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[Original] [Short Story] Naquele fim de tarde em especial, Elena sentia-se inclinada a refletir sobre a inaptidão humana para sentir


Conto Todo o público.

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Tons alaranjados

O céu estava tão lindo

Enquanto o carro seguia seu curso rumo à sua casa, Elena refletia. O céu estava tão lindo, mesmo enquanto ouvia de suas colegas que 2 delas haviam sido mandadas embora da empresa, mais cedo naquele dia.


Ela entendia que a demanda estava bem baixa, e que não havia espaço para todos num sistema em declínio. Sentia-se mal, por ser a nova contratada, mesmo em meio à crise, enquanto outros eram despedidos. Uma das amigas, lacrimejava, provavelmente prevendo a falta que a colega lhe faria nos próximos dias. Elena mirou o céu daquele fim de tarde, sabendo que apesar de toda aquela comoção, o céu permanecia intocavelmente belo.


Os tons alaranjados espalhavam-se sinuosos, por entre pesadas nuvens, que davam a falsa sensação de que logo choveria. Ela desviou-se do grupo de pessoas abraçando as duas ex colegas e fitou o céu. Sentou-se numa beirada de calçada.


O mundo estava literalmente ruindo sob seus pés. Os pais haviam se divorciado, bem no natal. Enfrentava terríveis traumas do último emprego, lidava com problemas de ansiedade quase palpáveis, além daquele probleminha no joelho, que insistia em dar as caras todos os dias, em forma de uma dorzinha incômoda e uns estalos, que preocupavam a jovem. Mas, mesmo assim o céu ainda estava tão lindo.


Ela havia lido em algum lugar, certamente alguma matéria de site de notícias, que a humanidade sofria de um mal coletivo, uma espécie de naturalização do sofrimento. O estudo inferia que cada vez que passamos mais tempo vendo injustiças e miséria alheia, mais insensíveis nos tornamos às lutas diárias dos outros. Quanto mais expostos à violência estivermos, por exemplo, mais alheios a isso nos posicionaremos. Isso era deveras triste, na opinião da moça. Significava que quanto mais desgraças ela visse, menos se surpreenderia, menos chocante seria a ela.


Fazia bastante sentido, se considerasse que toda vez que rolava o feed do Facebook, evitava ler as matérias sobre a pobreza na África, e quando lia, ficava extremamente desconfortável com o pouco que possuía, o pouco que havia conquistado, sabendo que outros não teriam as mesmas oportunidades. Revoltava-se por ainda ler sobre casos de feminicídio e o quão impotente a mulher era vista pelos olhos da sociedade. Sofria por cada criança negra morta em comunidades e favelas, sem o mínimo de empatia, sem o benefício da dúvida, devido a um racismo enraizado e naturalizado, e por muitos ainda negado no maior descaramento.


Quando tais pensamentos se abatiam sobre ela, seus punhos instintivamente se cerravam, fato que fazia com que as unhas compridas cravassem na pele, num protesto mudo, que parecia servir para lembra-la de não se amortecer, não esquecer. E ali olhando para o pôr do sol alaranjado, lhe incomodava que o mesmo permanecesse tão lindo.


- É ali à direita? – o motorista de uber lhe despertou de seus devaneios. Seu destino já havia chegado e o céu já dava indícios de que iria escurecer, levando aquela beleza, quase uma aurora boreal, embora.


- Ah, é sim... – Ela rolou a alavanca, fechando o vidro, deixando-o como o havia encontrado.


Aquelas angústias do dia passariam, tão rápido quanto haviam surgido, pensava ela, afinal, é inato do ser humano seguir em frente mesmo que esse em frente, seja rumo ao fundo do poço.


- Incrível como o céu está lindo hoje, não mocinha? – disse ele, ao que ela abandonava o veículo, já com as chaves do portão em mãos.


- É mesmo – tornou ela.


O céu estava mesmo muito lindo.

9 de Março de 2021 às 14:16 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

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sahsoonya Sahsoonya KPOP, ROCK, ANIME, DORAMA, GAMES, POETRY, HORROR MOVIES, ENGLISH, KIDS EXO - KAISOO "I would prefer not to" - Bartleby the scrivener (Herman Melville)

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