaixo de seus óculos. Suspirou forte e, com mãos trêmulas, retirou a primeira foice que tivera em sua nova vida, debaixo do travesseiro.

─ É hora... - disse para si.

Seu coração estava acelerado e apertado. Queria, mas também não queria fazer aquilo novamente. “Basta!”, gritou consigo, calando a voz da razão. Levantando a pequena foice, com mãos trêmulas, levando-a para perto de seu pescoço, por um momento, pensou ter visto os olhos sérios de William, refletidos na lâmina.

─ Wil-liam... - sussurrou, abraçando a pequena foice.

As lágrimas de Grell voltaram a percorrer seu rosto, sem nenhuma piedade. A dor e o desespero do ceifeiro em vermelho eram infinitos. Aquele que sempre amou, nunca lhe dera atenção. E aquele que passou a amar, lhe rejeitou de forma fria e cruel. Em vida ou em morte, Grell nunca conheceu alguém que lhe retribuísse com a mesma intensidade, o que ele sentia. Sempre fora alvo de piadas, escândalos ou vergonha pública. A lista de humilhação não tinha fim. E em morte, ela só aumentou.

─ Basta... Basta! - gritava com ira. ─ Basta!

Com ira e medo em seus olhos, Grell olhou para a foto tirada com Sebastian, que lhe proporcionou alguns hematomas segundos depois, e a com William, quando ainda eram ceifeiros novatos. Sorrindo para ambas as fotos, com movimento rápido e irado, Grell cortara-lhe o pescoço, suicidando-se pela segunda vez.

─ Per-doe-me Wil...


• • •


Não muito longe de onde Grell residia, William coletava a última alma de seu dia. O ceifeiro cumprira com mestria, mais um dia de trabalho estressante. O descanso, seria mais que bem vindo naquele dia, em que muito se segurou para não intervir mais, ou lutar com alguém que, desta vez, não tinha nada relacionado. “Francamente...”, disse costumeiramente para si, apagando tais pensamentos.

Do alto, relutante, ao virar seu rosto para a residência do ceifeiro em vermelho, viu um filme sobre a casa. William assustou-se com o que viu, a cena não era comum, pois Grell morava sozinho, e nunca fora atacado em todos esses anos. Rápido, William checou, novamente, sua lista de almas, a fim de descobrir se aquela alma seria alguma “fugitiva” sua ou não.

─ Não, felizmente, meu turno já se encerrou hoje. - disse, arrumando seus óculos. ─ Mas, conhecendo a forma como trabalha, sei que fará um mal trabalho. Francamente.

Suspirando forte, William segue para a residência de Grell o mais rápido, pois não queria ter mais problemas com os supervisores por causa dos erros dos outros, tendo como consequência, mais hora extra.

Ao chegar, notou que tudo estava normal. A casa estava fechada, com a luz de fora apagada, e sem sinal de entrada forçada. Tudo isso indicava que Grell estava em casa e sozinho, e mesmo assim, o filme não parava de sair. “Já era para esse idiota ter recolhido...”, praguejou consigo, entrando pela única janela aberta que viu, inacessível a humanos.

─ Sutcliff? - chamou, sem ser respondido ou atacado pelo outro ceifeiro.

Olhando ao redor, prestando mais atenção no filme que tomava conta da casa, William notou que, diferente dos demais filmes que já coletou durante todos os seus anos, este não era agressivo a presença do ceifeiro. Pelo contrário, o filme não o agredia, nem lutava para sair do local de onde estava, apenas enrolava-se a William lembrando um gato, que muito esperou pelo regresso de seu dono. “Incomum...”, observou curioso seu corpo sendo, cuidadosamente, abraçado pelo filme. Quando, finalmente, pegou o filme em mãos, viu Grell e seu passado.

─ Grell? Grell! - chamou mais alto, assustado com o que tinha visto. ─ Céus!

William andou por todo a casa, seguindo o filme até sua origem. O filme tinha percorrido todo o lugar, criando um difícil labirinto de memórias. William subiu e desceu as escadas inúmeras vezes, seu coração estava acelerado e preocupado. Chamava por Grell em tom cada vez mais alto e preocupado, mas nunca era atendido. “Sei em qual estado ficou depois daquilo... Não faça essa besteira novamente!”. William desejou profundamente ser surpreendido pelo outro ceifeiro, atrás de alguma porta, vestindo algo vergonhoso para se olhar. “Quero apenas ter a certeza...”, pedia em uma súplica silenciosa. O filme que corria por entre seus dedos, levou William ao passado, quando ainda era um ingênuo e desajeitado aprendiz. “Por que não podemos voltar?”, perguntou a si, segurando com carinho aquele triste filme.

Quando chegou no quarto principal, depois de longas e inúteis voltas pelos cômodos da casa, William viu o longo cabelo de Grell espalhado pelo chão. A primeira vista, o ceifeiro estava apenas deitado em alguma de suas poses dramáticas. “Esteja apenas dormindo, por favor...”. Caminhando mais para perto, William viu a primeira foice que usaram, suja de sangue nas mãos do ceifeiro. Assustado, William ajoelha-se perto de Grell, notando que havia mais sangue nas roupas do ceifeiro.

─ Grell? Grell! Está me ouvindo? Grell?

William chamava o outro com medo em sua voz. Novamente não sendo respondido, William pega Grell em seus braços, e então, nota o corte no pescoço do outro. Rápido, William tira seu blazer e o enrola no pescoço de Grell, tentando, de alguma forma tola, conter a hemorragia. “Só alguns minutos...”, suplicava.

─ Grell! Responde Grell! Grell! - gritava William com o ceifeiro vermelho em seus braços, tentando conter a hemorragia. ─ Tudo isso por que aquele maldito lhe negou! Idiota! Grell!

William desesperava-se com a ausência de palavras do outro. O corte era profundo e o filme de Grell não parava de sair. William sabia que, cedo ou tarde, aquela alma seria perdida se não fosse coletada devidamente. Grell poderia torar-se algo além da compreensão de William, caso o mesmo não tomasse alguma atitude, e rápido. “Não... Esta alma deve ficar...”, pensou consigo, pegando sua foice. “Que de certo...”.

Seguindo o lhe foi ensinado, William coleta toda a alma de Grell, que fora espalhada pela casa. O filme voltava sem relutância para as mãos de William, que o segurava com carinho, também enrolando-se no pescoço de Grell, ajudando-o a conter o sangue. “Ele ainda quer viver...”, notou o ceifeiro. Com o tempo, seu peito começou a ficar apertado, e seus olhos lacrimejar. Conhecer a trajetória de Grell, era algo comum para si, mas assisti-la do outro lado, era diferente. O pensamento de ter Grell morto ao seu lado, caso não desse certo o que pensou, o assombrava. William sempre amou Grell, porém nunca conseguiu demonstrar. Invejava o ceifeiro em vermelho por sempre conseguir expor o que sentia, ao contrário de si, que sempre o machucou com duras palavras frias, apenas porque nunca soube como usá-las.

─ Que grande tolo sou... - falava baixo consigo, ainda coletando o filme. ─ Nem dizer o que sinto, consigo. Tive de esperar um demônio lhe dizer não, para que eu pudesse dizer sim. - suas lágrimas começavam a cair, sem ser interrompidas. ─ Deveria ter interferido, ter lhe confortado. Mas fui egoísta. Me perdoe... - revelou em lágrimas.
─ Will... - Grell sussurra com dificuldade. ─ Will...

Grell encavara William com olhos ainda lacrimejados. Porém, William percebeu que estavam felizes, apesar de não conseguir mostrar com seu largo e pontiagudo sorriso. “Deu certo! Está de volta... Voltou para mim...”.

William fizera o que lhe foi ensinado. “Se uma alma tem o poder de mudar o mundo, ela deve voltar, imediatamente, para seu corpo físico. Pois sua data de morte, será alterada pelo ceifeiro responsável...”, lembrara das palavras ditas pelo tutor. Com incerteza, William repetia o mesmo processo com Grell. A alma de um ceifeiro, não é igual à de um humano, mas se ela ainda tiver o poder de mudar o mundo, ela retornará. “Tem o poder de mudar o meu mundo...”, sorria com lágrimas, vendo o filme de Grell voltar para dentro de seu corpo.

─ Grell! - esperançou-se o outro. ─ Grell! Não fale. Fique comigo... - suas lágrimas caíam no rosto pálido do ceifeiro em vermelho. ─ Apenas, fique comigo.
─ Will... - as lágrimas de Grell percorriam seu rosto e pescoço. ─ Me per...
─ Shh! Cale-se. - interrompeu. ─ Já estou terminando aqui.
─ Will... - sorriu fraco ao ceifeiro, levando-o as lágrimas.


• • •


─ William, o que aconteceu?
─ Um demônio, senhor. - respondeu a seu superior. ─ Grell estava sozinho, coletando a última alma do dia. Quando cheguei, só o vi caído no chão com o corte. - continuou.
─ Demônio? Seria o dos Phantomhive?
─ Não. Ele estava servindo seu Mestre quando o ataque aconteceu. Ele é inocente. - disse, escondendo sua ira.
─ Correto. Me entregue o relatório no fim da semana. Está dispensado até segunda ordem. - decidiu o chefe do setor. ─ Cuide dele, William.
─ Sim, senhor.

William não quis contestar a ordem dada pois, cuidar de Grell, era o que mais queria naquele momento. Se despediu dos outros que vieram com o supervisor, e aguardou alguns minutos para que pudesse entrar no leito de Grell, sem ser mais interrompido por perguntas, das quais estava cansado de mentir as respostas.

─ Will... - sussurrou Grell, assim que viu o outro adentrar o quarto. ─ Eles já foram?
─ Sim. Todos já foram. - respondeu, fechando a porta atrás de si, e encostando-se nela.
─ E você também não vai com eles? - perguntou triste. ─ Sei que este é o último lugar que queria estar, então... - fez uma pausa, aceitando a realidade. ─ Pode ir, eu ficarei bem. - sorriu, disfarçando sua dor.
─ Está errado! - esbravejou de repente. ─ Este é o único lugar que eu quero estar!

Grell assustou-se um pouco com a resposta alta de William, também se surpreendendo com as palavras ouvidas. Por um momento, pensou em fazer uma piada sarcástica, mas percebeu que William dizia a verdade. “Sinceramente, eu não esperava por isso... E logo de você...”, disse para si, observando o quanto William estava nervoso e vermelho por ter revelado algo tão importante para ambos. Os olhos de Grell lacrimejaram novamente, pois soube que um dos seus desejos mais profundos fora realizado. “Por favor, que não seja mais uma piada...”, pediu para si. Seguindo seus extintos, Grell esticou seus braços em direção a William, sorrindo leve e radiante ao ceifeiro. William, surpreso, respondeu rapidamente ao abraço pedido em silêncio.

─ Perdoe-me. - disse entre lágrimas, sendo envoltos pelos braços de Grell. ─ Por favor, perdoe-me. - pedia desesperadamente.
─ Não tem do que se perdoar. - respondeu suave, acarinhando. ─ Agiu da forma que achou correta. - continuou. ─ Este é você, e não deve mudar por ninguém. - sorriu, encarando os olhos profundos do outro.
─ Grell... - sussurrou surpreso.

William não conseguia acreditar nas palavras suaves que Grell dizia. Esperava por algo feroz ou até um chilique bem escandaloso. William esperava que o ódio falasse por aquela pessoa a sua frente, lhe dizendo toda a dura verdade que aguardava ouvir. William esperava um Grell totalmente diferente daquele que lhe abraçava com cuidado e ternura.

─ Mas, se é o que tanto deseja... - disse Grell, levantando o rosto do outro. ─ Eu te perdoo, Will. - sorriu.
─ Grell...

William agia sem pensar. Quando deu-se por si, estava próximo dos lábios de Grell, que não perdera a cor avermelhada que sempre tivera. Com mais um impulso de coragem, beijou o ceifeiro em vermelho carinhosamente. Era um beijo tímido e assustado. William nunca tinha beijado outro homem, mesmo este, em nada se parecendo com um. “Macios...”, pensava consigo, ainda tomando os lábios de Grell para si. Ambos entregavam-se, um ao outro, aos poucos. Grell, deixava-se se levar pelos fortes braços de William, que o envolviam calorosamente. Enquanto William, tornava-se mais faminto por aquele a sua frente.

Os segundos seguintes, pareceram não pertencer ao tempo em que viviam, pois não passavam com a mesma velocidade que os demais já vividos. Pequenos segundos, pareceram-se os melhores dias de Grell e William. Era quente e acolhedor, como uma manhã de verão. Quando separaram seus lábios, Grell demorou para abrir seus olhos, pois ainda absorvia a suavidade daquele momento ímpar que William lhe proporcionou. William, enquanto aguardava, acarinhava o longo cabelo vermelho, percebendo que tinha acompanhado todo o crescimento do mesmo. “Em nada lembra o que tinha...”, sorriu consigo. Quando Grell, finalmente, abriu seus olhos, percebeu que William perdia-se em pensamentos enquanto observava o quão grande estava seu belo cabelo.

─ Acha que devo cortá-lo? - interrompeu o silêncio. ─ Voltar ao que eu era antes?
─ Não. Deixe-o sempre assim... - respondeu, beijando a madeixa em seguida. ─ Isto é você agora.

Grell não contia suas lágrimas, pois sempre fora criticado e humilhado por seu estilo extravagante. Porém desta, Grell sentia-se mais aceito e relaxado com sua aparência do que nunca antes. “Tive de encarar a morte, de novo, para ser aceito como sou...”, pensou sadicamente consigo.

─ Wil... - sorriu com lágrimas.
─ Grell... - respondeu, secando-as. ─ Não tem mais motivos para chorar. Por favor, pare. - pediu carinhosamente.
─ Sim... Vou parar.

13 de Março de 2021 às 02:08 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

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Sam Krushnic “Palavras são, na minha humilde opinião, nossa inesgotável fonte de magia". - Alvo Dumbledore

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