jcgray J.C. Gray

Se livrar do ensino médio seria uma benção para Julia. Acreditava que só precisaria encarar um ultimo martírio: sua festa de formatura. Mal sabia ela que 14 anos depois, uma reunião muito especial seria marcada com aqueles que lhe fizeram mal


Horror Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#assassinato #vingança #demônio #formatura #horror #terror
0
2.3mil VISUALIZAÇÕES
Completa
tempo de leitura
AA Compartilhar

2004

O ensino-médio. Para alguns uma das épocas mais maravilhosas da vida. Para outros, a pior de todas.

Julia havia estudado naquele colégio desde a sua infância. Sempre fora tida como a garota estranha. Os longos cabelos pretos ressaltavam mais sua pele muito clara, especialmente por sempre andar de preto. Gostava de camisetas de bandas de Heavy Metal, e de usar colares de prata com símbolos pagãos, que a maioria das pessoas só sabia falar que eram coisa do diabo.

Nunca teve muitos amigos. Os poucos amigos que fizera, eram alunos tão deixados de lado quanto ela: Rodrigo, Nádia e Emanuel, que haviam sido rotulados como ‘os nerds’ e por isso, taxados de esquisitões, por preferirem conversar sobre quadrinhos e filmes, a se preocupar em seguir à risca a moda ditada pelos populares.

Mas os anos e mais anos de bullying, estavam para terminar.

Ela não queria ir para a festa de formatura. A colação de grau já parecia mais do que suficiente. Queria deixar tudo aquilo para trás, e não ver todos aqueles rostos que tanto lhe fizeram mal durante todos aqueles anos nunca mais, mas seus três únicos amigos a convenceram.

Na frente do espelho, ajeitava com as mãos com o vestido longo, preto com algumas pedrarias bordadas. Com o rosto bem próximo do espelho, terminava a maquiagem. Não era porque tinha concordado em ir para aquela comemoração que ela se encaixaria nos padrões que os outros queriam. Tateou a bancada abaixo do espelho, pegando um cordão no porta-joias improvisado: uma saboneteira no formato de concha, com um pedaço de veludo vermelho, onde ela guardava seus cordões favoritos, com anks e pentagramas. O escolhido da noite era um de seus pentagramas favoritos. Tinha limpado a prata cuidadosamente mais cedo, com a ajuda de uma escova de dentes antiga e pasta com bicarbonato de sódio, uma dica que tinha encontrado na internet e calhou muito bem. O pentagrama parecia novo quando ela colocou no pescoço. Sentiu-se estranhamente protegida.

Verificou se a maquiagem estava ok uma última vez antes de devolver todos os produtos da marca que sua mãe revendia à sua nécessaire, quando ouviu um som. Um de seus livros havia caído de sua cama, a imagem de um pentagrama invertido, com um ser de terno com chifres se abriu na frente dela. Pegou o objeto do chão e o fechou, passando a mão pelo símbolo prata na capa preta, e o escondendo na sua prateleira entre os de história. Era difícil ler sobre ocultismo quando sua mãe, Evangélica, chorava pela filha não acreditar em Deus. O último que sua mãe havia encontrado, ela havia tacado fogo.

Despediu-se de sua mãe. O “volte antes da meia-noite”, que ela sempre dizia por pura preocupação martelava sua mente. Enquanto estava no taxi para o salão de festas, não esperava que não faria o caminho de volta.

A casa de festas no Alto da Boa Vista já tocava o som bem alto, enquanto os alunos das duas turmas de formandos aproveitavam a festa.

Quando ela entrou atraiu os olhares dos alunos. “Você está linda” eles diziam. Os elogios dos amigos a deixaram sem graça, não estava acostumada a isso. Sempre fora invisível, menos para os populares que tanto a fizeram sofrer.

E era claro que o grupinho estava exalando a falsidade no ar. Entre “Nossa como vou sentir sua falta”, que mais queriam significar um “Graças a Deus nunca mais vou precisar olhar pra essa ralé”. Julia só queria ficar o mais longe possível do grupo.

Clarissa era a líder. Com seu vestido lilás e os cachos dos cabelos castanhos claros presos em um penteado elaborado. Julia não sabia se era a iluminação do lugar ou se a garota estava de fato com o rosto maquiado mais claro do que a pele dela, mas não duvidaria. A garota adorava se apoiar em seu sobrenome alemão para se achar melhor do que os outros, e ai de quem a chamasse de qualquer palavra que a lembrasse de que era negra, preferia ser vista apenas com o pai, loiro de olhos claros, e uma vez que fora vista com a mãe, chegou a dizer que estava fazendo compras com sua empregada. Era de longe a pessoa mais preconceituosa que a gótica conhecera.

Jorge era o esportista da turma. Os cabelos loiros escuros casavam bem com a pele sempre queimada de sol. Ele poderia até ser bonito por fora, mas era completamente podre por dentro. Na quarta série, havia passado mais de dez minutos de frente para a lixeira, apontando um lápis, até deixar a ponta o mais afiada que havia conseguido. No caminho para sua mesa, enquanto a professora estava de costas escrevendo no quadro, ele havia deliberadamente enfiado a ponta no braço de Julia, por motivo nenhum. Na diretoria, a garota precisou ouvir que ela deveria ter provocado aquela reação dele. Ele não se lembrava mais do ocorrido, mas a garota ainda possuía uma cicatriz no braço branco.

E por último, Vanessa. A puxa-saco que fazia tudo para continuar no grupinho dos populares, mas era a mais irrelevante. Não era bonita, nem talentosa. O tom de palha do cabelo ressaltava as manchas causadas por sol que tinha pelo rosto e que tentava esconder com maquiagem o máximo possível. Era a responsável por estar sempre perseguindo e descobrindo coisas para que os outros dois pudessem usar contra suas vítimas. Nos últimos anos havia entrado em toda e qualquer atividade que Julia fazia fora da escola também.

Eram a tríade do terror daquele colégio, tinham o poder de destruir a imagem de qualquer um que não fosse digno da amizade deles. Não que eles fossem querer conhecer melhor qualquer uma das pessoas com quem faziam bullying.

Era como se fossem a realeza daquela festa.

A trilha sonora era embalada pelos top 10 das paradas, mas Julia preferia estar sentada na mesa, conversando com seus amigos. Era óbvio que os populares não iriam perder tempo com aquela ralé, então estavam tranquilos, embora ela não houvesse reparado como Vanessa a fuzilava com os olhos ao longe. Nos últimos meses, Nádia e Emanuel haviam começado a namorar, não que isso tenha atrapalhado o grupo em alguma coisa, mas em um determinado momento da noite, se afastaram da mesa para irem dançar. Um garçom loiro, com um terno cinza se aproximou da mesa oferecendo bebidas e canapés.

Enquanto comia, observava os alunos que dançavam e bebiam, comemorando ao máximo o fim do colégio. Eram quase meia noite quando ela se levantou, ajeitou a bolsa pequena e olhou para Rodrigo:

— Acho que é melhor eu ver se me pedem um taxi lá na entrada...

— Ju... — ele começou meio sem jeito. Os cabelos pretos no corte que ele usava, com a roupa social faziam ele parecer ter saído dos Beatles. — Fica mais um pouco? Eu... ia perguntar se não queria dançar?

A forma como ele perguntou e ficou instantaneamente vermelho, a deixaram meio sem jeito também. Pensou que sua mãe não iria se importar se passasse um pouco da meia-noite daquela vez.

A música que estava tocando era animada, e Rodrigo dançava de forma um pouco destrambelhada. Pouco a pouco as músicas foram dando lugar a mais lentas, e acabaram dançando mais próximos. Podia sentir o nerd tremer um pouco, e engolir seco quando começou a falar baixinho enquanto dançavam.

— E-e-eu... eu gosto de você Julia, acho que sempre gostei, nunca tive coragem de falar isso e, só tinha mais hoje...

— Eu meio que sempre gostei de você também Rô...

Por alguns instantes, ficaram se encarando sem saber ao certo o que fazer. Quando se é um excluído total você não é o tipo de aluno que tem vários namoros. Ninguém se interessa por você, e você não se acha interessante a ponto de atrair alguém. Mas meio desajeitados, enquanto dançavam, os dois arriscaram um beijo. Quando se afastaram estavam ambos corados, mas com um sorriso meio bobo no rosto.

— Até que enfim!! — ouviram a voz de Emanuel, os zoando de perto, e acabaram rindo. Julia pensou que talvez ter ido na festa não tenha sido de todo ruim.

Ela se afastou para ir até o banheiro. Quase se arrependeu ao passar pela porta e ver que uma das três cabines estava com a porta aberta, mas com vômito caindo para fora da privada até o chão. Era de se esperar com tanta gente que nunca havia bebido. Preferiu ir na cabine mais longe daquela. Enquanto segurava a saia longa ouviu alguém entrando na outra cabine do banheiro. Deu a descarga, já meio entupida, e foi até a pia.

Abriu a torneira lavando bem as mãos e sentiu um calafrio. Ao olhar para o espelho, uma imagem se formou atrás dela, não identificou muito além de um borrão cinza. Em sua mente ecoavam as palavras “Tenha cuidado”. Virou-se num impulso, mas não havia nada ali. Quando voltou o olhar para o espelho, não havia nada lá.

O som da porta se destrancando ecoou no banheiro, e a pessoa que saiu cambaleante era Vanessa. Tudo o que ela não precisava naquela noite.

— Olha só se não é a estranha! Tá gostando de brincar de popular só porque tá arrumadinha? — riu, quase pisando na barra do próprio vestido. — Veio se livrar do bafo pra continuar beijando o nerd é? — Uma coisa que Julia havia aprendido nesse tempo todo fora a não responder as provocações. E seu silêncio irritou ainda mais Vanessa. — Talvez você devesse treinar mais...

Vanessa segurou Julia pela nuca, e acertou o rosto dela contra o espelho, que trincou onde sua testa bateu, lhe tirando um pouco de sangue, e o que ainda restava de seu batom manchou onde seus lábios bateram. Tentou se soltar, empurrando Vanessa, que tonta de tão bêbada tropeçou na barra do vestido e caiu de bunda, com metade do corpo em cima do chão sujo de vômito.

— VADIAAAA! Você não é NINGUEM! E NUNCA VAI SER! — gritava a loira, sem conseguir se levantar. — Você estragou meu vestido! Você vai pagar por isso!!

A gritaria vinda do banheiro chamou a atenção de Clarissa e Jorge, que saiam do banheiro masculino, enquanto ela ajeitava a calcinha e a saia do vestido. A negra entrou no banheiro, e ele parou na porta segurando uma garrafa de vodca ainda pela metade que bebiam enquanto transavam.

— Mas que porra! — ele falou, bloqueando o caminho, e fechando a porta atrás de si para que Julia não pudesse sair, enquanto Clarissa ajudava Vanessa a se levantar.

— Tira essa roupa e dá para ela! — ordenou Clarissa. — Olha o que você fez!

— Ela me atacou, tem mais é que ficar suja pra ver se aprende alguma coisa! — Julia se defendeu, o filete de sangue já descia por sua testa branca, descendo pelos sua sobrancelha.

— EU MANDEI VOCÊ TIRAR! Você não tem direito de estar bonita! — gritou Clarissa a puxando pelas alças do vestido. O cheiro de álcool vinha forte de sua boca enquanto a gótica tentava se soltar dela.

— Ela mandou você tirar a roupa caralho! — Jorge falou quando acertou a garrafa de vodca contra a cabeça de Julia, a quebrando.

A força do impacto foi o suficiente para fazer a garota desacordar, caindo e batendo com a cabeça na pia e então escorregando contra o chão.

Por alguns segundos os três ficaram completamente sem reação, e se entreolharam. Quando voltaram a atenção para o corpo no chão do banheiro. Sangue já começava a se espalhar pelos cabelos negros molhados pela vodca que ainda restava na garrafa.

— Ela morreu? — Clarissa foi a primeira a perguntar. Vanessa ao ver o sangue acabou vomitando e sujando ainda mais seu vestido.

Jorge que se aproximou e colocou uma mão na frente do rosto dela, sem sentir nenhuma respiração.

— Que se foda se essa bosta morreu... tira a roupa dela logo! — falava Jorge.

— Não vou sair com essa roupa de bruxa! Deve ser amaldiçoada! — reclamou Vanessa.

— Quer ficar toda vomitada então? — ele rebateu.

— A gente precisa tirar ela daqui! Sem ninguém ver! Ninguém pode saber que a gente a matou! Isso vai destruir minha carreira!

— Você fala como se tivesse uma! — falou Vanessa.

— Os jardins têm uma entrada que dá pra Floresta da Tijuca, vamos largar o corpo dela lá e sumir daqui! — alegou Jorge.

O esportista pegou o braço de Julia, a erguendo do chão de qualquer jeito, jogando o braço por cima de seu pescoço e a arrastando meio de lado. Clarissa acabou apoiando o corpo de Julia pelo outro lado, e saíram com ela pela cozinha da casa de festas, alegando que ela havia bebido demais, ninguém questionou. Mas o garçom de cinza os seguiu com o olhar.

Se apressaram até onde as arvores começavam a se aglomerar e entraram um pouco mais longe na floresta, largando o corpo de Julia no chão, e se abaixando, começando a abrir um buraco no meio das folhas e terra com a mão.

— Tirem logo essa merda dela pra gente sumiir!

— Eu não quero botar isso, Jorge!

— E nenhum taxi vai querer te levar toda vomitada, caralho! Façam isso logo e me ajudem aqui!

A muito contragosto, Clarissa e Vanessa tiraram o vestido de Julia, e a loira se escondeu atrás de uma arvore para mudar de roupa. Quando o buraco estava grande o suficiente, Jorge pegou o corpo nu, e riu.

— Até que a esquisitona é gostosa hein? Dá até vontade de dar uma antes de enterrar!

— Você não tá achando que eu vou dar pra você se você comer uma morta, não é?

— Ei gata relaxa, eu só tava brincando... — ele falou jogando o corpo na cova improvisada.

O corpo caiu de qualquer jeito, e seu colar se soltou do pescoço, caindo no fundo da cova, sendo banhado pelo sangue que ainda saia do ferimento em sua cabeça. Vanessa jogou seu vestido prateado sujo de vômito em cima do corpo enquanto Clarissa e Jorge jogavam terra em cima.

Juraram nunca mais falar sobre aquilo, e seguiram pela floresta até chegarem na estrada e conseguirem um taxi.

O que não contavam era com o homem que desenterrou o corpo pouco após saírem com todo o cuidado que eles não possuíram. Pegou o pingente na poça de sangue e recolocou no pescoço dela, e se agachou, ao lado:

— Eu falei para tomar cuidado minha criança! Você tinha tanto potencial... — o homem loiro de terno cinza pôs a mão onde o sangue dela havia se acumulado, e traçou um símbolo na testa de Julia. — Mas sua vingança tem data marcada... até lá sua alma é minha!

7 de Fevereiro de 2021 às 01:30 0 Denunciar Insira Seguir história
1
Leia o próximo capítulo 2018

Comente algo

Publique!
Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a dizer alguma coisa!
~

Você está gostando da leitura?

Ei! Ainda faltam 1 capítulos restantes nesta história.
Para continuar lendo, por favor, faça login ou cadastre-se. É grátis!