autorajamille Jamille Sousa

Porque nem todo dia que começa mal, necessariamente precisa terminar mal.


Conto Todo o público.

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Capítulo único

Samanta acordou atrasada para o trabalho, aquele dia já começara estranho. Não conseguia encontrar nada do que precisava, o celular jazia quase descarregado e assim que levantou da cama ela pisara em uma tachinha de brinco que quase furou seu pé.


Bufando, prendeu os cabelos em um rabo de cavalo, trocou de roupa rapidamente e saiu. Mal teve tempo de se maquiar, ficaria para quando chegasse no shopping. Pegando a bolsa, checou se havia carga para pelo menos ouvir música à caminho do trabalho. 30% não era muito, levando em conta que o celular era de segunda linha e não durava nem um dia todo carregado.


Teria de bastar, estava preocupada demais para pensar em ler. Só queria dormir um pouco no trem enquanto ouvia música — isso se houvesse lugar para sentar — e esquecer que o namorado terminara com ela sem mais nem menos.


Colocou os fones de ouvido e seguiu para a estação, ouvindo Ed Sheeran somente para sofrer. Mas Sam não se importava, ou fingia que não. Doeu ouvir "acabou" um pouco antes do aniversário de namoro? Doeu, porém, ela não daria o braço a torcer chorando por quem não a merecia. Era seu pensamento final.


Absorta e concentrada em um joguinho que faria sua bateria despencar cada vez mais. Não percebeu quando o trem se aproximou e abriu as portas. Era hora do rush e o empurra empurra logo teve início. Olhou para frente, tentando se equilibrar, quando braços e pernas começaram a forçá-la de qualquer jeito para dentro do vagão. Não tinha como se defender ou tentar fugir, havia mais pessoas querendo entrar do que sair. Seria somente Samanta tentando nadar contra a maré de desesperados por um lugar.


Assim como ela.


O fone enroscou em algo e ficou para trás, ela tentou proteger o celular. Contudo, foi em vão. Frustrada, em seu último esforço, ainda tentou pular fora do trem, só que as portas se fecharam antes.


O celular ficou, junto com sua dignidade.


Quis chorar, espernear, o celular era velho mas era dela. E agora? O que faria? Mal tinha dinheiro para comprar um pão de queijo, que dirá um celular novo. Para piorar, foi em pé, sacolejando de um lado ao outro porque não tinha onde se segurar.


Ao chegar no trabalho, correu para tentar contato com a alma que por ventura poderia ter resgatado o aparelho. E, para sua surpresa, uma voz grave e firme atendeu:


— Alô. — o interlocutor disse, um pouco inseguro.


— O-oi, eu perdi meu celular, você poderia me devolver, por favor? — pediu, vendo o quão ridícula estava sendo.


Quem devolveria um celular achado? Como diria o ditado:achadonão era roubado.


— Claro, eu tentei te devolver ainda no trem. Mas as portas fecharam muito rápido. — o outro respondeu, surpreendendo-a.


— Que alívio, toda a minha vida está dentro dele, moço. — Samanta choramingou.


— Eu entendo, não se preocupe. Podemos marcar para eu te devolver. — propôs, ela assentiu, ainda que seu benfeitor não pudesse vê-la.


— Você salvou minha vida, qual seu nome? — ela perguntou, curiosa.


— Samuel e o seu? — devolveu o questionamento.


— Me chamo Samanta, aonde você pode me encontrar? — foi direto ao assunto, pois recuperar o aparelho era seu foco principal.


— Pode ser hoje no mesmo lugar que você perdeu, te encontro às 19:00h? É o horário que eu saio do trabalho. — explicou, prontamente Sam concordou.


— Fechado, obrigada mais uma vez. — agradeceu com um suspiro de alívio.


— Não por isso. — foi a resposta de Samuel. — Até mais.


— Ele até que tem uma voz bonita. — divagou consigo mesma, antes de começar a trabalhar.


O dia não rendeu, ficou cada vez mais ansiosa e aflita ponderando se teria ou não o bendito celular de volta. Se pudesse assumir para si mesma, diria que estava na hora de realmente trocá-lo. Só que não mentiu quando disse que toda sua "vida" existia naquele aparelho.


Seus cronogramas, agenda, aplicativos do banco, tudo. Sem seu celular ficaria perdida no mundo. Balançou a cabeça, afastando o pensamento ruim. Se Samuel não quisesse devolvê-lo, porque se dar o trabalho de atendê-la e marcar um encontro?


(...)


No horário marcado Samanta estava lá, no lugar em que perdeu o celular de manhã. Esperou e esperou, mas nada do garoto aparecer. Quer dizer, ninguém parecia conhecê-la ou estar com um celular que não lhe pertencia em mãos. Todos seguiam para seus compromissos e somente ela observava a esmo as pessoas entrarem e saírem do trem.


— Droga, pra que ele perderia o tempo atendendo e garantindo que me devolveria se não vai fazer isso? — resmungou para si, cansada de esperar à toa.


Quando o relógio da estação marcou oito horas, ela decidiu ir embora. Não adiantaria permanecer lá feito uma idiota, aguardando alguém que não chegaria. Deu meia volta e já iria seguir para casa, quando uma voz grave a chamou. O garoto corria meio desengonçado, acenando, enquanto segurava uma bolsa de lado. Franzindo a testa, Samanta aguardou.


— Ei. — ele parou em frente à ela, recuperando o fôlego. — Samanta?


Ela fez que sim.


— E você é o Samuel? — seu coração se iluminou quando ele confirmou com um sorriso discreto.


Certo, nesse ponto poderíamos alegar que Samanta estava feliz somente por ter a chance de recuperar o celular. Você não não ganhou dessa vez, Murphy, toma. Pensou, comemorando internamente. Mas não era somente por isso que ela ficou eufórica, o tal de Samuel, seu benfeitor. Era lindo de morrer… E aqueles olhos negros?


Se recompôs e estendeu a mão para ele, visando ser educada.


— Desculpe, fiquei preso no trabalho e me atrasei. — justificou-se e, após o aperto de mão rápido, tateou em busca de algo dentro da bolsa. — Aqui está, tentei te devolver hoje cedo de verdade, ele meio que enroscou na alça da minha bolsa.


— Não, tudo bem. — Samanta pegou o aparelho "morto" e sorriu amigável. — A culpa foi minha, estava distraída.


— Bom, tudo certo então… — ele se demorou olhando para ela. — Já vou indo.


— Espera! — Samanta exclamou desesperada, tentando ganhar tempo. — Não quer, tipo... tomar um café?


— Ah, eu acho que quero. — a resposta do garoto soou espontânea e agitada.


Samanta sorriu ainda mais.


— Bora então. — brincou, colocando o celular na bolsa.


Samuel retribuiu o sorriso, dessa vez mais expansivamente, antes de concordar:


Bora.


É, se realmente existiam males que vinham para o bem. Na certa ter perdido o celular foi um deles.


Fim.


16 de Fevereiro de 2021 às 17:08 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Jamille Sousa Leitora e escritora.

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