lslauri Liura Sanchez Lauri

Já imaginou como seria se o nosso querido Carcaju passasse a frequentar um psicólogo? Como seria essa interação? Ele seria capaz de se abrir com outra pessoa e, acima de tudo, de expressar suas emoções reais?


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#psicologia #terapia #psicólogo #wolverine
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no Divã - parte I

- ‘cê ‘tá ligada que eu não costumo falar sobre meus sentimentos, né? É a mesma coisa que um predador expor seus pontos fracos e, saca, eu não gosto de demonstrar meus pontos fracos...

- Você não precisa se preocupar, Logan. Aqui não é Vegas, mas tudo que conversarmos ficará entre nós. Eu tinha pedido que você tentasse buscar nas suas lembranças mais antigas sobre algum amor pouco explorado e do qual você se arrependesse. Sei que não é um exercício tão fácil, mas conseguiremos explorar muito a partir daí. O que me diz?

Quando ela me faz essa pergunta, eu começo a viajar mentalmente... Desde que eu me dei conta sobre meu crânio de adamantium funcionar como o capacete do Magneto eu tenho ficado muito mais tranquilo quanto a ataques telepáticos. Mas, em compensação, não tenho conseguido alguns “insights” sobre meus problemas pessoais, e não quero abrir toda minha mente pros telepatas que conheço; com tanta coisa acontecendo, minha confiança em nossa raça tem diminuído a cada dia.

Então, fui pelo método tradicional, sentei na frente de um PC e procurei por psicólogos em Westchester. Apareceram meia dúzia, sendo que a maioria deles não tinha experiência com mutantes e até um deles dizia que não nos atendia. Achei uma puta segregação e até pensei em ir tirar satisfação, mas depois que a revolta passou, isso só comprovaria o ponto dele e eu fiquei na minha...

Liguei pro consultório da Dra. Laura, confesso, pelo nome dela. Pensando em tudo pelo que a Laura, meu clone, passou e como ela se saiu, só posso desejar que alguém com esse nome tenha a mesma tendência ao bem e em querer acertar na vida. Eu precisava tentar, conversar com alguém que fosse capaz de me ajudar a exorcizar meus demônios.

Essa é minha segunda consulta com a Dra. Laura. O consultório dela é bem bacana, ela fica sentada na minha frente, com uma mesa entre nós e eu posso escolher uma cadeira ou um sofá de dois lugares, na mesa tem água e balinhas de goma, o local tem pouca decoração, com odores suaves e cores claras, a voz dela é aveludada e suas opiniões bem ponderadas. Ela se veste como a Diana de Themyscira quando ela ‘tá bancando a museóloga e tem outras qualidades iguais as dela, ou seja, um puta mulherão.

Na minha primeira consulta eu estranhei não ter uma secretária. Bati na porta e ela atendeu, com um tailleur verde-água e um coque no cabelo castanho claro:

- Sr. Logan? – e ajeitou seus óculos arredondados, enquanto seus olhos castanho-claros me encaravam de cima e eu confirmava com a cabeça – Vamos entrar?

A achei muito sutil. Ela havia me reconhecido, dava pra dizer pelos batimentos cardíacos alterados e, mesmo assim, se manteve profissional. Fomos até uma escrivaninha ao fundo da sala e lá ela abriu minha ficha. Fez perguntas sobre o óbvio e sobre coisas metafísicas e, depois das respostas, sentenciou:

- E o senhor teria algo mais a acrescentar?

Não titubeei e falei que tinha faltado uma pergunta:

- Eu acho que tu me reconheceu, eu sou mutante. Isso não importa aí pra tua “ficha”?

Percebi que ela usa o cacoete de arrumar os óculos quando não fica confortável com algo:

- Senhor Logan, a ciência sabe que os mutantes usam mais do cérebro do que o “Homo sapiens sapiens” mas, teoricamente, as conexões são as mesmas e por alguns casos que pude acompanhar, as dúvidas são as mesmas sendo possível explorar com as ferramentas que aprendi. Claro que, alguns casos podem ser mais complexos, mas eu tenho certeza de que construiremos juntos uma terapia que atenderá às suas necessidades. Então, confirmando que o reconheci, sim. Quando marcou seu horário e se identificou apenas por Logan, claro que não imaginei que iria conversar com um X-Men, um Vingador e um dos mutantes mais enigmáticos da atualidade – ela novamente mexe em seus óculos – mas espero que este ambiente o faça se sentir seguro. Podemos?

E foi com essa conversa sincera que ela me ganhou. Porque sua voz titubeou quando disse ao que eu era afiliado e seu coração acelerou, mas ela se manteve profissional.

Falei que meu maior problema era conseguir me relacionar e ela então quis saber o motivo de eu não procurar o Professor Charles Xavier para conversar. E eu me questionei se dizia a verdade ou se enrolava. Mas falei pra mim mesmo “dane-se! Se eu quero sinceridade, preciso dar o mesmo” e expliquei meus receios e o fato de querer ser o protagonista da minha vida.

- Além do que, doutora, pode ser que alguém não mutante, não envolvido em missões suicidas, tenha uma perspectiva diferente da vida e possa me dar algum insight, não é?

- Pode me chamar de Laura, senhor Logan. Isso é verdade, as pessoas do seu meio estão em outro nível mental e, por isso, podem deixar de ver o óbvio.

- Então deixa o “senhor” pro cara lá de cima, Laura. Pode me chamar só de Logan também.

Voltando pra minha segunda consulta, depois desse devaneio, pego algumas balas de goma, ela me observa e anota algo em seu caderninho. Eu respiro fundo, sinto os cheiros dos pacientes anteriores, dois homens e uma mulher e sorrio antes de lançar:

- Foi um exercício desafiador, Laura. Seja pelas falhas que existem na minha memória, seja pela minha idade avançada... – e ela aproveita minha pausa.

- Sim, são 141 anos... Quer falar um pouco mais sobre essas falhas em sua memória?

- Bom... Eu não sei o motivo, mas é como se meu cérebro decidisse que as piores sensações que eu tive fossem os cortes no meu corpo e, desse jeito, resolvesse regenerar, criando conexões neurais novas e apagando aquelas que me fizeram sofrer. Mas elas ainda devem ‘tá lá, em algum lugar. Só que eu não consigo acessar tão fácil, saca?

- É uma teoria muito boa, mas o fato de sua parte consciente imaginar que as informações estão em algum lugar excluiria as novas conexões neurais. Eu pensaria mais em pontes, como se os fatos indesejáveis fossem encapsulados e algo novo passasse por cima deles. Você já conseguiu acessar alguma lembrança indesejável?

Eu fico pensativo. A teoria dela era boa também...

- Aí foi a parte desafiadora. Eu tentei ir tão para trás que consegui me lembrar da Clara... E quando a memória do nome dela veio, foi como se um pacote inteiro se abrisse e eu fosse capaz de reviver todo aquele momento...

- Fico feliz que o exercício tenha surtido efeito. E quais foram as memórias? Você se sente tranquilo em falar sobre elas?

Me ajeito no sofá, pego mais balas de goma e aproveito pra tomar um gole de água. Aquilo era incômodo. Mas eu precisava falar. Se o nome dela apareceu é porque algo daquele momento ainda faz parte do que eu sou e pode ser que eu consiga me desculpar e seguir adiante:

- O ano era 1910, eu estava com 30 anos e a nitidez das lembranças é tanta que eu sinto até os cheiros e percebo os ruídos do lugar. A gente ‘tava em Nova Iorque. Éramos eu, Clara e Creed. Tínhamos fugido dum circo, mas eu não quero falar sobre isso agora – ela concorda com a cabeça e anota em seu caderninho – e estávamos já na terceira cidade. Nas duas anteriores eu tinha surtado e machucado uma pessoa... E isso nos obrigava a fugir novamente. Sabe, a Clara tinha visto a parte humana em mim, ou tinha gostado da minha parte animal, eu não sei. Fato é que eu tinha passado a temporada antes de conhecer eles entre uma alcateia e não sabia mais como conviver em sociedade. Ela queria acreditar que eu podia. Talvez ‘tivesse apaixonada por mim há tempos, não sei... Só sei que o irmão dela, o Creed, armou uma pra cima de nós. Ele cantou pro vilão onde a gente ‘tava e quando invadiram, eu lutei contra eles e acabei repetindo algo... – suspiro fundo e não quero falar, mas preciso. Notei que essa é a diferença essencial entre estar com um telepata e estar com uma psicóloga normal... Eu tenho que falar! Tenho que concatenar meus pensamentos e ouvir minha própria voz... ‘tô achando que isso faz parte do processo de tratamento e, nesse quesito, a psicologia convencional é muito mais visceral.

- Não tenha pressa, Logan... Vá no seu tempo, sim?...

A voz dela me chama pra realidade. Nós nos encaramos e eu sinto a empatia em seu olhar:

- Olha, quando minha mutação se manifestou eu estava entrando na adolescência... Como na maioria dos casos, é necessário um estresse grande pra ela se mostrar e, comigo, foi assistir a morte do meu pai pelo nosso capataz... Eu matei o capataz com as garras ainda de osso – pude ouvir o coração dela acelerar, seu odor se alterar, mas quando olhei para ela, seu olhar era de interesse genuíno – pra descobrir que ele, na verdade, era meu verdadeiro pai! Eu quase não tenho emoções ligadas a essas memórias. Mas a próxima vez que minhas garras apareceram, bom... Foram alguns anos depois, quando o meu meio-irmão veio atrás de vingança pela morte do pai e, ao invés de matar ele, matei a primeira mulher que amei. Seu nome era Rose... Ela tornou possível a ideia de uma vida nova, apesar do passado que tivemos e, a partir dela, todas as mulheres que amei morreram!... Essas memórias têm muitas emoções conectadas, Laura. Eu não sei se vou conseguir continuar daqui... Desculpa...

- Ei! Que é isso! Aqui essa palavra é proibida, Logan. Não tem o que se desculpar pra mim. O único “desculpa” que aceito é para si mesmo, está bem? Vamos combinar.

Eu acenei positivamente com a cabeça, trincando os dentes pra não deixar uma lágrima teimosa sair. Ela percebeu minha expressão corporal e lançou:

- Você quer que eu saia para poder colocar suas emoções para fora? Ainda é cedo para confiar em mim a ponto de chorar na minha frente, não é?

- Se o predador mostra fraqueza, ele vira presa, dout* Laura...

- O mundo não se limita a predadores e presas, no mundo que criamos aqui, assim que você passa por aquela porta, eu posso ser considerado como um “Vigia”, sabe?

- Ainda bem que você não tem aqueles cabeções que eles têm!

Ambos rimos, mas ela anotou algo no caderninho e depois disse:

- Acabei de anotar que você fugiu do tema com uma piada, Logan. E fazendo isso, você criou uma auto distração para aquela lembrança que veio com uma carga emocional tão grande. Percebe que está reproduzindo um padrão e não é isso que desejamos aqui dentro. Desejamos que, ao menos aqui, você possa ser algo diferente. Que não tenha que usar nenhuma máscara. Eu desejaria que aqui dentro, você pudesse ser aquele garotinho, sabe?

- O James? Não, Laura... Eu não quero nunca mais ser o James... O James ‘tá morto, porque a Rose “o “matou” quando nos escondemos nas minas do Norte pra fugir da polícia pelo que fizemos... Ela me deu o nome de Logan. E em memória dela, eu quero ser chamado assim. – e voltei a pressionar a mandíbula.

- Certo, tudo bem, então. Tenho outra pergunta pra você: Logan, você teve tempo de viver o luto da Rose? O luto da Clara?

- Então, sobre a Clara... Eu descobri depois que o Creed tinha me usado pra atacarmos uma pessoa, não lembro quem, mas que a Clara, assim como eu e o Creed, conseguíamos nos regenerar de quase tudo. Quase, né? Então, eu achei que tinha matado a Clara, mas não matei... Eu, até aquele momento, só tinha matado a Rose mesmo...

- E voltamos a ela, então. E minha pergunta se mantém. Houve o tempo do luto?

- Eu não sei o que te responder. Eu... Fugi pra floresta, corri como um louco, me desfazendo de todas as minhas roupas, já que tudo tinha o cheiro dela! Eu tentei me matar, mais de uma vez, mas sempre acordava... Sem nenhuma marca ou cicatriz. E tudo que eu queria era ter dito pra ela o quanto ela me salvou. O que ela representava pra mim...

- Então diz, Logan! Diz tudo o que gostaria de ter dito, como se ela estivesse aqui, entre nós. As palavras podem ter um poder maior do que qualquer coisa que já tenha tentado antes...

E foi então que ela fez menção de levantar pra me deixar sozinho e eu retruquei:

- Não, nada de me deixar sozinho aqui. A gente ‘tá junto nessa... Se eu desenterrar algum monstro só posso contar contigo pra me ajudar a enterrar de novo! E-eu quero tentar dizer as palavras, Laura. Juro que quero. Depois que a matei eu só vivi com muita raiva! O fato de não conseguir acabar com a minha vida pra me juntar a ela me corroía e eu comecei a pensar como as coisas seriam se eu conseguisse me controlar. Se eu conseguisse ser a pessoa que ela queria que eu fosse. Será que o erro não ‘tá nas idealizações que fazem da gente? Eu não consegui suprir as expectativas dela, sei lá... Por que eu ‘tô tão triste, Laura?... – e não consegui mais me segurar, deixei algumas lágrimas rolarem, ainda sem soluçar e ela me esticou uma caixinha de lenços.

- Muito bom, Logan! Agora eu vou poder comentar algumas coisas e você me diz se fazem sentido, ok? Dividimos o luto em algumas fases e, quando não conseguimos desenvolver todas elas fazemos muito mal a nós mesmos, porque buscamos realidades que não podemos mais viver. Você me contou e identifiquei as fases de negação e de raiva muito bem, pode ser que seu cérebro tenha te mantido na próxima fase, que é a da barganha, uma tentativa de pensar que se agisse diferente teria criado alguma realidade paralela onde a Rose ainda estaria viva. Concorda? – eu aceno com a cabeça – Falando em voz alta e entrando em contato com suas emoções, agora você foi para a fase de depressão, onde você pode experimentar uma sensação mental de cansaço e isolamento, pelo vazio que essa conscientização te trouxe, de que nada do que fizesse teria alterado o que aconteceu... Eu acho que ouvi uma vez o prof. Charles falando sobre realidades paralelas, então, é bem provável que em outra realidade exista um Logan que não matou a Rose, mas essa realidade não é sua e, portanto, não devemos nos preocupar com ela... Depois da depressão virá a aceitação, não é em um passe de mágica, mas é algo que vai te dando uma necessidade de superação e conforto mental, onde essa dor emocional vai desaparecer e você perceberá que a diferença dentro não é por um vazio, mas pela adição de partes daquela pessoa à sua personalidade. A gente só enluta por aqueles que fizeram diferença na nossa vida, Logan. Mas o luto precisa caminhar por todas essas fases, senão ele envenena nosso cérebro e nos complica a vida. Alguma coisa que eu disse faz sentido pra você?

- Faz sentido sim, mas ‘cê entende por que eu não tinha passado as fases até agora? Como é que eu vou ser um X-Men se estiver em depressão? Questionando coisas tão antigas que parecem não fazer mais parte de mim, mas que agora doem tanto!

- Sim, eu imaginei que essa jornada pudesse trazer um desconforto. Por isso eu insisto pra que essas emoções sejam deixadas aqui quando você passar pela porta, Logan. Eu imagino que isso não seja um problema?

- Não pode ser! Porque vilão algum vai querer saber de mimimi na hora da luta e se eu não puder fazer o que eu faço de melhor então eu não tenho que ir pras missões, já que a vida dos meus amigos depende do meu comprometimento.

- Entendo e concordamos então. Como lição de casa, vou querer que foque no presente. Sem se questionar sobre as emoções que liberamos aqui. Elas ainda estarão presentes, mas você vai ser um mero espectador e não vai desenvolvê-las em sua mente, está bem? Deixe-as passar, como um rio. Se não conseguir, não espere uma semana para voltar. Me ligue e podemos fazer uma sessão por vídeo se você não estiver em Westchester. Estamos juntos nessa e eu sou a pessoa que deve olhar sua retaguarda, Logan. Confie em mim e tenha a certeza do sucesso!

Nos despedimos e eu a ouvi, como da outra vez, falar para um gravador sobre tudo que aconteceu na sessão, sobre as anotações dela. Até o elevador chegar fiquei sabendo que a maioria das pessoas demora semanas pra chegar onde eu estou só na segunda sessão. Por um lado, isso é animador. Por outro, assustador, né?

Quando chego em Krakoa, encontro alguns amigos em polvorosa. Teríamos que ir para uma parte da ilha ainda pouco explorada, pois um dos nossos alunos tinha ido até lá, como parte de um desafio lançado por outro e não tinha voltado e nem se comunicado. Jean não conseguiu acessar os pensamentos dele e esperava-se pelo pior. Assim que me viu, Jean correu pra mim e me lascou um beijo:

- Estava com saudades, Logan! Você está passando muito tempo longe, querido...

- Liga não, ruiva, são lances meus que eu preciso lidar. Mas ‘tô fazendo de tudo pra ser o melhor que puder pra você e pro Magrão. – ela sorriu pra mim, forcei um sorriso mas ela percebeu que não estava no meu melhor dia.

- Tem certeza de que quer ir com a gente? Você parece distante...

- Essa é uma palavra que define bem meu momento atual. Mas eu tenho que ir, Jean. Pra provar pra mim mesmo que essas coisas não me derrubam. Que eu sou responsável pela minha vida. – e apertei um relógio que fazia nosso holograma desligar. Na verdade, sempre estávamos de uniforme, mas quando eu saía da ilha colocava um holograma relacionado à estação do ano em que estávamos. Nossos uniformes foram desenvolvidos com tanta perfeição pelo Forge, com nanotecnologia e muito grafeno que era como algo biológico, como uma segunda pele. Coloco meu gorro amarelo e preto e sigo com a ruiva para o hangar. O Hank, a Ororo e o Prof. X já estavam lá.

- Ei, parceiro! Muito bom poder contar com você nessa jornada ao desconhecido! – dou um tapa no ombro do Hank enquanto ele diz isso e entro no X-Jato.

Lá dentro encontro Scott e Kurt, como piloto e copiloto.

- Pra quê tantos envolvidos, Magrão? Não é só o desaparecimento de um estudante?

Ele me olha através de um retrovisor do jato, percebo sua boca entreaberta e sinto cheiro de encrenca:

- Você não sabe quem desapareceu, Logan? – e diante do meu silêncio, ele completa: é a Hisako...

Meu sangue ferve e se existia alguma recordação sobre a Rose, a Clara e suas mortes ela é soterrada sob tanta adrenalina que eu nem preciso mais me preocupar em analisar a dor ou essas novas emoções! É como se realmente o meu lado selvagem tivesse sido solto de alguma cela e prendido o fracote que saiu do consultório da Dr. Laura em seu lugar.

Com a possibilidade da ressureição, não é tão triste pensar nos que se foram, já que enquanto existir a Ilha Nação, também nós existiremos, todos nós, mesmo os que já tinham morrido antes dela... De algum modo, todos foram trazidos de volta e, eu suspeito, através da ajuda do Dr. Sinistro.

Ao chegarmos lá notamos que a Hisako não se entregou sem lutar, e descobrimos que lutou contra vampiros! Eles insistem em fazer dessa parte incomunicável da Ilha sua morada. Não importa quantos matemos, nem quanto insistamos pra que busquem outro local, eles sempre voltam. ‘tô começando a achar que a Ilha os atrai, o que não deixa de ser interessante, pois se eles são os insetos atraídos pela luz, nós somos os dedetizadores! É um meio de manter sua população sob controle, não é mesmo?

Faço o que sei fazer melhor: matar sem piedade, a maior quantidade possível deles e, como são mortos-vivos, não vejo problemas conscienciais em nenhum de meus companheiros. Kurt ainda usa armas com água benta contra eles, o que eu evito, já que a morte é mais demorada...

Encontramos o corpo da Hisako e o exterminamos para que não renascesse como um deles, assim que a comunicação retorna, avisamos Os Cinco pra irem preparando a ressurreição dela. Apesar do meu metabolismo ser rápido, acontece alguma coisa com relação à adrenalina. Ela não cai tão rápido quanto uma pessoa normal e, por isso, eu fico pilhado até altas horas. Felizmente, nesse “admirável mundo novo” de Krakoa, eu tenho dois companheiros que me ajudam a relaxar.

A semana passa entre uma missão e outra. Não perco minha rotina de ir visitar o Banister. O cara é legal e tem umas cervas na temperatura certa. Pena que ele goste tanto de conversar...

Quando menos espero, estou novamente diante da porta preta da Dra. Laura, aguardando antes de bater na aldrava prateada e cheia de rococós. Respiro fundo, questiono minha sanidade em querer mais do que tive antes, mas eu realmente sinto que houve um progresso, mesmo que pequeno. Eu me sinto mais leve. Poder falar da Rose com alguém fora do meu círculo de amigos é algo novo. Bato e a voz dela pede:

- Um instante, por favor.

Quando abre a porta eu não deixo de ficar de queixo caído. Ela ‘tá usando um terno cinza escuro, com uma blusa branca bem transparente e, mesmo com uma blusa de alcinha por baixo, eu não posso deixar sorrir e pensar besteira. Meu momento encarando deixa a doutora sem graça e ela então fecha o único botão do paletó e me pede pra entrar e sentar. Ataco as balas de goma. Nunca pensei que algo tão infantil fosse tão bom! E fico na espera dela pegar o caderninho.

Ela fica meio desconfortável pra sentar, mexe muito no óculos e inicia anotando várias palavras antes de conseguir me olhar novamente:

- Podemos?

- Claro! Quando você quiser...

- Como não precisou antecipar nosso encontro, presumo que se saiu bem em deixar as emoções do luto pela Rose sob controle, correto?

- A semana foi cheia, correto. Logo que cheguei em Krakoa, minha namorada percebeu que tinha alguma coisa de errado comigo. Cogitou até de eu não sair em missão, mas eu me forcei a lutar contra o desânimo e quando soube que íamos checar o sumiço de uma grande amiga minha, aí minha adrenalina tomou conta e fiquei assim até o meio do dia seguinte; depois que o laço foi cortado, ficou mais fácil ignorar os leves retornos de uma tristeza, sabe? E sempre que ela vinha, ao contrário de observar, eu fazia alguma coisa pra não focar, na maioria das vezes era sexo. ‘taí algo que me ajuda muito a desfocar de pensamentos fúteis... – e soltei uma risada.

A doutora nada disse, ficou anotando em seu caderninho e depois de alguns minutos, questionou:

- O sexo foi com sua namorada ou você o usa de válvula de escape de modo casual?

Eu levanto a sobrancelha, tentando entender qual a utilidade dessa informação e resolvo tudo com a verdade:

- Olha, eu sempre quis a Jean e o marido dela. Com ela eu sempre me declarava, com ele a gente vivia em pé de guerra. Até que viemos pra Krakoa e tudo se acertou entre nós. Então, atualmente, eu sou parte desse trisal e, na ilha, não transo com mais ninguém. – e dei uma ênfase forte pra parte da ilha.

- Logan, essa confissão de que pensar em suas emoções é algo fútil, depois de contar fatos tão pessoais seus e lançar uma risada de deboche me faz pensar exatamente o contrário sobre elas, as emoções. Pensando na semana que passou, você transou mais do que o normal?

Eu fico sem resposta! Será que ela não tinha algum poder mutante, não sei, era alguma espécie de empata? Sim, eu tinha transado muito mais, a ponto de a Jean pedir um tempo, tudo pra não entrar naquele vórtice de autopiedade onde o rosto da Rose não parava de aparecer.

Ela nota minha demora na resposta e, de algum modo, lê minhas expressões faciais, me trazendo de volta ao batucar com a caneta no caderninho, seguida de uma taquicardia, apesar de manter a voz na mesma tonalidade:

- Muito bom, eu não conhecia essa sua rotina para fugir das situações que te incomodam. Ela não tem nada de diferente da maioria dos homens, mutantes ou não e, não me entenda mal, já era esperada. Desde que ela não leve a uma dependência ou crie situações desagradáveis aos parceiros envolvidos, pode continuar com esse subterfúgio, desde que ao entrar aqui, deixe de lado essa tática e, por favor, nunca mais me olhe com a cobiça que teve na porta, está bem? Eu não serei capaz de fazer meu trabalho se em sua mente houver um ínfimo pensamento sexual, entende?

Eu fico sem graça. Entendo onde ela quer chegar e começo a me analisar em voz alta:

- ‘cê ‘tá certa... Eu acabo usando o sexo como uma forma de me impor. Ele é sempre mais intenso quanto mais eu quero esquecer algo que me incomoda e, se eu trouxer essa atitude pra cá vou demorar muito mais pra entrar no estado emocional que tu precisa que eu esteja, é isso?

Foi a vez dela levantar uma sobrancelha e sorrir:

- Isso mesmo, Logan! Preciso que você volte a pensar na Rose e em como aquele momento era ingênuo e especial. Em como a morte dela recaiu sobre você e sobre todos os outros relacionamentos depois desse...

- Olha, Laura, não tinha nada de ingênuo de minha parte... Mas eu entendo que aquela era minha época da inocência, né? Nesse sentido, comparado a hoje, tu ‘tá certa. E, com certeza, foi especial. Senão eu não ia ‘tá incomodado com isso mais de 100 anos depois... Fato é que eu não consigo me livrar dessa sensação de mau agouro. De que eu devia ter morrido quando criança e, depois que minha mutação apareceu, ela me arrastou pra uma estrada onde eu não tenho controle, onde só tem sangue, dor e lágrimas... E, pra ser melhor que tudo isso, eu preciso ser forte. Eu preciso estar no topo da cadeia e nesse lugar, não tem espaço pra recordações...

Aproveitando minha pausa, ela lança:

- Em nenhum lugar deve mesmo ter espaço para recordações ruins, recordações que tragam dor e fúria, questionamento sobre quem somos, ou até mesmo aquelas capazes de nos diminuir... Agora, você há de convir que nesses 141 anos e mesmo durante sua infância, não deve ter havido somente isso. Houve momentos de paz, de afirmação, de amor, não? Se puder concentrar-se agora nisso, respirar fundo, ignorar os ruídos de fundo e as vozes que dizem o contrário e buscar um pouco antes da morte, a vida que existia. Como era? O local podia ser duro, mas e a vivência de vocês?

Eu não consigo falar, diante das palavras dela eu comecei a relembrar dos nossos almoços juntos, das roupas que ela costurava pra mim, da primavera e do verão nas montanhas, quando eu a pegava olhando pra mim enquanto rachava lenha. E veio um choro estranho, misto de falta de ar, com vontade de aguar o mundo. Cobri meu rosto com as mãos e só consegui dizer:

- Faz isso parar, doutora!...

Mas ela não disse nada, quando tirei as mãos da frente, percebi que a caixa de lenços estava na minha frente, junto com um cálice pequeno de rum.

- Lembre-se, Logan: eu não sou telepata. Você precisa me contar o que se passou em sua mente, mesmo que somente uma das cenas, pra que eu tenha material de trabalho. Suas lágrimas são um resultado muito bom, mas elas não me fornecem material, eu trabalho com memórias, com histórias, com relatos. Então, no seu tempo, por favor, me diz o que te fez responder desse modo, sim?

Aceno com a cabeça. Foco e mando o rum pra dentro antes de comentar:

- Tudo que ela fazia na rotina me mantinha gravitando ao redor dela. Eu buscava a fuga do mesmo jeito que busco hoje, no prazer fácil, mas eu nunca vou esquecer da melhor tarde de primavera que tivemos juntos. Tinha chovido por três dias seguidos e, com isso, os trabalhos na mina tinham sido paralisados. Ela insistiu que fizéssemos um piquenique na beira de um rio e como eu estava há três dias sem contato com os mineiros, sem ir pro bordel depois do expediente, eu estava mais parecido com o James do que com o Logan, saca? – pego um dos lenços e assuo o nariz com força. Como algumas balinhas. Ela só me observa, eu continuo: Acabei pescando uns peixes pra nós, conversamos sobre aquele dia, algo que eu nunca tinha permitido antes e, apesar de a contragosto, eu entendi que ela precisava conversar sobre aquele dia pra entender que ela não estava louca, que aquilo tudo realmente aconteceu e, ao ver ela tão frágil assim, fui capaz de dar um abraço de irmão. De entender o quanto ela sofreu pela minha ausência. Isso foi umas duas semanas antes de eu fazer o que fiz, até parece que foram as pazes entre nós, sabe? Ela já tinha desistido de me esperar, estava noiva do responsável pela mina, eles iam sair daquele buraco no dia que eu a condenei... – volto a chorar. Penso: que merda! Essa merda não para nunca?

- Ao dizer que a condenou, você informa pro seu cérebro que, premeditadamente, quis matá-la, entende? Você traz para si uma culpa de algo incerto e se apropria dela. E a culpa, para pessoas normais, que vivem cerca de 80 anos, é um dos piores inimigos... Imagino o que ela não faz com você, Logan! Você queria matá-la?

- Não! Claro que eu nunca quis matar a Rose! Foi um acidente dos mais estúpidos! ‘tava tudo úmido da chuva que não passava, eu e meu meio-irmão estávamos brigando e, ao me ver levar a pior, ela foi tentar apartar a briga, escorregou e caiu em cima das minhas garras... Ela-ela caiu... Não tinha nada que eu-eu pudesse fazer... Ela caiu em cima das garras, Laura. – e as lágrimas banham meu rosto novamente, mas são lágrimas diferentes, eu até sorrio inconsciente enquanto choro.

A doutora não para de escrever no seu caderninho. Mas também não tira os olhos de mim, das minhas expressões corporais. Ela então comenta:

- Consegue descrever como se sente agora?

- Livre?

- É uma boa palavra. Ela é real? Quero dizer, você realmente se apropriou dela pra dizer que se sente livre, Logan? Por que você está sorrindo?

- Eu ‘tô? Nem notei, Laura... Parece que estou algumas toneladas mais leve, minha mente parece ter encontrado a resposta pra essa questão, não tem mais dúvida, não tem mais luta, não tem mais “e se”; aquilo aconteceu e eu não podia fazer nada, porque ela escolheu interferir. Estranho... Eu tenho ouvido isso de tantas pessoas, de amigos, amantes, mestres e, mesmo assim, eu nunca tinha ouvido de mim mesmo e isso fez toda a diferença. Vem cá, tu não é mutante não, né? Algum tipo de empata?

Ela sorri gostoso e depois me encara diretamente:

- Não que eu saiba, Logan. Nunca fiz sequenciamento genético pra saber e, sinceramente, no meu ramo de trabalho, não faz diferença. O que importa é a sua jornada e se ao invés de só direcionar eu também seja capaz de dar algum empurrãozinho, tanto melhor. Pronto pra outra montanha-russa? Anotei alguns tópicos que acho importante retomarmos.

- Sei não... Não pode ter um prazo de descanso pros meus neurônios e, especialmente, pras minhas lágrimas? Não tem um limite pra quanto um cara como eu pode chorar no mês? – ela sorri novamente, mas não se deixa enganar:

- Tenho certeza de que essa missão é tão dura quanto qualquer outra que tenha enfrentado, mas pense o quanto sai fortalecido de cada confronto, Logan. Fazer-se “fraco” agora com o intuito de ser “forte” para os dias que restarem, com qualidade nos relacionamentos e, acima de tudo, conhecendo-se muito mais! É isso que buscaremos juntos, sempre que me permitir... – seu sorriso rompe todas as minhas barreiras e dúvidas. Eu começo a pensar que ela tem razão nos argumentos e, quem sabe, ela seja capaz de destruir alguns autoconceitos destrutivos.

- ‘tá certo, quanto tempo ainda tenho? – já que nossas sessões eram de uma hora e meia.

- O suficiente para reforçar esses pontos positivos do relacionamento seu e da Rose. Me conta mais uma lembrança feliz, pode ser algo até banal.

Eu paro pra acessar as minhas lembranças, ela anota e aguarda. Dessa vez não quero mais balinhas e tomo um gole de água. Sorrio de lado, não tem nada mais banal do que essa lembrança:

- Ela sempre me levava o almoço na mina. Eu ficava puto, porque lá só tinha um bando de pervertidos e quando o vento ajudava e eu sentia o cheiro de lavanda dela subindo a colina, eu corria pra receber a marmita e aproveitava alguns minutinhos de conversa com ela, me perdendo nos seus olhos verdes como a mata que eu tanto amava, e amo. Mesmo ralhando com ela, dizendo que aquilo não era lugar pra uma mulher estar, ela não se importava, vai saber se ela não se perdia em meus olhos azuis, né? Sem eu saber... A gente se dava bem e tivemos uma vida feliz, dura, mas feliz. É muito bom pensar naquele tempo com essa perspectiva, Laura.

Concordando com a cabeça e sorrindo para mim, ela volta os olhos ao caderninho, anota poucas palavras e encerra a sessão assim:

- Então, Logan, o exercício da semana vai ser transformar toda essa felicidade passada em uma perspectiva de felicidade atual. Você comentou que em Krakoa tem tudo que sempre sonhou, acredito que por esse demônio interior, lhe faltava algo para aproveitar ao máximo esse ambiente. Peço que o aproveite, transfira para os alunos e amigos ao seu redor essa esperança. Ainda há muito a ser trabalhado, seja politicamente, pela nação de vocês, seja interiormente, abordando outros temas sombrios, mas a esperança de que ambos marcham para o entendimento e a paz pode ser um grande motor de mudança. Você se sente capaz de realizar esse exercício? O que te impedia antes de ter esperança?

- Hum... Acho que tudo deve ser tentado, por quê não isso, né? Se eu vou ser capaz, isso eu já não sei, mas prometo dar um relatório detalhado na semana que vem. Olha, eu não me sentia impedido, só me sabia desesperançoso... Era como se, pela origem da minha jornada ter sido tão triste, porque era só isso que eu via, toda a jornada era triste, independente do que eu fizesse e, se eu continuava a fazer, era porque eu desejava algo diferente pras pessoas ao meu redor, nunca pra mim. Mas se tem uma chance da origem ter tido mais felicidade do que eu lembrava, então toda a jornada também pode ser assim. Se não antes, ao menos a partir de agora. E isso merece todo meu esforço e foco. E eu posso ser bem focado, Laura...

- Eu não tenho dúvidas quanto a isso! Mas o nosso cérebro prefere, na maioria das vezes, o rotineiro do que o novo. Mesmo que o rotineiro nos faça mal. Então, o exercício será difícil, porque a todo momento teu cérebro vai querer voltar ao padrão de autodestruição e dor. Ele está confortável com isso, ele sabe como lidar. Ele sabe que é só passar o tempo livre em orgias para distrair o consciente do que importa e manter tudo no “status quo”... Lutar contra isso é sua meta, está bem?

- Claro! De acordo, chefe! – e dei uma piscadela pra ela, já levantando e pegando minha carteira pra pagar pelo dia, vamos os dois caminhando até a escrivaninha no fundo da sala e então eu provoco:

– Eu só discordo que sejam orgias... Mas se houver alguma preferência da sua parte por elas, eu posso arranjar alguma coisa.

Ela para na minha frente, quase não consigo brecar e vira bem avermelhada, me obrigando a dizer a verdade:

- Ei, ei! É só brincadeira, de mau gosto, mas é brincadeira! Relaxa, tá? Eu entendi a importância do nosso relacionamento ser profissional, Laura. Baixa a guarda e aceita minhas desculpas, vai?...

Ela respirou fundo, mexeu nos óculos e apertou entre os olhos antes de responder:

- Bem, para que não vire uma rotina, vamos entrar num acordo: vou aceitar mais três “brincadeiras”, Logan. Na terceira, envio sua ficha para um colega meu e informo sua transferência, ok?

- ‘tá, justo... ‘cê já tinha me avisado antes. Vou me policiar, Laura...

Saio achando a reação muito exagerada, mas pensando, começo a entender o lado dela também, uma mulher daquelas tendo que lidar com caras agrestes como eu e precisando se manter profissional. Marquei bobeira... Mas vou ficar ligado na semana que vem. Preciso deixar do lado de fora minha libido também!

7 de Fevereiro de 2021 às 01:23 0 Denunciar Insira Seguir história
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