nany-carvalho Nany Carvalho

A morte de Cristósomo deixa nas mãos de Tacha a condução de Amarante. Na busca de um passado oculto ela adentra um portal do tempo para resgatar um livro secreto escrito por sua mãe na Inglaterra medieval anos antes de seu nascimento. Os relatos sobre o que viveu e a revelação de um passado apavorante que não conhecia faz com que mude as cláusulas e diretrizes fundamentais da cidade que conduz. O contrato cordial com a Base de Mediação Planetária é desfeito deixando Jones fora da nova cúpula amarantense. Dolin com um nanorobô criado para roubar memórias descobre o passado de Amarante que seus familiares esconderam dele e da população. A verdade revelada o faz abandonar a cidade. A Base de Mediação Planetária se torna a sua nova morada e a harmonia que se passa por lá é apenas parte de um plano maléfico de Jones para destruir Amarante. Genaro está com câncer terminal. Sem sucesso nos tratamentos quimioterápicos e sofrendo com o avanço da doença tem a Ordem de Não Ressuscitar vetada no Brasil. Boulos, desaparecido desde que saiu da Agência Espacial do país retorna para despedir-se do pai e dar a ele a tão esperada morte. Os índices de suicídios coletivos aumentam no planeta. Dolin tenta métodos para evitar que as mortes coloquem fim à humanidade enquanto Jones tenta com Tacha mais uma mediação. A recusa de sua ajuda coloca em risco a população de Amarante. 📌 Essa história contém conteúdo sensível. Verifique se os capítulos marcados com ⚠️ não farão mal a você antes de prosseguir com a leitura. 🥉Vencedor do concurso Mulheres guerreiras como melhor protagonista feminina (Tacha Mátris) 🥈Vencedor do concurso Novos escritores de ficção científica na categoria Melhor enredo de ficção científica 🥇Vencedor do concurso Descobrindo mundos como melhor personagem secundário em um universo distópico (Molan) 🥇 Vencedor do concurso Estrelas da ficção científica como melhor casal de ficção (Tacha e Fortíferes)


Ficção científica Distopia Para maiores de 18 apenas.

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Sorte às avessas - Parte I

Não consigo lembrar porque nós desmanchamos
Por causa de alguma coisa que estava tão certa de ser
A promessa sempre esteve em seu coração
Agora mais e mais eu penso onde você está.

Anytime – Brian McKnight


− Como ela está? - Molan perguntou preocupado.

Jones monitorava as ondas cerebrais de Tacha em um monitor ao lado direito.

− Vai ficar bem. -ele respondeu.

Jones saiu pela porta aberta sem cruzar o olhar com o colega.
Molan viu quando ele passou pelo vidro arrastando sua vestimenta azul e arrumando a barba branca enquanto despejava no corredor a fumaça fedorenta de seu cachimbo.
Ele aproximou-se da cama onde a companheira estava deitada afogada em um sono profundo.
No silêncio do hospital só conseguia se ouvir o apitar da aparelhagem trazida por Jones que monitorava as batidas cardíacas e as ondas cerebrais de Tacha. Tinha se ferido gravemente na realização do experimento. Se pudesse teria evitado, mas como? A companheira de milênios era teimosa demais e mesmo sabendo dos riscos o colocaria em prática ainda que a contragosto. Talvez por ser muito poderosa Tacha nunca teve medo da morte e isso o deixava em pânico sempre que saía para enfrentar batalhas que ele considerava perigosas.
Chorou de desespero quando a viu caída e com queimaduras no corpo no gramado da Floresta. Seus cabelos estavam arrepiados, sua roupa queimada e sem sinais vitais. Culpou-se. Por conta de seus estudos Tacha estava morta. Devia ter impedido. Devia ter dado um tiro para contê-la. Já fizera isso antes, não para matá-la, mas para evitar que usasse seus poderes de forma indevida e se colocasse em risco. Ela o odiaria por dias e isso não o importava. Era melhor ter o seu ódio do que não tê-la mais ao seu lado.
Sua mão direita percorreu a face da companheira. Estava com escoriações e fria. Muito fria. A respiração era leve e serena. Uma fina marca rosa se desenhara em seu rosto branco onde teve a máscara de oxigênio presa para que não se asfixiasse. No quarto eles não precisavam mais dela. Podiam respirar tranquilamente graças a uma magia de Jones. Molan já não aguentava mais ter aquele objeto barulhento pendurado em sua cara.
Ele sentou na beirada da cama e a acariciou. Com cuidado, sentindo toda a delicadeza de sua pele como fazia quando adormecia após uma noite de prazer.
O movimento leve da cabeça no travesseiro verde água fez Tacha abrir os olhos. Estava a ponto de acordar quando sentiu a mão de Molan tocar o seu rosto e não quis interromper a sensação de tranquilidade que a tomou. Conhecia aquele toque. Gostava de seu carinho e se permitiu senti-lo por alguns minutos.

− Oi! Bem vinda de volta. -falou Molan com um sorriso de alívio- Como se sente?
− Um pouco tonta. -Tacha respondeu com a voz baixa.

Sua visão ainda era distorcida, mas sabia que estava no hospital. A janela de vidro a sua frente refletia as águas azuis claras propositalmente. O período de internação se tornava menos doloroso quando era agraciado pela calmaria do mar.
Todos os quartos tinham na frente de suas camas enormes janelas com vidros transparentes que dava a sensação de que os enfermos estavam nas redondezas de Amarante e não entre quatro paredes.
Tacha focou seu olhar em um pássaro que cruzou o oceano voando. Estava paralisado. Ela franziu os olhos na tentativa que comprovar o que via. Teria o seu experimento dado certo?

− Pelas chagas do Egito! Funcionou? -perguntou surpresa.

Molan fitou o mesmo lugar onde a companheira depositou o seu olhar. Nem havia reparado no pássaro preto parado em meio a as águas. Preocupado com a situação da amiga achou que era apenas um ponto preto naquela imensidão azul.

− Funcionou sim. Você paralisou o tempo. - ele respondeu admirado.

Ela sorriu satisfeita. Não que tivesse dúvidas de que fracassaria afinal, passara 50 anos dedicando-se a colocar em prática os rascunhos feitos pelo ex-companheiro.
Molan tinha os braços enfaixados, o rosto com bolhas e usava uma camiseta verde água como a de Tacha. Suas pernas também estavam escondidas por gazes e suas mãos marcadas por vários pontos amarronzados. Os dois machucados e com as vestimentas hospitalares não era um bom sinal. Ela ainda podia suspeitar que alguma coisa lhe acontecera durante o experimento, mas a Molan? Pedira que se protegesse exatamente para evitar que se machucasse.

− O que aconteceu comigo? E com você?
− Você recebeu uma descarga elétrica que te deixou em parada cardíaca. A única coisa que consegui fazer foi usar o teleporte sem autorização para chegar mais rápido na FMME. Acabei sofrendo queimaduras no corpo com a desintegração. -ele explicou.

Tacha esboçou um semblante de dor. Queimaduras provocadas pelo mau uso do teleporte eram muito doloridas. Quando não desapareciam com os corpos eles ardiam como chagas sobre a pele. Molan deve ter sofrido muito até receber socorro médico. Considerou-o com sorte por não ter se desintegrado por completo.

− Tadinho! Deve ter sentido muita dor.

Ela sorriu em gratidão a atitude do companheiro. Colocara-se em risco por ela. Atitude nobre e muito valorizada em Amarante.

− Obrigada pelo que fez.
− Kitty, nunca mais me peça para te ajudar nessas maluquices. Eu fiquei desesperado! Você teve queimaduras e não respirava. Tive medo de te perder.

Ele a fitou nos olhos cristalinos. Não tão cristalinos como o azul refletido na janela por causa dos remédios, mas ainda assim, bonitos e sedutores como sempre foram.

− Eu amo você.

Tacha desviou o olhar e focou no soro que estava em sua mão. Não se sentiu confortável diante da fala de Molan. Sempre que ele afirmava o seu amor por ela era como se o seu coração se apertasse em saudade e culpa. Saudade por não poder mais viver o que viveu com aquele que mais amou e culpa por permitir que o companheiro ainda nutra sentimentos que não poderá corresponder por mais que queira.

− Não me diga isso. -ela disse encabulada.
− É a verdade.
− Eu sei, mas sempre que me diz isso eu sinto...

A voz de Tacha se embargou e os seus olhos começaram a lacrimejar. Não conseguiria dar prosseguimento a frase. Não era prudente assumir seus sentimentos frente àquele com quem dividiu por muitos anos momentos importantes de sua vida. A saudade do passado que viveram juntos era dolorido demais.
A cada palavra, toque ou olhar sentia o seu corpo gritar para que o unisse ao dele, mas não podia. Tacha tinha uma nova vida, uma família, filhos e um companheiro dedicado. Um companheiro que como Molan daria a vida para que ficasse bem.
Tacha controlou as lágrimas e respirou fundo. Não podia e nem queria protelar mais para dizer ao companheiro o que doíria mais nela do que nele.

− Molan, a gente tem que terminar a nossa união.

Ele franziu a sombracelha surpreso. O que significava exatamente terminar aos olhos de Tacha?

− Terminar?
− Você morreu sendo o meu companheiro. Agora que você retornou e eu me sinto como se estivesse te traindo. -ela desabafou.
− Se passaram muitos anos e não posso te cobrar nada sobre isso.
− Mas me incomoda essa situação. Vamos dar um fim nisso.
− É isso que você quer?

Tacha suspirou antes de responder.

− Não, mas é assim que tem que ser. O meu amor precisa ser inteiramente do Fortíferes.
− E ele um dia foi?

Nunca foi e Tacha sabia disso. Fortíferes também. Se pudesse amá-lo com devoção não se sentiria tão culpada por não conseguir retribuir ao companheiro na mesma intensidade todo o amor que recebia desde que trocaram o primeiro beijo.

− Não me questione desse jeito. Não está sendo fácil para mim, Molan. -ela falou em meio aos seus olhos angustiados.
− Você pode romper com o nosso relacionamento, mas será que vai conseguir romper o que sente por mim? Se é que sente algo.

O olhar descontente de Molan cruzados com os de Tacha fez seu peito se apertar. Ele ainda duvidava do seu amor mantido por tanto tempo em segredo.

− Você sabe que eu sinto.
− Então do que você tem medo? De não resistir?

Tacha achou melhor não responder. O seu maior medo em se aproximar do colega era exatamente de que em um momento de vulnerabilidade ela partisse para cima dele com o seu corpo gritando de desejo.

− Não quero magoar o Fortíferes. Ele não merece nenhum sentimento ruim vindo de minha parte. Te mantive congelado para conservar tudo o que tivemos. Os nossos bons momentos.
− E me trouxe à vida para dizer que não quer mais ficar comigo. Que gozado! -ele debochou.

Debochou para esconder a sua irritação. Tacha o congelou por tantos anos para nada. Se não estava em seus planos retomar o que viveram por que não o devolveu para o universo quando se uniu a Fortíferes? Já fizera essa pergunta várias vezes e ainda que ela respondesse não fazia sentido algum. A cada dia tinha mais clara a percepção de que sua aparição em Amarante foi um erro que desarmonizou a cidade por completo.

− Não era para ser assim. Era para ser como antes. -Tacha falou.

− Nem que quiséssemos seria como antes.

Molan voltou os olhos para a janela, levantou-se e com o corpo arqueado caminhou com dificuldade até ela. As queimaduras por sua perna ardiam como se tivesse colocando-as em uma fornalha.
No horizonte marítimo nada se via além do azul refletido na janela. O vento que balançava as águas, as girosferas que cortavam o oceano, as folhagens que caíam das árvores no distante estavam sem movimento. Era tudo sofisticado demais para a sua mente arcaica e Molan apesar de estudioso tinha convicção que estava muito aquém daquele tempo. Atingir a compreensão e a forma de funcionar do novo mundo que foi trazido à revelia demoraria anos, se não, séculos.

− Olha para isso? -ele falou encarando a janela.

Tristeza. Molan virou-se e fitou a amiga. Tacha se transformara em uma mulher poderosa, mais do que já era. Dona dos mais altos estudos astronômicos, criadora de inúmeras tecnologias, mentora de diversas explanações na faculdade e idealizadora de Amarante junto com Cristósomo.
Ela era aprendiz quando se conheceram e estava sendo treinada para assumir o lugar do pai quando tudo aconteceu. Tinham as mesmas dificuldades, os mesmos desejos e os mesmos sonhos, no entanto, Tacha se transformou, amadureceu, se tornou mais racional, mais amorosa, mais capacitada, evoluiu com o tempo e ele? Ele continuava preso na Idade Média.

− Olha para mim? Séculos nos separam, Kitty.

Ele olhou o chão em pisos brancos. Estavam tão brilhantes que pôde ver o seu rosto refletido neles.

− Mas o amor é atemporal. -afirmou Tacha.

Molan mirou a amiga novamente.

− Amor este que eu não posso ter.
− E nem eu posso te dar. -ela disse com lamento na voz- Não porque não te ame, mas porque não quero fazer o Fortíferes sofrer.

Molan esboçou uma risada com a lembrança que lhe tomou a memória.
Enquanto estavam unidos Fortíferes e Tacha dividiam o mesmo espaço de trabalho. Ele estava envolvido com pesquisas em engenharia aeroespacial e ela em física quântica.
Todas as noites a reclamação era a mesma. Tacha deitava-se ao seu lado e disparava sobre como o seu dia era penoso ao lado de Fortiferes. Ele era um chato e pegajoso. Sempre que a encontrava insistia para que tomassem chá juntos e adoçava os encontros no laboratório com doces. Depois de dois anos repetindo o mesmo comportamento ela já não aguentava mais e reclamava com o companheiro que não via a hora de Cristósomo tirá-la dali.

− Ele não era aquele chato e pegajoso da escola de magia? -Molan perguntou em tom irônico.
− Era. -Tacha respondeu sorrindo. Quem diria que o homem de quem muito reclamou seria o seu companheiro anos depois?- Ele me ajudou muito, Molan. Nosso relacionamento foi muito conturbado no início por muitas questões. Eu e minha mãe tivemos que fazer sexo à força quando fomos pêgas. Foi a pior experiência da minha vida. Além das agressões no rosto e no corpo tive que aceitar que transassem comigo, que me machucassem, que me forçassem. Vê-los violentando a minha mãe me doeu muito. Muito mais do que a mim. Levei meio século para elaborar essa violência. Nunca mais consegui me relacionar com ninguém. Cada toque, beijo e até mesmo um abraço me dava nojo. Eu me sentia violentada. Eu lembrava da minha mãe sangrando. Dos olhares perversos daqueles homens e da dor. Me fechei para o contato. O toque me incomodava e eu tinha medo das pessoas. Se elas me encostassem eu sentia o meu mundo desabar.

E simbolicamente desabava. Sempre que tocada Tacha corria para o banheiro e se esfregava ao ponto de lesionar a sua pele branca. O carinho que recebia quando morava na Sociedade da Magia e que tanto lhe acalentava o coração tomou outro contorno depois de ter sua genitália tocada sem sua permissão. Ao invés de acalentar lhe provocava dor, nojo e repulsa. Devia fugir de qualquer pessoa que o oferecesse e fugiu. Fugiu por 50 anos, às vezes, ainda foge quando ele se apresenta como uma ameaça a sua integridade.
As lágrimas escorreram pelo rosto de Tacha com as doloridas lembranças. Nunca havia falado delas para ninguém, nem para Fortíferes. Rememorar o que viveu lhe dilacerava por dentro, mas Molan precisava entender o motivo de devotar ao atual companheiro tanta fidelidade.

− O Fortíferes foi o único homem que conseguiu se aproximar de mim. Ele não sabia de nada, mas percebia que tinha alguma coisa estranha comigo. Depois de 50 anos isolada no castelo meu pai pediu que ficasse no setor de engenharia até ter condições para mentorar. Ele estava lá. Eu quis que a terra se abrisse e insisti para que meu pai me colocasse em outro lugar onde eu pudesse trabalhar sozinha. Não teve jeito. Tive que ficar lá. Não nos falamos por dois anos, mas ele sempre deixava sobre a minha mesa um bilhete dizendo: "Bom dia, doutora! As planilhas estão no armário" Ou "Vamos tomar um chá?" e era assim que a gente conversava. O Fortíferes sempre respeitou o meu silêncio. Dividimos dois anos a mesma sala e ele nunca me dirigiu a palavra. Só sorria quando me via. Eu me sentia protegida com aquela atitude. A figura masculina me dava medo. Ele pedia licença para me tocar.

Tacha sorriu com a lembrança que a tomou. A lembrança que tem vívida em sua memória como o ponta pé inicial para que retomasse a vida social que perdera por meio século.

− Um dia estava verificando um papel e ele sem querer esbarrou na minha mão. Desculpou-se imediatamente. Aquilo mexeu comigo. Foi a primeira vez que ouvi a voz do Fortíferes se dirigir a mim. Aos poucos eu fui me sentindo à vontade e começamos a trocar algumas palavras até sermos o que somos hoje. Ele foi muito paciente e muito compreensivo comigo.

Tacha voltou os olhos lacrimejantes para Molan sentado à sua frente. Ele ouvia tudo com atenção.

− Entende por que não quero nunca magoá-lo?
− É gratidão então?
− Gratidão também é uma forma de amar. O Fortíferes me amou e me ama muito, Molan. Me amou em um momento em que eu estava afogada na dor e nos meus traumas. Eu passei a amá-lo também. Acho que nesse caso o seu jeito meloso acabou me dando conforto. Foram 50 anos sem ver pessoas. Sem ver a Lissa, o Logan, os poucos amigos que me restaram. Foram 50 anos de feridas abertas, de fantasmas e de medo. Quando vi que não conseguiria te trazer de volta à vida eu me desesperei.

Cristósomo tinha uma blusa de Arádia nas mãos. Apoiado em sua cômoda ele secava as lágrimas que escorriam por sua barba branca enquanto levava a boca uma cápsula alaranjada. Seu corpo doía. Tinha que descansar, entretanto, Amarante precisava que se mantesse erguido. Deitar naquela cama que o chamava incessantemente para um cochilo estava fora de questão.
Com a vestimenta da companheira apertada em seu peito ele proferiu algumas palavras, baixo. Não queria que ninguém ouvisse.

− Falhei com você, minha amada. Prometi cuidar da Tacha, mas fracassei miseravelmente. Não sei se ainda temos recursos para ajudá-la a sair da situação que se encontra. Tentamos de tudo. Todos os recursos que Amarante possuía. Tentamos até os recursos terrenos e nada. Abandonei o elixir da jovialidade. Quero morrer como manda a lei da vida, mas não posso deixar minha filha aqui, dessa forma. Preciso continuar por ela. Preciso encontrar uma cura para ela. Para o nosso tesouro. Eu preciso continuar.

Tacha ouviu e viu pela porta entreaberta quando Cristósomo levou mais uma pílula a boca e engoliu com um gole de água. Chorou. Chorou de tristeza e de remorso. O pai mal conseguia caminhar devido às dores do seu corpo milenar e ela não conseguia sequer ajudá-lo. Até quando ficaria escondida ruminando um momento marcado por dores enquanto o via definhar diante de seus olhos?
Ela continuou:

− Eu via o meu pai se entupir de pílulas energéticas para prolongar a sua vida e o meu coração sangrava. Eu precisava continuar de alguma forma. Foi por isso que desisti do nosso amor. Me desculpa.

Tacha chorou. Fracasso era o sentimento que trazia no peito frente ao que Molan representava. Prometera amar-lhe eternamente. A sua morte anunciou a quebra da promessa e estava livre para viver novamente o amor. Só não imaginava que ele retornaria trezentos anos depois enchendo-lhe de culpa.

− Não tem que me pedir desculpas. ele disse- Sexo a força? Isso não é algo ruim?

Molan questionou curioso. Ainda que algumas culturas naquela época praticassem o ato sexual sem consentimento não era visto como uma atitude ruim. Cristósomo foi quem sempre estranhou aquele comportamento de imposição masculina e começou a repensar o ato sexual como um ato de concessão por parte de ambos. Assim, incluiu no Livro Sagrado que qualquer violação ao corpo do outro sem permissão denotava uma atitude digna de duras represálias.

− Hoje esse ato recebe o nome de estupro. -Tacha explicou- Acontece muito com muitas mulheres ainda nos temos atuais. No caso do estupro não há o objetivo de se obter prazer, mas de demonstrar poder sobre a vítima, de fazê-la sofrer.
− Que horripilante! -Molan indagou incrédulo.
− É. Eu achei que nunca mais fosse conseguir me relacionar intimamente com alguém ainda que quisesse. Imagina! Eu era uma mulher e não podia negar para mim o desejo que meu corpo gritava. Quando me descobri envolvida sexualmente com Fortíferes perdi o chão. Além de ter medo eu tinha vergonha. Vergonha de mim, do meu corpo. Tenho marcas das agressões até hoje.

Tacha sentiu a sua camisola deslizar por seu corpo. Com as pernas abertas sobre a cintura de Fortíferes estalou os dedos para que as luzes do teto se desligassem. O quarto seria iluminado apenas pela luz amarelada do abajur ao lado da cama.

− Não apaga não. Deixa eu ver você. -pediu Fortíferes.

A luz do quarto se acendeu novamente.

− Não. –resmungou Tacha.
− Deixa eu ver o seu corpo. –insistiu Fortíferes.
− Não! -ela disse em tom alto tampando os seios com a camisola.
− Por quê?
− Não gosto quando me olha. Apaga a luz.

Fortíferes estalou os dedos e a luz novamente se apagou.
Tacha vestiu-se e sentou-se ao lado do companheiro deixando que as lágrimas escorressem por seu rosto entristecido.

− Desculpa. -Fortíferes disse pesaroso.
− Desculpe a mim. -Tacha respondeu.
− Tudo bem.

Os olhos de Fortíferes cruzaram com os da companheira sentada na cama. O clima já havia esfriado e a ambos só restava dormir.

− Não é você. Sou eu. Me sinto constrangida.-Tacha disse com a voz embargada.
− O que tem se mostrar para mim? Eu não me importo se ainda resta alguma cicatriz no seu corpo. -Fortíferes afirmou.
− Nele não mais, mas na alma elas ainda existem e eu sofro sempre que olho.
− Eu te amo, Tacha.

Ela levantou-se ajeitando a camisola e saiu do quarto.

− Tah? -chamou Fortíferes sem sucesso.

Tacha chorou com a memória. Centenas de anos se passaram, mas revivia-a com tanta intensidade como se tivesse acontecido na noite anterior.

− Nunca mais consegui me olhar no espelho e nem permitir que o Fortíferes me visse se não fosse a meia luz. Eu chorava dia e noite porque não conseguia me aproximar dele, muito menos, me entregar. Várias vezes eu levantava da cama aos prantos quando estávamos prestes a fazer amor. Ele me colocava nos braços e pedia que me acalmasse. Tentaríamos de novo em outro momento. Rompi com ele cinco vezes por acreditar que isso um dia o faria desistir de mim. Eu não me sentia capaz de amar e nem de ser amada por nenhum homem mais. Quando finalmente me entreguei a ele me senti viva, amada e acima de tudo, respeitada.

Molan baixou os olhos entristecido. Fazia idéia que a companheira sofreria muito quando foi capturada, mas não imaginava que toda a violência que sofrera a acompanharia por toda a vida.

− Sinto muito por tudo o que aconteceu. –ele lamentou.
− Eu também. Todos nós sentimos.

Molan encarou a amiga com ternura.

− Obrigado por ter dividido comigo essa parte tão dolorosa da sua vida.
− Você ainda é o que é para mim, Molan. Meu amigo, meu confidente, até o meu amante ainda que não possamos mais nos beijar e nem fazer amor como antes. Fora isso, tudo se mantém da mesma forma. Até o meu amor por você.

Ele sorriu enquanto secava com o polegar as lágrimas que desciam pelo rosto de Tacha.

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O objeto prata era tão pequeno que cabia na palma da mão. Jones em pé ao lado de Fortíferes que monitorava os níveis de oxigênio no computador ao lado de Boulos girava a circunferência de um lado para o outro tentando compreender como o inusitado instrumento funcionava.
Cheio de códigos que desconhecia desenhados nos botões acinzentados tentava puxar pela memória se em seu longo tempo de vida já se deparara com alguma coisa parecida. A resposta era não. Nunca vira um aparelho como aquele e nem com tamanha tecnologia. Tacha havia realizado um feito histórico.

− Foi com essa coisa aqui que a Tacha paralisou o tempo? –ele perguntou curioso.
− Diz o Molan que sim. –respondeu Logan caminhando pelo gabinete.
− E como funciona? –questionou Jones.

Ele tocava a circunferência oval que segundo o relato de Molan foi onde viu emitir a luz azul responsável pelos tremores na cidade.

− Não sabemos. –respondeu Logan- A única coisa que o Molan disse foi que viu uma bola azulada se formar em volta da Tacha e uma descarga elétrica atravessar o seu corpo.

Jones correu a mão pela barba branca enquanto mirava o curioso objeto.

− Interessante. Bom, ela nos explicará depois.

Ele colocou o objeto sobre a mesa.

− A Tacha? Duvido. –retrucou Boulos. Ele sabia que a colega de pesquisa jamais contaria a quem acreditava poder traí-los a criação de um de seus experimentos.
− Uma vez feito uso seja lá o que isso for terá que relatar no livro de pesquisas. É a regra de Amarante. –afirmou Jones.

As botas marrons tocavam o piso brilhante enquanto Jones encarava Amarante pela janela. Tudo estava parado. Girosferas, árvores, portas, cadeiras. Nada se movia. Ao mesmo tempo em que tudo aquilo era amedrontador era também admirável. O que Tacha tinha criado e o que queria com aquele invento? O que estava planejando quando se dedicou a estudá-lo?
Jones sentiu o coração se apertar em angústia e medo. Dela podia esperar as descobertas mais perigosas que um dia usaria contra ele e a Base afinal, ela era filha de Arádia. Aquela maldita. Maldita!
Ele fechou os olhos e meneou a cabeça para afastar os maus pensamentos de um passado que também luta para esquecer, mas que sempre que olha para Tacha lembra como se revivesse tudo novamente.

− Boulos, você sabia desse invento? –ele perguntou do outro lado da sala.
− Não.

Jones sentiu que o colega estava mentindo e preferiu não insistir. Amarante estava em risco e ele não podia se perder em conversas bobas.

− Fortíferes?
− Não. – ele respondeu encarando a tela do computador.

Jones esboçou um sorriso malicioso. Tacha não revelara o seu experimento secreto para o companheiro de anos, mas contou para Molan com a desculpa que a ele pertencia os êxitos por ter esboçado o projeto ainda na Idade Média. Era uma mentirosa. Queria mesmo estar perto de quem nunca deixou de amar e só Fortíferes fingia não ver.

− Vejo que a Tacha não confia tanto em você como confia no Molan. Eu no seu lugar ficaria chateado. –provocou.

Fortíferes sentiu o ar parar em seu tórax. Estava chateado, muito. Desde que Molan chegou a Amarante percebeu que Tacha se aproximou do ex-companheiro mais do que o normal. Ele nunca questionou o que tanto fazia com ele na tentativa de demonstrar confiança, mas sentia-se triste. Isso ele não podia negar para si mesmo.
Jones fazia sua vestimenta até os pés balançar lentamente enquanto caminhava até os dois que atentos, observavam a camada protetora de Amarante. Desde que Tacha paralisou o tempo não houve mais nenhum sinal de desintegração. Por algum motivo os computadores não foram paralisados com o experimento. O que fizera era a pergunta que sobrevoava a sua cabeça.

− Acho curioso que nenhum de vocês, aliados dela, saibam dos inventos que cria. Principalmente você, Fortíferes. –ele provocou mais uma vez.
− Não fico vasculhando os arquivos dela. –respondeu o homem com rispidez. Aquele senhor já estava lhe dando nos nervos.
− Como um bom companheiro. –debochou Jones.

Fortíferes deu um giro com o corpo e encarou o velho. Os seus olhos estavam escondidos por trás dos óculos de lentes amarelas que usava.

− Vamos ao que interessa, sim?
− Com gosto. –respondeu Jones.

Ele aproximou-se da mesa e abriu a bolsa em um tom marrom envelhecido. Jones usava aquela sacola desde a Sociedade da Magia. Parecia até que era um amuleto de proteção.

− Como estão com o oxigênio abaixo do limite bolei no laboratório um composto capaz de remover o gás carbônico da atmosfera sem utilizá-lo.
− E que composto é esse? –perguntou Boulos.

Jones sorriu com satisfação.

− Senhores, apresento-lhes o meu mais novo experimento produzido em menos de 24 horas.

Dois vidros em formato cilíndricos foram retirado da bolsa e colocados lado-à-lado junto à uma luva metalizada de cor dourada.

− Me superei dessa vez, eu sei. –ele esnobou.

Fortíferes levantou-se da cadeira para observar de perto os líquidos que borbulhavam no recipiente como se tivessem alcançado a temperatura de fervura.

− Que diabos é isso?
− Também tenho os meus segredos escondidos. –respondeu Jones cheio de si.

Boulos encaixava a luva em uma das mãos. O contato com a pele fez o aparelho todo se iluminar com as luzes que havia espalhadas por toda a extremidade. A nova tecnologia parecia uma pisca-pisca enfeitando as árvores para o natal.

− O que isso faz? –ele perguntou admirado.

Jones ignorou a pergunta de Boulos que parecia uma criança admirada com um brinquedo novo e respondeu Fortíferes.

− O oxigênio é a base da execução da magia como todos sabem. Sem oxigênio, sem magia. Até agora. –ele pontuou com um ar de satisfação- Estive estudando por um tempo e descobri uma combinação que torna possível a prática mágica sem esse elemento essencial.

Jones arrumou os óculos na face e voltou-se para Fortíferes a sua frente. Ele tinha arqueado o corpo sobre a mesa para examinar de perto os compostos que trouxera.

− Aliás devo agradecer a sua companheira, Fortíferes. As pesquisas secretas dela em Ceres me ajudaram muito na construção desse experimento.

Fortíferes levou os olhos até o velho senhor que exibia um semblante arrogante e irônico. Estava feliz de seu feito e sentia-se o poderoso diante da vulnerabilidade de Amarante.

− Você roubou os dados da pesquisa dela? –ele questionou.
− Roubei, não. Eu aprimorei como ela fez com a do Molan. Vocês precisam melhorar o esquema de proteção de dados na nuvem. Sabe como é. Eu fui fazer algumas buscas e acabei acessando a pesquisa sem querer.

Jones pigarreou e retirou do bolso da vestimenta o seu cachimbo.
Fortíferes revirou os olhos enquanto o via acender aquele objeto catingudo que logo asfixia todos com o cheiro expelido pela fumaça. Tacha tinha razão. Ele era insuportável!

− Continuando, -Jones disse enquanto lançava a fumaça por todo o ambiente- eu cruzei alguns elementos que não direi quais são, óbvio e descobri que juntos produzem uma substância que nomeei de Clareodon capaz de atuar sem o oxigênio que quando lançada na atmosfera inibe gradativamente a atuação do gás carbônico.

Boulos ainda tinha a luva em sua mão e clicava insistentemente nos botões na tentativa de entender como funcionavam, mas a única coisa que conseguiu foi fazer acender uma luz na parte de cima que emitia uma cor avermelhada.

− Vocês são aberrações da natureza! –ele afirmou.
− Obrigado pelo elogio, Boulos, mas não o dirija a Tacha. Ela ficará uma arara.

E ficará de fato. Tacha detestava palavras que denegriam seres humanos ainda que usadas no intuito de enaltecerem.

− O único problema é que a substância não funciona sob a luz do sol. –continuou o senhor.
− Então temos que esperar anoitecer? –perguntou Logan.
− Não. –respondeu Jones- Os testes mostraram que são necessárias 48 horas para que se elimine por completo o gás carbônico da atmosfera.

Fortíferes não conteve a risada debochada. O tão famoso experimento do velho senhor sabe tudo não havia servido para nada e Jones estava se vangloriando sem ter motivos.

− E esse é o seu grande invento? –ele questionou.

Jones tirou o cachimbo da boca e encarou Fortíferes com um semblante descontente.

− Não deboche de um experimento que foi feito em 24 horas. Não tive tempo de pensar em tudo. Mas sei como resolver esse problema.

A sua mão enrugada pela idade movimentou o recipiente com um líquido roxo.

− Este. –posicionou o frasco frente à Fortíferes- Ele impedirá a entrada das luzes solares deixando Amarante no completo breu e selará a fenda provocada na atmosfera.
− Vamos ficar dois dias no escuro? –indagou Logan.
− A não ser que queriam morrer sufocados é a única opção. Não vão ficar paralisados para sempre. Espero que ainda tenham um estoque de lanternas.

Fortíferes não gostava da idéia. Tacha havia pedido a ele que não relatasse nada do que estava acontecendo a Base, ela resolveria o problema sem precisar da ajuda de Jones. Além do mais, qualquer decisão tomada em relação à cidade deveria passar pelo seu crivo. Na ausência de Cristósomo e Lindsey só ela podia autorizar procedimentos ainda que emergenciais em Amarante.

− Vamos ter que falar com a Tacha. Não podemos decidir nada sem o aval dela. –ele lembrou.
− Creio que a sua companheira não esteja em condições de decidir nada nesse momento. Ela só está na situação em que está porque se recusou a pedir ajuda antes.

Jones deu uma pausa em sua fala para eliminar a fumaça de seu cachimbo e empestear o lugar com o cheiro.

− Bom, a solução está aqui. –ele apontou para os frascos sobre a mesa- Eu não tenho nada a perder. Posso voltar para a Base e ficar lá por milênios, já vocês...Espero que dêem valor as 24 horas que fiquei no laboratório pensando em uma forma de ajudar Amarante. E então? –perguntou inquiridor.

📷

A janela não mostrava mais o azul do mar. Com a chegada da noite o que Tacha via pelo vidro transparente era uma profunda escuridão.
Ela fez um leve movimento com a mão para mover a cadeira ao seu lado. Nada. Conseguira paralisar o tempo e orgulhava-se de seu feito. Foram anos de estudos e pesquisas para colocar em prática o projeto de Molan. Na época ela deu risada de sua idéia assim como ele riu quando disse estar pensando em uma forma de paralisar o envelhecimento.
Eram dois doidos com as idéias mais descabidas. Tacha acreditava veemente que um dia conseguiria desenvolver uma substância que associada ao sangue impedia o corpo humano de envelhecer. Molan por sua vez, não tinha a mesma confiança. Ainda que tivesse as ferramentas necessárias para caminhar com suas pesquisas tinha medo. Medo de ser pêgo, de ser recriminado e por isso, nunca avançou dentro da Sociedade como devia. Faltava-lhe ousadia o que Tacha tinha em abundância.
Há poucas horas ela levantou-se da cama e pôs-se a caminhar pelo hospital. Estava preocupada com o pai e precisava vê-lo. Cristósomo dormia em meio a uma respiração tranqüila. Tacha não viu o seu pulmão movimentar, mas sabia que quando paralisou Amarante o pai já estava fora de perigo só pelo semblante de paz que transmitia. Lindsey também. Ele tinha os olhos abertos e esboçava um sorriso alegre como se alguém tivesse lhe contado uma piada antes de tudo se paralisar.
Os profissionais de saúde apesar de estarem com a emergência mais cheia do que de costume estavam cuidando dos habitantes sem pânico. Ao menos, Tacha não via essa expressão em seus rostos. Todos, pacientes e equipe de saúde pareciam estar bem, ela até esbarrou em Estela parada feito uma estátua no meio do caminho enquanto se dirigia a Golen deitado na última cama.
Suspirou descansada. Suas queimaduras pelo corpo e a dor de cabeça que ainda sentia não eram nada perto do sentimento de alívio que sentiu em seu âmago. Momentaneamente conseguira controlar o caos em Amarante. O que o seu pai dirá quando souber que paralisou o tempo? Será que se orgulhará? Será que chamará a sua atenção por ter infringido algumas regras primordiais em relação às pesquisas em Amarante? E o que ela fará agora? A cidade ainda não estava salva por completo.

− Dias parados por aqui. -falou Jones.

Tacha mirou a porta e o viu entrar vagarosamente. A sua vestimenta longa se movia a cada passo que seus pés davam em sua direção. Ela detestava aquilo. Jones se sentia um Deus quando balançava aquele monte de trapos.

− O que você veio fazer aqui? -ela perguntou.
− Não posso visitar a cidade flutuante que eu mesmo ajudo a proteger dos satélites da Terra?

O semblante irônico e o sorrisinho de canto de lábio junto ao cachimbo deixou Tacha irritada. Ela odiava quando Jones se dirigia a ela como também "dono" da cidade flutuante apenas por mantê-los escondidos.

− Diga logo o que veio fazer aqui! -disse em um tom mais agudo- E apaga essa porcaria porque só o cheiro me enjoa.

Jones riu sarcástico enquanto olhava Tacha deitada na cama. Ele tirou o cachimbo da boca e colocou no estojo próprio que tinha guardado no bolso.

− É assim que me agradece por ter salvado a sua vida?
− Que disparate é esse?! –Tacha perguntou sem entender.
− Fortíferes fez contato com a Base informando que você estava morta e que precisava da minha ajuda. Por isso está aqui sã e salva.

Tacha sentiu o seu coração pulsar em ira Não sabia definir se era pelo fato de Jones ter colocado as mãos em cima dela ou por Fortíferes ter descumprido a sua ordem muito bem dada.

− Impossível! Eu proibi que te chamasse. –ela disse em tom raivoso.
− Você não estava em condições de proibir qualquer coisa, Tacha. Estava morta e eu vim ajudar afinal, sou membro da Sociedade.
− Eu não pedi a sua ajuda! –disse aos gritos.

Jones deu uma risada frente ao descontrole de Tacha. Seu coração se agraciava sempre que fazia uma cena histérica. Como era descompensada e mimada a filha de seu melhor amigo.

− Claro que não pediu. É arrogante demais para isso. Prefere morrer a ser ajudada por mim. Mas de qualquer maneira, de nada.
− Quero que chame o Fortíferes agora e diga o que fez comigo!
− Fiz o que tinha que ser feito para te salvar.
− Quero ver o prontuário. –exigiu Tacha.

Jones permaneceu imóvel encarando a mimada de longos cabelos pretos. Era assim que ele carinhosamente a chamava. Se saudável Tacha já era intolerável, deitada em uma cama extrapolava os seus limites.

− Quero ver a merda do prontuário!-ela gritou.

Ele revirou os olhos e caminhou até o armário de ferro encostado na parede do lado esquerdo. Ao lado havia uma banqueta pregada onde colocara o prontuário.
Tacha pegou o objeto e virou as folhas. Seu coração saltitava de medo daquele homem ter feito alguma coisa que pudesse prejudicá-la. Não seria a primeira vez que Jones tentara manipular sua saúde para impedi-la de alguma coisa ou simplesmente para afirmar o quanto incapaz era.

− Convencida? –ele perguntou.

Tacha o encarou de rabo de olho e voltou a ler. Não havia nada relatado no prontuário além dos procedimentos normais de ressuscitação utilizados em Amarante. Claro que ele podia ter ocultado alguns fatos, mas a assinatura de Logan tranqüilizou o seu coração. Ele não deixaria passar nenhuma conduta ilegal.

− Já veio dizer que me salvou. Agora pode sair. –falou colocando o prontuário sobre a cama.
− Não vim aqui para isso filhinha do papai. Vim te ajudar com Amarante.
− Não preciso de sua ajuda! Vou conseguir pensar em uma forma de eliminar o carbono da atmosfera e fechar a fenda.
− Enquanto isso você deixa a cidade paralisada por dias?

Jones esboçou uma expressão de deboche enquanto corria a mão por toda a extensão de sua barba. Por orgulho Tacha estava sendo imprudente com toda a população amarantense a quem devia proteger.

− Não é possível que por causa do seu orgulho você vai prolongar mais esse problema.
− Eu posso cuidar disso sozinha, Jones. –ela insistiu.

Jones cruzou os braços incrédulo. Tacha mal conseguia se locomover que dirá cuidar de Amarante. Depois de tudo que sofreu precisaria de pelo menos duas semanas em repouso para recuperar o tônus e a energia vital.

− E quanto tempo você acha que vai levar para pensar em uma solução? Você já viu a sua futura cidade no computador?

Tacha não respondeu.
Em meio ao silêncio Jones abriu a bolsa que trazia pendurada em seu ombro e tirou um de dentro dela um vidro transparente. Ele colocou o dedo na lateral e imediatamente o mapa de Amarante apareceu na tela.

− Então veja. –ele mostrou objeto a Tacha.

Ela correu os olhos por todo o lugar. A coloração verde e algumas manchas em preto avançaram por todo o mapa. A sua cidade estava em risco potencial se nenhuma providência fosse tomada com urgência.

− Eu vou pensar em alguma coisa. –ela respondeu.

Jones desligou a tela, guardou o aparelho na bolsa e encarou Tacha. Até onde iria com o seu orgulho?

− Você está sendo infantil, arrogante e imprudente. Depois vai chorar no colinho do papai dizendo que te ofendi.

Ele abriu novamente a bolsa e retirou um frasco de vidro. O mesmo que ele tinha apresentado a Fortíferes, a Boulos e a Logan horas antes no gabinete da FMME.

− O que é isso? –Tacha perguntou ao encarar o objeto a sua frente.
− Um composto que vai dissipar o carbono da atmosfera e selar a camada protetora novamente.

A garganta de Tacha imediatamente se fechou e o coração pulsou acelerado. O que aquele líquido prata representava? Sentiu medo. Não confiava em Jones ao ponto de deixá-lo usar a fórmula em Amarante. E se ele quisesse destruí-la ou conseguir uma forma de controlá-la sem que soubesse?
Não! Definitivamente não! Preferia morrer a deixar que tomasse conta do lugar.

− Você não vai usar isso na minha cidade! –ela disse em um tom marcado pelo desespero.
− Sua não. Nossa! –Jones reforçou com seus olhos perversos- Eu não te devo satisfação dos meus atos, garota. Ao Fotíferes sim e ao seu pai também. Tenho certeza que ele também pediria a minha ajuda. Se o que fiz no passado me condena hoje eu tenho a chance de me redimir.
− Então é por culpa e não por solidariedade. -Tacha retrucou.

Jones recolheu os vidros e guardou-o novamente na bolsa.

− Entenda como quiser.

Tacha mantinha os seus olhos amedrontados. Seu corpo se afundava cada vez mais sobre a cama como se quisesse desaparecer toda vez que o senhor se aproximava. A figura de Jones a perturbava e da forma que estava sentia-se vulnerável.

− Tacha, eu não sou o seu inimigo e espero não ter que morrer te dizendo isso. –ele disse.

Ela recolheu o olhar que fitava o rosto enrugado do velho senhor e voltou-o para o lençol branco que cobria o seu corpo. Jones poderia com a evolução ter se tornado um aliado fiel a Amarante, mas não conseguia desvencilhar-se das lembranças do passado.

Além de ter trancado-a no porão junto com a família para morrer de fome e sede havia cometido inúmeros atos em relação as bruxas da sociedade condenados pelo Livro Sagrado.

− No que isso ajuda agora? Minha classe está morta porque pessoas como você achou que não éramos dignas de estar vivas. –lembrou entristecida.
− Está equivocada ao meu respeito. Nunca achei isso. Eu também estava em risco e a sua classe não está morta. Tem você e a Estela.
− A minha mãe que era uma bruxa pura está morta.

Jones suspirou e voltou os olhos para o vidro a sua frente. De novo a mesma conversa. Já explicara várias vezes como tudo aconteceu, mas Tacha se recusava a acreditar.

− Tacha...
− Você traiu a nossa sociedade. –ela o atropelou- Nos denunciou.
− Não pode me perdoar por isso? Eu estava sendo ameaçado.
− E nós não?!

O grito dado por Tacha fez Jones movimentar a mão em direção ao seu rosto para ajeitar os cabelos que caíram sobre sua face.

− Não se atreva a me tocar de novo. –ela disse com os olhos flamejando ira.

O tapa que levou de Tacha fez Jones recolher a mão.

− Não preciso de você para nada. –ela continuou- Nunca precisei. Você preferiu se aliar aos inquisidores ao invés de nos proteger.
− Eu me aliei para proteger vocês.
− Denunciando para eles o nosso esconderijo?
− Eu ia voltar para buscar vocês.
− Não foi isso que aconteceu.

Tacha levou a mão ao tórax no mesmo momento em que o monitor cardíaco apitou mostrando na tela o batimento alterado.
Jones encarou a tela a sua frente voltou-se para a colega. Aquela conversa estava indo longe demais e não era prudente continuar.

− Olha, eu não acho que esse seja o momento para conversar sobre isso. Você ainda está debilitada.
− Nem que eu morra depois nós vamos ter essa conversa agora. Sente-se. –ordenou Tacha.

Jones pensou por alguns segundos, mas não recusou a ordem dada. Sentou-se na cadeira ao lado. Teriam uma longa noite marcada por lembranças que ambos queriam esquecer.

7 de Março de 2021 às 18:56 0 Denunciar Insira Seguir história
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