silvamaro Gabriel Amaro

Com a chegada do ACEV-1 no Brasil, um paramixovírus altamente contagioso e letal, a população se viu desamparada com o negacionismo extremo de seus líderes e tomou as ruas em um misto de revolta e instinto de sobrevivência. Temendo o caos instaurado na nação e cansado de esperar soluções dos governantes, Ricardo Fonseca Camargo, um milionário do agronegócio, decidiu agir por conta própria ao contratar seu exército particular de mercenários de países vizinhos. A tomada brusca do poder causou uma ruptura generalizada da democracia e, em 2040, vinte anos após o abalo crítico da civilização humana, o Brasil seguia firme nos punhos de seu salvador. Até quando? História participante do desafio #DistopiaBr.


Conto Para maiores de 18 apenas.

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Novo Brasil

ESGOTO, LIXO E FOGO. O odor pungente que sequestrava o ar da Zona Morta de Promessa era apenas outro sinal de que a reconstrução da civilização não passava de uma jura vazia. Resistindo à vontade iminente de fechar as janelas da SUV, a mulher que ocupava um dos bancos traseiros suspirou pesado e ofereceu sua melhor tentativa de ignorar o silêncio desconfortável entre ela e seu motorista ao frearem diante do portão AB1. A fila de carros era modesta para a importância daquele acesso, mas ela havia se certificado de que cruzaria a muralha durante as primeiras horas da manhã.

Após as rebeliões de 2020, quando a população tomou as ruas e saqueou estabelecimentos ao tentar sobreviver à pandemia do ACEV-1, o novo governo adotou a mesma medida em todas as cidades remanescentes: ergueu muros para separar a civilização da barbárie. Com o número inacreditável de mortes que o vírus e os confrontos causaram, se tornara impossível gerenciar qualquer metrópole. No entanto, a régua usada para delimitar o que era adequado e o que consideravam indesejável fora a mesma que dividira a humanidade tantas vezes anteriormente. Dinheiro.

— Nem consigo lembrar da última vez que entrei na Zona de manhã — disse o motorista entre um suspiro e outro. — Tem certeza de que deveríamos estar aqui, dona Helena?

— Claro que não, Jorge.

Enquanto ajeitava a peruca loira no retrovisor, Helena aproveitou a oportunidade para encontrar o olhar preocupado de seu motorista. Jorge era um homem de idade avançada com olhos tão gentis quanto enrugados, pele acobreada castigada pelo sol impiedoso de Promessa e cabelo grisalho rigorosamente aparado. Assim como o cavanhaque ruço, seu uniforme primoroso contribuía para seu ar clássico. Helena não se lembrava de encontrá-lo sem sua boina característica. Mesmo sendo o responsável pelo transporte de Helena desde sua infância, o coitado ainda resistia à ideia de adotar a informalidade tão requerida por ela. Ele me via molhar fraldas e não consegue abandonar o “dona”. Não posso culpá-lo.

Decidindo tranquilizá-lo com um sorriso inseguro, ela abandonou a figura de Jorge e se concentrou na própria imagem. Seu olhar castanho estava oculto pelos exagerados óculos de sol arredondados; o par de orbes escuras contrastava com a palidez de sua pele fresca. Aos 27 anos, esperava um número mais preocupante de marcas de expressão ou sinais físicos de sua rotina estressante, mas contentava-se com a maturidade natural de seus traços firmes e destacados. Apesar de carregar aspectos óbvios da aparência de seus pais, odiava quaisquer comparações que a privassem de sua singularidade. Toda semelhança é inaceitável. Porém, por mais que se afeiçoasse ao longo e ondulado cabelo preto, forçava-se a aceitar que era uma herança de sua mãe. O alívio a tomava ao se lembrar de que sua peruca de fios claros garantiria que ninguém a ligaria a Esther, ao menos no decorrer daquela manhã entristecida.

— A senhora sabe o que vão dizer se souberem que eu...

— Ninguém vai saber de nada — refutou Helena. — E você sabe que não precisa da formalidade enquanto estivermos sozinhos.

— É o costume. — Ele deu de ombros e enrijeceu o corpo ao notar que se aproximavam do portão. — Mas obrigado.

Os Centros de Controle de Zonas eram complexos militares construídos em torno de cada portão de acesso a Zona Morta. Os soldados controlavam a passagem dos moradores e garantiam que a instabilidade do território abandonado não atingiria Promessa. Todos os cidadãos que não estavam financeiramente aptos a morar na cidade precisavam se entregar ao caos e à negligência da Zona Morta para possuírem moradia; desta forma, a população empobrecida se concentrava nos lugares mais perigosos de toda cidade remanescente. A Zona não era apenas a área que o governo havia escolhido ignorar, mas também servia como o depósito de sujeira mais conveniente possível: todos que cometiam crimes graves eram banidos e forçados a permanecer no território sem lei indefinidamente.

Um dos soldados estacionados no CCZ do portão se aproximou em passos cautelosos assim que o carro interrompeu sua marcha lenta diante da passagem; sua roupa tática se resumia em um colete à prova de balas surrado sobre um macacão camuflado, luvas rasgadas e capacete de visor aberto levemente amassado. Ele carregava um fuzil de assalto e portava uma pistola no coldre da cintura. Outros três homens estavam mais à frente, no interior de uma cabine de vidro que cercava o portão.

Os cidadãos que sobreviveram à queda do antigo governo, vinte anos antes daquilo, recordavam-se da polícia truculenta do Rio de Janeiro com saudosismo: os mercenários que se transformaram nos novos soldados da Pátria se mostravam criaturas ainda mais cruéis. Por terem sido contratados para apaziguar um povo caótico e selvagem, o primeiro contato da companhia com os brasileiros acontecera da pior maneira possível. Estavam sempre dispostos a confundir o povo com um bando de cães raivosos. Nenhum deles deve ter espelhos em casa.

— Identificação — resmungou o soldado.

— Um segundinho. — Jorge pigarreou em uma tentativa explícita de disfarçar seu nervosismo enquanto agarrava sua carteira no porta-luvas e a entregava ao mercenário. — Pronto.

— Jorge Lima Pereira. — O homem ativou o comunicador no ouvido e estreitou os olhos através do visor do capacete. — Você mora na Zona Morta. O carro é roubado?

— O carro é meu — disse Helena. — Ele é o motorista. Pensei que o uniforme não deixaria dúvidas.

— Então a madame tá querendo uma aventura no inferno? — O soldado interrompeu a zombaria com uma risada seca. — Quero os dois fora do carro. Nenhum idiota cairia nessa história.

Antes que Helena pudesse protestar, ela notou o soldado contrair o olhar outra vez e uma nova movimentação na cabine. Um dos companheiros do mercenário cruzou o caminho curto até eles e anunciou sua chegada com um pigarreio nervoso. Eles sabem? Eles sabem. Merda. Buscando o apoio de seu amigo, Helena se atentou ao retrovisor e encontrou o olhar sereno de Jorge. A certeza de que ele implorava silenciosamente por calma tomou sua mente de imediato; no entanto, ao contrário do que Jorge provavelmente imaginava, Helena não estava disposta a ceder diante de qualquer empecilho. Seus planos eram inadiáveis.

— Opa! Bom dia, Jorge! — Apesar da estranha informalidade adotada por ele, o soldado recém-chegado soava incerto de suas palavras. — Pedimos perdão pelo mal-entendido.

Ignorar a insistência do primeiro mercenário em checar a placa da SUV era uma tarefa árdua, mas Helena manteve os olhos fixos no soldado apaziguador. O silêncio de Jorge era uma incógnita até mesmo para ela: era impossível saber se ele expressaria sua raiva por ter sido hostilizado ou se aceitaria a mudança na postura dos soldados.

— Bom dia — murmurou Jorge numa quase desconfiança. — Sem problema, amigo. A gente só quer passar.

Jorge acelerou a SUV e atravessou o grande portão de aço entre um aceno confirmativo do homem mais cordial e um grunhido insatisfeito do outro. Helena arregalou os olhos quando viu as manchas úmidas de sangue no asfalto chamuscado que cercava a muralha; o cenário grotesco embrulhou seu estômago e ela apressou-se para fechar a janela mais próxima. Ela percorreu a extensão visível do muro de concreto com o olhar e sentiu a comoção esmurrar o peito mais e mais: viu pedidos de ajuda escritos na superfície cinza, inúmeros buracos feito por projéteis, ossadas abandonadas ao sol da manhã e, por fim, notou as silhuetas dos soldados que patrulhavam as principais torres da muralha como abutres orgulhosos de seus troféus. O que fizeram com este lugar? Como ninguém fala nada sobre isso?

— Melhor não encarar demais — advertiu Jorge após um suspiro vacilante. — Não demonstra seu choque. Qualquer um desconfiaria da senhora.

— Não encarar? Você viu o sangue e os ossos?

— Todo dia antes e depois do trabalho. — Jorge deu de ombros e Helena deixou o queixo cair. — A senhora tá pronta pra isso?

— Eu já esperei tempo demais. — Tentando deixar as preocupações acerca de seu plano de lado, decidiu mudar de assunto. — E o soldado que nos deixou passar? O que aconteceu?

— Eles identificaram a placa do carro. Foi aquilo ali.

Jorge indicou um outdoor massivo na beira da avenida com um agito discreto do queixo. Helena não suprimiu um sorriso de canto ao admirar a figura imponente de Ricardo Fonseca Camargo de braços abertos enquanto suportava o peso do novo Brasil em suas costas; entretanto, o motivo de seu fascínio não envolvia a autoridade de seu pai, mas sim os chifres desenhados em sua cabeça, os olhos pintados de preto e as palavras apressadamente escritas que anunciavam o salvador da Pátria: filho da puta. Quais minhas chances de sobrevivência se descobrirem quem sou? O que você tá fazendo, Helena? A muralha se distanciava na avenida deserta e a destruição da Zona Morta se tornava cada vez mais evidente. Tarde demais para desistências.

O vazio no caminho até seu destino não durou muito tempo. Helena encostou a testa no vidro tépido do carro e observou enquanto dezenas de homens carregando armamento pesado desviavam a atenção para a SUV em alta velocidade. Jorge pisava no acelerador com ferocidade e frustrava o interesse crescente de Helena em estudar o bando, mas parecia concentrado em piscar os faróis do carro. Um sinal. Sentiu-se aliviada por optar pela inclusão de Jorge em seus planos. Não seria prepotente o suficiente para pensar que conseguiria se virar sozinha.

— Eles conhecem você? — indagou ela.

— Vi alguns deles crescerem. São da minha área. — Ele recuperou o fôlego ao se distanciarem do esquadrão. — E isso não impediria um massacre caso descobrissem a senhora.

— Prometo que não demoraremos. — Helena mordeu o interior da boca e fez uma careta de desconforto antes de tentar mudar de assunto novamente. Ele não oferecerá tréguas. — Onde você mora? Nos conhecemos há tantos anos e eu nunca imaginei que faria uma visita.

— No que sobrou de Madureira. Não foi muito. — Jorge realizou uma curva fechada e respirou fundo. — A senhora tinha que ver o Rio antes de se tornar Promessa.

Eu precisava ter visto muito mais. O estranhamento que Helena sentia ao entrar em contato com o mundo externo não se dava apenas por ser a filha do presidente. Ricardo Camargo já era um dos homens mais poderosos do Brasil antes de se tornar o responsável pela vitória da civilização; a infância isolada em uma fazenda imensa no Mato Grosso não contribuíra para suas habilidades sociais. Ainda que confiante em seu intelecto, Helena temia a impotência gerada pelo encontro de sua percepção com a realidade absurda que testemunhava. Não era fácil reconhecer a falta que uma vida mais real fazia.

Exceto pelos ocasionais tiroteios distantes e vagantes solitários, eles percorreram o restante do trajeto até a antiga Madureira sem surpresas desagradáveis. Helena deixava sua atenção se perder entre os prédios destruídos, a natureza feroz que lutava para dominar o ambiente outrora urbano e os destroços que obrigavam Jorge a realizar manobras improvisadas no volante; ela imaginava a guerra devastadora que acontecera ali vinte anos antes daquela manhã e se perguntava qual fora o verdadeiro papel de seu pai naquela devastação. Ele salvou essas pessoas? Nada aqui parece salvo. Seu interesse se transformou em amargura vagarosamente quando percebeu cortinas rasgadas se abrindo entre os poucos edifícios intactos. Como conseguiria evitar comparações entre uma escassez tão absurda e a vida luxuosa que conhecia em Promessa? Por que ela não questionaria o êxito de seu pai se tantos ainda precisavam sobreviver enquanto poucos usufruíam de um paraíso construído por ilusões?

— Não dá pra usar o carro na última parte do caminho. Confia em mim, tudo bem? — Ele se virou para oferecer um sorriso fraco. — Só fica perto e tenta agir normalmente. Nada de chamar atenção.

— Combinado.

Jorge estacionou a SUV em um espaço vago na rua destruída e abandonou o veículo; Helena também saiu do carro e o seguiu por uma passagem estreita entre blocos massivos de concreto. Ela lutou para preservar sua jaqueta escura enquanto se esgueiravam entre vigas de ferro e destroços empoeirados, mas conseguiu manter suas vestes intactas até o fim do túnel. Para sua surpresa, se depararam com uma vizinhança quase normal: crianças jogavam futebol na rua espaçosa, pequenos comércios iniciavam suas atividades e vizinhos papeavam na frente de suas casas. Helena deduziu que utilizaram a passagem escondida para evitar os homens que protegiam o bairro. Seguindo as instruções do amigo, abaixou a cabeça enquanto ajeitava os óculos; precisava evitar de encarar qualquer morador por tempo demais.

Apesar do esforço para manter sua descrição, Helena estremeceu ao ser puxada de leve por uma das crianças que brincavam ali. Os meninos que chutavam a bola de futebol maltratada não demoraram para seguir o exemplo do primeiro garoto. Ele puxou os dedos de Helena e a encarou em uma súplica silenciosa; suas costelas protuberantes e aparência abatida denunciavam a fome cruel que provavelmente o assombrava. Ele vestia apenas uma bermuda em fiapos e aparentava estar em seus nove anos, apesar da maturidade precoce se estampar em seu semblante. Após interromper sua marcha para olhá-lo, Helena sentiu um puxão mais forte na mão oposta e percebeu Jorge acenando a cabeça negativamente. Maldito disfarce. Com a culpa indevida agravada pelos garotos da rua, Helena continuou sua caminhada no local movimentado enquanto ignorava os olhares curiosos de todos que habitavam a área.

— Ei, ei, ei! — Uma risada estridente cortou o silêncio dos intrometidos. — Jorginho e a madame chique!

Merda. Uma senhora de cabelo grisalho desgrenhado, pele escura punida por feridas e cicatrizes e olhos enevoados se aproximou da dupla em passos irregulares. Ela exibia sinais claros de desnutrição — assim como os meninos do futebol —, além de demonstrar possuir alguma dificuldade neurológica através de seus movimentos instáveis e tremores constantes. Apesar de ser incapaz de enxergar, a idosa caminhava na direção deles com a confiança de quem acabara de reencontrar velhos amigos.

— Bom dia, dona Marlene — Jorge balbuciou enquanto se preocupava em vigiar os curiosos que os cercavam. — Estamos com pressa hoje, tá?

— Não é todo dia que a realeza pisa no chiqueiro. — Marlene abriu um sorriso apodrecido. — Não procure por respostas no lugar errado, garotinha.

— Do que você está falando? — Helena arqueou a sobrancelha e permitiu que a idosa se aproximasse ainda mais. Não estava com medo. — Como você sabe isso tudo?

— Eu sinto seu cheiro. Ouço a melodia ardente da sua alma. É deliciosa, mas queima. — Ela puxou uma das mãos de Helena e a segurou firme com as suas. — As respostas estão aqui dentro. Não lá fora.

— Vamos logo. Dona Marlene nem sempre faz sentido. — Jorge manteve o maxilar trincado enquanto puxava Helena para longe da senhora misteriosa; ele não parecia interessado em esconder seu desconforto. — Toma cuidado na rua, senhora.

— Vai pro inferno, desgraçado!

Helena se deixou guiar por Jorge e se afastou da idosa mesmo confusa com suas palavras desconexas. A dupla seguiu pela rua esburacada enquanto Helena evitava olhar para trás; ela ainda conseguia ouvir as risadas histéricas de Marlene quando cruzaram a esquina seguinte. Duvido que ele saiba mais sobre ela. Jorge parecia tenso o suficiente em ajudá-la durante sua missão, não desejava importuná-lo com outras questões. Contudo, ela sentia a ansiedade congelar seus dedos e o medo crescente que ameaçava sua estabilidade piorar: se até mesmo aquela mulher fora capaz de descobrir sua identidade, situações muito piores poderiam surgir. Preciso resolver tudo e ir embora daqui.

Cruzaram três vielas sujas, aguardaram quatro patrulhas marcharem e finalmente se aproximaram do endereço que Helena buscava. Era impossível não se interessar pela organização da vizinhança; ela havia encontrado padarias, mercados, igrejas, praças e rodas de samba no caminho até ali. Se por um lado estava perplexa com a negligência e a crueldade de seu pai, por outro admirava a coragem e a perseverança daquelas pessoas. Mesmo se sua aventura na Zona Morta se mostrasse infrutífera, ao menos servira para provar definitivamente que Ricardo estava errado. Essas pessoas precisam de ajuda. O caos estava presente ali, mas nem tudo era desordem.

— É ali — disse Jorge. — O endereço que a senhora me deu.

A construção era um prédio verde de três andares parcialmente destruído, protegido por um muro baixo com arame farpado. Um homem de meia-idade estava sentado ao lado da entrada, seu revólver enferrujado descansava em seu colo e a pele negra brilhava pelo suor excessivo. Ele vestia uma regata dos Lakers e bermuda esfarrapada, mas o elemento que mais chamava a atenção de Helena era a escopeta pendurada no ombro do sujeito. É aqui mesmo. Assim como ela, Jorge também estudava o local; ele parecia particularmente interessado no número três desenhado com tinta amarela perto de uma das janelas acesas.

— A senhora não falou nada sobre os Canários. — Jorge recuou três passos de imediato e evitou o olhar de Helena. — Não vou chegar mais perto. São perigosos.

— Quem são eles? — Ela suspirou e segurou os ombros de seu velho amigo para acalmá-lo. — Jorge, por favor. Eu consegui esse endereço com alguém importante e preciso saber o que é esse lugar.

— Essa gente é maluca, senhora! São rebeldes. Inimigos do senhor Camargo. — Ele pausou entre as arfadas para se recuperar do nervosismo. — Precisamos voltar pro carro. Vamos.

— Rebeldes?

Ambos se calaram ao perceberem a aproximação de uma jovem de aparência frágil; ela caminhava em passadas hesitantes e ensaiava uma crise de choro enquanto espiava os cantos da rua e tossia. Seu longo cabelo castanho formava ondulações que se estendiam até a base de sua coluna, mas a palidez incomum de sua pele clara era preocupante. Tuberculose? ACEV? Ela tossiu outras cinco vezes antes de abrir o comprido casaco azulado que vestia; a surpresa causada pela súbita revelação de uma gravidez avançada fez Helena arregalar os olhos. Ela quer ajuda.

— Eu sei quem é você — disse a jovem.

É claro que sabe. Sua doce e oscilante voz fazia com que ela parecesse mais nova, mas Helena estava confiante em seu palpite de dezenove anos. Mesmo se não percebesse os sinais que denunciavam as intenções da garota, ela saberia que ninguém revelaria uma gravidez para uma estranha sem um plano. A confiança que ninguém esperaria de alguém tão fragilizado estava presente em suas palavras; a identidade de Helena nunca fora um mistério para aquela jovem.

— Não faz isso, Aline. — Jorge puxou o antebraço de Helena gentilmente e eles se afastaram da menina grávida. — Sua mãe sabe?

— Não. Ela não concorda comigo, mas eu preciso fazer isso.

O motorista ignorou a resposta de Aline e eles tentaram recuar para o caminho que percorreram anteriormente, mas a jovem agarrou a jaqueta de Helena e deixou as lágrimas inundarem a face abatida. Jorge bufou ao testemunhar a audácia da garota e tentou se colocar entre elas; porém, decidindo evitar um escândalo maior, Helena o impediu com um gesto rápido da mão livre.

— Preciso que fale baixo e me faça seu pedido. Se eu for exposta, ninguém poderá ajudar você — assegurou Helena.

Ela não pode se descontrolar. Embora comovida com as circunstâncias da garota, Helena precisava se certificar de que ela não se desesperaria e estragaria seu disfarce. Odiava lidar com a imprevisibilidade de situações delicadas, mas tudo se tornava mais crítico quando sua vida estava em perigo.

— Minha mãe e eu não vamos conseguir criar um bebê. Ele precisa de uma vida melhor. — Aline respirou fundo e secou as lágrimas para continuar. — Eu sei que você não pode me tirar daqui, mas leva ele. Por favor. Ele merece uma chance.

— Ela é filha da Regina — Jorge sussurrou perto do ouvido de Helena.

A faísca da compreensão acendeu um sorriso compadecido no rosto de Helena instantaneamente. Regina Lopes estava em seu oitavo ano trabalhando para os Camargo; a mulher era uma babá dedicada e nunca havia falhado durante os cuidados com Samuel, o irmão mais novo de Helena. Nunca souberam da existência dos filhos da humilde senhora, mas a semelhança entre Regina e Aline era incontestável. Então é assim que ela soube.

— Não posso contrabandear um recém-nascido pela muralha. — Antes que Aline se entregasse ao choro novamente, Helena segurou sua mão calejada e a apertou de leve. — Mas vou fazer o possível para ajudar vocês. Tudo que estiver ao meu alcance.

— Você não entende! Ele vai morrer se ficar aqui! — Os gritos da jovem causaram uma comoção alarmante no edifício dos Canários. — Eu tô doente!

— Chega. Vamos. — Jorge puxou Helena para longe e eles apertaram o passo quando Aline os seguiu.

— Helena! Por favor! — O desespero dos berros da garota fazia seus olhos inundarem e as tosses se intensificarem. — Me ajuda!

— Puta que pariu! — Jorge gritou antes de iniciarem uma corrida intensa.

Homens e mulheres abandonaram o edifício verde com suas armas levantadas; Helena sentiu seu coração acelerar e virou-se para encarar o caminho durante a corrida. Os moradores voltavam a fechar suas cortinas e os comércios precários fechavam as portas novamente. Direita, em frente, passagem secreta nos destroços. Aline ainda vociferava atrás deles quando o som abrupto dos disparos dominou as ruas destruídas; no entanto, ao notar que os Canários não os perseguiam, Helena entendeu a gravidade do que estava acontecendo.

Mais gritos se misturaram aos tiros incessantes. Muitos clamavam por ajuda e alguns denunciavam a presença de mercenários, mas os únicos que arrepiaram Helena da cabeça aos pés foram os dos garotos que jogavam futebol perto da entrada utilizada pela dupla. Eles estavam confinados em um dos cantos da rua enquanto se intimidavam com a mira insistente de um soldado e com as ordens que ele bradava. O maior dos garotos assumira a frente dos mais jovens. Os braços trêmulos esticados diante dos amigos para protegê-los de quem nunca os defendeu. Não, não, não.

— Ei! O que você pensa que tá fazendo? — Helena se livrou dos impedimentos de Jorge e se aproximou da cena. — Não aponta a arma para eles!

— Central, a VIP está comigo. Intacta. — O soldado apertou o comunicador no ouvido enquanto avançava contra Helena. — O transporte chegará logo, senhora.

— Vão pra casa!

Irritada demais para falar com o mercenário, Helena berrou na direção dos meninos. Ela respirou fundo quando os viu desaparecendo na esquina mais próxima e se preparou para dar um sermão, mas surpreendeu-se novamente; outros três soldados seguravam os braços de Jorge para trás e o arrastavam na direção do furgão militar entre protestos do homem. O que esses malditos lunáticos estão fazendo? Sem tempo para mais repreensões, ela tentou investir contra os mercenários que levavam seu amigo apenas para ser impedida pelos dedos firmes do soldado em seu braço.

— Ele não fez nada de errado! — Helena lutava para escapar dos braços do homem enquanto ele a arrastava para outro furgão. — Ei! Todos estão vendo essa merda!

Ela percebeu que se arrependeria de sua última frase assim que a pronunciou. Seu captor desviou o capacete para encarar as testemunhas que se aglomeravam na rua e nas janelas que cercavam a cena lamentável. O homem abandonou Helena com os ocupantes do furgão e ergueu o fuzil para a multidão. Por que não estão correndo? Ele vai atirar e é tudo culpa minha.

— Voltem pros buracos de vocês, porra! — O soldado destravou a arma. — Dispersem agora!

— Eu já entrei no carro. Vamos logo. Não precisa acontecer mais nada aqui. — Helena tentava manter a calma diante do perigo que todos ali corriam. — Missão cumprida. Respira fundo.

E então, a vida ofereceu sua cartada final: a multidão de moradores se abriu para a passagem de um rapaz franzino. A atenção de Helena fixou-se imediatamente nos borrões avermelhados que tomavam sua pele acobreada e, por fim, na menina que descansava em seu colo. Aline estava inerte. Sua tosse não a atormentava, seu choro já não era mais visto, e o único sinal de que nada estava bem era a camisa ensanguentada amarrada em seu pescoço. Isso não está acontecendo. Não pode ser. Enquanto a multidão dava início a uma onda de sussurros, os soldados se apressavam para os furgões e o rapaz parecia lutar contra as lágrimas para se pronunciar.

— Vocês atiraram nela! — vociferou o jovem. — Ela tá grávida! Mataram minha família!

Tudo que Helena viu antes do furgão se fechar foi um coquetel molotov sendo arremessado contra os mercenários e o soldado responsável por sua captura enterrando o dedo no gatilho. Ela sentiu o veículo acelerar após isso, mas permaneceu atônita em um dos assentos. A imagem da garrafa sendo lançada contra eles paralisava seu pensamento, acelerava seu coração desesperado e fazia o ar escapar de seus pulmões. Não é a mesma coisa. Não posso pensar nisso agora. Conforme o som dos disparos se distanciavam, Helena perdia a batalha contra suas lágrimas e se afundava ainda mais no banco desconfortável.

E voltamos agora com mais notícias sobre o sequestro de Helena Ferraz Camargo, primogênita do nosso querido presidente. Segundo nossas fontes, Helena foi resgatada há poucos minutos e está a caminho da sede do governo no Centro de Promessa. A possibilidade de mortos e feridos não foi descartada. Tudo indica que o atentado foi orquestrado pelo grupo terrorista que se autodenomina Canários do Rio e executado por Jorge Lima Pereira, motorista da jovem. As autoridades ainda investigam uma possível ligação entre os Canários e grupos rebeldes que se concentram no nordeste do país enquanto avançam contra as cidades ao sul. Voltaremos com maiores informações a qualquer momento. Salve a Pátria amada, salve o novo Brasil!

A rádio fez João Gilberto cantar Garota de Ipanema e Helena deixou a cabeça dolorida descansar contra a parede do furgão.


***


A cidade do Rio de Janeiro foi uma das mais afetadas pela pandemia do ACEV-1 em 2020. O paramixovírus que causou a ruína da civilização moderna global afetava os pulmões e o cérebro, causando tosses, febre alta, dor de cabeça forte e, no intervalo de poucos dias, convulsões fatais. Com a humanidade revoltada com a incompetência dos estados e assustada com o número absurdo de mortes, o caos se instaurou na maioria das nações. Todos estavam certos de que sobreviver era a única prioridade possível. No Brasil, a esperança de um retorno à normalidade possuíra nome e sobrenome: Ricardo Camargo.

Helena estava de olhos fechados no interior do furgão militar quando a desaceleração do veículo religou seu estado de alerta. O falatório incessante e o som tão familiar dos cliques surgiram instantes depois; ela suspirou por saber que se aproximavam do Centro, onde os cidadãos de bem e a imprensa aguardavam a chegada da pobre e indefesa herdeira da Pátria. Patético. Ele nunca vai me convencer da necessidade disto. Mesmo sendo poderoso o suficiente para moldar os fatos e criar as narrativas mais convenientes para seu governo, Ricardo não conseguiria influenciar os ideais de Helena. Não posso mais fazer parte da farsa criada por ele. Chega.

O furgão interrompeu sua marcha e Helena se desfez da peruca e dos óculos. Respira fundo. Você vai ficar bem. Embora acostumada com situações como aquela por aturá-las durante os últimos vinte anos, ela não conseguia evitar de se sentir desconfortável por sempre ser vigiada. Além de precisar lidar com as expectativas irracionais de seus pais, ela também encarava a opinião pública diariamente; era a consequência de possuir uma vida pública que mais odiava. Helena estava triste na foto com os delegados do país. Helena está pronta para noivar. Helena perdeu peso. Porém, precisava admitir que nunca havia adentrado uma Zona Morta e muito menos sido vítima de um falso sequestro. Que ideia péssima.

Os soldados abriram a porta do furgão e escoltaram Helena pela avenida Presidente Vargas com os braços estendidos para conter os ânimos da população. Os jornalistas e seus fotógrafos lutavam por espaço entre admiradores e gritavam dezenas de perguntas sobre os Canários, mas Helena não possuía respostas e nem disposição para entretê-los. Ela acompanhava a escolta dos soldados pela avenida movimentada; eles caminhavam na direção da sede do governo, o Palácio da Promessa, enquanto Helena oferecia sorrisos e acenos ao público que clamava por seu nome. Vocês vão descobrir a verdade um dia. Todos foram impedidos de acompanhá-los pelos seguranças do palácio assim que alcançaram a Praça da Candelária.

O Palácio da Promessa, construído por Ricardo em seus primeiros anos como presidente do Brasil, fora erguido no espaço originalmente ocupado pela Igreja de Nossa Senhora da Candelária em uma tentativa evidente de recuperar a antiga glória carioca. Assim como tantos outros monumentos históricos do Rio de Janeiro, o templo católico também fora destruído durante a crise de 2020.

Como uma suposta maneira de prestar respeito aos mortos pelo vírus e pela guerra civil que o sucedeu, Ricardo optara pela construção de um edifício austero; a entrada grandiosa alçava-se com diversas colunas espessas e a predominância de cores escuras era eminente. A mansão possuía quatro andares, contava com mais de oito dormitórios e se estendia além do território primário da antiga igreja. De certa maneira, o Palácio da Promessa capturava precisamente a aparente essência do novo Brasil. Era um símbolo de ordem que nunca os deixava esquecer de que a Pátria perduraria; entretanto, para Helena, todo aquele esplendor não passava de uma advertência malcriada aos indignos de esperança: nós temos tudo isso e vocês não têm nada.

— Sua família está no salão de entrada — anunciou Luiz Tavares, o mordomo da família Camargo. Ele estava de pé diante do portão principal. — Não estão nada felizes com a senhora.

Luiz possuía altura mediana, um bigode encorpado e uma barriga saliente. Seu rosto caramelo mostrava traços finos e gentis, mas a cabeça raspada contribuía para primeiras impressões equivocadas sobre ele. Os tabloides de fofoca, sempre encorajados por sua família por serem importantes para a popularidade, chegaram a especular sobre um possível romance entre a dupla; no entanto, além de ambos enxergarem a relação como uma irmandade, Luiz nunca havia demonstrado se interessar por qualquer tipo de romance.

Além de ser um dos confidentes mais valiosos de Helena, Luiz era um poço de desdém e sarcasmo de 37 anos, contrariando por completo o estereótipo de mordomos cordiais abençoados pela sabedoria de velhice. Diferente dos outros empregados da família, Luiz possuía residia no palácio; ele havia conquistado seu lugar entre a elite de Promessa. O funcionamento da cidade era marcado pela desigualdade entre seus cidadãos, mas a conjunção de hierarquias sociais distintas permitia anomalias tão interessantes quanto aquela. Por mais que Luiz ainda fosse visto com desinteresse pelos abastados, ele ainda ocupava uma posição de prestígio entre outros trabalhadores.

— Ele também está lá?

— Aguardando no escritório. — Luiz deixou meio sorriso escapar. — Conseguiu o que desejava?

— Consegui o suficiente para pressionar por mais. — Mesmo desejando sorrir de volta, Helena não conseguiu se forçar outra vez. — Você não imagina o que eles fizeram. Eles...

— Eu sei de tudo. — Ele pigarreou e acenou para o salão de entrada. — Sua mãe vai nos matar se você demorar demais. Conversaremos em breve.

Helena assentiu com a cabeça e se apressou para o portão, mas um cartaz de tamanho exagerado chamou sua atenção: Paulo Bezerra Guerra — o infame terrorista que liderava o nordeste em uma campanha contra o governo de seu pai — a encarava com um sorriso amarelado e dois revólveres nas mãos. Provavelmente em seus quarenta anos, o homem possuía uma aparência tão árdua quanto icônica: o cabelo cacheado castanho e volumoso tomava as laterais de seu rosto e a pele queimada de sol se enfeitava com centenas de cicatrizes; suas vestimentas consistiam em apenas uma calça jeans larga presa por um cinto escuro de fivela prateada e um chapéu de palha. Sua imagem quase messiânica se chocava contra a existência implacável contida em ambas as mãos. Paulo Guerra: o homem mais perigoso da Pátria. Oferecemos recompensas por novas informações. Helena seguiu para o salão de entrada enquanto torcia o nariz em repúdio à caça promovida por seu pai.

Ela se sentiu aliviada por abandonar os cliques das máquinas fotográficas, mas sentia a cabeça doer ao imaginar a fúria de seus pais. Esther estava sentada de pernas cruzadas no mais distante dos três sofás de couro; os fios escuros e ondulados de seu cabelo chegavam até o começo dos ombros, como solicitado por Ricardo. Mesmo com apenas 46 anos, sua mãe realizava todos os esforços para rejuvenescer a aparência. Sempre buscando a perfeição. Esther usava um charmoso vestido florido e fuzilava Helena com os olhos escurecidos.

Samuel, por sua vez, andava de um lado ao outro pelo salão em passos nervosos; seu rosto arredondado era repleto de sardas discretas e o cabelo curto exibia poucos cachos pretos. Seu irmão de oito anos sempre se dividia entre suas duas maiores influências: Ricardo, que ainda cultivava uma reputação imaculada com o garoto, e Helena, que era sua melhor amiga. Regina estava próxima a ele com o olhar preocupado fixo em sua figura rápida; ela era uma mulher magra, de cabelo escuro manchado por fios grisalhos e linhas de expressão profundas. Ela não sabe ainda. O que eu faço?

— Lena! — gritou Samuel ao avistá-la. Ele correu para um abraço entre sorrisos e lágrimas. — Fiquei preocupado!

— Está tudo bem, pequeno. — Ela acariciou os cachos de Samuel enquanto ainda o envolvia. — Só preciso conversar com o papai.

— Seu pai já está discutindo o sequestro com os generais. — Mesmo parecendo lutar para conter sua raiva, Esther se levantou para encontrá-los. — Nunca imaginei que o Jorge faria algo assim.

— Ele não faria, senhora! — Regina fungou e secou uma lágrima solitária, mas rapidamente se recompôs ao perceber a reprovação no semblante de Esther. — Perdão. Jorge é meu amigo há muito tempo.

— Agora já podemos esquecer o terrorista. — Esther suspirou e apontou para a principal escadaria do palácio. — Vá esperar seu pai.

— Papai disse que vai fazer todos eles pagarem pelo que aconteceu com você!

Samuel saltitava e sorria para Helena como se não estivesse se referindo à morte ou prisão injusta de centenas de pessoas. Ele não podia ensinar essas coisas a uma criança. Preciso salvar o Samuel de tudo isso também. Sentindo-se impotente por não ser capaz de instruir seu irmão naquele momento e enojada por estar tão próxima de Regina sem mencionar sua filha, Helena apenas deixou seu rosto murchar e caminhou vagarosamente até as escadas de mármore.

Ela tentava controlar os tremores das mãos enquanto subia os degraus e se perdia ao pensar na mágoa que sentia de seu pai. A certeza de que Samuel se transformaria em alguém como Ricardo se ele continuasse sob a autoridade do pai era aterrorizante. No desespero gerado ao imaginar o futuro de seu irmão, Helena cogitou buscar o auxílio de sua mãe, mas expulsou a ideia absurda dos pensamentos no instante seguinte. Esther era a criatura mais submissa e inconsistente que ela conhecia; recentemente, sua mãe havia se livrado do cabelo que sempre amou após críticas duras de Ricardo. Além disso, a mulher não nutria apreço algum pelos desafortunados da Zona Morta. Só eu posso impedi-lo. Estou sozinha.

Mas ela não estava. Helena foi puxada pelo pulso assim que alcançou o segundo andar do palácio; era o piso que contava com as salas de reunião, banheiros para uso geral e refeitório. Relaxou o corpo ao notar que Diana era quem a arrebatava, permitindo que a mulher a conduzisse até o banheiro feminino mais próximo. Agora ou nunca. Quase arrancando a porta com a violência ao abri-la, Diana soltou o pulso de Helena quando entraram no banheiro e se apoiou na bancada da pia.

Diana Braga era a recém-contratada secretária de Ricardo; uma jovem esguia de dezenove anos favorecida com uma astúcia invejável e inteligência fascinante. Lábios densos que sorriam com facilidade exagerada, olhos delgados cor de mel e um nariz arrebitado que se valorizava ainda mais com o tom bronzeado da pele. Diana nunca retirava a mansidão de sua voz, sempre escolhia as palavras certas e poderia persuadir multidões com uma piscada de cílios ou três minutos de conversa. Seu volumoso cabelo escuro e cacheado geralmente caía sobre suas costas, mas naquele momento se encontrava aprisionado no topo de sua cabeça. Sempre vestindo roupas formais impecáveis, Diana trajava um blazer azulado, uma blusa branca de botões e uma calça social boca de sino acinzentada.

— Como descobriu? — indagou Diana. — Você podia ter falado comigo primeiro.

— Um recibo no nome de uma empresa que não existe no bolso da sua calça. — Helena deixou um sorriso vitorioso escapar ao notar o arquear da sobrancelha de Diana. — Entrega de cestas básicas na Zona Morta. Eu sabia que os mistérios que te envolvem não eram só paranoia minha.

— Você precisa me ouvir. O que aconteceu hoje arruinou nossos planos e agora vamos...

— Não, você precisa me ouvir. — Decidida a não permitir que Diana desviasse de suas acusações, Helena avançou contra a mulher e estreitou os olhos. — Nada disso foi real. Eu era só uma missão, não é? Eu não podia ser só a Lena, eu precisava ser Helena Camargo. Você me usou.

— Minha missão era me infiltrar neste lugar e conseguir qualquer informação importante enquanto facilitava a entrada das armas na Zona Morta. — Ela parecia calma ao revelar o plano dos Canários, para a surpresa de Helena. — O que aconteceu entre nós foi outra coisa. Foi eu e você, não Canários e o governo.

— E como eu vou acreditar nisso agora? — perguntou Helena. Diana tentou puxá-la pela cintura, mas ela afastou a secretária com um toque firme da mão esquerda. — Quem é você, afinal?

— Eu fui adotada pelos dois melhores homens que eu já conheci na minha vida. — Um sorriso enfraquecido tomou a face de Diana. — Meus pais distribuíam comida na Zona Morta enquanto a muralha ainda estava sendo construída, no primeiro ano do governo do seu pai. Eles ouviram meu choro e me encontraram engatinhando perto do muro, sendo ignorada pelos mercenários que trabalhavam lá.

— O quê? — Helena balbuciou sem conseguir esconder o choque em sua voz.

— Minha família me deixou na muralha com uma mamadeira e um bilhete que continha meu nome e um pedido de perdão. — Ela desfez o sorriso e suspirou. — Não foi culpa deles, sabe? Desde que vi com meus próprios olhos o que acontece no outro lado, não consigo julgá-los. É meu dever garantir que isso pare. Aquelas pessoas merecem vidas dignas.

— Eu sinto muito. — Helena negou com a cabeça enquanto se lembrava do desespero de Aline, dos meninos famintos e da revolta no rosto de cada um dos moradores da Zona Morta. Quando isso vai parar? — Eles mataram o Jorge. Eu tenho certeza. O que eu fiz, Diana? Os filhos dele... eu não sabia que seria assim.

Finalmente deixando o estresse acumulado durante o dia alcançá-la, Helena derrubou os ombros e iniciou um choro contido. Diana se desarmou do semblante zangado que exibia imediatamente e abraçou o corpo trêmulo de Helena. Mesmo insegura com as intenções da mulher, ela não estava disposta a negar seu afeto durante um momento tão doloroso. Jorge merece justiça. Preciso fazer alguma coisa. Lentamente recuperada do nervosismo, ela levantou o queixo e deixou suas bocas se encontrarem por segundos que não foram longos o suficiente. Diana limpou as lágrimas restantes nas maçãs do rosto de Helena e se afastaram para que seguissem com a conversa.

— Estão fazendo de tudo para que os moradores da cidade não descubram o que houve. A parcela da população que ainda confia cegamente em Ricardo não se abalará, mas o resto não apoiará seu pai. Ele foi longe demais. — Ela cruzou os braços e se apoiou na pia novamente. — Por outro lado, todo mundo da Zona Morta já sabe. Não vão perdoá-lo desta vez, Lena. Mesmo contra minha vontade, atacarão a muralha ao anoitecer.

— Não podem fazer isso. Será um massacre. — Helena caminhava em círculos no banheiro espaçoso; os dedos agitados coçavam a cabeça e a mente redobrava os esforços para pensar em soluções. — Pelo menos não sozinhos.

— Paulo Guerra. — Diana sorriu de canto e respirou fundo. — Tenho um encontro com um representante dele em quinze minutos. Promessa saberá das ações de seu pai e esse será o momento perfeito para Paulo e os Canários agirem.

— O que você quer que eu faça? — perguntou Helena. Diana arregalou os olhos de leve, claramente surpresa com a oferta recebida. — Eu quero ajudar.

— Você entende o que isso significa? — O tom severo da mulher quase fez Helena hesitar. — Posso proteger você, Esther e Samuel, mas Ricardo está fora de alcance. Ele pode ser um monstro, mas ainda é seu pai.

— Eu queria que tudo fosse diferente. — Helena sorriu fraco e começou a recuar para a porta do banheiro. — Meu pai nunca me viu como nada além de um motivo. Não posso permitir que ele continue ferindo tantas pessoas.

— Nada disso é sua culpa, Lena. Ele é o único culpado. — Diana a acompanhou até a saída. — Encontro você em alguns minutos.

— Ainda precisamos conversar — sussurrou Helena. Elas abandonaram o banheiro e se separaram ao alcançarem a escadaria. — Eu quero acreditar em você, mas também preciso da sua confiança.

— Chega de mentiras.

Diana piscou um dos olhos e desceu os degraus com pressa, deixando Helena sozinha com o caminho torturante até o escritório de Ricardo. Ela subiu até o último andar do palácio e atravessou um longo corredor; o local era decorado com pinturas que retratavam Promessa em seus primeiros dias de reconstrução. Completamente mergulhada em tentativas de controlar a ansiedade crescente, Helena girou a maçaneta da porta mais larga do corredor. Eu nunca serei o motivo dele novamente.

— Ainda não.

A voz rouca de Luiz fez Helena largar a maçaneta e saltar para trás. Ela buscou o amigo nas redondezas e o avistou em frente a uma das janelas, o corpo posicionado entre as cortinas e a parede. O mordomo sorriu fechado e caminhou vagarosamente até ela, ajeitando os óculos arredondados antes de se pronunciar.

— O plano não vai funcionar — disse ele. — Se estiver certa do que deseja, abra a terceira gaveta.

— Plano? Do que está falando? — Helena sentia o coração socar seu peito. Ele sabe? — Você está com eles?

— Não. — Luiz acariciou o cabelo escuro de Helena e respirou fundo. — Mas quem está comigo também está insatisfeito. Em toda minha vida, não conheci alguém tão forte e esperta quanto você. Tudo ficará bem.

— Não acha que eu mereço mais explicações?

Helena desconfiara de que Luiz repudiava seu pai em segredo, mas nunca pôde comprovar sua teoria. O mordomo se negava a discutir política com ela e, quando finalmente descobriu onde a lealdade do homem estava, Helena compreendeu que sua recusa fazia parte de algo maior. Mesmo com a possibilidade de usá-la para conseguir mais informações sobre o governo, Luiz preferia não a envolver em suas intrigas. Todos aqui escondem segredos.

— Não temos tempo. Sei que talvez seja pedir demais nas atuais circunstâncias, mas confie em mim. Terceira gaveta.

Com o último pedido de Luiz ecoando em sua mente, Helena o deixou partir para a escadaria e encarou a porta do escritório novamente. Inspirou e expirou três vezes, girou a maçaneta e adentrou o local, sendo imediatamente impactada pelo forte cheiro de tabaco e uísque.

Oito generais cercavam a mesa central, todos pareciam desejar ter a palavra enquanto disputavam pela atenção do presidente. Eram os líderes do exército de mercenários que supostamente serviam ao Brasil. Vinte anos após a vinda dos homens, a chegada da segunda geração de comandantes fazia com que fossem, em sua maioria, brasileiros; entretanto, mesmo proporcionando uma segurança paga pelos cidadãos prósperos o suficiente para viverem nas cidades, nenhum deles parecia satisfeito em proteger o povo. Ao contrário do esperado, demonstravam entusiasmo apenas enquanto agrediam os que não esvaziavam os bolsos para pagá-los. Se tratavam os moradores de Promessa com educação e cortesia, humilhavam e violentavam os que viviam além da muralha.

Ricardo Camargo estava sentado em sua poltrona azul com os pés descansando acima da mesa. O rosto oleoso e pálido exibia um par de veias saltadas acima do olhar apreensivo; ele segurava o álcool com uma das mãos e acariciava a barba escura e extensa com a outra. Sua gravata estava pendurada sobre a nuca, o paletó preto jogado no piso de madeira e a camisa social branca desabotoada até o tórax. Ele torceu o nariz ao perceber a entrada de Helena e bebeu outro gole do uísque.

— Por isso precisamos fechar todos os CCZ. — Um dos generais bufou em fúria e apontou para Helena. — Aqueles canalhas bárbaros continuarão ameaçando o senhor e sua família enquanto a muralha não for selada.

— Preciso conversar com minha filha — respondeu Ricardo. — Podem se retirar.

— Mas estão se concentrando nos portões, senhor! — Outro general tentou interceder ao presidente em favor das questões mais urgentes. — Precisamos de autorização para abrir fogo imediatamente. A situação fica pior a cada minuto.

— Todos para fora — ele insistiu. — Agora.

Certamente receosos em contrariar ordens diretas do presidente, os generais se retiraram sem novas hesitações. Ricardo largou o copo de uísque na mesa e se levantou com algum esforço; seu estado físico não era dos melhores aos sessenta anos, com problemas originados e intensificados pelo alcoolismo antigo. Piorando o desassossego de Helena, ele puxou um charuto do bolso da calça enquanto se aproximava e o acendeu com um isqueiro prateado.

— Me desculpe — Ricardo resmungou ao notar o desconforto de Helena com o fogo. — Vou direto ao assunto: que merda você comeu para fazer o que fez hoje?

— Foi uma ideia idiota. Eu queria saber como é lá fora.

Helena tentou contornar o homem para se sentar na poltrona, mas Ricardo segurou seu cotovelo e arrancou sua jaqueta de maneira impetuosa. Claro que ele faria isso. Instintivamente, ela abraçou os braços expostos para cobrir as cicatrizes de queimadura que tomavam sessenta por cento de seu corpo. Não sentia vergonha das marcas que exibia, mas odiaria permitir que fossem usadas como combustível para as loucuras de Ricardo.

— Há vinte anos, a anarquia dominou nossa Pátria e todos sofremos as consequências. — Ele deslizou o indicador da mão livre pelo ombro de Helena. — Principalmente você, uma garotinha de sete anos que não conhecia a maldade do mundo. Você nunca vai saber como eu me senti no dia em que eles incendiaram o hotel. Nunca vai ouvir os gritos de dor da única pessoa que você já amou enquanto o mundo inteiro desmorona ao seu redor. Eu me assegurei disto. Eu fiz tudo o que era possível e impossível para me certificar de você e o Samuel nunca precisariam viver o que eu e sua mãe vivemos.

— Quando você vai enxergar que eu não sou só uma história triste sobre como você decidiu domesticar o Brasil?

A pergunta de Helena abalou seu pai instantaneamente. O homem se afastou e puxou a fumaça do charuto, o nariz se enrugando com a intensidade de sua reação. Durante os primeiros dias de rebelião e desordem no país, Ricardo e sua família estavam hospedados no Rio de Janeiro em uma viagem de negócios. A fazenda no Mato Grosso — o maior tesouro da família Camargo — foi saqueada e destruída; os avós de Helena e todo o resto da família de seu pai foram brutalmente assassinados dentro de suas casas. Enquanto isso, Ricardo lutava para salvar Helena de um incêndio criminoso no Copacabana Palace.

— Você nunca foi só isso. Mas eu preciso que você entenda tudo que está em jogo agora, filha. Se os inimigos do Brasil vencerem, todos estaremos condenados novamente. — Ricardo apontou para a sacada do escritório. — Nada disso estaria de pé se eu não me mantivesse firme. Preciso de você do meu lado.

— O presidente já pisou alguma vez em qualquer lugar além das muralhas? — Helena estreitou o olhar e escapou da proximidade de seu pai, sentando-se na poltrona do homem. — O povo brasileiro não está apenas nas cidades que você reergueu. Ele também está morrendo atrás dos muros que você construiu.

— Seu sentimento é compreensível, mas não podemos salvar todos, Helena — ele balbuciou com o charuto pendurado nos lábios. — Sobrevivência dos mais fortes. É o único jeito.

— Seus homens mataram uma mulher grávida e provavelmente muitos outros hoje. — Decidindo permanecer irredutível, ela elevou os pés sobre a mesa, assim como seu pai havia feito. — É essa covardia que você chama de “sobrevivência dos mais fortes”? Você condenou mais da metade do país à pobreza extrema e se surpreende quando é atacado?

— Deus me escolheu para liderar o Brasil na direção de um futuro civilizado, com ordem e disciplina. Se eu não fizesse nada, aquele merda teria deixado o país inteiro morrer por não acreditar no vírus. — Ricardo arremessou o charuto contra o cinzeiro em cima da mesa e continuou seu discurso. — Eu salvei a Pátria. Eu trouxe equilíbrio quando tudo que nós conhecíamos era o caos. Todos que não reconhecem o que eu fiz são ingratos. Inclusive você.

— Eu prefiro essa sua versão, sabe? — Helena sorriu de maneira genuína. Não existe esperança para ele. — É seu verdadeiro eu agora. Um narcisista patético com convicções insanas.

— Se eu descobrir que você ajudou algum espião a vazar informações do meu governo...

— Vai me matar? Achei que eu era mais do que um motivo. — Ela se inclinou na poltrona e segurou a maçaneta da terceira gaveta da mesa, fora do campo de visão de seu pai. — Você se perdeu no seu personagem messiânico.

— Descobriremos em poucos instantes. — Ricardo também sorriu e agarrou um transceptor de mão dentro do paletó atirado ao chão. — Na escuta?

Afirmativo, senhor — respondeu a voz masculina no outro lado da linha.

— Tivemos sucesso?

O que ele fez? Helena sentia sua boca ressecar e os batimentos cardíacos se intensificarem. Ela não ouvira seu pai dando ordens diretamente aos generais, mas não fazia ideia dos planos mais antigos do homem.

Chegando com o alvo.

Não, não, não. Não pode ser. Instantes depois, a porta do escritório se abriu e dois soldados arrastaram Diana até o centro da sala, largando-a para sangrar no chão de madeira. A mulher ofegante agarrava o ferimento no estômago e reclamava da dor com gemidos contidos. Ela possuía outras feridas e hematomas no rosto e nos braços, além de estar com as vestes rasgadas e ensanguentadas, mas o vermelho que jorrava de sua barriga era a única preocupação válida. Como isso aconteceu? Como o Luiz sabia? Sem perder mais tempo, Helena recolheu os pés da mesa e abriu a terceira gaveta. Lá dentro estava uma Colt Python cromada de cano longo, o revólver de seu pai. Era isso que ele queria dizer quando falou da minha força. Merda.

— Podem ir. — Ricardo acenou na direção da saída com o queixo e os soldados se retiraram. — Diana Correia Braga. Até que você me enganou bem.

— Filho da puta — Diana balbuciou e sorriu com dentes ensanguentados. — Você é muito burro.

— Seu pessoal acreditou numa farsa sobre Paulo Guerra e eu sou o burro? — Ele retribuiu o sorriso e continuou. — Tudo que eu precisei fazer foi criar um rato bem grande para os ratinhos que infestavam minha casa saírem da toca.

— Sua casa ainda está cheia de ratos e você nunca os verá. — Diana pareceu reunir o restante de sua força para se sentar na madeira suja de sangue. — Eu sou só uma pessoa, Ricardo. Você não matará ideias assassinando pessoas. O que eu represento sempre estará vivo. A resistência seguirá respirando até você ser esquecido ou se tornar só outra parte podre da história do país.

— Eu sabia que o noivado com aquele banana era uma fachada. — Ricardo ignorou as declarações de Diana e olhou Helena. — Você nunca aprecia o que eu escolho com as melhores intenções. Agora me diga: esse caso de amor proibido era só isso ou também envolvia trair sua Pátria? Trair seus próprios pais?

— Era só isso. — Diana gritou de dor quando Ricardo chutou seu nariz por oferecer uma resposta. — Seu merda...

— Você é só um maldito cadáver. Estou falando com minha filha.

— Eu não contei nada. Você não me contou nada. Eu sempre fui apenas o seu motivo e o seu troféu. Mas, se eu soubesse de todo o mal que você causou, eu teria percebido antes. — Ela quase gargalhava ao pensar na vida ridícula que possuía como herdeira de um tirano. — Eu teria percebido que você é uma farsa. Eu não vejo um pai, um líder ou um salvador. Eu vejo a porra de um monstro e nunca vou perdoá-lo por isso.

— Assim que sua namorada terminar de morrer, vou te ensinar a respeitar quem fez você chegar até aqui. Eu cansei de tanta ingratidão! — gritou Ricardo.

Sou grata pelas aulas de tiro.

Enquanto gargalhava e chorava em um surto nervoso, Helena esperou seu pai virar o rosto na direção de Diana para agarrar o revólver na gaveta. Ela engatilhou a arma e mirou nas costas de Ricardo Camargo; suas risadas cessaram, seu choro foi interrompido e seus olhos encontraram os de Diana uma última vez.

Três disparos para a liberdade do Brasil.


***


Seguimos com mais informações sobre o assassinato de Ricardo Fonseca Camargo, nosso presidente e querido salvador. De acordo com informações oficiais do governo, tudo começou quando Diana Correia Braga, a secretária do presidente, foi presa em flagrante por traição à Pátria e levada ao Palácio da Promessa para ser interrogada. Após conseguir se libertar misteriosamente, a mulher se aproveitou de um momento de distração para efetuar três disparos contra as costas do presidente diante de sua filha, Helena Camargo. A assassina morreu por ferimentos à bala pouco depois.

O país lamenta a tragédia sofrida no dia de hoje. Ricardo deixa dois filhos, uma viúva, e um país inteiro de órfãos. Sobre o futuro de nossa nação, o governo relatou que, atendendo aos desejos formais do presidente, Samuel Camargo assumirá a liderança do país ao completar dezoito anos de vida. Até lá, teremos Helena Camargo como presidente interina. A jovem enfrentará um período turbulento em Promessa, nossa capital, após uma série de manifestações contra supostos atos de brutalidade do exército. Desejamos que Helena governe com a sabedoria que esperamos de uma Camargo! Salve a Pátria amada, salve o novo Brasil!

6 de Março de 2021 às 02:19 2 Denunciar Insira Seguir história
7
Fim

Conheça o autor

Gabriel Amaro Oi. Sou Gabriel, tenho 24 anos e sou estudante de Letras - Português/Inglês na UFRJ. Eu escrevo desde uns 10 anos e quero dividir minhas ideias malucas com o mundo. Apesar de escrever de tudo, meu foco sempre foi fantasia, sci-fi e terror. Odeio finais felizes, mas nunca se sabe quando vou surtar e seguir por esse caminho.

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Olá, Gabriel! Primeiramente, gostaríamos de agradecer a sua participação no #DistopiaBr! Ter vocês, autores, nos apoiando com suas histórias incríveis e participando ativamente deste desafio nos deixou realmente felizes. Pátria Amada já nos encanta a partir da capa e do banner promocional da história: há muito de glória, mas, ainda assim, as cores remetem ao medo, em principal se somarmos todas as informações visuais à sinopse, que nos revela uma tirania em andamento. Salvar alguns e condenar outros? A forma como vimos a sua história nos faz lembrar alguns trechos do diário real escrito por uma moradora de São Paulo, o livro Quarto de Despejo. Enquanto Helena vaga pelas ruas da Zona Morta, vemos um retrato que nos lembra muito da realidade que já conhecemos no nosso país, infelizmente, e isso choca pela proximidade do que há em nosso mundo com o que há no criado por você. Agora, falemos sobre o tema! Apesar de ser apresentado suavemente, ele cumpre exatamente com o proposto no desafio. As principais características podem ser encontradas mescladas com a de outros gêneros, como o romance e o drama, sem se perder no meio do caminho. Uma das coisas mais interessantes na sua história é que, mesmo com tantos acontecimentos, você ainda consegue nos apresentar um romance que foi de apertar nossos corações. Diana Braga já aparece na trama nos arrebatando através do olhar de Helena, o que nos faz instantaneamente torcer pelas duas, principalmente quando conseguimos vê-las conversando e interagindo de forma tão espontânea no banheiro. Além disso, temos outro personagem que nos conquistou com bastante facilidade e que, pelo que podemos imaginar, deve ter levado um fim não muito agradável: o Jorge. Apesar de tudo o que nos foi mostrado sobre ele, o motorista permaneceu uma incógnita no que diz respeito a várias áreas, mas duas coisas ficaram evidentes; ele amava e respeitava Helena, e ele sabia que estava se metendo em algo que poderia acabar com a vida dele — o que o torna ainda mais admirável. E já que estamos falando sobre personagens, não podemos esquecer do Ricardo, não é mesmo? E que personalidade ele tem, hein! Pensar sobre Ricardo e não lembrar de um tirano perfeito seria impossível: ele cumpre seu papel no conto com maestria e encantamento. Não é difícil imaginar uma grande parcela do povo do lado de dentro do muro se prostrando às vontades dele, considerando o quão carismático ele se mostra ser. Também devemos salientar que foi muito fácil ver todos esses personagens incríveis se movimentando, agindo, existindo na história graças à boa construção de cenários, cenas e atmosfera que vemos no texto. Os detalhes que compõem a ambientação da narrativa enriquecem-na demais. E, como sempre, gostaríamos de parabenizá-lo pelo belo uso da gramática normativa. Encontramos algumas coisas que muito provavelmente passaram despercebidas durante a correção, mas que podem ser sanadas com facilidade e que não prejudicam em nada a leitura e compreensão da história. Você apareceu nos quarenta e cinco do segundo tempo para participar do #DistopiaBR e nos presenteou com uma história que sublinha toda sua dedicação como autor, seja nos elementos narrativos do texto ou na parte visual da história, a maestria com as palavras que nos faz tecer mentalmente os cenários de sua história e o esmero que tem para com a criação dos seus personagens. Obrigada pela sua participação, foi muito bom poder contar com você neste desafio e esperamos poder vê-lo em outros. Os resultados serão divulgados em breve nas nossas mídias sociais. Fique de olho e boa sorte!
March 06, 2021, 22:00
Karimy Lubarino Karimy Lubarino
Olá, Gabriel! Fico muito feliz que tenha conseguido participar do desafio :). Olha, eu gostei demais de conhecer a Helena, mas, devo confessar, o rei deste conto pra mim foi, sem dúvidas, o Ricardo. Eu realmente consegui imaginá-lo dentro desse cenário, agindo e falando com a confiança de um rei e com a força de um genuíno tirano - ele me encantou com o jeito de falar, principalmente. A parte que mais me chocou em sua narrativa foi quando o homem apareceu com a Aline no colo, mostrando o estrago que a visita da Helena acabou causando, e a "fuga" dela enquanto a revolta acontecia - bem fácil imaginar esses acontecimentos. Parabéns pela história e boa sorte no desafio :).
March 06, 2021, 11:22
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