melpomene Melpomene Arinne

Nem sempre um bom coração pode te manter a salvo. Nem sempre todo esforço para ser grato te torna alguém capaz de ser grato. A vida é cheia de contradições que Jonathan tentou compreender antes de simplesmente aceitar, que às vezes, existe uma linha tênue entre erros e acertos, que os tornam insignificantes, mas mesmo sendo “insignificantes” não podem nos salvar de nos tornarmos algo que não gostaríamos de ser.


Drama Para maiores de 18 apenas.

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One Shot - Skinny Love


“Then who the hell was I?” - Skinny Love, Bon Iver.



Jonathan estava sentado à beira da cama de Brian. Ele ainda estava sem roupas, enquanto seu melhor amigo dormia. O moreno buscou pelo celular no bolso da calça jeans largada no chão. Ligando a tela ele viu a notificação de algumas mensagens, chamadas perdidas e que era meia noite e oito. Não era uma boa hora para se pensar na vida, mas ele estava acordado e não tinha muito o que fazer. Até porque ele tinha pensando sobre isso o dia todo. Sua cabeça ainda doía e, apesar do sexo, não estava nada bem.


Ele encarou as cicatrizes nos dois pulsos por um bom tempo. Aquilo tinha sido uma burrice, tinha desencadeando uma sequência de merdas infinitas em sua vida. O primeiro filete de sangue que ele viu escorrer, assim que passou a lâmina cuidadosamente pelos pulsos, estava lhe mostrando um caminho sem volta. Claro, ele ainda era um menor. Ele tinha uma família e tinha Brian. Mas isso não era suficiente para consertar as coisas. E ele sabia que esse dia chegaria. O dia em que nem todo o amor do garoto dormindo ao seu lado poderia afugentar a dor de ser quem ele era.


Contar todas as coisas boas que ele tinha em sua vida já não funcionava mais, como a psicóloga havia o instruído. Ver tudo aquilo, todas as pessoas boas, com seus corações gentis, o faziam se sentir miserável. Fazia as coisas mais barulhentas dentro de si. Ingrato, era assim que ele se sentia.


Jonathan levantou, se vestiu, juntou suas coisas e deu beijo no rosto de Brian antes de ir embora. Também deixou um bilhete que dizia "Nos vemos amanhã na escola. XOXO", mas era mentira. Ele não pretendia ir para aula naquele dia. Ele foi o mais silencioso possível ao descer as escadas, saindo pela porta dos fundos. Não queria acordar os pais do amigo.


Acendeu um cigarro enquanto caminhava para a calçada. Estava frio, era início do outono, então o tempo era gelado e seco. As maiores partes das árvores no bairro onde Brian morava já começavam a amarelar e perder as folhas. Seu cigarro durou o suficiente até o ponto de ônibus mais próximo dali. Ele deveria ir para casa, mas ao invés disso subiu em um ônibus que o levaria para o outro lado da cidade.


Essa era umas das poucas coisas que realmente valiam a pena sobre morar em Seattle. Os prédios na zona norte. As pessoas entravam e saiam com uma facilidade daqueles lugares e, bem, os policiais quase nunca estavam por ali.


Antes de subir no edifício Bubble, Jonathan comprou uma caixinha de suco de maçã num mercadinho de esquina ali perto. Ele nunca foi muito fã de coisas saudáveis, não era como se um suco de caixinha fosse, mas ele estava com vontade naquele momento. E apesar de ter tomado um comprimido para dor de cabeça antes de procurar Brian naquela tarde, sua cabeça ainda doía um pouco. O suco durou uns bons andares, que ele subiu calmamente, pelas escadas de emergência, até a cobertura daquele edifício. Ele caminhou até o beiral do lado em que havia saído, olhou para baixo e então acendeu outro cigarro.


Ele já não estava pensando sobre tudo, só que havia algo martelando em sua mente nas últimas semanas, meses, anos... Era tão óbvio o que acontecia ali. Ele tinha plena convicção de que alguém havia cometido um erro enorme ao criá-lo. Ele já tinha pensado diversas vezes sobre o assunto e aquilo era óbvio! A vida dele era um desperdício de tempo, espaço e oxigênio. Outra pessoa poderia ter tido sua vida e ter feito algo de bom com ela. O mundo não precisava de alguém como ele. Ninguém precisava. Não havia nada mais a ser pensando.

Jonathan terminou o cigarro e o deixou sobre o beiral. Pegou a carteira na mochila e colocou no bolso do casaco, para facilitar as coisas.


Seus pais não faziam ideia do cigarro. Eles não faziam ideia de muitas coisas, mas ainda assim eram bons pais. Ele deixou a mochila no chão, encostada no beiral e desceu. Desta vez mais rápido e não pelas escadas. Ele não pensou sobre nada enquanto descia. Tudo o que havia para se pensar já tinha sido feito durante aqueles 17 anos.


17 era um número bom. Jonathan sabia que iria partir o coração de algumas pessoas e assustar outras, mas não descer era tão injusto quanto isso. Ele teve o bastante, ainda que a salvação da qual seus pais falavam não tenha o alcançado. Seus pais eram bem religiosos, e apesar de ter crescido num lar evangélico, ele já tinha deixado de ser muita coisa há muito tempo. Eles saberiam lidar com aquilo e que, talvez no fundo, seu melhor amigo Brian sempre soube que com todo seu amor poderia adiar, mas não evitar que Jonathan descesse. Por isso, quando leu o bilhete do rapaz pela manhã quando acordou, não esperou vê-lo na escola. Ele apenas esperou que a notícia chegasse e se espalhasse.


17 era número bom. Por muitos anos, foi exatamente a quantidade de coisas boas que Jonathan pautava em seu caderno de bolso, mas ele não sabia lidar com o mundo. Ainda que ninguém lhe cobrasse nada, as pessoas olhavam para ele como se houvesse algo errado. Ele não sabia não querer estar em seu quarto e ficar apenas lá, sem criar laços, expectativas, sonhos. Ele não sabia mais como fazer as coisas acontecerem. E cada dia que ele abria os olhos e ainda estava lá, era uma tortura.


Ele não sabia não chorar todas as noites antes de dormir e, também, não sabia quando aquilo havia começado, apenas acontecia. Às vezes ele se ajoelhava em seu quarto e orava a Deus, porque havia algo errado com sua cabeça. E ele pensava que talvez, se pedisse com toda sinceridade de seu coração, Deus poderia aparecer num sonho e consertar aquilo, mas aparentemente ele não tinha um coração sincero de verdade.


Então, ele começou a esvaziar. Ele doou todos os seus livros e a maior parte de suas roupas e calçados. Aos poucos, sem que ninguém notasse, ele jogou fora as fotos, os presentes, as lembranças. Ainda que não pudesse se apagar completamente da mente das pessoas, estava se apagando daquele lugar. O tempo em seu quarto passou a ser maior, até mesmo na escola ele conseguiu se manter escondido. Mesmo que as pessoas pudessem vê-lo, ninguém estava olhando para ele de verdade. Isso o deixa tranquilo. E ele continuou esvaziando. Não havia laços, só havia Brian. Brian havia ficado acima de sua grosseria, na tentativa de afastá-lo. Havia ficado acima de suas crises de choro, de seus ataques de ansiedade, acima de toda abominação que ele era. Talvez porque soubesse que não era para sempre.


Ele se esqueceu e, enquanto jogava algumas fotos fora, percebeu que não se reconhecia naquelas imagens, naqueles lugares, com aquelas pessoas.


Às vezes abrimos portas em nossas vidas que não podemos fechar. Jonathan tinha um mundo inteiro em sua mente, outro em seu coração, outro no qual vivia e outro no qual as pessoas gostariam que ele estivesse. E ele já não sabia mais a qual deles deveria pertencer, até que não queria estar em nenhum.


17 era um número bom, mas a quantidade de coisas erradas, fora do eixo, que o perturbavam, eram maiores. E ele deixou. Preencheu cada canto vazio com a certeza de que não poderia, que não era alguém bom. Que era completamente dispensável em tudo, para tudo. Ele aceitou o rótulo que as pessoas impunham a ele. Um estranho com o coração cheio de más intenções e uma mente traiçoeira. Ele deixou que todas as coisas ruins a sua voltasse o abraçasse, o acolhesse. Ele chamou o caos em sua mente de lar e aquilo não tinha mais conserto.


Na carta que deixou no meio da bíblia, sob a estante de seu quarto, ele agradecia por todo o amor de seus pais, e pedia perdão por aquele incidente. Ele não estava errado, eles saberiam lidar com aquilo.


Enquanto descia, Jonathan se preocupou apenas em fechar os olhos. Ele repassou mentalmente as 17 melhores coisas da vida. E como imaginou ter vindo ao mundo, ele se foi. Na mais completa escuridão.


17°, o amor.


Jonathan Henrique Edgar,

1999 – 2017

6 de Março de 2021 às 21:43 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

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Melpomene Arinne ⚡💔 sad but lovely💔⚡

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