manasses-abreu1613412480 Manasses Abreu

Um senhor idoso, uma lojista e seu supervisor estão tendo mais um dia normal. Contudo, um evento inesperado põe a vida deles em cheque, trazendo à tona uma terrível realidade. Qual será?


Ficção científica Impróprio para crianças menores de 13 anos.

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PENSO, LOGO EXISTO?

– Olá, bom dia! Em que posso ajudá-lo?

“Odeio quando essas máquinas fingem ser gente!” – pensou – Cala a boca e me deixa quieto, caramba!

Olhando-o sem entender aquele comportamento hostil, a vendedora se afastou, falando:

– Ok. Qualque coisa, se o senhor precisar, estarei aqui.

“Malditos! Desde a revolução industrial é isso: robôs sem alma roubando empregos e vidas humanas... malditas máquinas! ”. O senhor, de idade já avançada, tinha dificuldade em se locomover entre os cabides de roupa e as prateleiras. Volta e meia esbarrava em um ou outro.

Um funcionário olhava para a cena friamente, mas nada fazia. Parecia que fingia que não via e seguia com os olhos presos em uma prancheta, a riscar e verificar itens.

A vendedora, ao perceber a situação, começou a afastar os cabides e as prateleiras, dando um maior espaço para o senhor se locomover, perguntando-lhe que ele queria especificamente, para poder leva-lo à seção em que ele poderia encontrar o que procurava.

– Sai daqui! Eu já falei que só estou olhando! Se eu quiser alguma coisa eu mesmo pego! Não sou nenhum imprestável! – ergueu a bengala que usava como apoio. Se desequilibrou mas conseguiu se manter de pé.

– Ok senhor, desculpa... – a vendedora recuou, mais uma vez, acompanhando-o ao longe.

– Odeio essas máquinas que parecem gente! Estão roubando tudo de nós! – reclamou com o funcionário, que apenas levantou os olhos, soltou um sorriso qualquer e seguiu verificando a lista.

“Na minha época era tudo bem diferente! Não tinha isso não! Que saudades... a gente cria toda uma família, serve à nação a vida toda, para a agora ser atendido por um negócio desses!” – o senhor seguia murmurando suas reclamações enquanto olhava os produtos, maneando a cabeça negativamente.

A vendedora não sabia mais o que fazer, enquanto o funcionário a encarava e olhava para o senhor. Naquele momento, o velho rabugento e o funcionário estavam lado a lado, quando a vendedora processava como iria lidar com aquele tipo de cliente.

De repente, uma picape avançou desgovernada por sobre a loja, quebrando a fachada de vidro e abalroando tudo ao seu redor, indo parar lá nos fundos, prendendo o senhor e o funcionário contra a parede.

Era uma cena grotesca. O funcionário e o senhor de idade ficaram da metade para cima presos por sobre o capô quente da picape, ambos gritando por ajuda e se contorcendo de dor. Por baixo deles, era possível ver uma poça de sangue e algo que lembrava uma perna ficar presa na parte frontal e inferior do veículo.

– Pelo amor de Deus, me ajudem! – clamou o senhor – não posso morrer agora, tenho meus netos para criar!

O outro funcionário, por sua vez, soltou um fraco “socorro” e desmaiou.

Os demais clientes ficaram paralisados, sem saber o que fazer diante aquela cena. Alguns, chegaram a sacar os celulares do bolso e começaram a filmar, discutiam entre si o que fazer, mas não interferiram.

A vendedora avançou por sobre a picape e começou a tentar ajudar o outro funcionário, que jazia inconsciente. Enquanto isso, o idoso ficava bradando:

– Ele é só um manequim! Malditos robôs! Só pensam em si mesmos! Me ajude!

Infelizmente, quando ela puxou o funcionário da loja, já era tarde demais. Seu tronco sem vida tombou para o lado, com a metade inferior do corpo completamente estraçalhada, encharcando-a de sangue. Em desespero, vendo as faíscas surgirem por debaixo do veículo, decidiu ajudar o senhor, que começava a sentir sua pressão baixar.

– Finalmente! – murmurou.

Ela o puxou com toda a força que pode, jogando-o de lado.
Ele ficou desesperado quando viu a quantidade de fios que saíam de seu tronco e a quantidade de óleo que vazava dele. Arregalou os olhos “Não pode ser! Como assim? Estou ficando louco!?”

A vendedora, que estava sendo avaliada para ser efetivamente contratada pela loja, coordenou a evacuação do local, vendo que as faíscas não tinham cessado e que o óleo havia se espalhado ainda mais, ligou para a ambulância e para os bombeiros, esperando pelo pior.

Não deu outra. Um incêndio logo se iniciou, tomando enormes proporções.

O senhor, vendo sua pele sintética servindo de combustível para as chamas, ao notar a sua carcaça de polímero derreter lentamente com o calor emanado ainda pensou:

“O que eu sou? Sou uma pessoa ou um robô que pensava ser uma pessoa? Se eu acho que sou, se eu me sinto como uma pessoa, não seria eu uma pessoa?!”

“Penso, logo existo?"

Uma última fagulha consumiu por completo o seu processador Neuromimético de Múltiplos Núcleos.

16 de Fevereiro de 2021 às 21:13 2 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

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Manasses Abreu Contos de terror, suspense e ficção científica. #terror #historiasdeterror #suspense #contos #scifi #contoscurtos

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Afonso Luiz Pereira Afonso Luiz Pereira
A propósito, essa capa do teu conto é muito da hora!
Afonso Luiz Pereira Afonso Luiz Pereira
Esse conto tem um pouco daquela perspectiva do meu conto do CLTS, né? A dúvida de um mundo dominado por autômatos quase humanos em que fica tênue a linha de se saber se você é humano ou máquina. O velhinho aí tava cheio da razão, reclamando dos androide quando na verdade o androide era ele. Muito bom, ótima reviravolta.
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